rafaeldasilva

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🔵 O doutrinador

O ditado foi interrompido para mais um vendedor apresentar seu fantástico produto na sala de aula. Já sabia que meus pais ignorariam lousinhas mágicas, livros para colorir e demais bugigangas educativas. Meus argumentos seriam as facilidades de pagamento; porém, meus pais achariam aquilo caro e saberiam que aquele meu “coração de estudante” era falso, portanto, arrefeceria antes do pôr do sol.




Entretanto, agora era diferente. O sujeito que entrou na sala era figurinha conhecida na escola.  Sempre sorridente, ele distribuiu um panfleto: Fundação do Partido Verde. Faz tempo, descobri que a causa ambientalista era só um chamariz para atrair e capturar “almas e corações” juvenis para o sempre anacrônico marxismo. Sem saber, eu estava diante do “diabo” querendo “comprar” algumas almas, representando um “partido melancia” (verde por fora, vermelho por dentro).




No final, confiante na cooptação e contente, ele disse: “Depois eu pago uma paçoquinha”. A fala, perigosamente infantilizada, me remeteu à tática usada pelos traficantes. Sabendo da doutrinação ideológica e manjando o “modus operandi”, se eu entrasse naquela, teria xingado meus pais, trabalhadores, de “porcos capitalistas” e, hoje, estaria vagando numa “cracolândia ideológica”.




A abordagem do “amigão” lembrou tudo o que meus pais (visionários) sempre disseram para evitar. Nesse momento, eu acionei o alarme interno. Aquele “aviãozinho a serviço do tráfico de almas” estava perdendo tempo comigo e, espero, com o restante daqueles aluninhos. Comecei a ouvir o blá, blá, blá disfarçado, fazendo o que eu já sabia: deixando “entrar por um ouvido e sair por outro”. 




Demorou para eu descobrir, mas a imprensa que manipula a informação, continua tentando me convencer a destruir a minha e outras existências. Certamente, vitimas, seduzidas por militantes que  ofertam doces a crianças, insistem, com um método mais abrangente, em fazer o mesmo.




Há muito tempo, percebi que o meio ambiente era apenas um chamariz “bonitinho”. Se eu caísse nessa armadilha, possivelmente faria o “L”, botaria um boné do MST, vestiria uma camiseta do Che Guevara, tremularia uma bandeira do Hamas, leria Foucault, cantaria a Internacional Socialista...
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Poemas

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💥 Por que deixei de assistir à Globo




O título é falso, pois vejo os jogos de futebol. Tirando as denúncias de interferência nos resultados, as partidas não são realizadas pela empresa de comunicação. Então, não vejo e não sinto falta de qualquer produto da emissora. 




Há alguns anos, troquei qualquer programa da televisão aberta por “produções” do YouTube. Parece que apenas sigo uma tendência. Pelo que tudo indica, a TV aberta está em processo avançado de extinção. Sim, os altos custos com estúdio, câmeras, apresentadores, repórteres etc foram superados por alguém que liga a filmadora do celular e dá sua opinião e exibe “prints” e vídeos com uma liberdade que William Bonner desconhece.




Não à toa, a chamada velha mídia, numa tabelinha com o Superior Tribunal Federal (STF), apelidou quase tudo o que é produzido na internet de “fake news”. Os termos em inglês nunca foram usados para designar “notícia falsa”, como é a real tradução, mas para estigmatizar tudo o que não pode ser dito ou o que, simplesmente, não se quer ouvir. 




A velha mídia sempre mentiu sem concorrência e sem ser importunada. O monopólio da mentira já produziu pérolas: Boimate e o caso Escola Base, por exemplo. Ninguém quer consumir inverdades. Sem subestimar o consumidor de notícias, cada um possui o discernimento e a obrigação de descartar o que é exibido com a finalidade de desinformar ou, deliberadamente, mentir.




Como cantava Raul Seixas: “Eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz”. Aproveitando-se de que o brasileiro só lê as manchetes, é aí que o jornalista aproveita para distorcer os fatos. Com um jogo de palavras, que só quem domina o idioma consegue, o escritor engana na manchete e informa a verdade somente nas colunas. Esta artimanha é colocada em prática sem explicitar a mentira. Atualmente, a tática é adotada sem qualquer cuidado, ou seja, mentem “na cara dura”. A combinação “mentira” e “veículo de credibilidade” geram a desinformação. São as redações transformadas em diretórios acadêmicos, e os jornalistas, militantes.




