Roberto Queiroz

Roberto Queiroz

n. 1976 BR BR

Publicitário, carioca, escritor, poeta, multimídia, autor bissexto, metamorfose ambulante, amante dos Beats, Nelson Rodrigues, Shakespeare, Fausto Fawcett e Phillip K. Dick. Em suma: um miscelânea desse mundo controverso em que habitamos arduamente.

n. 1976-12-01, Rio de Janeiro

Perfil
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É o que tá valendo (pelo menos, por enquanto)


Se eu pudesse dizer tudo o que eu quero
Se eu pudesse fazer tudo o que eu tenho vontade
Se eu pudesse cumprir todos os prazos que eu próprio estabeleci para a minha vida
Se eu pudesse sentir - nem que fosse uma única vez - o que eu tenho sonhado nas minhas noites solitárias
Eu seria muito, mas muito feliz.

Mas...

Enquanto eu não posso fazer nada disso (ou ao menos 10% disso) atenho-me aos fatos, à vida, ao que ela me dá.

Mesmo não concordando com ela.

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Poemas

40

Diga!


Dizer
o que já foi dito
é fácil.

Dizer
sem fazer sentido
pra quê?

Dizer
somente dizer
sem pensar
no que está sendo dito.

Dizer
além do infinito.

Dizer
e nada mais.

Nada mais de fugas
nada mais de lamentos
nada mais de ponto-e-vírgulas
sem espaços duplos
ou entrelinhas.

Dizer
antes que alguém mais
tome coragem
e roube minhas últimas palavras
e as transforme em grito.

E com elas
faça todo mundo
acordar.

Não quero acabar
como o silêncio:
mudo
inaudito
sem função...

...uma ode ao esquisito.
545

Epitáfio


Jaz aqui
nessa sepultura caindo aos pedaços
o mais mentiroso dos poetas.

Aquele que surrupiou ideias alheias
de autores antológicos
e teve a cara de pau
de nomeá-las suas.

Que NÃO descanse em paz.
557

Brasil made in anywhere


- Cê precisa dar um upgrade na tua vida...
- Tô tão down hoje. Não sei porquê.
- Vai ter um festival foodtruck hoje no Terreirão do Samba. Achei a ideia o must!
- Calma, my friend. Vai ficar pronto no prazo. Take it easy, man!

Não suporto essas pessoas que estrangeirizam a própria fala. Misturam língua-mãe com expressões de outros idiomas que viram, ouviram, copiaram em algum programa, novela, jornal, livro da vida. E depois batem no peito, orgulhosos, e falam alguma calhordice do tipo "sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor" só porque viram a exibição do hino nacional durante o jogo da seleção brasileira de futebol. E põem a mão no peito e tudo...

Aff!!!

449

Quando eu for falar com Deus


Quando eu for falar com Deus
espero que Ele entenda toda a minha impaciência
acumulada durante todos esses anos
e tenha o mínimo senso de discernimento
para entender pelo menos 1% das minhas lamentações
e essa minha eterna mania de questionar tudo
os meus defeitos crônicos e repulsivos
e que esteja disposto a ouvir mais do que falar
em certos momentos.

Do contrário
não sei, não...

Talvez eu esteja só me enganando mesmo
procurando esconderijos em minha mente confusa
e acostumada a encarar gelo fino
como algo indispensável à própria evolução.
417

Noite de estreia



O teatro, lotado.
Sentado à minha cadeira (que não era a que eu queria, mas fazer o quê, quem mandou comprar o ingresso em cima da hora?)
vejo o ator, moreno, vestes pretas, barbudo, barriga saliente,
falando de Kafka e da relação tumultuada que sempre teve com o pai.
O ambiente é soturno
o ar-condicionado um pouco acima do ideal
a plateia...
A plateia é outro departamento.
Na primeira fileira
Ah! a primeira fileira...
Eu era novo e inexperiente
estudante de colégio público
e já reclamava da primeira fileira.
Aqueles grandes enganadores
que passam a vida dissimulando
tentando convencer seus professores de que estão realmente interessados.
Pura balela!
No teatro a primeira fileira é aquele lugar sagrado
dos que querem acreditar piamente
- e com isso fazerem os demais acreditarem também -
que gostam (ou entendem) do assunto.
Outra vez: pura balela.
Os adolescentes que afobadamente se aboletaram
encabeçando a plateia
tiram selfies
fofocam
conversam paralelamente ao espetáculo
não entendem sequer 1% do que está sendo encenado.
É...
O meu professor de filosofia da faculdade estava certo:
não existe nada mais cruel e segregador do que o conhecimento.
E as palavras de Kafka
a sua mágoa
o seu ressentimento
a verdade que está escondida ali dentro
incomoda.
Não bastasse a indelicadeza e a intolerância da juventude
ainda preciso conviver com aqueles casais
que trazem os filhos pequenos
por não terem com quem os deixar.
Não existe pior plateia
do que pessoas que não atendem à classificação indicativa.
E a consequência disso é dividir o espetáculo
com seus ruídos, pitis, reclamações, enfado.
É aquele momento em que o corpo parece querer dizer
"vá embora agora!"
mas você simplesmente esnoba o comentário
e decide encarar a batalha de frente.
Lágrimas
berros
incomunicabilidade
o ator se desdobra no palco
apresenta um dos maiores gênios da literatura mundial
sob uma ótica nada tradicional.
Naquele momento
com aquela plateia discordante
Kafka sou eu.
E eu quero ser Kafka.
Eu tenho inveja do ator que encena o monólogo
eu quero que ele troque de lugar comigo.
Agora.
Ao fim de pouco mais de 70 minutos
os aplausos (mesmo os de quem não entendeu nada)
ele pede um pequeno intervalo
convida para o debate posterior
mas eu tenho um outro compromisso
e não poderei permanecer.
Pena!
Fica a curiosidade de saber o que aconteceu depois:
o festival ensandecido de
fotos+autógrafos+abraços+rasgação de seda
e as perguntas óbvias
e a puxação de saco
etc etc etc.
Quer saber?
Foi melhor assim.
Bendito compromisso.
Uma das gestoras do teatro vem ao palco
para anunciar as próximas atrações da casa:
Ionesco, Suassuna, Joyce.
Fico tentado em perguntar qual Joyce
mas ela desce do palco rapidamente
após agradecer a presença de todos.
E eu vou embora
tentando mais uma vez
compreender que mundo é esse
onde é tão difícil encontrar o silêncio...
473

Eu ainda tô por aí (e é o que importa!)

Já fui escroque, bookmaker, traficante, poeta, administrador de empresas, analista de sistemas, hacker, cafetão, leão de chácara, golpista em tempo integral, gigolô, fiscal da natureza, tatuador, grafiteiro, praticante de le parkour, doador de sangue profissional, fiz bico como cobaia em testes de medicamentos, vocalista de banda de heavy metal, detetive particular...

É mais fácil eu lhe dizer o que eu NÃO fui.

O que aprendi com a vida é que ela é isso: um aprendizado. E na maior parte do tempo estamos aqui é pra quebrar a cara.

E acreditem: eu quebrei muito a cara
(e quero que o negrito enfatize isso!).

Atualmente?
Não faço a menor ideia do que eu tô fazendo atualmente.
Uma coisa aqui, outra ali.
Nada sério.

Com a bagagem cultural que eu adquiri nos últimos (tem o quê?
32, 37, 49 anos? Tanto faz...) é melhor não confirmar nada.

A melhor resposta então é: nada sério.
Atualmente não tô fazendo nada sério.
É isso.

Quando eu tiver mais detalhes, eu aviso.

479

A verdadeira razão


Quem sabe ainda hoje
chego à conclusão
de que continuo escrevendo obsessivamente
para não enlouquecer de vez
em meio a toda essa hipérbole degenerativa
que anda circulando por aí
pelas ruas
sem respeitar o espaço de ninguém.
425

Escrever é foda


O que faço com meus poemas
que não atendem ao meu nível de exigência?
Relego-os simplesmente à lixeira?

Minha relação com as palavras é terrível.

Eu as espezinho até dizer chega
e quando elas estão quase entregando os pontos
eu as torturo mais um pouco
só de farra
só pra provocar.

Será que é por isso que volta e meia o resultado é pífio e eu esmurro as paredes do quarto, indignado, querendo consertar, sem poder, o que já veio destruído na essência?

Merda.

Começei a filosofar de novo.
Não é hoje que eu vou descobrir a resposta para esse teorema.

418

Fim de história


Não me lembro se era dia
se era noite
se foi de propósito, intencional
ou simplesmente aconteceu
se foi ela que começou
ou se fui eu
ou se nenhum dos dois
aguentava mais
aquela situação.

Só sei que terminou.

2 anos
8 meses
14 dias

...e essa saudade
que não sai de dentro de mim.
472

Indecifravelmente


Bla blá blá
Blé blé blé
Blí blí blí
Bló bló bló
Blú blú blú

Entendeu?

Nem eu.

(o problema é que é isso o que a mídia, a sociedade, os políticos e todo o resto da humanidade anda falando ultimamente. Então, é melhor aprendermos rápido).

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