Raquel Mesquita

Raquel Mesquita

n. 1985 PT PT

n. 1985-03-21, Matosinhos

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Destino

Descalça, sigo adiante, pela estrada da loucura que me atrai.
É este o inevitável destino de quem na vida sempre cai!


Raquel Mesquita, in "Ousadia de Sentir"
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Poemas

78

...momento

Ah, se eu pudesse fazer o tempo parar! 
Fazer o tempo ter tempo de apreciar este momento em que nos damos ao tempo para amar!
16

Sento-me Para Te Escrever

Sento-me para te escrever,
Perdida na chuva que corre.
O whisky bem ali, pronto a beber,
E na mão o cigarro que se acaba.
Sento-me para te escrever,
E não acontece nada.
Porque, como a chuva constante,
Que pelo vidro escorre,
Sento-me para te escrever,
Mas, como nós,
Uma a uma,
Toda a palavra morre.
88

Porquê?!

Porquê?
Perguntas-me tu,
Como quem finge que não sente.
Olhar de ornato nu,
De quem sabe que mente,
Teimando em ignorar o que deveras vê!
Porquê?!
77

Dor

Eu queria escrever mas não consigo.
Porque é maior do que eu,
Esta dor profunda que trago comigo,
Este inferno que é só meu…
Paralisa-me as mãos e os sentidos.
Demência? Pois, talvez!
Mas que se calem os condoídos,
Os que me pedem para sonhar,
Pois toda a vez que oiço:
- Calma, tudo vai passar!
Com clemência,
É quando sinto já ter morrido!
69

Carta ao amigo (que nunca foi)

Felizes os que não mentem, nem a si nem a ninguém.
Felizes os que não vivem de desculpas nem de calculismos fracos.
Felizes os que não têm que lidar com plátanos.
Felizes os que, por sua vontade, arranjam tempo para regar as suas plantas.
Felizes os que não passam por cima de amizades para satisfazer caprichos infantis.
Felizes os que não vivem de exibicionismo e desfiles de vaidade.
Felizes os que não tomam acções para ficar bem na fotografia ou marcar pontos.
Felizes os que não confundem ilusão com paixão e, sobretudo, os que não iludem ninguém.
Felizes os que têm a nobreza de preferir a franqueza à cordialidade hipócrita.
Felizes os que não se enredam no seu umbigo e no seu mundinho banal.
Felizes os que não ficam pela superficialidade e permanecem.
Felizes os que se distinguem por não descartarem as pessoas.
Felizes os que não esquecem e sabem manter a palavra e a verticalidade.
Felizes os que não se escudam em silêncios e distâncias cobardes.
Felizes os que sabem ser homens, os que se assumem e se confrontam.
Felizes os que não fogem nem se melindram com as verdades.
Felizes os que não acumulam fracassos emocionais com a sede de conquista barata.
Felizes os que sabem esperar e não preferem o atalho fácil.
Felizes os que acrescentam e nos tornam gratos pela vida.
Felizes os que conhecem o significado da verdade e a sentem na plenitude das emoções.
E por tudo isto, desejo-te as felicidades que mereces… e dessas, desejo-te as maiores!
29

Dez Minutos

De dez em dez minutos,
Há só um silêncio onde a tua voz se cala.
E, a cada minuto, aumenta a distância
Onde se perde a graça.
Porque de dez em dez minutos,
É, decerto, outra a voz que te fala,
E nesse compasso desisto e calo a ânsia.
Assim, de dez em dez minutos,
Percebo que,
Antes de tropeçar em ti,
Naquela esquina fria e gasta,
Melhor seria que tivesse caído em desgraça.
Porque a paixão é febre cega,
A rameira de veludo, da mentira, a entusiasta.
74

Ele

Hoje, quando acordei, ele disse:
- Escreve-me um poema, Raquel!
E eu fiquei parada,
Assim, como um rio que adormece,
Uma água estagnada.
Pois, tão cega, já não sabia,
Se poesia era ele quem me falava,
Os olhos e os gestos,
Ah, e tudo o que ele fazia!
Ou se era, afinal, em cada palavra, 
O poema mais profundo,
Que eu lhe escrevia.
78

Saudades Nenhumas

Saudades tuas?
Do tempo sem tempo,
Na melodia de notas soltas.
Saudades tuas?
Das promessas na mentira envoltas.
Meu amigo, eu bem tento,
Mas saudades tuas?
Sinceramente,
Não tenho nenhumas!
80

O Abismo de Ti

De todas as viagens que fiz,
Em que fui, por entre todas,
A mulher mais triste e mais infeliz,
A tua amiga mais desgraçada.
De todas as viagens que fiz,
Tão perdida, meu amor,
Sempre tão abandonada.
É a minha boca que em versos diz,
Ah, foi essa a melhor!
De todas as viagens que fiz,
Oh meu amor! Apesar da dor,
Aquela que recordarei até à morte,
Quando de mim me esqueci,
E me deixei levar à sorte,
Pelo mistério do teu corpo,
O eterno abismo que subi.
68

Lembrar

Nada passa por mim,
Tudo fica,
O que vejo, o que toco.
Porque o que passa, não se abraça,
E se não fica, não teve graça.
Em mim, tudo fica...
Que o melhor da vida é não esquecer.
Assim, como se enganasse a morte,
Como se prolongasse um sentimento que escorre,
Como se a vida não tivesse fim.
64

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