Lista de Poemas
Escrever é foda
O que faço com meus poemas
que não atendem ao meu nível de exigência?
Relego-os simplesmente à lixeira?
Minha relação com as palavras é terrível.
Eu as espezinho até dizer chega
e quando elas estão quase entregando os pontos
eu as torturo mais um pouco
só de farra
só pra provocar.
Será que é por isso que volta e meia o resultado é pífio e eu esmurro as paredes do quarto, indignado, querendo consertar, sem poder, o que já veio destruído na essência?
Merda.
Começei a filosofar de novo.
Não é hoje que eu vou descobrir a resposta para esse teorema.
406
Noite de estreia
O teatro, lotado.
Sentado à minha cadeira (que não era a que eu queria, mas fazer o quê, quem mandou comprar o ingresso em cima da hora?)
vejo o ator, moreno, vestes pretas, barbudo, barriga saliente,
falando de Kafka e da relação tumultuada que sempre teve com o pai.
O ambiente é soturno
o ar-condicionado um pouco acima do ideal
a plateia...
A plateia é outro departamento.
Na primeira fileira
Ah! a primeira fileira...
Eu era novo e inexperiente
estudante de colégio público
e já reclamava da primeira fileira.
Aqueles grandes enganadores
que passam a vida dissimulando
tentando convencer seus professores de que estão realmente interessados.
Pura balela!
No teatro a primeira fileira é aquele lugar sagrado
dos que querem acreditar piamente
- e com isso fazerem os demais acreditarem também -
que gostam (ou entendem) do assunto.
Outra vez: pura balela.
Os adolescentes que afobadamente se aboletaram
encabeçando a plateia
tiram selfies
fofocam
conversam paralelamente ao espetáculo
não entendem sequer 1% do que está sendo encenado.
É...
O meu professor de filosofia da faculdade estava certo:
não existe nada mais cruel e segregador do que o conhecimento.
E as palavras de Kafka
a sua mágoa
o seu ressentimento
a verdade que está escondida ali dentro
incomoda.
Não bastasse a indelicadeza e a intolerância da juventude
ainda preciso conviver com aqueles casais
que trazem os filhos pequenos
por não terem com quem os deixar.
Não existe pior plateia
do que pessoas que não atendem à classificação indicativa.
E a consequência disso é dividir o espetáculo
com seus ruídos, pitis, reclamações, enfado.
É aquele momento em que o corpo parece querer dizer
"vá embora agora!"
mas você simplesmente esnoba o comentário
e decide encarar a batalha de frente.
Lágrimas
berros
incomunicabilidade
o ator se desdobra no palco
apresenta um dos maiores gênios da literatura mundial
sob uma ótica nada tradicional.
Naquele momento
com aquela plateia discordante
Kafka sou eu.
E eu quero ser Kafka.
Eu tenho inveja do ator que encena o monólogo
eu quero que ele troque de lugar comigo.
Agora.
Ao fim de pouco mais de 70 minutos
os aplausos (mesmo os de quem não entendeu nada)
ele pede um pequeno intervalo
convida para o debate posterior
mas eu tenho um outro compromisso
e não poderei permanecer.
Pena!
Fica a curiosidade de saber o que aconteceu depois:
o festival ensandecido de
fotos+autógrafos+abraços+rasgação de seda
e as perguntas óbvias
e a puxação de saco
etc etc etc.
Quer saber?
Foi melhor assim.
Bendito compromisso.
Uma das gestoras do teatro vem ao palco
para anunciar as próximas atrações da casa:
Ionesco, Suassuna, Joyce.
Fico tentado em perguntar qual Joyce
mas ela desce do palco rapidamente
após agradecer a presença de todos.
E eu vou embora
tentando mais uma vez
compreender que mundo é esse
onde é tão difícil encontrar o silêncio...
457
Game over
Aquele beijo
poderia ter sido o último
ou o primeiro.
Dava na mesma.
Eu não senti nada.
Bem como seus carinhos
ou palavras de amor.
As serenatas então? Ihhh!!!
Não funcionaram.
Nada funcionou.
Você não estava lá.
Não de verdade.
Não de corpo presente.
