JOGOS DE AMOR
Na vida as lembranças são tantas
De amores que se ganhou ou perdeu
Algumas são paixões, outras: sonhos
Ou dor de um amor que morreu
As tristezas que hoje choras
São dores das paixões que perdeste
Mas alguém que mandastes embora
Chora o amor que esqueceste
Um amor que pra ti foi brinquedo
Para alguém já foi sonho e ilusão
Uma paixão que guardastes no peito
Para um outro foi só diversão
DESCOBRINDO A PÁTRIA
Quando criança, disseram-me: Ela é tua mãe!
Dei-lhe todo o meu afeto, carinho e respeito;
Quando garoto, disseram-me: Ela é tua rainha!
Cantei-lhe versos, prestei-lhe culto e admiração;
Quando jovem, disseram-me: Ela é a tua amada!
Dei-lhe minha vida, minha força e minha devoção;
Quando adulto, disseram-me: Ela é tua patroa!
Fiz-me seu serviçal, fiel e devoto;
Agora, velho, na dependência de seus cuidados,
descubro que Ela é, de fato, apenas minha algoz.
DEUS FEZ AS MÃES
Deus fez a mulher, augusta e bela
Do flanco de Adão uma costela,
E um grande coração deu Ele a ela
Pra dar aos filhos, amor, perdão e curatela
Benditas mães, fiéis e espoliadas
Dilaceradas no amor, quantas vezes, cuspido
Em pranto, em dor e em lágrimas sufocadas
Consomem-se em amar, um filho embrutecido
Deus deu ao homem a força e autoridade
Impôs-lhe o labor e o provimento
Mas deu à mulher: a abnegação e a madre
E um amor incondicional pelo rebento
Que seria de nós, filhos insensatos
Na mão paterna, justa e cartesiana
Não fosse da mãe, o amor nato
Que independente do erro, ao filho ama?
BRASIL CIDADANIA
Gostar é ter prazer, sentir agrado, satisfação
É encher de gozo a alma, a transbordar o coração
É muito mais que o eu, é a plenitude, é a comunhão
É o amar o próximo, compartilhando o peixe e o pão.
Dá gosto ver o homem alegre, feliz e satisfeito
Não com esmolas ou, de favores, as ninharias
Mas, por seu trabalho, em altivez erguer o peito
E poder dar aos seus, um digno pão todos os dias.
Brasil gostoso, já não é lenda ou fantasia
É o desafio, é a intrepidez e a ousadia
De fazer hoje, do amanhã um novo dia
Que dê a todos, mais do que pão, cidadania.
DESVENTURA
Jovens viris, valorosos, intrépidos e corajosos,
estão o mundo a mirar.
Buscam, além do horizonte, o mais viçoso dos montes,
para uma bandeira hastear.
Não há agruras na serra ou obstáculo na terra
que os impeça marchar.
Partem, aos vinte, bem cedo, cheios de amor e sem medo,
vão a montanha escalar.
Aos trinta, correndo tanto, das pradarias os encantos,
já pulam sem contemplar.
Sobem escarpas e serras , dos sonhos fazem a guerra,
pouco conseguem se amar.
Aos quarenta jazem cansados, a bandeira é um trapo rasgado,
não vale a pena hastear.
Aos cinquenta já não olham prá cima, sonham com os prados e campinas,
os quais ousaram deixar.
A carga é então dividida, por rotas opostas e em descida,
não querem mais se encontrar.
A SACOLA
Ela era uma sacola grande, multicolorida, com um imenso zíper branco, que ficava posta no meio da sala. Não sei quando foi colocada ali, mas era ela muito linda, quase divina. Ela continha tudo mais puro e belo daquela família. Ninguém sabia enumerar por completo o seu conteúdo, ele era por demais variado e complexo. Quando alguém era solicitado a fazê-lo, começava bem, mas logo se perdia na descrição dos detalhes mais requintados. Não importa, ela era bela assim, ainda que meio desconhecida. Todos a apreciavam e tinham por ela um profundo carinho e respeito. Em torno dela se agrupavam, abriam seus corações e ali encontravam refrigério pra as suas tristezas, mágoas e temores. Depois saiam alegres e felizes, certos de que a sacola se enriquecera com mais alguma coisa bela.
