Roberto Queiroz

Roberto Queiroz

n. 1976 BR BR

Publicitário, carioca, escritor, poeta, multimídia, autor bissexto, metamorfose ambulante, amante dos Beats, Nelson Rodrigues, Shakespeare, Fausto Fawcett e Phillip K. Dick. Em suma: um miscelânea desse mundo controverso em que habitamos arduamente.

n. 1976-12-01, Rio de Janeiro

Perfil
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Quando o meu coração encontra o teu


Quando o meu coração exausto
encontra o seu coração cansado
e tenta explicar o porquê
da minha condição de apaixonado
você parece ficar emocionada
só de ouvir as agruras desse meu coração
e o seu coração, sensibilizado,
emite vibrações de reciprocidade
que me fazem acreditar que o meu coração
e o seu coração, juntos,
não passam de uma só verdade
uma só interpretação dos fatos
e o que seria de nós
não fossem os nossos corações
eternos enamorados
e dependentes um do outro.

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Poemas

40

Game over


Aquele beijo
poderia ter sido o último
ou o primeiro.
Dava na mesma.
Eu não senti nada.
Bem como seus carinhos
ou palavras de amor.
As serenatas então? Ihhh!!!
Não funcionaram.
Nada funcionou.
Você não estava lá.
Não de verdade.
Não de corpo presente.
O que eu vi lá foi uma miragem
um holograma muito bem feito
posto ali para me enganar.
E só.

Agora chega.

De que adianta
continuar perdendo tempo
com o que não aconteceu?
Você quer passar por isso?
Por todo esse sofrimento?
Quantas vezes mais?
Por quanto tempo mais
todas essas mentiras
proporcionadas pelas desculpas
que nós criamos um para o outro?
Reviver mais uma vez
o que não foi sentido
mas precisa de uma explicação?

Você é desses?
Eu não.

429

...porque não custa nada


Eu espero agora
aquela verdade que você não disse
aquele beijo que você não deu
aquela confissão de culpa que você escondeu o tempo todo
aquela amizade sem ser dissimulada ou interesseira
alguém diferente daquela pessoa com quem eu vivi até hoje
alguém que não seja só um alguém
mais um na fila
outro nome na lista
um número de R.G.

Talvez eu esteja esperando demais
à toa
fazemos muito isso
nós, os sonhadores.

Mas eu ainda acredito e continuo esperando.

Só não sei explicar direito o porquê.

472

Quando eu for falar com Deus


Quando eu for falar com Deus
espero que Ele entenda toda a minha impaciência
acumulada durante todos esses anos
e tenha o mínimo senso de discernimento
para entender pelo menos 1% das minhas lamentações
e essa minha eterna mania de questionar tudo
os meus defeitos crônicos e repulsivos
e que esteja disposto a ouvir mais do que falar
em certos momentos.

Do contrário
não sei, não...

Talvez eu esteja só me enganando mesmo
procurando esconderijos em minha mente confusa
e acostumada a encarar gelo fino
como algo indispensável à própria evolução.
419

Reticências


Gosto de reticências.

Elas retratam bem
o meu vazio existencial
a minha necessidade de silêncio
as minhas dúvidas constantes
e perecíveis.

Gosto do que elas são capazes de fazer
com as minhas palavras atormentadas
que teimam em manchar o papel
tão imprecisas que são.

O que seria da minha poesia
não fossem as malditas
reticências?!
438

Fala aí !

Eu não quero escrever sobre bunda, palavrão, pornografia, corrupção policial, política, favela, UPP, homossexualismo, bruxos, fadas, anjos, vampiros, zumbis, emos, adolescentes desajustados, viciados, auto-ajuda, teorias conspiratórias...

Dito isto, agora me digam:

Sobre o que é que eu vou escrever
se parece não ter sobrado mais nenhum outro assunto
que seja digno de nota?

476

As cartas


Todas as cartas de amor
são ridículas
até o fim do primeiro parágrafo.

Do segundo em diante
eu já não as leio mais.
488

A verdadeira razão


Quem sabe ainda hoje
chego à conclusão
de que continuo escrevendo obsessivamente
para não enlouquecer de vez
em meio a toda essa hipérbole degenerativa
que anda circulando por aí
pelas ruas
sem respeitar o espaço de ninguém.
425

Você não se cansa, não?


