Roberto Queiroz

Roberto Queiroz

n. 1976 BR BR

Publicitário, carioca, escritor, poeta, multimídia, autor bissexto, metamorfose ambulante, amante dos Beats, Nelson Rodrigues, Shakespeare, Fausto Fawcett e Phillip K. Dick. Em suma: um miscelânea desse mundo controverso em que habitamos arduamente.

n. 1976-12-01, Rio de Janeiro

Perfil
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Garotos x garotas


Garotos querem saber o que pensam as garotas
Garotas gostam de dividir opiniões sobre garotos
Garotos querem levar garotas para a cama (o tempo todo)
Garotas acham que garotos deveriam ser menos materialistas e devassos
Garotos amadurecem mais tarde do que as garotas em quase 100% dos casos (e isso é sempre um problema)
Garotas gostariam de saber - em algum momento da vida - quando os garotos vão tomar vergonha na cara e deixar de ser babacas
Garotos acham que garotas frígidas e fúteis deveriam ficar longe, anos-luz, deles
Garotas acreditam que o mal dos garotos é falar demais e contar vantagem
Garotos e garotas, no final das contas, têm diferenças demais.

Deve ser por isso que garotos e garotas se amam tanto...

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Poemas

40

Metrópole

Urbes congestionadas,
Motoristas estressados,
Pensamentos eclipsados de dor:
Este sou eu.
O conjunto destas alucinações que me rodeiam.

Quando saio de casa mais cedo
Enfrento as mazelas da multidão
Escoradas por veículos envenenados
Cujos mártires na direção
Nada mais são
Do que o espelho de minhas próprias
Atitudes


Buzinas
Urros incompreensíveis
Prostituição nas calçadas
A música que reverbera dos quiosques
Este é o som da metrópole
Que mais parece um galope
Do que uma canção


E no meio de toda esta gente
Cansada de sofrer,
De temer,
De correr,
Do tumulto que as ruas guardam
Do rugido que os transeuntes exaltam
Sobrevive o cidadão intimidado


O que será do amanhã,
Se nada vejo no ontem e
Se não me lembro do que passou
Porca memória!
Que me foge aos dedos
Sem nem ao menos avisar
Sequer alertar
Para aquilo que sou:
Um mísero mortal
Preso a metrópole.


Culpado?
Inocente?
Ambos?
Não sei mais o que faço de minha vida
Não sei o que sobra de racional pra contar


O que me resta
É este único desatino chamado sobrevivência
Que me empurra pra frente
E me faz encarar as ruas,
As vielas,
Os becos,
Enfim,
O que a pólis me der

Publicado no jornal plástico bolha nº 17
388

Esse inquieto sentimento, o amor


Quando eu entender o que é o amor
terá sido tarde demais
pois ele já terá se transformado em outra coisa
ou em seu exato oposto
e inconformado o perseguirei
atrás desse novo significado
que me fugirá eternamente por entre os dedos
tornando nossa batalha histórica
quem sabe até transformada em saga épica
e narrada para gerações posteriores
com o intuito de que elas
não caiam na mesma tentação que eu
e deixem o amor em seu devido lugar
livre de amarras e definições.
414

Nonsense


Está pronta?
Não.
Mas tem que estar!!!
Mas não estou.
Por quê?
Não sei. Só não estou.
Mas você se preparou esse tempo todo...
Eu sei, mas...
Mas o quê?
Não sei.
Sabe ou não sabe?
Sei lá...
Você é confusa, sabia?
Eu sei.
Sabe mesmo?
Quer dizer, não... er... Quer dizer...
Ih!
Pois é...
O que você quer dizer agora?
Agora?
é.
Nada.
Nada?
Nada.
Por quê?
Porque...

E continua
continua
continua
até que tudo mais perca o sentido
ou se perca de vista
na ausência de palavras
que respondam
o que não existe de fato.

As conversas de ambas
eram nesse nível...
463

No retrovisor


Olho para trás.

Perda da virgindade.

Dirigir o carro do meu pai pela primeira vez e enfiá-lo num muro a 150 km/h.

O meu primeiro salário, que eu gastei numa jaqueta jeans que eu usei o quê?... Umas cinco vezes? Nem isso.

Rock in Rio 1985. Queen, Rod Stewart, AC/DC.

Eu e meus quatro amigos inseparáveis - Júlio, Ana, Robert e Gisele - numa saveiro apertada, radiador fodido, rumo a Buenos Aires para ver um dos últimos shows do The Police.