Com o passar dos anos, alguns de seus admiradores aprenderam a abrir discretamente a sacola, tirar dela algumas coisas e substituí-las por caixas vazias ou por papeis amassados. Quem viu, não disse coisa alguma, por certo acreditou que aquilo era tão pouco que não faria falta e, com o tempo, passou até a praticar o mesmo deslize. Assim, a sacola foi se tornando insípida e desinteressante, pois muitos perderam por ela o respeito e o encanto que a tornava tão especial.
Hoje, muitos ainda se reúnem em torno dela, como que movidos por um ritual de saudade e remorso, mas sobre eles, ela já não surte efeito algum. Diante dela, eles se emudecem e falam coisas desconexas ou rotineiras, mas sem qualquer grandeza de sentimento, fora o que se voltam para a programação da tv. Depois saem vazios e tristes para seus lares, na esperança de que, em outra ocasião, a sacola volte a exercer sobre eles o mesmo encanto e magia e as reuniões voltem a ser alegres e proveitosas como dantes.
As relações familiares e fraternas são como uma imensa sacola de sentimentos e virtudes, mas pequenas mágoas, ciúmes e desconfianças podem abrir lacunas e tornarem os encontros insípidos e desinteressantes.
O RIBEIRO
Ribeiro Fontes morreu
Como qualquer indigente
Minguando aos olhos dos seus
Sem que ninguém o lamente
Viveu por milhões de anos
Mas não ficou resistente
Contra o agente humano
Destruidor do ambiente
Por resíduos contaminados
Seus pulmões capitularam.
Por seus sulcos depilados
Seus braços fortes secaram
Seu leito seco em avenida
Em breve será transformado
E o doce canto da vida
Prá sempre silenciado
AMOR POSSESSIVO
Redoma de vidro de ouro enfeitada,
perfumada de lírios e de encantos tomada,
arquitetada nos sonhos de um contos de fada,
cativa e seduz a pessoa amada.
Cortejo e juras completam o encanto,
sorrisos e beijos -- uma veneração;
jamais se encontra, em qualquer outro canto,
alguém que a ame com tal devoção.
Gazela da tarde, que saltita no campo,
não vês que é a brisa, que te faz sedução,
mas se presa de amor te fizerdes, no entanto,
sumirá dos seus lábios esta doce canção.
Ao peixinho de aquário não se vê saltitar,
seu olhar é sem vida, seu viver deprimido
preferia ser feio, mas livre no mar,
a ser belo, mas preso à redoma de vidro.
O amor, muitas vezes, é uma contradição,
é esplendor, mas é poda em pleno verão,
é flor arrancada de um jardim rico em vida
para murchar em um vaso duma sala perdida.
Quem ama de fato suporta a ventura
de ver sua amada, por outros querida,
mas mantendo no rosto a terna doçura
de viver seu amor rico em graça e vida.
O amor que aprisiona é obsessão,
é mesquinhez, é loucura é também perdição,
pois joga o seu dono em uma trama sem fim
que maltrata o amor e acaba sozinho.
SONHO DE CRIANÇA
Há um sonho de criança muito longe da ilusão,
Não tem fada, castelo nem príncipe encantado
É um desejo profundo por um pedaço de pão
De um estômago que ronca sem nunca ser saciado.
Esse sonho tão simples têm milhares de infantes
Nas calçadas e marquises de toda grande cidade,
Estirados na grama, também debaixo das pontes,
É um amargo sonho em vigília, nutrido pela necessidade.
Esse sonho tão cruel, repleto assim de horrores,
É forjado em gabinetes da forma mais triste e vil
Que prende os filhos da fome num curral de eleitores
A manter no poder os políticos do nosso injusto Brasil.
LEMBRANÇAS
O amor pode cobrir mágoas
Crescer, florir e despontar
Mas a dor do peito em chagas
Ao coração faz chorar
A lembrança traz momentos
Que não se quer reviver,
Mas a dor e o sofrimento
Ninguém consegue esquecer
Quem dera esquecer o que amamos
E alheio aos desígnios viver
Mandar para além do oceano
A dor que nos faz padecer
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza