rafaeldasilva

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🔵 O doutrinador

O ditado foi interrompido para mais um vendedor apresentar seu fantástico produto na sala de aula. Já sabia que meus pais ignorariam lousinhas mágicas, livros para colorir e demais bugigangas educativas. Meus argumentos seriam as facilidades de pagamento; porém, meus pais achariam aquilo caro e saberiam que aquele meu “coração de estudante” era falso, portanto, arrefeceria antes do pôr do sol.




Entretanto, agora era diferente. O sujeito que entrou na sala era figurinha conhecida na escola.  Sempre sorridente, ele distribuiu um panfleto: Fundação do Partido Verde. Faz tempo, descobri que a causa ambientalista era só um chamariz para atrair e capturar “almas e corações” juvenis para o sempre anacrônico marxismo. Sem saber, eu estava diante do “diabo” querendo “comprar” algumas almas, representando um “partido melancia” (verde por fora, vermelho por dentro).




No final, confiante na cooptação e contente, ele disse: “Depois eu pago uma paçoquinha”. A fala, perigosamente infantilizada, me remeteu à tática usada pelos traficantes. Sabendo da doutrinação ideológica e manjando o “modus operandi”, se eu entrasse naquela, teria xingado meus pais, trabalhadores, de “porcos capitalistas” e, hoje, estaria vagando numa “cracolândia ideológica”.




A abordagem do “amigão” lembrou tudo o que meus pais (visionários) sempre disseram para evitar. Nesse momento, eu acionei o alarme interno. Aquele “aviãozinho a serviço do tráfico de almas” estava perdendo tempo comigo e, espero, com o restante daqueles aluninhos. Comecei a ouvir o blá, blá, blá disfarçado, fazendo o que eu já sabia: deixando “entrar por um ouvido e sair por outro”. 




Demorou para eu descobrir, mas a imprensa que manipula a informação, continua tentando me convencer a destruir a minha e outras existências. Certamente, vitimas, seduzidas por militantes que  ofertam doces a crianças, insistem, com um método mais abrangente, em fazer o mesmo.




Há muito tempo, percebi que o meio ambiente era apenas um chamariz “bonitinho”. Se eu caísse nessa armadilha, possivelmente faria o “L”, botaria um boné do MST, vestiria uma camiseta do Che Guevara, tremularia uma bandeira do Hamas, leria Foucault, cantaria a Internacional Socialista...
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Poemas

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Todo mundo odeia o Chris 🔴

Eu, como péssimo ator coadjuvante, me recuso a participar dessa farsa. A cerimônia do Oscar está perdendo sua relevância ano a ano. Seja por proselitismo partidário, excesso de politicagem identitária, autoculpa social ou afirmação de virtude, a qualidade cinematográfica fica em segundo plano. Qual é o melhor filme? Quem é o melhor ator?

Mesmo sem assistir à cerimônia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, na segunda-feira era quase uma obrigação conferir quem faturou os principais prêmios. Dia 28, insistindo em manter o ritual, surpreendi-me com a notícia. Custou encontrar os vencedores. Senti, inclusive, saudades de quando o máximo de futilidade eram os comentários acerca dos vestidos.

O ator Will Smith combinou com o comediante Chris Rock e fez o que melhor sabe: enfiou um tapa cinematográfico. De brinde, concluiu com uma fala digna de um vilão de “faroeste”: “Tire o nome da minha esposa da porra da sua boca”. O movimento exagerado da boca foi perfeito,  porém ele também poderia dizer “O que diabos você faz na minha terra, forasteiro”, “Estranho, nós não queremos pessoas como você aqui” ou “Bastardo, você tem até o próximo pôr do sol para dar o fora daqui”. Faltou também a dublagem fora de sincronia. Entretanto, enganou muita gente, por isso mereceu levar um Oscar.

O pastelão poderia ser um episódio do Chaves, mas era a esperada edição do Oscar. A atuação, bem dirigida e bem executada, poderia terminar na delegacia, mesmo assim tenho certeza que não passou de uma estratégia para alavancar a audiência e a repercussão. O episódio poderia inclusive terminar pior; para mim, tudo não passou de uma ação entre amigos bem treinados.

Sempre seguiu bem essa estratégia, na qual a polêmica é o mais importante, o MTV Vídeo Music Awards. A atração da MTV sempre foi mais comentada pelos “barracos” armados que pelos videoclipes; o grande evento da Academia também trilha este caminho. Não demorará muito e o evento proporcionará coisas que ocupariam os bastidores, como um beijo gay.

Já me conformei, o objetivo da Academia é outro. Adaptado-se à Era dos “streamings”, o que importa é virar comentário nas redes sociais e “sites” de fofoca e viver de “views” e “likes” como um “youtuber” adolescente.

Por enquanto, eu pergunto: qual é o melhor filme? Quem é a melhor atriz?
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O astro do videokê 🔵

É horrível quando alguém ousa agredir a audição alheia arriscando a garganta num videokê. Enquanto o equipamento fica escondido num cantinho do boteco, guardando pastas com canções para todos os gostos e dois irritantes microfones, tudo bem.

O paradoxal é que eu cantei muito nessa maldita invenção, confirmando a máxima: quem se diverte é quem canta, não quem ouve. Sertaneja, romântica, pop, rock, mpb etc, todo tipo de música, inclusive as que eu não gosto de ouvir, são cantadas, ou, às vezes, berradas.

Parecia mais uma festinha de fundo de quintal, literalmente. Mas dessa vez não era só isso.  Apesar de ser familiar, a comemoração seria impulsionada pelo álcool e pela novidade tecnológica.

A princípio, o tal do videokê foi explorado com parcimônia, mas quando atraiu os primeiros curiosos o equipamento logo se tornou o centro das atenções. À medida que o álcool ía subindo, mais candidatos expunham os secretos dons artísticos. Nessa toada, desfilaram músicas nacionais e internacionais.

De madrugada, quando quase todos tentavam dormir, sobramos meu cunhado e eu “destruindo” a máquina. A timidez ía diminuindo com o conteúdo das garrafas de cerveja, de modo que todo o repertório disponível nas pastas do videokê chegaram aos ouvidos de insones vizinhos e parentes.  Como sempre, rock, mpb, sertanejo, pop etc. O repertório se esgotou, na falta de opção, sobrou até para o Hino Nacional Brasileiro. As excelentes notas, dadas pelo computador nos animavam e enganavam. Provavelmente, pelo grau etílico alcançado, meu senso estético, bem como o bom senso, sumiram. Então confesso: aquele fim de festa me fez pensar numa carreira musical. Felizmente, a ressaca do dia seguinte me dissuadiu dos devaneios musicais.

Karaokê eletrônico (videokê) foi a praga dos anos 90, substituindo a música ao vivo. Eu frequentei lugares que dispunham essa máquina como diversão. Arriscando o uso, viciei. Pior, comecei a cantar canções que jamais ouviria em casa: sertanejo, pagode etc. Alguns momentos foram impagáveis. O que para alguns talvez tenha sido o fundo do poço, na verdade significou o auge. Não é todo dia que se canta Help dos Beatles num dueto improvável com Rambo, o figura do bairro.






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Shopping Cidade Jardim 🔵

Eu sempre gostei de shopping e achava isso normal. Pelo menos, até ir ao shopping mais exclusivo de São Paulo à época (talvez ainda seja), o Cidade Jardim.

Esse centro de compras, entretenimento e alimentação é tão proibitivo, refratário para gente não “diferenciada”, que não tem entrada para pedestres. 

Eu resolvi conhecer um local onde sabem a qual classe social você pertence (e se você é alguém interessante) pela etiqueta da sua roupa. Entrei ali, trajando tênis surrados, calça de agasalho, jaqueta jeans gasta pelo tempo e um boné velho. Com essa roupa, digamos, “despretensiosa” devo ter sido estigmatizado e observado como alguém que “caiu de pára-quedas” nesse shopping. Eu até poderia ser alguém descolado, despojado, excêntrico, mas eu era facilmente identificável como pobre. Acho que é um carimbo imaginário: POBRE. Isso te torna, automaticamente, ao se aproximar de uma loja fina: suspeito. No mínimo um curioso.

