Lista de Poemas

O RIBEIRO

Ribeiro Fontes morreu
Como qualquer indigente
Minguando aos olhos dos seus
Sem que ninguém o lamente

Viveu por milhões de anos
Mas não ficou resistente
Contra o agente humano
Destruidor do ambiente

Por resíduos contaminados
Seus pulmões capitularam.
Por seus sulcos depilados
Seus braços fortes secaram

Seu leito seco em avenida
Em breve será transformado
E o doce canto da vida
Prá sempre silenciado
500

ALTIVA FLÂMULA

Desprenda-te altiva flâmula do teu mastro,
Para no mais profundo abismo te ocultar,
Até que expurgues de teu ventre e teu regaço,
A infame corja que enlameia o teu altar.

Heróis que te serviram estremecem
Se de alguma forma puderem contemplar
Teus filhos que espoliados empobrecem
Para a gatunos, em vil ordenança, enricar.

Que sangue corre nas veias de teu povo
Que a tanta chaga consegue suportar ?
A indiferença e covardia já dão nojo,
E de civismo, já é galhofa se falar.

Tuas cores, óh! sacro manto, apropria
Com as verdades que hoje estão a imperar,
Teu verde é hepatite, teu amarelo é anemia,
Pois mata e ouro já tosquiaram até findar

As estrelas do teu céu obscurecem,
Pois tu exaltas e enalteces é ao vilão,
O seu azul é a justiça que apodrece,
E o branco é do povo a desilusão.

A ordem há muito foi subvertida,
Polícia e malfeitores dão-se as mãos,
Progresso é uma esperança esvanecida,
Vergonha e ignomínia, é teu brasão.
560

REVELAÇÃO

Quem escreve poemas também pinta quadros
Em palavras e versos qual tinta a escorrer
Às vezes é rude, insensível ou antiquado
Mas é voz de sua alma a angustia de um ser

Quem lê um poema contempla uma paisagem
Que nas cores dos versos alguém quis pintar
Lá há dores, há sonhos, realidade e miragem
E em fantasias ou lembranças o leitor vai se achar

Quem gosta de poemas, gosta de mergulhar
Em águas profundas de mistérios sem par
Quem mergulha nos versos pode até encontrar
Entre sorrisos e lágrimas, sua alma a cantar


614

A SACOLA

Ela era uma sacola grande, multicolorida, com um imenso zíper branco, que ficava posta no meio da sala. Não sei quando foi colocada ali, mas era ela muito linda, quase divina. Ela continha tudo mais puro e belo daquela família. Ninguém sabia enumerar por completo o seu conteúdo, ele era por demais variado e complexo. Quando alguém era solicitado a fazê-lo, começava bem, mas logo se perdia na descrição dos detalhes mais requintados. Não importa, ela era bela assim, ainda que meio desconhecida. Todos a apreciavam e tinham por ela um profundo carinho e respeito. Em torno dela se agrupavam, abriam seus corações e ali encontravam refrigério pra as suas tristezas, mágoas e temores. Depois saiam alegres e felizes, certos de que a sacola se enriquecera com mais alguma coisa bela.

Com o passar dos anos, alguns de seus admiradores aprenderam a abrir discretamente a sacola, tirar dela algumas coisas e substituí-las por caixas vazias ou por papeis amassados. Quem viu, não disse coisa alguma, por certo acreditou que aquilo era tão pouco que não faria falta e, com o tempo, passou até a praticar o mesmo deslize. Assim, a sacola foi se tornando insípida e desinteressante, pois muitos perderam por ela o respeito e o encanto que a tornava tão especial.

Hoje, muitos ainda se reúnem em torno dela, como que movidos por um ritual de saudade e remorso, mas sobre eles, ela já não surte efeito algum. Diante dela, eles se emudecem e falam coisas desconexas ou rotineiras, mas sem qualquer grandeza de sentimento, fora o que se voltam para a programação da tv. Depois saem vazios e tristes para seus lares, na esperança de que, em outra ocasião, a sacola volte a exercer sobre eles o mesmo encanto e magia e as reuniões voltem a ser alegres e proveitosas como dantes.

As relações familiares e fraternas são como uma imensa sacola de sentimentos e virtudes, mas pequenas mágoas, ciúmes e desconfianças podem abrir lacunas e tornarem os encontros insípidos e desinteressantes.
614

Ausência em bronze

Aqui estou conforme o vosso pleito
Em data, local, hora e traje a rigor
Cá não estou de fato, só de direito
Vazio de alma, de afeto e de glamour

Gravai meu sorriso, minha pose e meus passos
Registrai em filmes e fotos, o rito e o momento
Forjai engodo aos tolos, montai o palco falso,
Erguido em ignomínia, em nojo, e fingimento.

O marco apenas ao vosso vazio atesta
Que vejam todos: já nada mais vos resta
Rompestes comigo os limites da decência

Em promessas foi balizada a vossa segurança
Mas em loucuras descarrilastes a confiança
Em bronze eternizastes a minha ausência



599

AMOR POSSESSIVO

Redoma de vidro de ouro enfeitada,
perfumada de lírios e de encantos tomada,
arquitetada nos sonhos de um contos de fada,
cativa e seduz a pessoa amada.

Cortejo e juras completam o encanto,
sorrisos e beijos -- uma veneração;
jamais se encontra, em qualquer outro canto,
alguém que a ame com tal devoção.

Gazela da tarde, que saltita no campo,
não vês que é a brisa, que te faz sedução,
mas se presa de amor te fizerdes, no entanto,
sumirá dos seus lábios esta doce canção.

Ao peixinho de aquário não se vê saltitar,
seu olhar é sem vida, seu viver deprimido
preferia ser feio, mas livre no mar,
a ser belo, mas preso à redoma de vidro.

O amor, muitas vezes, é uma contradição,
é esplendor, mas é poda em pleno verão,
é flor arrancada de um jardim rico em vida
para murchar em um vaso duma sala perdida.

Quem ama de fato suporta a ventura
de ver sua amada, por outros querida,
mas mantendo no rosto a terna doçura
de viver seu amor rico em graça e vida.

O amor que aprisiona é obsessão,
é mesquinhez, é loucura é também perdição,
pois joga o seu dono em uma trama sem fim
que maltrata o amor e acaba sozinho.
742

A DEPUTADA

Quem diria que a Betinha,
A garota da vizinha,
Ia ser autoridade ?

Hoje ela manda e desmanda,
Anda num carro bacana,
Sai no jornal da cidade.

Continua a mesma enxerida,
Mal educada e atrevida,
Falando vida alheia.

Colocou cílios postiços,
Silicone nos caniços,
Tá cada dia mais feia!

646

O PRESENTE DO PAPAI

Neste dia do papai, já não sei o que comprar

O papai é tão severo, não sei do que ele vai gostar

Um sapato, uma cueca? Eu só sei comprar bonecas!

Sei que gosta de futebol, mas não dá conta de jogar

Mamãe diz: dê um Viagra! Vovó diz: não! Vai enfartar!

Acho melhor dá uma cadeira pra ele só se balançar.
587

BRASIL CIDADANIA

Gostar é ter prazer, sentir agrado, satisfação
É encher de gozo a alma, a transbordar o coração
É muito mais que o eu, é a plenitude, é a comunhão
É o amar o próximo, compartilhando o peixe e o pão.

Dá gosto ver o homem alegre, feliz e satisfeito
Não com esmolas ou, de favores, as ninharias
Mas, por seu trabalho, em altivez erguer o peito
E poder dar aos seus, um digno pão todos os dias.

Brasil gostoso, já não é lenda ou fantasia
É o desafio, é a intrepidez e a ousadia
De fazer hoje, do amanhã um novo dia
Que dê a todos, mais do que pão, cidadania.

487

Natal à Brasileira

Dia vinte e cinco, noite estrelada.
Maria, em parto, geme na parada.
Transeuntes da noite vêem e não fazem nada,
Apenas contemplam e dizem: coitada!

José, no Inamps, clama desesperado.
A ambulância se encontra em outra "emergência",
Pois desde a tarde, fato não registrado,
Saíra a serviço de alguém da gerência.

José volta atônito e encontra Maria
Transtornada de dor e de tanta aflição.
Apresenta no rosto uma amarga alegria,
Pois já tem em seus braços o menino Tião.

Tião nasceu prematuro, quase natimorto:
Só mesmo um milagre o manteve com vida.
Raquítico, doente, só em pele e osso,
Amargo retrato da mãe desnutrida.

Vivia Tião como os garotos pobres,
Se alimentando do lixo da sua cidade,
Se escondendo do ódio de tantos Herodes
Assassinos vestidos de justiça e verdade.

Apreenderam o Tião em plena capital,
Clamando por pão e sedento de escola.
Taxaram-no de ladrão e de vil marginal
E o calaram com o vinagre do ópio e da cola.

Autódromos, metrôs e obras faraônicas
Consomem os recursos de um governo cruel
Que deixa com fome as nossas crianças:
É Herodes matando os filhos de Raquel.

No calvário das ruas das nossas cidades
Jazem nossas crianças em estado letal,
E os que nada fazem contra esta calamidade
Com Pilatos e Herodes celebram o Natal.
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Comentários (2)

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Obrigado Eusébio, espero vê-lo cheio de inspirações felizes.

Que bom ler teus poemas meu amigo estive andando por ai a procura de inspiração e voltei cheio de desejos e para começar quiz ler algo novo algo que me encante assim como teus poemas um abraço

            Nasci e cresci pobre, mas não tenho vergonha disso. Sofri na pele as injustiças da pobreza, mas mesmo assim vivi feliz pois não conhecia a sua verdadeira fonte. Saudei heróis forjados na podridão, mas vestidos no linho fino do engodo e da publicidade paga. Sobrevivi milagrosamente à miséria por puro lampejo da graça divina.
            Sonhei com um mundo livre e justo. Acreditei que as oportunidades eram uma questão de esforço e que o sucesso só dependia da capacidade e do desprendimento. Pensei que os homens bons transformariam o mundo e que as injustiças seriam aniquiladas pela educação e a sensatez
            Infelizmente, a maturidade revelou-me que os pobres são mais pobres de espírito que de oportunidades. Que os ricos, pra se fazerem ricos, já venderam a alma. Que as oportunidades não surgem, são compradas às escuras. Que a decência, quase sempre, sucumbe à propina e ao favorecimento. Que os idealistas se vendem ao poder. Que os justos não subsistem no trono. Que a caridade quase sempre não é cega. Que a violência e a miséria são orquestradas do trono. Que a abnegação tem a infâmia como troco. Que as pessoas amam mais imundícia que a dignidade. Que os insanos são mais aplaudidos que os sensatos. Que a morte é triste, mas sem ela os homens seriam eternos escravos de seus páreos.
            Hoje eu luto, não mais para reformar o mundo, mas para não ser sucumbido por ele. Sofro para provar que nem toda dignidade está à venda. Combato a indecência e imoralidade, mesmo sabendo que perderei a batalha.  Quero morrer com orgulho, não de ter vencido a guerra, mas de ter lutado sempre em defesa do que é correto. Não quero ser lembrado por ter mudado o mundo, mas apenas por não ter feito coro com aqueles que o tornam fétido.
            Algum dia, espero que ainda longe, esta será apenas mais uma página esquecida e provavelmente apagada por falta de manutenção ou custeio. Todavia, antes que este dia chegue, quero fazer transbordar nela as inquietudes da minha alma; fazer soar os clarins da vida, sem ter a presunção de ser o dono da verdade, mas convicto de que proclamei meus erros como alerta aos jovens e chamei à reflexão os pensadores em busca de uma vida mais digna e próspera para as gerações vindouras.