Flor do Deserto, vês como já há tanto tempo me encontro?
Sabes quanto me custa ser franco quanto a meus sentimentos por alguém que já passou a um leito negro de onde jamais retornará?
Alguns anjos me julgam dizendo que é derespeito amar uma defunta,
outros vão além e dizem que com ela ainda me masturbo,
e há os que não me perdoam por quererem a carne deste corpo, que nada vale perante o sentimento que se assentou em minha alma;
e eu fico aqui pensando: "O que posso fazer por alguém, uma flor tão boa para comigo, de modo que a agrade, sem que minta ou a engane sobre meus sentimentos mais profundos?
e nenhuma possibilidade de aparição de novas e efêmeras esperanças!
123
TODA LUZ ESCONDE SOMBRAS
... nem todo azul é esplêndido céu,
nem toda oração é feita com sincera fé,
nem todo escrito é bela poesia,
nem todo amor dito é o espelho da verdade,
nem toda dor e choro são feitos de reais sais,
nem todo anjo (ou nenhum anjo) deixa de tocar suas punhetas e ciricas,
com seus nobilíssimos pseudoalados iguais,
jogando as culpas pelos tropeços, quedas e pecados aos cães!
154
A JORNADA
De manhã, tive de lidar com canarinhos e bem-te-vis que cantavam com extrema soberbia à minha janela.
À tarde, as coisas pioraram um pouco:
marimbondos, urubus e insetos invadiram o jardim das primícias,
onde eu tentava plantar, junto às flores do outono, meus tentilhões eriçados.
À noite - houvesse, talvez eu ganhasse algum prêmio entre os mais solitários e angustiosos sapiens -,
num banho morno, deixo escorrer-me o barro e, ainda semimolhado à cama prostrado,
ajeito o travesseiro, aliso os lençóis, e ela, que me conhece as curvas mais delicadas. os pensamentos mais degredados e os sonhos mais extáticos,
e ela, que, dentre todos, é a única que sabe que eu lhe retorno todas as noites,
suspira ao zelar-me o sono da madrugada e ao amar-me, silente e sem segredos, o corpo excitado e a alma machucada.
252
OUTRORA O AMOR
Em uma conversa sobre o amor, ela disse
"E se eu lhe confessar que te amo e que serei tua para sempre, acreditarias em mim?";
e imediatamente, sem que percebesse, estava a compor
as irremediáveis cores que antecipam a angústia e a dor!
216
TANTO ENGANO!
... tantos rostos perdidos na multidão,
tantos passos e tropeços na grande avenida da procissão,
tanto sonho, tanto delírio, tanto desejo,
tantas bocas que se beijam, tantas mãos que se tateiam, tantos corpos que se excitam,
tantas veredas abertas pelos reflexos das luzes às retinas dos que pensam ver,
mas que, na verdade, não veem nada!
107
O APAGAMENTO É O RETORNO A CASA
... por meio de tantas poesias e escritos desabafos,
fiz arder, em palavreas, a minha alma
que outrora te por aqui te amava,
e que agora, em meio a essas espetaculares imagens soltas, naufraga!
151
O FIM DO HORIZONTE
Quase anoitecendo, há cinzas ao chão das chamas apagadas no dorso do pássaro moribundo;
levanto-me todos os dias, barbeio-me ou não, masturbo-me ou não, sorrio ou não,
praguejo ou silencio, caminho pelas avenidas das árvores excelsas dos verbos
e pelos jardins das flores vestidas de cetim,
nesse mesmo quase anoitecer;
às vezes, ainda aparece alguma ave desgarrada querendo decifrar o quebra-cabeças e acender o farol com suas asas oníricas;
mas até entendo: é que ela ainda não sentiu as dores do infarto,
senão me ofertaria somente o corpo cálido, ao som de Mozart em minha silente e angustiante sina;
à qual já não sonho mais.
183
PÓS-VOOS E PÓS-FODAS CONFUNDIDAS COM AMORES
... sentimento
___ indefinido, ___ estranho. ___ vazio;
uma vontade fraca como se tudo já tivesse morrido:
___ naquele inverno, ___ naquele mar, ___ naqueles pedaços de asas quebradas!
149
CHUVAS DE FOGO
Aquelas torrenciais chuvas de fogo, que outrora desaguei em teu jardim fulgente,
continuam a cair, silentes, em um canto obscuro d'minha mente;
e ninguém mais as vê ou sente,
a não ser em alguns versos tortos, que ando a desenhar em ritmo decadente.
136
E CHEGOU MESMO O MALDITO TARDE DEMAIS!
Meu amor, meu amor, não deixas de povoar meus sonhos,
e eu fico a imaginar como foi tão forte o que tivemos e não aproveitamos enquanto ainda cresciam flores nos jardins e se esverdeava às margens das estradas por onde andamos;
meu amor, meu amor, ao berço da morte é onde te deitas agora, estás tão fria e distante, que tornou nossa ventura impossível:
Como se não bastasse, sem tu aqui, a noite já se me desponta também negra e finda!
E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.
Quero, sim....
Olá poeta Thor Menkent, boa noite! im te visitar neste site tão agradável. Linda tua poesia, amei! ¨¨¨¨¨¨Beijo da Flor*