Os seguranças devem ter seguido cada passo meu. Fico imaginando um segurança subalterno seguindo cada movimento meu em diversos monitores: escadas rolantes, corredores, portas de lojas e lanchonete.

O contrário de inclusivo (que inclui) é exclusivo (que exclui), e, nesse dia, num local exclusivo, me senti excluído. Entretanto, ninguém me tratou mal, olhou feio, cochichou ou fingiu que eu não existia. Nas poucas interações humanas que fui obrigado a estabelecer, fui recebido com muita simpatia,  atenção e alguma desconfiança que eu estava no lugar errado. Uma abordagem imaginária, porém plausível: 

— O que é que você está fazendo aqui? O Shopping Itaquera é na Zona Leste.

O preconceito todo estava na minha cabeça. O meu jeito de vestir, a ausência de roupa de grife (“uns pano de marca”) e ter chegado ali sem carro, povoou minha mente. As diferenças sociais, que eu achei que os outros teriam, partiam de mim. 

Reconheço, eu não estava na minha “praia paulistana”. Eu curto aquelas lojas nas quais você realiza o chamado “autoatendimento”, entra no provador com umas dez peças (tudo na promoção) e encontra várias pessoas vestindo camisetas com a mesma estampa que a sua. Além disso, gosto de praça de alimentação, com muitas opções, desde que tenha McDonald’s. O bom é escolher entre todas as opções - até aquele restaurante vazio com um funcionário triste segurando um cardápio -, terminando por devorar um lanche, fritas e  Coca  na lanchonete do palhaço americano. 






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Censura livre ♦️

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, fez o que melhor sabe: o “serviço sujo”. A suspensão do Telegram (rede social) atrapalhou a vida (honesta) de muita gente, entretanto atendeu muitos interesses escusos.

A Globo conseguiu o que queria. Fingindo estar preocupada com crimes nas redes sociais, a rede de comunicação exibiu suas diretrizes em forma de reportagem no Fantástico. A emissora carioca praticamente disse: É isso. Obedecendo o “start”, Moraes atendeu.

Miriam Leitão, apresentadora da emissora, talvez pretendendo ser uma espécie de funcionária do mês ou apenas tentando manter o emprego, externou (no ar) a sua vontade (e da emissora): que Jair Bolsonaro fosse banido das redes sociais. A senha já estava sendo dada e a manobra urdida.

É fato que a audiência dos canais de televisão vêm caindo por causa da internet, mas a reversão deste movimento é impossível. O que a Globo conquista é a antipatia de quem procura uma tela que o distraia. As outras TVs também tentam reverter o interesse, apelidando o que circula na internet de “fake news”. Notícia falsa ou simplesmente fofoca sempre existiu; a novidade é a quantidade de pessoas preocupadas com que isso não atrapalhe a “democracia”.

A atitude do ministro revela a total ausência de empecilhos e limites para as coisas voltarem a ser como sempre foram. E têm muitos interesses em jogo, sendo que os principais são: eleitorais e de audiência. É claro que ambos os interesses confluem para as finanças. 

Bolsonaro foi um acidente, isto ficou claro pela quantidade (e qualidade) das figuras que mais o odeiam e fazem “o diabo” para que ele não seja reeleito. As “urnas confiáveis” serão a última barreira para impedir o que nem um tsunami de rejeitos da Vale, incêndios, derramamento de óleo no mar, enchentes, deslizamentos, pandemia e guerra conseguiram.

Alexandre de Moraes não suportou a pressão e suspendeu o bloqueio do Telegram, mas a perseguição não foi suspensa.

Alexandre de Moraes, “a paz sem voz não é paz, é medo”.




“Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo ou todas as pessoas durante algum tempo, mas você não pode enganar todas as pessoas o tempo todo”.

Abraham Lincoin
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O eleito ♦️

Grande parte da imprensa já havia eleito Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, o “herói da resistência. Seguindo a velha tática “Big Brother Brasil”, o papel de vilão ficou com Vladimir Putin (por razões óbvias); bastou a Zelensky existir para a velha imprensa impor o roteiro da guerra e começar a “construir” aquele que cumpriria o papel de herói na narrativa ensaiada.

A revista Caras de Portugal, inconformada com seu papel quase inútil na cobertura de uma guerra, estampou (na capa) o primeiro casal da Ucrânia no estilo “o  presidente e a primeira-dama são flagrados curtindo o friozinho de Campos do Jordão”. A dupla ucraniana ganhou o texto (na capa da revista) de: “ A resistência. 

Demonstrando falta de qualquer empatia ou “timing”, os dois foram retratados com sorrisos e poses de subcelebridades. Justiça seja feita, não se sabe quando foi feita a fotografia do casal alegre.

Volodymyr Zelensky, o comediante, demonstra alto poder de comunicação. Diferentemente do seu poderio bélico, o presidente da Ucrânia atua com desenvoltura quando câmeras, refletores e microfones são ligados. Figura midiática, ele lida visivelmente à vontade entre tudo que registra imagens e frases de efeito; ao contrário, o presidente russo se sente confortável cercado por pólvora, projéteis e fardamento militar.

Enquanto a imprensa cuida de como Zelensky será “vendido” ao mundo, eu imagino Vladimir Putin numa sala do alto comando militar, reunido com generais, decidindo qual será a próxima manobra bélica. O ex-KGB não deve ter se espantado em ter sido classificado como o vilão do conflito; o comediante, pelo contrário, deve ter ficado muito surpreendido quando acordou “eleito” o herói sem ter nenhum feito heroico na invasão. Tanto Putin quanto Zelensky precisam fazer muito pouco para serem colocados em seus respectivos lugares no “viés de confirmação”.

Movimento Brasil Livre (MBL), voluntários ocidentais e “consórcio” de “des”informação (velha imprensa) acreditam ou tentam nos fazer crer que a guerra é uma balada da Vila Madalena, um jogo de videogame ou um protesto (Winter on Fire) em que tentam resolver tudo cantando “Imagine”, tocando piano ou violino, respectivamente. Somente o distanciamento da realidade explica tamanha romantização da guerra.

Quem vê Caras não vê coração.
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Counter Strike ⚫️

O que leva alguém, ao contrário dos refugiados, a se voluntariar para combater numa guerra que não é sua — pior, que o lado aparentemente inocente está fadado a perdê-la? Excesso de realidade virtual, muito videogame (no qual sempre há mais que uma vida), uma visão romântica do documentário “Winter on Fire ou a busca de sentido na vida — para quem não tem nada a perder, tanto faz entrar pro Estado Islâmico, entrar na Legião Estrangeira ou se alistar num exército qualquer. Têm também os motivos mais esportivos, querendo provar os limites: supondo que a guerra é uma tipo de “crossfiting”, esporte radical, “reality show” ou treinamento do BOPE.

Somente são exibidas entrevistas com heróis de guerra, dificilmente sequer é mostrado um hospital de mutilados. Muitos dos mortos não têm nem a “sorte” de ser levados a um hospital e são atirados numa vala comum. Na realidade a guerra só é romântica nos filmes e a coragem dura até o primeiro disparo de arma de fogo em sua direção.

As guerras mundiais começam por um fato colateral. Motivações quase banais envolveram o restante do mundo nas primeira e segunda grandes guerras. Este conflito está praticamente “a um tapa na cara” (hipérbole) de virar uma terceira guerra mundial.

O que está acontecendo na Ucrânia é muito diferente do que vemos num telejornal qualquer. Refugiados cantando, tocando violino, piano ou o Ocidente iluminando monumentos com as cores da Ucrânia ou cantando “Imagine” são imagens poéticas, mas não dissuadem Vladimir Putin do seu nefasto objetivo.

Filmes romantizaram e mais de 70 anos afastaram os reais efeitos de uma guerra. Parece que têm pessoas que acreditam que homens/exército, indestrutíveis como Rambo, realmente existem e, querendo encarar um “Counter Strike” da vida real, se voluntariam esquecendo-se que podem não passar da primeira fase.
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Bar do motoclube ⚫️

Esse simpático boteco era, de fato, um ambiente familiar. Mais precisamente, “de la famiglia”. A frente era, basicamente, um disfarce. Não chegava a ser um “speakeasy” (bar escondido da Lei Seca). No máximo, além de matar a sede, a contravenção restringia-se a uma máquina caça-níqueis — essas de periferia — e um “pinball” franqueado a menores, funcionando como introdução ao vício.

O ambiente enganoso começava a desmoronar à medida que se avançava no corredor em direção aos fundos da espelunca. No corredor, ficava a máquina de fliperama, apenas como convite ao vício, porque atraía os mais jovens.

Nos fundos do botequim, nada mais do que um quintal, recinto apenas permitido a convidados. Somente ía direto para lá, quem conhecia bem o lugar. No quintal, ficavam uma mesa de bilhar — viciada, como alguns dos frequentadores — com alguns tacos tortos, gizes umedecidos, mesas e cadeiras (de ferro) dobráveis, um aparelho de som e uma churrasqueira do motoclube. Alguns copos americanos vazios e cinzeiros sujos denunciavam a presença recente de alguma outra confraria. Lá, podia-se conversar sem ser localizado ou incomodado. 

Barzinho legal para fazer um “esquenta” (happy hour), antes de ir para o “pico” da noite, ou, às vezes, um lugar eleito de última hora. Local de brigas, amizades feitas e refeitas que desembocavam na cerveja, bilhar, rock n’ roll e, de sexta-feira, um churrasco. Nos melhores dias, tudo isso.

Como em todo bom boteco, no balcão havia um “showroom” da baixa gastronomia, ou da apreciada “comida di buteco”. Estavam expostos, os clássicos ovos cozidos coloridos, algo inominável boiando numa conserva turva, salsichinhas com tempero agradável e outras iguarias. De vez em quando surgia algo comestível, prontamente devorado para aplacar os efeitos do álcool.

Nesse ponto de encontro, em lapsos de genialidade, surgiram grandes ideias: encher a cara em algum lugar de São Paulo ou viajar, num bate-e-volta, para alguma cidadezinha. Se não surgisse uma sugestão memorável ou se aparecessem pessoas legais, ficávamos lá mesmo.

Esse, como quaisquer outros bares, era frequentado por tipinhos que parecem ter sido extraídos de tirinhas de jornal — talvez, sob alguma visão apurada, eu seja um desses.
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Traumatismo ucraniano: o babaca foi pra guerra 🔴

Não há nada tão ruim que não possa piorar. Arthur do Val (Mamãe Falei) e Renan Santos, duplinha do MBL (Movimento Brasil Livre), foram à Ucrânia — enquanto muitos tentam sair de lá — levando uma bagagem lotada de estupidez. Piorou.

Arthur confundiu a guerra com uma manifestação na Avenida Paulista ou uma balada. Pelo menos todos ficaram sabendo o que o deputado estadual tem na cabeça.

O garoto de 35 anos viajou, com financiamento, para “turbinar” sua narrativa eleitoral, mas o tiro saiu pela culatra. O lamentável turismo rendeu, acreditem, a manufatura de alguns coquetéis molotov que ainda hão de incendiar ou matar alguém. Pois é, o potencial de  maldade que esse político pode causar é inesgotável. Pelo jeito, assistir ao documentário da Netflix ‘Winter on Fire’ ajudou o garoto a romantizar a guerra.

É inacreditável “Mamãe Falei” ter cometido uma tentativa de ser prefeito de São Paulo, o mais inacreditável foi terem votado nele. O sujeito é (era) pré-candidato ao governo do estado. Como ficou óbvio que não é capaz de governar a própria conduta, alguém irá demovê-lo da ideia.

Acreditem, mesmo na guerra há alguns valores; esse moleque invadiu o conflito para exibir toda sua imbecilidade, ausência de valores e falta de noção.

Eis a transcrição do que nosso autointitulado correspondente de guerra tem a nos relatar do que presenciou na ação humanitária:

 “Mano, só vou falar uma coisa pra vocês: acabei de cruzar a fronteira a pé aqui da Ucrânia com a Eslováquia. Maluco, eu juro… eu, nunca, na minha vida… ó, eu tenho 35 anos. Eu nunca na minha vida, nunca, vi nada parecido assim em termos de ‘mina’ bonita. Assim, a fila das refugiadas, irmão, assim… imagina uma fila, sei lá, nem sei… to sem palavras. Uma fila de 200 metros ou mais. Só deusa, assim, só deusa. É sem noção, é inacreditável. É um bagulho assim fora de série. Se você pegar a fila da melhor balada do Brasil, a melhor, na melhor época do ano, não chega aos pés da fila dos refugiados aqui. Maluco, eu ‘tô’ mal, eu ‘tô’ triste, porque é inacreditável.

Assim, elas são ‘gold diggers’, é assim que se chama. O Renan [Santos] faz uma viagem todo ano, que nos últimos três anos ele não fez. Chama-se ‘tour the blonde’. O que ele faz? Ele viaja os países só para pegar loiras. Só que ele tem técnicas. Ele já está avançado. E ele me deu algumas dicas.

Você nunca pode ir em cidades litorâneas. Você nunca pode ir nas cidades com as maiores baladas. Você tem que ir para as cidades normais, porque você pega as ‘minas assim, não na balada, na praia. Você pega ela no mercado. Você pega ela na padaria. Que nem a recepcionista do hotel que deu em cima de mim aqui.

E eu nem peguei ninguém aqui. Só a sensação de que eu poderia fazer, enfim, já sabem. Já estou comprando minha passagem pro Leste Europeu no ano que vem. Assim que eu chegar em São Paulo.

Mano, eu ‘tô’ mal. ‘Tô’ mal, ‘tô’ mal. Eu passei agora… são barreiras alfandegárias. São duas casinhas em cada país. Mano, eu juro para vocês. Eu contei: foram 12 policiais deusas. Deusas, mas deusas, assim, que você casa e, assim, você faz tudo o que ela quiser. Eu ‘tô’ mal, cara. Assim, eu não tenho nem palavras ‘pra’ expressar. Quatro dessas eram ‘minas’, assim, que você, tipo… mano, nem sei o que dizer. Se ela cagasse, você limpa o c* dela com a língua. Assim que essa guerra passar eu vou voltar para cá.

E detalhe: elas olham. E vou te dizer: são fáceis porque elas são pobres. E aqui, cara, a minha carta do ‘Instagram’, cheia de inscritos, funciona demais. Funciona demais. Depois eu conto a história. Não peguei ninguém. Mas eu ‘colei’ em duas ‘minas’, que a gente não tinha tempo, em dois grupos de ‘minas’. E, assim, é inacreditável a facilidade. Essas ‘minas’ em São Paulo se você dá bom dia elas iam cuspir na tua cara. E aqui elas são supersimpáticas, super gente boa. É inacreditável. Inacreditável”.

Pois é, inacreditável!













































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O Castelinho da Rua Apa 🔵

Muito me intrigava aquele imóvel encravado numa esquina da Avenida São João. Algo acontecia no meu coração, mas sei que não era coisa boa. O sobrado antigo e fantasmagórico resistira às demolições paulistanas. A arquitetura lembrava um castelo europeu, o abandono e a escuridão remetiam a uma historia de terror sem término, por isso tinha o aspecto provocativo, querendo contar um litígio mal resolvido. Aquele sobrado parecia desabitado, o que era muito pior que abandonado (não sei o porquê). Eclipsado pela feiúra do Minhocão e imóveis mais modernos, a antiga moradia, mesmo escurecida pela fuligem impregnada, causa-me uma mistura de sensações: curiosidade e horror. Toda vez que eu passava ali de noite, minha conversa com a minha namorada cessava.

O comportamento estranho não era à toa. A residência foi palco de uma tragédia familiar: em 1937, a mãe e dois filhos foram encontrados mortos ao lado de uma pistola. A casa, construída no início do século XX, abandonada, escura, destoando do panorama paulistano e  cenário de um crime que ainda não foi inteiramente esclarecido, interrompia qualquer alegria.

Não devia ser por acaso que o endereço chamava a minha atenção: desde o ocorrido, o edifício leva a fama de mal-assombrado (ou bem  mal-assombrado). Vultos, gritos, passos na  escada, barulhos estranhos e lamentações de espíritos são os fenômenos que povoam seus cômodos. Talvez alguma dessas ocorrências sobrenaturais sempre sequestrem a minha descontração.

O pavor se transformou em vergonha por não conhecer o lendário Castelinho da Rua Apa, cenário vivo de uma das mais conhecidas lendas urbanas e crônicas policiais da São Paulo antiga.

Os meus fantasmas são suficientes para me atormentar, por esse motivo não precisam de companhia. Assombrações que atiram objetos, fazem sons horripilantes, barulhos sem explicação e que aparecem do nada causam tanto espanto quanto castelo do horror de parque de diversões. A não ser que sejam monstros embaixo da cama, esqueletos dentro do armário ou o assustador Castelinho da Rua Apa à noite.
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Tem índios por aqui 🔵

Bertioga, litoral de São Paulo, alguns dias na praia, ninguém é de ferro. Sol, cerveja, descanso, até que a minha irmã teve uma “brilhante” ideia: conhecer uma tribo de índios totalmente isolada. Tudo bem, isso traria enriquecimento cultural. Tem mais, para guarulhense programa de índio nunca é exagero. 

Avistamos a Mata Atlântica, eu não via a hora de surpreender os nativos num raro ritual, como nos livros de História. Uma flechada ou outra não significava nada, pois a expectativa da aventura era grande. Fomos aproximando, nada de aborígenes. Quanto mais passava o tempo, eu me sentia mais Bispo Sardinha e menos Orlando Villas-Bôas. 

Para quem esperava um contato antropológico (não antropofágico), até um ameaçador caldeirão borbulhante era válido. Porém, o cenário era de um vazio desolador. Mas vamos lá, os autóctones devem ter notado nossa presença e estão escondidos. Certamente, percebem a ameaça que o homem branco representa, teorizei.

Seguimos no encalço dos silvícolas. A frustração veio ao dobrarmos a primeira esquina: supostos índios de calções Adidas, bicicleta Barraforte e camisas de times de futebol. Distante  de lá, onde devia haver uma sangrenta guerra de arco e flecha, uma turma disputava uma animada partida de futebol. Novamente, calções Adidas e camisas de times de futebol. As únicas que faziam sentido eram do Guarani e da Chapecoense.

A perda do aspecto desbravador da nossa expedição foi pior. Avistamos residências de alvenaria e uma picape Hilux, pilotada por um ágil pajé, dobrando uma esquina. Estávamos conformados com peles vermelhas altamente socializados e integrados ao mercado de consumo. O cúmulo daquilo tudo, era a presença da Rede Globo. Aquele teatro todo era uma espécie de “macumba pra turista”, armado para a filmagem televisiva. No máximo, presenciaríamos cocares da 25 de Março. Definitivamente, eu não encontraria nenhuma “virgem dos lábios de mel” e “dos cabelos mais negros que a asa da graúna”. Eu bem que desconfiava de José de Alencar.

O jeito era fugir daquele programa de índio, não literal. Quanto a minha irmã, eu sei que, quando ela inventar algum passeio, eu vou conhecer um quilombo albino ou anões campeões de basquete. Índios...
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