Cresci assistindo às programações da Globo, acreditando que o Jornal Nacional apresentava a verdade. Passei décadas sendo enganado e me contentando com o “Boa noite” do Cid Moreira e demais apresentadores. Hoje, não sinto dó quando gritam: “Globolixo”.
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🔵 Baixo Augusta, fundo do poço







Eu realmente não sabia que aquela região (da Rua Augusta) era conhecida como Baixo Augusta. Isso dá a impressão que aquela “quebrada” pertencia a uma espécie de grupo ou “tribo”. A gente só queria fazer um “esquenta” para ir na “Fun House”, porém os “piercings” estrategicamente exibidos, as tatuagens bacaninhas e os cabelos coloridos davam exatamente a impressão de estarmos invadindo um espaço hostil pertencente a uma tribo pouco amigável.




A “Fun House” foi um templo do “rock indie”. Funcionava numa residência da rua Bela Cintra. Foi lá que eu determinei o fim das baladas daquele tipo. Do alto dos meus 32 anos, parei e observei aquela “criançada” na casa dos vinte e poucos anos de idade. Era triste admitir, havia chegado o final de uma “belle époque” particular: me senti o “tiozão” da festa.




Voltando à rua Augusta, foi lá que fomos submetidos a um enquadro “monstro”. Encontramos um barzinho legal: rock, bilhar e cerveja gelada, porém uma frequência “alternativa”. Como o “esquenta” seria rápido, entramos e nos diluímos na “festa estranha com gente esquisita”. Tudo estaria sob controle, se ali não fosse um ponto “manjado” pela polícia.




Como numa pesca de arrasto, fomos capturados como uma fauna acompanhante. Entre náufragos, traficantes e degredados, fomos convidados a compor uma gigante fila (em posição de revista). Após breve conversa (e tirocínio), um policial sabia que não pertencíamos àquela realidade, então fomos dispensados da “geral”




Num outro sábado a noite, no “prafrentex” Baixo Augusta, numa atitude quase masoquista, fomos beber cerveja barata. Masoquista porque não havia como negar: destoávamos daquela multidão “tchaptchura” (moderninha) e sentirmo-nos “tiozões na balada”. 




Olhando para cima, naquele bar do enquadro histórico, vários jovens (em posição de revista) aguardavam a procura minuciosa de entorpecentes. Realmente, eu recebera o sinal dos lugares que deveriam ser evitados. Desses lugares, o Baixo Augusta era o fundo do poço.
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🔵 O mundo estranho de Jacko







Era meio constrangedor dizer aos meus amigos roqueiros que eu iria ao show do Michael Jackson. Tudo bem, o Jacko é bem estranho: possui um zoológico e um parque de diversões em sua residência, mantém hábitos estranhos, cultiva amizades infantis e é acusado de ter cometido alguns crimes. Entretanto o cara é talentoso e é o ídolo da minha infância. Afinal, eu ía à apresentação do “Rei do Pop” ou do sujeito esquisito?




1993, Estádio do Morumbi, marquei de encontrar minhas amigas no “gol” oposto ao palco. Só depois notei que a minha ideia foi insana. Como a administração retira as traves do campo, seria impossível executar o meu plano. Pronto, agora a “Dangerous World Tour” acabaria com a minha “gincana”. Talvez encontrasse as traves jogadas em algum depósito poeirento do Morumbi. Somente nas minhas expectativas o “gol” estaria em campo.




Espetáculo fantástico, inesquecível, porém não é o cerne desta crônica. Entretanto, era a hora do, talvez impossível, encontro.




No fim do espetáculo, dirigi-me ao tal ponto de encontro. Para minha surpresa e alívio, o “gol” não havia sido retirado. Escalei a trave e aguardei sentado no travessão. Por alguns minutos, o tempo parou e parecia não existir mais nada. Imaginei a perspectiva que sempre tive, daquela trave, da arquibancada. De repente eu estava lá “onde a coruja faz o ninho”. Vendo as pessoas saindo. Do alto, eu me senti soberano no Estádio do Morumbi. Só voltei à realidade quando avistei as minhas amigas. Quando elas atingiram a meta (em ambos os sentidos), saltei do objeto que eu sempre vi como o objetivo do Corinthians e da seleção brasileira.




Em 2009, Michael Jackson não aguentou, depois de tantos acontecimentos e perseguições, sucumbiu. Após sua morte, aquele show ganhou mais ainda ares de exclusividade e evento que ficou perdido no tempo. 




Ainda, o assunto divide opiniões. É farto o número de material do louco e do artista. Até hoje não sei se fui ao show de um doente mental ou de um gênio. Talvez os dois!






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🔵 Criaturas da noite







A notícia correu alcançando ouvidos atentos. A novidade que um amigo agora era sócio de uma casa noturna no coração da Vila Olímpia (São Paulo) correu feito rastilho de pólvora. Para nós, que não curtíamos música “dance”, apenas iríamos prestigiar a balada, mas, rapidamente, surgiriam os “amigos” de ocasião.




E a ocasião não frustrou a previsão. Como era esperado, o telefone não parou de tocar. Os “amigos” de ocasião, sempre atentos, nunca perderiam essa boquinha. Estes, embora com algum atraso, mas vigilantes e atentos, trataram de manter acesa a chama de uma grande amizade. Para atender a sanha por uma pulseirinha VIP, um camarote e talvez um copo de whisky, meu ciclotímico amigo precisaria contratar um “call center”.




Noites muito boas, reencontrando velhos amigos e encontrando, é claro, os “parças” (parceiros) no camarote, vestindo a pulseira VIP, exagerando no sotaque paulistano (como em novelas) e grudados em copos de whisky com energético. Mesmo não curtindo músicas de “DJ”, ir a uma balada de “playboy” foi quase uma experiência antropológica. 

                         

                                       *




Numa noite qualquer, fomos fiscalizar as ruínas da casa noturna da badalada Vila Olímpia. Foi triste voltar, com o sócio do que sobrou, na avenida Hélio Pellegrino, onde pessoas dançavam, bebiam, conversavam e sorriam. O cenário era de um ambiente bombardeado: imóvel escuro, tudo revirado, alguns vestígios de infiltração e arrombamento eram a evidente suspeita da 

frequência de moradores de rua e/ou usuários de drogas. O que tinha algum valor foi levado. Uma garrafa com um pouco de bebida foi a solitária prova de que alguém se divertiu nas noites de sábado dali.




Esse é o lado que nunca tinha testemunhado das casas onde todos se divertem. Muitos dos que frequentam esses lugares talvez estejam nessa situação: nas noites de sábado, conseguem disfarçar o aspecto, entretanto por dentro são somente ruínas.




Observação: os “amigos” de ocasião sumiram. Devem ter “colado”, morrendo de saudades, em outro amigo de infância “dono de balada”. Ah, esses “parças”, sempre querendo manter acesa a chama da amizade.
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🔵 O prefeito no motoclube







A motocicleta era emprestada, mas eu ia para o motoclube mesmo sem moto, sem correntes, sem jaqueta de couro e sem cara de mau. E, depois dessa noite, percebi que outras tribos estavam frequentando o local.




O imaginário popular, o visual estereotipadamente agressivo (muitas vezes anedótico) e a mística gerada pelos “Hells Angels”, criou uma impressão exagerada acerca de integrantes de motoclubes. Engenheiros, policiais, médicos, advogados etc transformam-se em cima da motocicleta e resolvem brincar de ‘Sons of Anarchy’.




Um senhor, que alternava sua vida entre candidato, deputado, prefeito e de vez em quando empresário de Guarulhos, chamado Paschoal Thomeu resolveu passar algumas horas mergulhando no submundo da noite alternativa. Tentou a sorte, para colher um punhado de votos no encontro de motociclistas.




Sinceramente, me enganei ao imaginar que o político encontraria ambiente hostil para lograr êxito no seu objetivo. Pelo contrário, apesar do seu visualzinho destoar bastante da frequência avessa aos representantes do “status quo” o velho prefeito se saiu bem.




Entre motos acelerando, cerveja barata, carne de segunda e rock and roll, Paschoal Thomeu se deslocou com desenvoltura. O magnata “colou” na nossa roda de amigos. Ele parecia disposto a se humilhar para conquistar mais alguns votos. Esquecendo-se do abismo social que separava o eterno chefe do Executivo Municipal da, aparentemente, escória da sociedade, ele estava disposto a agradar aquela turma.




Meu amigo, durante o dia um prestativo motoboy de farmácia, à noite no motoclube, se vestia do jeito mais repugnante (punk mesmo), talvez querendo chocar a Humanidade. Pois esse sujeito, fazendo um gesto banal, foi acender mais um cigarro. O candidato se aproximou e capturou o fumante. Num gesto rápido, parecendo ter prática naquilo, Paschoal Thomeu apanhou cigarro e isqueiro e se submeteu a um indiferente punk.




Sentindo que o momento lhe parecia bastante favorável, aceitou os serviços do inacreditável garçom. Vendo aquilo, acho que todos pensaram ser a ocasião ideal para pedir o asfaltamento de uma rua, a limpeza de um terreno ou o desentupimento de um córrego, mas aquela reunião de motociclistas já estava parecendo uma reunião de condomínio ou diretório partidário.




Após a evasão daquele intruso, o encontro do motoclube voltou a sua normalidade. Entre motos, cerveja, churrasco e rock ‘n’ roll, nossa rotina era bem melhor longe do Poder Público, mesmo que interesseiro.
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🔵 A terapia dos dinossauros







No Dinossauros Rock Bar, em Pinheiros, São Paulo, subiam ao palco cada um dos integrantes da banda Dinossauros. Notei que entre os músicos estavam duas figuras conhecidas: José Luís Tejon Megido (violão e voz), jornalista, publicitário, escritor e exemplo de superação, entre outras atividades e Roberto Shinyashiki (guitarra), psiquiatra, escritor e palestrante. Sendo que o segundo é um manjado escritor e palestrante de, digamos, auto-ajuda.




No princípio, achei que aquela cena toda se tratava de uma “pegadinha” ou um “telegrama animado”. Pronto, um simples chope ao som de “rock and roll” havia se transformado num momento catártico do tipo terapia em grupo. Então, meu propósito era descobrir onde estavam as câmeras, microfones e para que emissora seria a transmissão da armadilha, bem como quem era o apresentador da palhaçada toda. 




Sempre fugi de “coachs” animadões. Eles entram no palco pulando, vomitando um lote de frases feitas e afirmando que você é um vencedor (sabendo que muitos ali vieram de ônibus) e logo você se vê abraçando uma pessoa estranha ao lado, chorando, batendo palmas e gritando “u-hu”. Eu tinha que escapar daquela arapuca. Nunca imaginei que um simples sábado de noite poderia ser convertido numa enfadonha e inesperada convenção  do Anhembi. Para alguém tímido, esse tipo de evento deve ser evitado.




As horas passavam, a banda voltava a tocar (após os intervalos), entretanto nada diferente acontecia. Quando reparei, minha paranoia não se realizou, ficou apenas na minha cabeça. Chope, banda ao vivo, conversas e risos..., tudo o que eu esperava de um bar de rock sábado a noite.




Os palestrantes de superação e auto-ajuda tocaram e cantaram direitinho, eu não precisei me submeter a nenhuma cura holística. Nunca encontrei alguma alma penada procurando uma  jornada interior num boteco de rock. Isso pode ser facilmente encontrado lá pelos lados da Vila Madalena, mas essa aventura deve ser evitada.




No meio de gente mentindo em alto e bom som, gargalhando exageradamente, enfim, fingindo ser alguém, interpretando no teatro da vida, entre cinzeiros sujos e copos vazios, muitos tinham mais a revelar num banquinho de bar do que num divã. Os psiquiatras não poderiam estar em um ambiente mais confessional que num barzinho, sob o efeito do álcool e num sábado de noite.
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🔴 Pequeno ensaio sobre o preconceito







Preconceito não é nada mais que um pré-conceito. Essa palavrinha, de cara, revela um preconceito de quem procura defeito em tudo. Os chamados “haters” acordam aguardando a oportunidade de apontar para alguém e tachá-lo de racista, misógino, homofóbico, preconceituoso etc. A apoteose dessas manifestações de vida é quando chega o esperado: alguém que se possa encaixar a ofensa do dia. Eis o viés de confirmação, o importante não é se a quem se atribui o defeito do dia (ou da moda) tenha o defeito. Se alguém estiver testemunhando, melhor, pois é assim que se sinaliza virtude. Conhecidos popularmente pelo estrangeirismo “haters”, eles vagam lá pelo “Twitter”, mas de vez em quando se perdem e vão amolar “em mares nunca d’antes navegados”.




É patético este modo de viver, entretanto isso existe e sempre está rondando, esperando qualquer tropeço para distribuir seus rótulos ofensivos. Se já é difícil atribuir algum preconceito a alguém ao lado, imagine cometer este crime lendo um pequeno texto, sem conhecer o seu autor.




Não sei se não estou atento ou se sou inocente demais, mas nunca identifiquei um nazista ou um fascista, a não ser pela TV.  Mesmo assim, foram os dois maiores estereótipos: Hitler e Mussolini, respectivamente. Essa desatenção talvez seja resultado dos meus parcos conhecimentos de História. Tenho, insisto, dificuldades em reconhecer um preconceituoso. E realmente acredito que é bem melhor viver assim, sem procurar defeitos nos outros.




Em política, se alguém pensa diferente de mim, azar do político. Dispenso o candidato, o partido e a ideologia e continuo a amizade. Com futebol, a “zoeira” prevalece. Como corintiano, sempre vou lembrar que o Palmeiras não tem título mundial. Permanecendo no campo da brincadeira, isso jamais pode estragar uma amizade.




Denegrir, criado-mudo, lista negra e até “Black Friday,”, termos considerados preconceituosos devem ser evitados, senão você, por usar a palavrinha inadequada ganha o carimbo de preconceituoso. As palavras que citei têm, como muitas outras, etimologia ligada ao racismo simplesmente inventada. A repetição tornou essa balela “verdade”. O argumento é, por vezes, deliberadamente falso para alimentar a necessidade de apontar o dedo.




Esta talvez seja a atitude menos eficaz de combater o preconceito. Ficar policiando as palavras utilizadas não ajuda minoria excluída, pelo contrário, pode causar uma certa antipatia. Quando há banalização destes termos, os reais preconceituosos se diluem na multidão.




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🔵 Me escondi no Gruta







Apesar de um dia inteiro na rua, jogando bola e empinando pipa, imundo de dar dó — ou uns trocados — não resisti em prontamente aceitar o convite para uma pizza. Minha irmã e meu cunhado, não sei se tocados pelo sentimento da caridade, solidariedade ou simplesmente por não ter o que dizer para despistar o pirralho maltrapilho, resolveram arriscar o convite. Eu, calculando que a proposta poderia não se repetir, não declinei da surpreendente oferta.




Fomos à melhor pizzaria do bairro (na época). Hoje, tenho certeza que eu não reunia condições sequer para frequentar o boteco mais sujo que encontrasse, muito menos ousar pisar a calçada do restaurante. Entretanto, a fome bloqueou o raciocínio, de modo que, orgulhosamente, subi a escada, puxei a cadeira e aguardei os serviços como um rei.




Estávamos apenas nós no salão, mas eu não me intimidei e, guiado pelo estômago, monopolizei a redonda. O único detalhe que incomodou e, ao mesmo tempo, divertiu foi o fiel acompanhamento, a cada mordida, do garçom. Isso deu a sensação de que estávamos sendo observados, o que não deixava de ser verdade. Porém, será que a “marcação” do garçom não era por que a minha apresentação destoava muito das condições da casa? Talvez achassem que o casal estivesse enchendo a barriga de um morador de rua. Sendo mais verossímil a segunda suspeita, talvez atribuíssem a mim a debandada dos clientes, por isso a baixa frequência daquele sábado de noite.




Concordo que meu traje, bem como meu asseio não eram adequados para a ocasião, mas eu estava no bairro que me presenciou caindo de bicicleta, rachando a cabeça num jogo de futebol, sangrando ao arrancar a “tampa” do dedão do pé, tropeçando na arquibancada da escola e quebrando um dente no paralelepípedo. Eu encarei a ida àquele restaurante italiano como algo corriqueiro, não como um grande evento, pois aquelas ruas, vielas, praças e avenidas testemunharam o meu crescimento. 




Agora, eu pisava no Gruta Vermelha — a espelunca que chegou depois de mim — e não era pra me esconder nem para ficar com vergonha.
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⚫️ Emojis ou emoticons







Não, ninguém deve ficar contente ou triste, ou melhor, dotado de ataraxia, não deve reagir ao receber o aparentemente inofensivo “emoji” Os emojis tem a nobre função de simplificar um pensamento. Com uma, quase infantil, imagem, o emissor exerce seu poder de concisão, desde a ofensa até o elogio. 




O emoji do cocô, ao qual me refiro, cumpre esta função, mas vai além; ofende, carregando o eufemismo patente ao exibir olhos e boca amigáveis. Quem envia a figura revela, ao mesmo tempo, covardia de enfiar a mão na cara e a intenção de rejeitar a pessoa ou o que ela diz.




Às vezes, a pessoa não tem o menor traquejo para zombar de outro ser vivo. Porém, essa criatura, que sempre foi vista como alguém incapaz de pisar numa formiguinha, destrói uma vida apenas com um desenho simples.




Seja para depreciação, seja para elogio, o envio da figurinha resolve dois problemas: o primeiro, dá coragem para ofender qualquer um e segurança, ao evitar o tapa imediato; o segundo, também traz a súbita coragem, entretanto, impossibilita um rápido “feedback”.




Em tempos de Rivotril, Dormonid, Diazepan e demais remédios “tarja preta”, bem como os tratamentos infantis, tentam aplacar o estrago que um emoji pode causar.




Entretanto, existe a ‘carinha feliz’ para salvar tudo. Esta outra figurinha traz consigo o poder de salvar o dia ou a vida de uma pessoa. Se “like” ou “deslike” tem o poder de liberar neurotransmissores responsáveis pelo prazer, os emojis “do bem”, dependendo de quem envia, exercem um resultado muito mais satisfatório.




A existência era mais simples com os emoticons. Bastavam alguns caracteres para gritar para o mundo o seu estado de espírito: alegre :-) e triste :-( . Havia outras modalidades, mas essas, apesar da tosquice extrema, não elevavam a baixa autoestima de ninguém.




Esta filosofia de boteco é um exercício sobre algo não levado a sério, até ignorado, mas que revela muito da alma humana. Muito parecido com o que já representaram os ‘bichinhos virtuais’ (Tamagochi) e os ‘caçadores de Pokemons’
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🔵 Sai, capeta







Um sábado de noite. Uma pista de dança. Músicas com vozes guturais. Uma tribo urbana: os góticos. A casa noturna tinha um nome pouco convidativo: Morcegóvia, o figurino da galera dava credibilidade ao nome da casa. Entretanto, o nome anterior da lendária casa noturna era bem mais assustador: Madame Satã.




Frequentei algumas vezes o lugar, de modo que os góticos começaram a ficar mais parecidos com os humanos, e as garotas vestidas com roupas emulando o século XIX (Inglaterra Vitoriana), contrastando com meu “jeans” e camiseta, eram bem interessantes.




O som facilmente transportava para um estado alterado de consciência, e a atenção focada nas danças repetitivas geravam noção periférica restrita. O conjunto de estímulos facilmente levava muitos a um estado de transe. A farta oferta de álcool completava o serviço imundo. Pronto, um bando de jovens com os dois pés em outra dimensão e “abraçados” com entidades obsessoras. Nesse clima, iluminado apenas pela luz estroboscópica, tive a impressão de que o porão, que servia de pista de dança, estava mais frequentado do que meus olhos podiam enxergar.




Estava tudo armado para ocorrer o que de fato aconteceu. Uma moça linda, com um vestido preto e badulaques, entrou no centro do porão (pista) e iniciou alguns movimentos muito particulares. Ela era uma bruxinha moderna ou, no mínimo, uma praticante da religião neopagã   “Wicca”. Foi como se a bruxa caísse ajoelhada, se contorcendo no centro de um pentagrama cercado por velas. Os frequentadores da casa, como fiéis, idolatraram a moça convertida a uma divindade. Eu, entre eles, inocentemente poderia estar invocando forças ocultas. 




Ainda não cheguei à conclusão se aquilo foi um ritual pagão ou uma dança macabra, só sei que fui cooptado e, compulsoriamente, celebrei o que pode ter sido uma missa negra. Já não me surpreenderia se um sacerdote do Mal adentrasse o recinto carregando um cálice e servisse sangue humano. Se eu bebesse, fatalmente estaria entregue ao Reino das Sombras.




Um evento dá legitimidade ao ocorrido e corrobora a desconfiança de que aquilo não era mais uma pista de dança, e as forças presentes não eram positivas. Meu amigo usou esta história como “Testemunho” para se converter para uma igreja evangélica.




Definitivamente, esta não foi uma noite de sábado qualquer, e aprendi a não seguir qualquer canto de sereia.









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