Roberto Queiroz

Roberto Queiroz

n. 1976 BR BR

Publicitário, carioca, escritor, poeta, multimídia, autor bissexto, metamorfose ambulante, amante dos Beats, Nelson Rodrigues, Shakespeare, Fausto Fawcett e Phillip K. Dick. Em suma: um miscelânea desse mundo controverso em que habitamos arduamente.

n. 1976-12-01, Rio de Janeiro

Perfil
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O Passado


O passado
é apenas um acúmulo de histórias mal contadas
que de tempos em tempos
precisamos decorar
para que os outros não descubram sob hipótese alguma
quem nós somos de verdade.

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Poemas

40

Brasil made in anywhere


- Cê precisa dar um upgrade na tua vida...
- Tô tão down hoje. Não sei porquê.
- Vai ter um festival foodtruck hoje no Terreirão do Samba. Achei a ideia o must!
- Calma, my friend. Vai ficar pronto no prazo. Take it easy, man!

Não suporto essas pessoas que estrangeirizam a própria fala. Misturam língua-mãe com expressões de outros idiomas que viram, ouviram, copiaram em algum programa, novela, jornal, livro da vida. E depois batem no peito, orgulhosos, e falam alguma calhordice do tipo "sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor" só porque viram a exibição do hino nacional durante o jogo da seleção brasileira de futebol. E põem a mão no peito e tudo...

Aff!!!

449

Noite de estreia



O teatro, lotado.
Sentado à minha cadeira (que não era a que eu queria, mas fazer o quê, quem mandou comprar o ingresso em cima da hora?)
vejo o ator, moreno, vestes pretas, barbudo, barriga saliente,
falando de Kafka e da relação tumultuada que sempre teve com o pai.
O ambiente é soturno
o ar-condicionado um pouco acima do ideal
a plateia...
A plateia é outro departamento.
Na primeira fileira
Ah! a primeira fileira...
Eu era novo e inexperiente
estudante de colégio público
e já reclamava da primeira fileira.
Aqueles grandes enganadores
que passam a vida dissimulando
tentando convencer seus professores de que estão realmente interessados.
Pura balela!
No teatro a primeira fileira é aquele lugar sagrado
dos que querem acreditar piamente
- e com isso fazerem os demais acreditarem também -
que gostam (ou entendem) do assunto.
Outra vez: pura balela.
Os adolescentes que afobadamente se aboletaram
encabeçando a plateia
tiram selfies
fofocam
conversam paralelamente ao espetáculo
não entendem sequer 1% do que está sendo encenado.
É...
O meu professor de filosofia da faculdade estava certo:
não existe nada mais cruel e segregador do que o conhecimento.
E as palavras de Kafka
a sua mágoa
o seu ressentimento
a verdade que está escondida ali dentro
incomoda.
Não bastasse a indelicadeza e a intolerância da juventude
ainda preciso conviver com aqueles casais
que trazem os filhos pequenos
por não terem com quem os deixar.
Não existe pior plateia
do que pessoas que não atendem à classificação indicativa.
E a consequência disso é dividir o espetáculo
com seus ruídos, pitis, reclamações, enfado.
É aquele momento em que o corpo parece querer dizer
"vá embora agora!"
mas você simplesmente esnoba o comentário
e decide encarar a batalha de frente.
Lágrimas
berros
incomunicabilidade
o ator se desdobra no palco
apresenta um dos maiores gênios da literatura mundial
sob uma ótica nada tradicional.
Naquele momento
com aquela plateia discordante
Kafka sou eu.
E eu quero ser Kafka.
Eu tenho inveja do ator que encena o monólogo
eu quero que ele troque de lugar comigo.
Agora.
Ao fim de pouco mais de 70 minutos
os aplausos (mesmo os de quem não entendeu nada)
ele pede um pequeno intervalo
convida para o debate posterior
mas eu tenho um outro compromisso
e não poderei permanecer.
Pena!
Fica a curiosidade de saber o que aconteceu depois:
o festival ensandecido de
fotos+autógrafos+abraços+rasgação de seda
e as perguntas óbvias
e a puxação de saco
etc etc etc.
Quer saber?
Foi melhor assim.
Bendito compromisso.
Uma das gestoras do teatro vem ao palco
para anunciar as próximas atrações da casa:
Ionesco, Suassuna, Joyce.
Fico tentado em perguntar qual Joyce
mas ela desce do palco rapidamente
após agradecer a presença de todos.
E eu vou embora
tentando mais uma vez
compreender que mundo é esse
onde é tão difícil encontrar o silêncio...
475

Esse inquieto sentimento, o amor


Quando eu entender o que é o amor
terá sido tarde demais
pois ele já terá se transformado em outra coisa
ou em seu exato oposto
e inconformado o perseguirei
atrás desse novo significado
que me fugirá eternamente por entre os dedos
tornando nossa batalha histórica
quem sabe até transformada em saga épica
e narrada para gerações posteriores
com o intuito de que elas
não caiam na mesma tentação que eu
e deixem o amor em seu devido lugar
livre de amarras e definições.
409

Romance moderno


Eu: quero você
Você: não tô afim
Eu: mas eu quero mesmo assim
Você: e se não der certo?
Eu: vamos tentar mesmo assim
Você: tem certeza?
Eu: não, nada é certeza.

E você pela primeira vez concorda
e eu me declaro ali
de uma vez por todas
antes que a coragem
fuja de mim.
501

Fim de história


Não me lembro se era dia
se era noite
se foi de propósito, intencional
ou simplesmente aconteceu
se foi ela que começou
ou se fui eu
ou se nenhum dos dois
aguentava mais
aquela situação.

Só sei que terminou.

2 anos
8 meses
14 dias

...e essa saudade
que não sai de dentro de mim.
472

Quando o fim chega


Eu me perdi
na verdade das suas palavras.

Eu não entendi
que o meu tempo era outro.

Eu acreditei
em todas as verdades absolutas possíveis
aquelas que até mesmo os ficcionistas
não acreditam mais.

Eu tentei
com todas as forças
lutar contra este sentimento.

Inútil.

A verdade é uma só:
você partiu.

E agora
eu tenho de administrar
o que sobrou da nossa história
antes que ela me destrua.

Só resta descobrir:
como?
464

...porque não custa nada


Eu espero agora
aquela verdade que você não disse
aquele beijo que você não deu
aquela confissão de culpa que você escondeu o tempo todo
aquela amizade sem ser dissimulada ou interesseira
alguém diferente daquela pessoa com quem eu vivi até hoje
alguém que não seja só um alguém
mais um na fila
outro nome na lista
um número de R.G.

Talvez eu esteja esperando demais
à toa
fazemos muito isso
nós, os sonhadores.

Mas eu ainda acredito e continuo esperando.

Só não sei explicar direito o porquê.

470

Epitáfio


Jaz aqui
nessa sepultura caindo aos pedaços
o mais mentiroso dos poetas.

Aquele que surrupiou ideias alheias
de autores antológicos
e teve a cara de pau
de nomeá-las suas.

Que NÃO descanse em paz.
557

Diga!


Dizer
o que já foi dito
é fácil.

Dizer
sem fazer sentido
pra quê?

Dizer
somente dizer
sem pensar
no que está sendo dito.

Dizer
além do infinito.

Dizer
e nada mais.

Nada mais de fugas
nada mais de lamentos
nada mais de ponto-e-vírgulas
sem espaços duplos
ou entrelinhas.

Dizer
antes que alguém mais
tome coragem
e roube minhas últimas palavras
e as transforme em grito.

E com elas
faça todo mundo
acordar.

Não quero acabar
como o silêncio:
mudo
inaudito
sem função...

...uma ode ao esquisito.
546

Recado aos aflitos


Vocês aí
que gritam pelas ruas como cães alucinados
que cantam músicas desesperadas
na vã tentativa de chamar a atenção
seja do jeito que for
que não cansam de cometer os mesmos erros
e acham que os culpados são sempre os outros.
Vocês mesmo.
Quando é que vocês irão crescer?
Quando é que irão parar de uma vez por todas
de se comportarem como crianças mimadas?
Já passou da hora de caírem na real
e pararem de esperar (ou acreditar)
naquelas utopias da década de 80
aquelas que vocês viviam torcendo, fazendo figa
elas não vão acontecer
elas não podem acontecer
sob pena de transformá-los em seres descartáveis
seres inúteis
à perpetuação da espécie.

Então
pelo amor de Deus
(ou de alguém, caso sejam ateus)
saiam das ruas
e me deixem dormir em paz
nem que seja apenas por uma noite.

Só por esta noite,
por favor...


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