Eu já sei o que você vai dizer
já ouvi essa historinha umas mil vezes
não quero mais saber
e antes que venha com aquele papo furado de religião, evangelizar
já parou para se perguntar uma vez só
se eu realmente estou afim de te escutar?
Se alguma vez eu te escutei
toda vez que você me importunou com essa ladainha
que se torna pior a cada vez que você repete?

Então?
Tá esperando o quê?
Um convite pra ir embora?

525

Noite de estreia



O teatro, lotado.
Sentado à minha cadeira (que não era a que eu queria, mas fazer o quê, quem mandou comprar o ingresso em cima da hora?)
vejo o ator, moreno, vestes pretas, barbudo, barriga saliente,
falando de Kafka e da relação tumultuada que sempre teve com o pai.
O ambiente é soturno
o ar-condicionado um pouco acima do ideal
a plateia...
A plateia é outro departamento.
Na primeira fileira
Ah! a primeira fileira...
Eu era novo e inexperiente
estudante de colégio público
e já reclamava da primeira fileira.
Aqueles grandes enganadores
que passam a vida dissimulando
tentando convencer seus professores de que estão realmente interessados.
Pura balela!
No teatro a primeira fileira é aquele lugar sagrado
dos que querem acreditar piamente
- e com isso fazerem os demais acreditarem também -
que gostam (ou entendem) do assunto.
Outra vez: pura balela.
Os adolescentes que afobadamente se aboletaram
encabeçando a plateia
tiram selfies
fofocam
conversam paralelamente ao espetáculo
não entendem sequer 1% do que está sendo encenado.
É...
O meu professor de filosofia da faculdade estava certo:
não existe nada mais cruel e segregador do que o conhecimento.
E as palavras de Kafka
a sua mágoa
o seu ressentimento
a verdade que está escondida ali dentro
incomoda.
Não bastasse a indelicadeza e a intolerância da juventude
ainda preciso conviver com aqueles casais
que trazem os filhos pequenos
por não terem com quem os deixar.
Não existe pior plateia
do que pessoas que não atendem à classificação indicativa.
E a consequência disso é dividir o espetáculo
com seus ruídos, pitis, reclamações, enfado.
É aquele momento em que o corpo parece querer dizer
"vá embora agora!"
mas você simplesmente esnoba o comentário
e decide encarar a batalha de frente.
Lágrimas
berros
incomunicabilidade
o ator se desdobra no palco
apresenta um dos maiores gênios da literatura mundial
sob uma ótica nada tradicional.
Naquele momento
com aquela plateia discordante
Kafka sou eu.
E eu quero ser Kafka.
Eu tenho inveja do ator que encena o monólogo
eu quero que ele troque de lugar comigo.
Agora.
Ao fim de pouco mais de 70 minutos
os aplausos (mesmo os de quem não entendeu nada)
ele pede um pequeno intervalo
convida para o debate posterior
mas eu tenho um outro compromisso
e não poderei permanecer.
Pena!
Fica a curiosidade de saber o que aconteceu depois:
o festival ensandecido de
fotos+autógrafos+abraços+rasgação de seda
e as perguntas óbvias
e a puxação de saco
etc etc etc.
Quer saber?
Foi melhor assim.
Bendito compromisso.
Uma das gestoras do teatro vem ao palco
para anunciar as próximas atrações da casa:
Ionesco, Suassuna, Joyce.
Fico tentado em perguntar qual Joyce
mas ela desce do palco rapidamente
após agradecer a presença de todos.
E eu vou embora
tentando mais uma vez
compreender que mundo é esse
onde é tão difícil encontrar o silêncio...
475

Ode aos surdos


às vezes é melhor ser surdo
do que ouvir certas coisas.

Invejo os surdos.

à eles não foi legado o absurdo
de ouvir a insanidade humana.
Estão simplesmente à deriva
em meio a toda essa discórdia
esse disse-me-disse
essa intolerância abusiva
essa hipocrisia covarde
e sem tamanho
dos dias de hoje.

Quisera eu ter a mesma sorte.

524

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