O que eu vi lá foi uma miragem
um holograma muito bem feito
posto ali para me enganar.
E só.
Agora chega.
De que adianta
continuar perdendo tempo
com o que não aconteceu?
Você quer passar por isso?
Por todo esse sofrimento?
Quantas vezes mais?
Por quanto tempo mais
todas essas mentiras
proporcionadas pelas desculpas
que nós criamos um para o outro?
Reviver mais uma vez
o que não foi sentido
mas precisa de uma explicação?
Você é desses?
Eu não.
412
Reticências
Gosto de reticências.
Elas retratam bem
o meu vazio existencial
a minha necessidade de silêncio
as minhas dúvidas constantes
e perecíveis.
Gosto do que elas são capazes de fazer
com as minhas palavras atormentadas
que teimam em manchar o papel
tão imprecisas que são.
O que seria da minha poesia
não fossem as malditas
reticências?!
421
Nonsense
Está pronta?
Não.
Mas tem que estar!!!
Mas não estou.
Por quê?
Não sei. Só não estou.
Mas você se preparou esse tempo todo...
Eu sei, mas...
Mas o quê?
Não sei.
Sabe ou não sabe?
Sei lá...
Você é confusa, sabia?
Eu sei.
Sabe mesmo?
Quer dizer, não... er... Quer dizer...
Ih!
Pois é...
O que você quer dizer agora?
Agora?
é.
Nada.
Nada?
Nada.
Por quê?
Porque...
E continua
continua
continua
até que tudo mais perca o sentido
ou se perca de vista
na ausência de palavras
que respondam
o que não existe de fato.
As conversas de ambas
eram nesse nível...
447
Processo de criação
Sabe a cabeça?
Latejando?
De forma torturante?
Procurando ideias, qualquer ideia, que valha a pena, que tenha verossimilhança, que dê para trabalhar, desdobrar, antes que eu enlouqueça?
E quando você está quase chegando nela algo acontece, um barulho, um chiado, um sussurro, um apito estridente, uma interrupção babaca, um vizinho insuportável, e ela se esvai, como água escapando por entre os dedos...
Sabe?Hoje eu tô assim...
É a oitava vez só nesse mês que isso me acontece.
Tá virando rotina.
E eu detesto rotina.
501
Você não se cansa, não?
Eu já sei o que você vai dizer
já ouvi essa historinha umas mil vezes
não quero mais saber
e antes que venha com aquele papo furado de religião, evangelizar
já parou para se perguntar uma vez só
se eu realmente estou afim de te escutar?
Se alguma vez eu te escutei
toda vez que você me importunou com essa ladainha
que se torna pior a cada vez que você repete?
Então?
Tá esperando o quê?
Um convite pra ir embora?
509
Caso perdido?!
Eu já acordei tantas vezes
me sentindo um caso perdido
que chega um determinado momento
em que você realmente começa a acreditar
que não passa de algo descartável.
E eu preciso parar de ter pensamentos como esse!
525
Bloco do eu sozinho
Não me falta vontade
de gritar
de espernear
de dizer o que sinto
e penso
aos berros
de qualquer jeito
à revelia de todos
furioso
aos borbotões
e obrigá-los a me ouvir
a amarrá-los a uma cadeira
falar
falar
FALAR
em voz alta
como nunca antes.
Mas...
De que adianta?
Ninguém parece ouvir.
Todos andam por demais loucos
e surdos
e falando em excesso
sem saber exatamente o quê
e porquê.
É preciso algo mais
do que o simples esperneio.
É preciso algo mais
do que fúria
e lamento.
E eu não sei o que é.
Ainda não sei
o que é.
357
Hoje, não
Há de chegar o dia
em que eu me renda a tudo isso que aí está
e aceite a burrice como modo de vida
derrotado
castrado diante de um imbecilismo torpe, vil.
Até lá...
Ah! a vida
sempre cheia de até lás
e sua eterna mania de corromper o óbvio.
Até lá
que me aturem
ou me esqueçam
deixem-me em paz
em meu canto
apreciando esse grande espetáculo humano
onde o ordinário e o infeliz
dançam alucinadamente.
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