Eu, detida numa delegacia com um galho de maconha no bolso e liberada pelo delegado que tinha rabo preso com o advogado que o meu pai arranjou para me soltar. Deve ter estuprado alguém no colegial e entrou para a polícia pra se proteger. Provavelmente a mina que não dava mole pra ele - uma Joana da vida - e acabou virando atriz pornô por falta de opções profissionais.

Onde foi parar tudo isso, toda essa adrenalina?
Em que gaveta foi que eu deixei?

Parece que foi ontem. Parece que fazem séculos. Parece que eu tenho 100 anos. Quanto tempo? Perdi as contas. Faz tempo que eu perdi as contas.

Eu tô no túnel do tempo, cheio de ácido nos cornos e nem percebi...

E o que sobra? O que sobra é isso que está aí? Sério? Isso que não tem nome? Se bem que mesmo que tivesse eu ia me confundir todo na hora de pronunciar. Então é melhor nem pensar nisso...

Pra quê?
Eu não consigo esquecer o que passou.
E não consigo parar de pensar que não quero o que está valendo agora.
As regras mudaram e nada me interessa.

Eu quero o ontem de volta.
Porque está dentro de mim, tatuado, gravado a ferro e fogo. Não dá pra tirar. Não dá pra dizer "esquece! esquece agora".

Ainda tá aqui comigo
e por isso eu continuo aqui.

Olhando pra trás.
433

Ode aos surdos


às vezes é melhor ser surdo
do que ouvir certas coisas.

Invejo os surdos.

à eles não foi legado o absurdo
de ouvir a insanidade humana.
Estão simplesmente à deriva
em meio a toda essa discórdia
esse disse-me-disse
essa intolerância abusiva
essa hipocrisia covarde
e sem tamanho
dos dias de hoje.

Quisera eu ter a mesma sorte.

526

Reticências


Gosto de reticências.

Elas retratam bem
o meu vazio existencial
a minha necessidade de silêncio
as minhas dúvidas constantes
e perecíveis.

Gosto do que elas são capazes de fazer
com as minhas palavras atormentadas
que teimam em manchar o papel
tão imprecisas que são.

O que seria da minha poesia
não fossem as malditas
reticências?!
438

Recado aos aflitos


Vocês aí
que gritam pelas ruas como cães alucinados
que cantam músicas desesperadas
na vã tentativa de chamar a atenção
seja do jeito que for
que não cansam de cometer os mesmos erros
e acham que os culpados são sempre os outros.
Vocês mesmo.
Quando é que vocês irão crescer?
Quando é que irão parar de uma vez por todas
de se comportarem como crianças mimadas?
Já passou da hora de caírem na real
e pararem de esperar (ou acreditar)
naquelas utopias da década de 80
aquelas que vocês viviam torcendo, fazendo figa
elas não vão acontecer
elas não podem acontecer
sob pena de transformá-los em seres descartáveis
seres inúteis
à perpetuação da espécie.

Então
pelo amor de Deus
(ou de alguém, caso sejam ateus)
saiam das ruas
e me deixem dormir em paz
nem que seja apenas por uma noite.

Só por esta noite,
por favor...


489

Fala aí !

Eu não quero escrever sobre bunda, palavrão, pornografia, corrupção policial, política, favela, UPP, homossexualismo, bruxos, fadas, anjos, vampiros, zumbis, emos, adolescentes desajustados, viciados, auto-ajuda, teorias conspiratórias...

Dito isto, agora me digam:

Sobre o que é que eu vou escrever
se parece não ter sobrado mais nenhum outro assunto
que seja digno de nota?

476

Romance moderno


Eu: quero você
Você: não tô afim
Eu: mas eu quero mesmo assim
Você: e se não der certo?
Eu: vamos tentar mesmo assim
Você: tem certeza?
Eu: não, nada é certeza.

E você pela primeira vez concorda
e eu me declaro ali
de uma vez por todas
antes que a coragem
fuja de mim.
505

Fim de história


Não me lembro se era dia
se era noite
se foi de propósito, intencional
ou simplesmente aconteceu
se foi ela que começou
ou se fui eu
ou se nenhum dos dois
aguentava mais
aquela situação.

Só sei que terminou.

2 anos
8 meses
14 dias

...e essa saudade
que não sai de dentro de mim.
473

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