ALTIVA FLÂMULA
Desprenda-te altiva flâmula do teu mastro,
Para no mais profundo abismo te ocultar,
Até que expurgues de teu ventre e teu regaço,
A infame corja que enlameia o teu altar.
Heróis que te serviram estremecem
Se de alguma forma puderem contemplar
Teus filhos que espoliados empobrecem
Para a gatunos, em vil ordenança, enricar.
Que sangue corre nas veias de teu povo
Que a tanta chaga consegue suportar ?
A indiferença e covardia já dão nojo,
E de civismo, já é galhofa se falar.
Tuas cores, óh! sacro manto, apropria
Com as verdades que hoje estão a imperar,
Teu verde é hepatite, teu amarelo é anemia,
Pois mata e ouro já tosquiaram até findar
As estrelas do teu céu obscurecem,
Pois tu exaltas e enalteces é ao vilão,
O seu azul é a justiça que apodrece,
E o branco é do povo a desilusão.
A ordem há muito foi subvertida,
Polícia e malfeitores dão-se as mãos,
Progresso é uma esperança esvanecida,
Vergonha e ignomínia, é teu brasão.
DESCOBRINDO A PÁTRIA
Quando criança, disseram-me: Ela é tua mãe!
Dei-lhe todo o meu afeto, carinho e respeito;
Quando garoto, disseram-me: Ela é tua rainha!
Cantei-lhe versos, prestei-lhe culto e admiração;
Quando jovem, disseram-me: Ela é a tua amada!
Dei-lhe minha vida, minha força e minha devoção;
Quando adulto, disseram-me: Ela é tua patroa!
Fiz-me seu serviçal, fiel e devoto;
Agora, velho, na dependência de seus cuidados,
descubro que Ela é, de fato, apenas minha algoz.
A DEPUTADA
Quem diria que a Betinha,
A garota da vizinha,
Ia ser autoridade ?
Hoje ela manda e desmanda,
Anda num carro bacana,
Sai no jornal da cidade.
Continua a mesma enxerida,
Mal educada e atrevida,
Falando vida alheia.
Colocou cílios postiços,
Silicone nos caniços,
Tá cada dia mais feia!
FLAGELO
Zumbem aos teus ouvidos, assediam tua sopa,
Impregnam o ar e te mancham a roupa.
Num lugar tão horrível não se pode comer.
Vais prá outro - é igual, não tens pra onde correr.
Essas vespas urbanas atacam aos milhares
Nos shoppings, nas ruas, restaurantes e bares.
Não são brancas nem pretas, são todas amarelas,
Maltrapilhas, doentes e quase sempre banguelas.
Algumas são ferozes, agem com violência.
Te agridem, te ferem, perderam a paciência.
Na espera de ação, vivem a pedir esmolas,
Hibernadas no álcool, no craque e na cola.
São todas conhecidas, tem número e crachá,
Só não tem quem, das ruas, as queiram tirar.
Às vezes são ordenhadas em pseudo fundações
Onde se filma a miséria prá ter votos aos milhões.
PRANTO SECO
Um silêncio profundo cerca o corpo inerte
São parentes e amigos que se pode avisar
Os olhares se cruzam e se esquivam em flerte
O remorso e a tristeza estão a si cortejar
No amargo silêncio alguém arrisca um discurso
Louva e exalta as virtudes do que agora findou
É um pastor, um vigário ou um político intruso
Do remorso a mordaça, aos amigos calou
O ditame da presença traz à tona a culpa
De quem a tantos convites rejeitou ou não fez
Por cansaço, preguiça, mão importa a desculpa
Já é tarde demais, foi-se a bola da vez
Copiosas promessas no seu âmago ecoam
De aos que ainda lhe resta, ser agora leal
Mas passado o velório, no labor se escoam
Até um novo chamado pra mais um funeral
A SACOLA
Ela era uma sacola grande, multicolorida, com um imenso zíper branco, que ficava posta no meio da sala. Não sei quando foi colocada ali, mas era ela muito linda, quase divina. Ela continha tudo mais puro e belo daquela família. Ninguém sabia enumerar por completo o seu conteúdo, ele era por demais variado e complexo. Quando alguém era solicitado a fazê-lo, começava bem, mas logo se perdia na descrição dos detalhes mais requintados. Não importa, ela era bela assim, ainda que meio desconhecida. Todos a apreciavam e tinham por ela um profundo carinho e respeito. Em torno dela se agrupavam, abriam seus corações e ali encontravam refrigério pra as suas tristezas, mágoas e temores. Depois saiam alegres e felizes, certos de que a sacola se enriquecera com mais alguma coisa bela.
Com o passar dos anos, alguns de seus admiradores aprenderam a abrir discretamente a sacola, tirar dela algumas coisas e substituí-las por caixas vazias ou por papeis amassados. Quem viu, não disse coisa alguma, por certo acreditou que aquilo era tão pouco que não faria falta e, com o tempo, passou até a praticar o mesmo deslize. Assim, a sacola foi se tornando insípida e desinteressante, pois muitos perderam por ela o respeito e o encanto que a tornava tão especial.
Hoje, muitos ainda se reúnem em torno dela, como que movidos por um ritual de saudade e remorso, mas sobre eles, ela já não surte efeito algum. Diante dela, eles se emudecem e falam coisas desconexas ou rotineiras, mas sem qualquer grandeza de sentimento, fora o que se voltam para a programação da tv. Depois saem vazios e tristes para seus lares, na esperança de que, em outra ocasião, a sacola volte a exercer sobre eles o mesmo encanto e magia e as reuniões voltem a ser alegres e proveitosas como dantes.
As relações familiares e fraternas são como uma imensa sacola de sentimentos e virtudes, mas pequenas mágoas, ciúmes e desconfianças podem abrir lacunas e tornarem os encontros insípidos e desinteressantes.
REVELAÇÃO
Quem escreve poemas também pinta quadros
Em palavras e versos qual tinta a escorrer
Às vezes é rude, insensível ou antiquado
Mas é voz de sua alma a angustia de um ser
Quem lê um poema contempla uma paisagem
Que nas cores dos versos alguém quis pintar
Lá há dores, há sonhos, realidade e miragem
E em fantasias ou lembranças o leitor vai se achar
Quem gosta de poemas, gosta de mergulhar
Em águas profundas de mistérios sem par
Quem mergulha nos versos pode até encontrar
Entre sorrisos e lágrimas, sua alma a cantar
DEUS FEZ AS MÃES
Deus fez a mulher, augusta e bela
Do flanco de Adão uma costela,
E um grande coração deu Ele a ela
Pra dar aos filhos, amor, perdão e curatela
Benditas mães, fiéis e espoliadas
Dilaceradas no amor, quantas vezes, cuspido
Em pranto, em dor e em lágrimas sufocadas
Consomem-se em amar, um filho embrutecido
Deus deu ao homem a força e autoridade
Impôs-lhe o labor e o provimento
Mas deu à mulher: a abnegação e a madre
E um amor incondicional pelo rebento
Que seria de nós, filhos insensatos
Na mão paterna, justa e cartesiana
Não fosse da mãe, o amor nato
Que independente do erro, ao filho ama?
Ausência em bronze
Aqui estou conforme o vosso pleito
Em data, local, hora e traje a rigor
Cá não estou de fato, só de direito
Vazio de alma, de afeto e de glamour
Gravai meu sorriso, minha pose e meus passos
Registrai em filmes e fotos, o rito e o momento
Forjai engodo aos tolos, montai o palco falso,
Erguido em ignomínia, em nojo, e fingimento.
O marco apenas ao vosso vazio atesta
Que vejam todos: já nada mais vos resta
Rompestes comigo os limites da decência
Em promessas foi balizada a vossa segurança
Mas em loucuras descarrilastes a confiança
Em bronze eternizastes a minha ausência
BRASIL QUE DÁ GOSTO
Brasil tropical, de um mar sem igual
que eterniza o verão,
Dos credos nas praças, da paz entre as raças
e da miscigenação
Sem avalanches, vulcões, terremotos, tufões
ou outras tormentas quaisquer,
De mil rios e florestas, da natureza em festa ,
onde a vida é o mister.
Brasil da alegria, do samba e poesia,
és um Brasil canção!
Lar da democracia e da poligenia,
país da livre expressão!
Brasil da festança, do folclore e da dança,
terra da promissão
Brasil do aconchego, da cachaça e levedo
e da fartura de grãos
Vazios os fortes da serra, és uma pátria sem guerra,
és uma casa de irmãos!
Oh meu Brasil pacifista, de qualquer ponto vista,
és a melhor das nações!
Quem ainda não te conhece, vive missa sem prece
e por certo está a perder:
Um Brasil que dá gosto, dá alegria e remoço,
terra prá se viver!
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza