O ditado foi interrompido para mais um vendedor apresentar seu fantástico produto na sala de aula. Já sabia que meus pais ignorariam lousinhas mágicas, livros para colorir e demais bugigangas educativas. Meus argumentos seriam as facilidades de pagamento; porém, meus pais achariam aquilo caro e saberiam que aquele meu “coração de estudante” era falso, portanto, arrefeceria antes do pôr do sol.
Entretanto, agora era diferente. O sujeito que entrou na sala era figurinha conhecida na escola. Sempre sorridente, ele distribuiu um panfleto: Fundação do Partido Verde. Faz tempo, descobri que a causa ambientalista era só um chamariz para atrair e capturar “almas e corações” juvenis para o sempre anacrônico marxismo. Sem saber, eu estava diante do “diabo” querendo “comprar” algumas almas, representando um “partido melancia” (verde por fora, vermelho por dentro).
No final, confiante na cooptação e contente, ele disse: “Depois eu pago uma paçoquinha”. A fala, perigosamente infantilizada, me remeteu à tática usada pelos traficantes. Sabendo da doutrinação ideológica e manjando o “modus operandi”, se eu entrasse naquela, teria xingado meus pais, trabalhadores, de “porcos capitalistas” e, hoje, estaria vagando numa “cracolândia ideológica”.
A abordagem do “amigão” lembrou tudo o que meus pais (visionários) sempre disseram para evitar. Nesse momento, eu acionei o alarme interno. Aquele “aviãozinho a serviço do tráfico de almas” estava perdendo tempo comigo e, espero, com o restante daqueles aluninhos. Comecei a ouvir o blá, blá, blá disfarçado, fazendo o que eu já sabia: deixando “entrar por um ouvido e sair por outro”.
Demorou para eu descobrir, mas a imprensa que manipula a informação, continua tentando me convencer a destruir a minha e outras existências. Certamente, vitimas, seduzidas por militantes que ofertam doces a crianças, insistem, com um método mais abrangente, em fazer o mesmo.
Há muito tempo, percebi que o meio ambiente era apenas um chamariz “bonitinho”. Se eu caísse nessa armadilha, possivelmente faria o “L”, botaria um boné do MST, vestiria uma camiseta do Che Guevara, tremularia uma bandeira do Hamas, leria Foucault, cantaria a Internacional Socialista...
Bolsoringa, corruptela das palavras Bolsonaro e Coringa, traduz o comportamento destruidor do Capitão. Cansado de ser enganado por políticos polidos, fala mansa, ternos bem cortados e respeitadores da chamada liturgia do cargo, articulando às escondidas, ciosamente costurando exitosos acordos e dialogando com a oposição, queria um presidente que chegasse chutando a porta, voando com os dois pés no peito, malucão, boquirroto e com um portfólio de piadas ruins (tiozão do churrasco).
O sujeito sem modos, até engraçado, de um autoritarismo folclórico, anacrônico é o presidente. O frequentador de programas “trash”, como o SuperPop, e zoado no CQC, chegou lá. No início, achei bem cômico aquele militar sisudo e mal ajambrado, nos aeroportos, sendo carregado nos ombros aos gritos de “1,2,3... 4,5mil... queremos Bolsonaro, presidente do Brasil”. Sinceramente, achei que era curtição da molecada a fim de colher algumas boas fotografias para o Facebook. Engano. O cara estava sendo conduzido ao “trono”. “Trono” que, segundo ele, só Deus tira ele de lá.
Tirá-lo de lá, ou pelo menos evitar sua reeleição, é a razão de viver (“leitmotiv”) de muitos. Supremo Tribunal Federal (STF), Tribunal Superior Eleitoral (TSE), velha imprensa e pessoas que ficam mais felizes quando chega o motoboy trazendo uma “meia frango com Catupiry, meia quatro queijos” do que quando chega água no Nordeste.
A resistência de ministros do STF, que esticam seus tentáculos ao TSE, joga o obscuro sistema eleitoral ainda mais em suspeita. Pavimentando o caminho para os antiBolsonaro e complicando a vida dos apoiadores do Bolsonaro, os ministros fazem conluios, propagandas, reuniões e jantares com a oposição. Os conluios, manobras e muitas ilegalidades vão sendo realizadas escondidas nas frases contendo as palavras e expressões “democracia” (e derivadas), “republicano” e “Estado democrático de direito”.
A situação nunca esteve boa, e agora observamos a olho nu uma força-tarefa e a oposição se movimentando para sabotar e derrubar o governo atual. Com essas investidas, o maior prejudicado é o povo. E eles não estão nem aí. Por isso tem que ter alguém malucão lá: Bolsoringa.
Bolsonaro não só é refratário a todo tipo de ofensa, como cresce em popularidade. Como não surtiu o efeito esperado, as ofensas são dirigidas aos seus eleitores. Recentemente, Paola Carosella chamou-os de “burros e escrotos”; Joice Hasselmann, usando a mesma tática desesperada e suicida, classificou-os como “asquerosos e lixo em forma de gente”. Todo esse “ódio do bem” revela o desespero, principalmente da política Joice.
Antes, acreditávamos na infiltração de bandidos (disfarçados) utilizando as instituições a serviço do crime; hoje, ficamos surpresos com a “bandidolatria”. Eles estão aí.
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🔵 Andando com umas companhias esquisitas 🔵
Esse é o tipo de aventura que só se vive na Disney ou, com muita sorte e baixo orçamento, no Beto Carrero World. É provável que, com parcas finanças, você tenha visto no filme ‘O Mágico de Oz’. Porém, mesmo sem nenhuma moeda, vivi esta improvável e inesquecível saga.
Nas férias de verão, um trenzinho cheio de personagens (como a Carreta Furacão) surgia como opção de entretenimento infantil: Snoopy, Fofão, Mickey, Pica-pau, Cuca etc ficavam responsáveis de enganar os pirralhos. Mesmo quem não tinha dinheiro para embarcar no trem, queria participar da atração. Entre os meninos menos endinheirados estava eu, também porque essa modalidade era mais divertida. Assim seguia o séquito de moleques com bicicleta ou correndo, interagindo com os bonecos.
No meio do périplo animado, o Fofão e o Snoopy ou o Mickey foram deixados para trás. Eu e uns 3 moleques, não lembro se ficamos no caminho ou em solidariedade aos personagens, ficamos caminhando pelas ruas do bairro numa configuração curiosa. Confesso, a imagem daquela odisseia foi uma das coisas mais tristes de se ver: algumas crianças conduzido personagens infantis perdidos.
A inusitada saga se estendeu pelas principais ruas e avenidas do bairro, intrigando os transeuntes e comerciantes da região. Três ou quatro garotos acompanhados do Fofão e outro animal de desenho animado caminhando com a certeza de quem sabe aonde vão, não é algo que se vê todo dia. Afinal, íamos ao ponto inicial do trenzinho. Nós, os “humanos” da expedição assumimos o dever moral de entregar nossos novos amiguinhos sãos e salvos.
Quanto mais longe, mais poética devia ser a inédita cena dos nossos heróis seguindo com um firme propósito. No trajeto, fomos conversando com os personagens. Certamente, aquele passeio já estava valendo muito mais que uma simples volta de trem.
O final da fábula teve uma triste coincidência. Como a busca terminou juntamente ao expediente, testemunhamos Fofão e Snoopy ou Mickey retirando suas respectivas cabeças com sorrisos estampados, revelando trabalhadores extremamente mal-humorados. A decepção foi que toda aquela alegria era uma farsa. Descobrimos, Fofão e Mickey ou Snoopy realizaram a epopeia profundamente entediados e querendo que aquele maçante imprevisto acabasse logo.
Essa jornada serviu para eu desconfiar de mascotes de equipes, vendedores fantasiados, animadores de parques de diversões e personagens de trens que sorriem o tempo todo. Descobri que meus novos amigos de “papel marché” e tecido eram uma fraude.
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🔴 A revolução dos imbecis e a revelação do imbecil 🔴
Tem uma turminha que cospe palavras e expressões fora de contexto. Tudo dá a entender que nem sabem o sentido do que dizem, nem sequer o significado das palavras e expressões, que funcionam como coringas. Fiquem espertos, estão querendo te enganar, quando tascam: democracia (e variações), republicano e Estado democrático de direito. Quem diz isso, do nada, para se livrar de uma questão embaraçosa, provavelmente, está querendo tergiversar e, por sua vez, te engambelar. Afinal, quem seria contra o Estado democrático de direito (seja lá o que isso signifique)? Quem contestaria uma frase que contivesse a palavra “democracia” (essa palavra tão linda)?
Temos visto ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), principalmente Luís Roberto Barroso, Edson Fachin e Alexandre de Moraes e o presidente do Senado Federal se inflando com arrogância, suntuosidade e pompa para embutir um (ou mais) destes termos. Tenha certeza, esse fingimento todo é para nos enganar. Ultimamente, esta estratégia está sendo usada para “rasgar” a Constituição.
Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, exerce a função em prol apenas dos seus interesses advocatícios. Esqueceu-se das prerrogativas de equilibrar os pesos e contrapesos dos três poderes e se lembrou do “quem quer rir, tem que fazer rir”, “cê me ajuda que eu te ajudo” ou “uma mão lava a outra”.
Pacheco acha que sua covardia e “rabo preso” soam como postura conciliadora. Nessa crença, deve ter se entupido de remédio tarja preta e lançou (como balão de ensaio) seu nome como uma possível terceira via (mais uma). Seu principal atributo (segundo ele mesmo): parecer com o conterrâneo Juscelino Kubitschek. Esse cara gosta de brincar de presidente da República em seus pronunciamentos.
Blindado, o STF segue urdindo nossa fraude eleitoral a céu aberto. No esquema “Diga aonde você vai, que eu vou varrendo”. Essas eleições, nas quais já se escolheu quem pode e quem não pode ganhar, só não serão tão absurdamente roubadas quanto o escrutínio norte-americano.
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🔵 14 Bis e as meninas dançarinas do Centro Cultural 🔵
Chegamos atrasados, mas o show não havia começado. A sorte foi não existir lugar para sentar. O jeito era ficar em pé ou sentado no chão... ao lado e da mesma altura do palco. Foi simplesmente o melhor lugar para se assistir a um show musical: o 14 Bis.
Foi muito interessante testemunhar a tensão de um show. Estávamos tão próximos que os impropérios do Claudio Venturini e Marcão pareciam endereçados a nós. Entretanto, era o “roadie” que, entre fios e botões, recebia os xingamentos, procurando a regulagem ideal do som.
Ver uma apresentação tão próximo do palco era uma experiência única, mas também frustrante, porque eu estava acostumado a assistir, de longe, a uma ilusão. Contudo, pelo contrário, o que testemunhei foi o conjunto musical, cujas letras falam de futuro, esperança e amor, distribuindo farto repertório de palavrões para o pobre funcionário. Sendo assim, a magia da música e seus significados perderam sua magia e tudo parecia uma fábrica de salsichas. Diria mais, eu paguei para testemunhar o Claudio Venturini e o Marcão agindo como quem briga no trânsito ou em um boteco. Jamais pagaria para isso. A decepção foi como visitar a cozinha de um restaurante francês e encontrar larvas, ratos e baratas.
No entanto, algo longe do concerto chamava mais a atenção. Duas moças dançavam, cabelos compridos soltos, roupas indianas e descalças. As duas pareciam estar num transe, numa dança pagã, reverenciado o Lua. Confesso, aquilo estava muito mais interessante que o show do 14 Bis e seu festival de reclamações.
O ineditismo e a inesperada performance foi notada pelo 14 Bis, de modo que o humilde roadie teve um descanso merecido. Suspeito até que o incrível número de dança ocupou a atenção do garoto. Enfim, o técnico, depois de “comer o pão que o diabo amassou”, teve seu sossego, assistindo de graça a um show na hora do trabalho.
Justamente quando fiquei no pé do palco, teoricamente no melhor lugar, o melhor espetáculo estava na plateia.
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Chorão — Marginal Alado 🔘
Excelente o documentário “Chorão - Marginal Alado”. Documentário, que deveria ser um filme, tem mais a característica de uma biografia do vocalista da banda “Charlie Brown Jr.”. Embora, além do ótimo baixista Champignon, a banda tivesse bons músicos, quem se destacava era o Chorão — muito pela personalidade explosiva. Ele foi um roqueiro de verdade, com a tal “atitude” antes de a palavra virar modinha e esvaziar-se.
Alexandre Magno Abrão, o Chorão, iniciou como “bandleader” “metendo o pé na porta”. Ele subiu no palco para “brincar”, enquanto o vocalista ia ao banheiro. Cantou uma do “Suicidal Tendencies”, a galera pirou e ele ficou em cima de um palco até o fim da vida.
O documentário passeia por diversas fases do músico, bem como do “Charlie Brown”. “Brother” ou marrento — Marcelo Camelo, João Gordo e Champignon conheceram a fúria de Chorão —, o cara foi a tradução do (mau) comportamento de um roqueiro. O filme enriquece muito e ganha aspecto de documentário clássico com depoimentos da esposa, filho, amigos, inimigos e músicos (a banda “Charlie Brown Jr.”, Marcelo Nova, João Gordo, Zeca Baleiro etc).
Chorão, o Marginal Alado, cantava e discursava com a linguagem da molecada (preferencialmente aquela que os pais não compreendem). Usando mais palavrões do que vírgulas e dando conselhos tão óbvios quanto livro de autoajuda de banca de jornal, ele falava direto, como quem conhecia os atalhos, sem parecer piegas. O roqueiro e skatista foi a síntese do “faça o que eu falo, não faça o que eu faço”.
Apesar de aparentemente possuir tudo o que uma pessoa quer ter, algo o deixava introspectivo. Essa introspecção escancarou a solidão no centro da multidão. O marginal entrou demais para a sociedade que ele gostaria de estar distante. Tudo isso levou à fuga mais destrutiva: drogas. Essa combinação era perfeita para resultar no óbvio. Sim, a tendência suicida venceu novamente.
Eu não considero “spoilers” fatos tão conhecidos porque foram muito noticiados, mas quem ainda não sabe da história completa, o documentário traz algumas surpresas.
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Se beber, não dirija 🔵
Entrei no meu carro e comecei a persegui-lo. Era um Voyage antiguinho, portanto equivalente ao meu Gol L 86 (“Gol quadrado”, portanto equivalentemente antigo), também da Volksvagen. A perseguição insana e implacável não poderia acabar bem. A busca frenética terminou depois de uma curva, de maneira abrupta, contra a vontade de ambos, mas cumprindo a previsibilidade.
Recapitulando, sem chances de neutralização, o motorista seguia em ininterrupta e veloz corrida. Impossibilitado de detê-lo, mas sem perdê-lo de vista, eu me aventurava com o valente Gol. A perseguição só cessou após uma curva. Depois da inoportuna esquina, na rua transversal, vinha outro veículo. Isto fez com que o Voyage fosse freado, e o golzinho também parasse. Só que em sua traseira.
A caçada frenética findou somente com um desastre automobilístico. Eu e o outro piloto saímos dos carros para conferir os prejuízos. Os outros motoristas, pedestres e alguns moradores da região aguardavam uma briga, tiros ou, pelo menos, uma ofensa e alguns xingamentos.
[Minutos atrás]
Depois de várias cervejas (antes da lei: “Se beber, não dirija”), saímos com o Gol e o Voyage rumo à casa das nossas amigas. Chegando lá, mais álcool e um pouco de “stress” foram suficientes para o alterado piloto do Voyage ser visto arrancando e “cantando os pneus”, procurando um desastre automobilístico e consequentemente a morte. Diante do espanto e das súplicas, não me restava outra atitude senão persegui-lo.
[Voltando à batida]
O desfecho do desastre frustrou todos os expectadores. Contrariando as expectativas, não houve as esperadas vias de fato.
Diálogo dos proprietários dos automóveis envolvidos no mini-engavetamento:
— O que a gente fez!?
— Amanhã a gente conversa.
Acredito que todos perceberam que se tratava de dois amigos numa infeliz jornada. Cada um saiu com seu veículo, algum prejuízo e muita dor de cabeça.
Minha única batida de carro não causou nenhum ferimento, não atropelou ninguém e não deu em perda total (PT), mas talvez entre para o “Guiness Book” (Livro dos Recordes) como um ridículo “menor engavetamento do mundo”.
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🔵 Os porões da 25 de Março 🔵
Zonas Norte, Sul, Leste, Oeste, Centro e outras cidades. Trabalhando como promotor de vendas em São Paulo, conheci pessoas, experimentei sabores e tive contato com idiossincrasias de cada bairro. No entanto, foi na região central que cheguei à pior situação que eu jamais havia arriscado conhecer. Se eu houvesse sonhado com essa asquerosa provação, acordaria aliviado, sem desejar tão triste realidade ao meu pior inimigo ou à mais ignóbil das criaturas que vagou pelo planeta Terra.
Pois bem (ou mal), visitei uma intransitável loja, na intransitável rua 25 de Março. Fiz os procedimentos, abasteci a mercadoria e saí da loja. A caminho de outra loja, me lembrei de cortar o número do CNPJ das caixas de papelão para comprovar o abastecimento e, assim, complementar o salário. Fácil, era só ir à rua detrás e localizar as caixas que eu esvaziara há pouco. Só que não foi tão fácil.
Tive que procurar as caixas desmontadas num lixão desconhecido por mim. Aquilo era o submundo do paraíso das compras populares que eu conhecia. De repente me vi à caça do que restou do meu trabalho de reposição da mercadoria. Mas aquele subproduto tinha algum valor e eu estava ali, entre ratos, baratas e o chorume fétido procurando o meu precioso lixo. Essa busca incessante e heroica me renderia umas indispensáveis moedas a mais.
Localizados os invólucros, seria moleza a captura. A minha sensação de propriedade esbarrou com a dura realidade da importância das caixas vazias para quem estava alheio ao “paraíso das compras” e das sacolas cheias. Eu, diluído no vai e vem de pessoas, sempre estive distante daquele universo quase paralelo.
Fui direto arrancando as caixas de papelão para destacar o CNPJ para arrecadar uns suados trocados a mais no quinto dia útil. O novo dono dos papelões descartados registrou a minha investida como tentativa de furto. Ou seja, naquele lugar e momento, eu significava o perigo. Com a disposição para brigas e discussões e a insensibilidade próprias da pouca idade, engatei um entusiasmado bate-boca por, aparentemente, um punhado de lixo.
A pendenga pelo monturo estava ganhando proporções inimagináveis e juntando um tipo de gangue. Deduzi que todos ali conhecessem o meu antagonista ou automaticamente o defendessem por simples corporativismo. A minha situação não era nada boa e a conta do hospital ou os gastos funerários seriam maiores que o epopeico abono.
Analisando com distanciamento a situação que me meti, calculei que estava indo longe demais e era o momento de recuar. Expliquei o meu lado, cortei o tal CNPJ e fugi dali.
Na falta de estudos e alguma ambição, eu poderia imaginar acabar nos porões da rua 25 de Março, disputando uma caixa de papelão, mas não brigar por isso, proporcionando um espetáculo digno da repreensão dos camelôs, lojistas, transeuntes e outros catadores da região.
Me arriscar nos “porões do navio”, proporcionaram um choque inesperado com a realidade. A partir desse dia, vi que existia uma outra realidade escondida das sacolas cheias e do “fantástico paraíso das compras”.
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💊 Capítulo 2 — Hospitalizado 💊
Eu me sentia estranho porque eu era um estranho. Quando resolvi sair do quarto, não sabia que iria encontrar um lugar que, para muitos, funcionava como um clube. Mas era um hospital.
Aquele uniforme amarelo claro desbotado, somado à minha crescente dificuldade para caminhar, portanto débil, dava a impressão de ser um louco ameaçador à solta.
Fui ao salão central daquele andar do hospital. A escadaria havia sido dominada pelos fumantes e convertida num irrespirável, embora animado, fumódromo. A cada aproximação, crescia o que parecia ser a reunião de elenco do “The Walking Dead” ou qualquer outro filme de apocalipse zumbi.
Notei um inexplicável orgulho de quem estava institucionalizado. Essas pessoas faziam questão de demonstrar conhecimento de como as coisas funcionavam ali, o dia a dia, horários, atalhos e quem é quem. Eu só queria sair dali. Aquela não era a minha realidade. Ali não era o meu lugar.
Aos poucos, os pacientes voltaram para seus quartos sem precisarem ser chamados, conhecendo a rotina, respeitando o horário do café, dos remédios ou exames. Ainda refletindo como alheio àquilo tudo, concluí que, ali dentro como aqui fora, sempre os mais inseguros precisam de uma turma para se “garantir”. Naquele ambiente, esse local era o fumódromo.
Para muitos, aquela janela do 12º andar já significou a solução de todos os problemas. Para mim, aquela ampla janela me separara, temporariamente, de tudo de bom que já vivi e as escadas (ou o elevador), de tudo de bom que viria.
Ficamos eu e uma budista, que parecia ser a única pessoa não institucionalizada, não fumante, ainda com uma vida do lado de fora daquele hospital, por isso, alguém que me entenderia. A budista acertou ao oferecer o que julgou possuir de maior valor. Compartilhou um mantra: nam myoho renge kyo.
Para quem achou que o máximo que ganharia naquela escada era muita fumaça na cara, um mantra ofertado por quem queria sair dali, parecia íntimo, especial, raro e revigorante.
“Todos têm a capacidade de superar qualquer dificuldade e de transformar seu sofrimento a cada instante”.
(Pensamento budista)
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Capítulo 1 — Oftalmologista 💊
Algumas complicações talvez fossem dificuldades oftalmológicas (mesmo que também motoras), afinal tudo surgiu juntamente à vista dupla. Como o relato, em casa, do que estava acontecendo não surtia efeito, fui ao médico oftalmologista, achando que a complicação era por causa da falta do uso dos óculos.
No consultório, o médico surgiu. A primeira impressão do que vi, me deixou ressabiado. A cara de fugitivo de manicômio não assustaria muito, contanto que o diagnóstico fosse preciso e animador. A real preocupação começou quando notei algo muito errado com o homem de branco.
Com a proximidade da traquitana para “as vista”, ouvi os intermináveis estalinhos bilabiais que o doutor disparava. Certamente, numa distância socialmente aceitável eu não teria percebido o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Mas com a proximidade do exame oftalmológico eu ouvia muito próxima e com muita frequência a emissão dos estalinhos. Isso só me deixava mais nervoso. Era assustador ter que admitir, mas o responsável pelo tratamento talvez fosse beneficiado pela política antimanicomial. Pior, um fugitivo de algum sanatório para pacientes psiquiátricos de alta periculosidade. Lógico que fiquei apavorado ao constatar que o doutor precisava de tratamento urgente.
A espera causava angústia à medida que só aumentava a suspeita de que o resultado não seria nada animador, de modo que eu já lembrava (como num filme) dos excelentes dias vividos (até o atual 2009), adivinhando que dali pra frente tudo seria diferente.
Resultado: solicitação de tomografia computadorizada. Saí do oftalmologista que necessitava de ajuda médica e fui ao Hospital do Servidor Público. O doutor com tique nervoso estava no caminho correto. O que estava desencadeando os sintomas era neurológico, portanto grave. Dei o fora dali antes que eu saísse com TOC herdado do “médico maluco”.
Corri para o Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE), no Ibirapuera, a fim de realizar o exame solicitado. Atravessei a Avenida Tiradentes correndo. Não sabia que aquele seria meu último pique e ficaria internado por 2 meses (incluindo UTI).
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Bolsa Família 🔵
Cada estande ou palestra só tinha um assunto: dinheiro; os papos com amigos e parentes giravam em torno de um único tema: investimento; eu gostava de visitar dois lugares: corretora e Bovespa; meu computador era ligado quando abria o pregão e desligado ao término da transação de papéis; bancas de jornal, programas de rádio e “sites”, praticamente tudo o que remetesse ao mercado bursátil era do meu interesse; até o “economês” foi instalado no meu vocabulário.
Entrei nessa no auge da crise de 2008. Não deixou de ser uma estratégia, pois o mercado estava em baixa (barato). Acontece que os outros investidores estavam saindo correndo, talvez da vida. Contrariando o conhecido “efeito manada”, o mercado acalmou. A longo prazo compensava.
O Mercado de Capitais era meu novo videogame, a diferença eram os valores que eu ganhava ou perdia em compras e vendas que foram realizadas com a volúpia e a facilidade de um toque no teclado do computador on-line. Eu fui um investidor classificado como “agressivo”. Meus “day trades” (compra e venda) talvez revelassem mais um sinal patológico de ansiedade do que uma aversão ao risco de “dormir comprado”.
Eu percorria corredores, entrava em estandes, assistia a palestras e pegava brindes na Expomoney, a Disneylândia de um legítimo porco capitalista.
“Initial Public Offering” (IPO), dividendos, “day trade”, bastava decorar algumas palavras e expressões (várias em inglês) e falar um “economês” castiço e demonstrar alguma desenvoltura no universo de compra e venda de ações, para servir-se na mesa de café-da-tarde que a corretora dispunha aos investidores. Para dispor do maravilhoso banquete, bastava mimetizar o Sardenberg ou, inclusive, a Miriam Leitão. Nesse debate, eu pude, enfim, aplicar meus conhecimentos da Crise de 1929.
Observando a voracidade como os outros investidores atacavam a mesa de comida, tive a absoluta impressão de que não era só eu que, apesar da roupa social, dava prejuízo à corretora. Acredito que naquele auditório só havia picaretas fingindo ser Warren Buffet, inclusive a turma da mesa diretora. Nem alta da Petrobras e Vale eram mais importantes que aquele sanduíche de presunto e queijo. Pelo menos naquele momento.
Éramos uma turma brincando de gente séria. Igual a políticos, fingíamos estar preocupados com o futuro da nação. Na verdade, como interesseiros que éramos, tudo o que nos unia eram: a ganância, o medo e a fome.