A SAGA DE LAURA
Em 1912, a Dona Laura nasceu,
Quando por triste destino, a sua mãe faleceu.
Entregue foi a sua tia, para piorar sua sina
Sofrendo muitos horrores, pelas mãos de suas primas
Cinco anos se passaram, seu pai então se casou,
Entre chuvas e enchentes, Laura pra casa voltou.
Pelas mãos de sua madrasta, ela foi bem recebida,
E entre seis novos irmãos, começou uma nova vida.
Entre afazeres e bailes, ao Geraldo conheceu,
E em menos de dois anos, um grande amor floresceu.
Foi festa, bolo e baile, depois a lua-de-mel
Foram morar num ranchinho, lá no morro do chapéu.
Laura teve sete filhos, trabalho árduo no lar,
Enxada, fogão, desnatadeira, em tudo pronta a ajudar.
Mas por sorte traiçoeira, Geraldo tudo estragou,
Com uma amante faceira, um outro lar começou.
Geraldo em bigamia e Laura em grande aflição,
Em ciúme e dor sucumbia, mas não tinha outra opção!
Dezoito anos passaram quando um fato aconteceu:
Laura, a amante está morta, esses quatro filhos são seus!
Uma menina de dois anos, Laura logo batizou.
Seus filhos lhe deu por padrinhos, dedicação e amor.
Hoje, idosa e dependente, quem dela está a cuidar?
É aquela bebê carente, que em pranto e dor quis amar
Há certas coisas na vida que ninguém sabe explicar
Fiinha foi dádiva em vida, e recompensa do amar
Mas não cessa aqui o mistério desta imensa gratidão
Pois lá no trono de Cristo, as duas terão galardão
DESCOBRINDO A PÁTRIA
Quando criança, disseram-me: Ela é tua mãe!
Dei-lhe todo o meu afeto, carinho e respeito;
Quando garoto, disseram-me: Ela é tua rainha!
Cantei-lhe versos, prestei-lhe culto e admiração;
Quando jovem, disseram-me: Ela é a tua amada!
Dei-lhe minha vida, minha força e minha devoção;
Quando adulto, disseram-me: Ela é tua patroa!
Fiz-me seu serviçal, fiel e devoto;
Agora, velho, na dependência de seus cuidados,
descubro que Ela é, de fato, apenas minha algoz.
FLAGELO
Zumbem aos teus ouvidos, assediam tua sopa,
Impregnam o ar e te mancham a roupa.
Num lugar tão horrível não se pode comer.
Vais prá outro - é igual, não tens pra onde correr.
Essas vespas urbanas atacam aos milhares
Nos shoppings, nas ruas, restaurantes e bares.
Não são brancas nem pretas, são todas amarelas,
Maltrapilhas, doentes e quase sempre banguelas.
Algumas são ferozes, agem com violência.
Te agridem, te ferem, perderam a paciência.
Na espera de ação, vivem a pedir esmolas,
Hibernadas no álcool, no craque e na cola.
São todas conhecidas, tem número e crachá,
Só não tem quem, das ruas, as queiram tirar.
Às vezes são ordenhadas em pseudo fundações
Onde se filma a miséria prá ter votos aos milhões.
Natal à Brasileira
Dia vinte e cinco, noite estrelada.
Maria, em parto, geme na parada.
Transeuntes da noite vêem e não fazem nada,
Apenas contemplam e dizem: coitada!
José, no Inamps, clama desesperado.
A ambulância se encontra em outra "emergência",
Pois desde a tarde, fato não registrado,
Saíra a serviço de alguém da gerência.
José volta atônito e encontra Maria
Transtornada de dor e de tanta aflição.
Apresenta no rosto uma amarga alegria,
Pois já tem em seus braços o menino Tião.
Tião nasceu prematuro, quase natimorto:
Só mesmo um milagre o manteve com vida.
Raquítico, doente, só em pele e osso,
Amargo retrato da mãe desnutrida.
Vivia Tião como os garotos pobres,
Se alimentando do lixo da sua cidade,
Se escondendo do ódio de tantos Herodes
Assassinos vestidos de justiça e verdade.
Apreenderam o Tião em plena capital,
Clamando por pão e sedento de escola.
Taxaram-no de ladrão e de vil marginal
E o calaram com o vinagre do ópio e da cola.
Autódromos, metrôs e obras faraônicas
Consomem os recursos de um governo cruel
Que deixa com fome as nossas crianças:
É Herodes matando os filhos de Raquel.
No calvário das ruas das nossas cidades
Jazem nossas crianças em estado letal,
E os que nada fazem contra esta calamidade
Com Pilatos e Herodes celebram o Natal.
SAUDADES DO REI
O rei foi tirano, cruel, vil, profano
e de fúria sem par
Vivia em luxúria, em ouro e fartura,
a seus súditos explorar
Ao que disse: culpado, teve o pescoço cortado
ou morreu em grilhões
No calor do seu ego e em seu reger duro e cego,
dilacerou multidões
E o povo sofrido, entre clamor e gemidos,
se ouvia dizer:
Oh! rei avarento, asqueroso e nojento,
você tem que morrer!
O rei foi enforcado, seus filhos exilados,
para nunca mais retornar
E o povo em euforia, gritava: viva a democracia,
vamos nós governar!
Será nossa premissa: igualdade e justiça,
seremos todos iguais.
Mas uma tal burguesia, na surdina surgia,
mais cruel e sagaz
Capa de igualdade, de justiça e equidade,
se passou por irmão
Porém, já faz tanto tempo, só há fome e tormento
- grande traição!
Massacrou a pobreza, subtraiu as riquezas,
sem as unhas mostrar
E o povo sofrido, faminto e vencido,
não sabe mais quem xingar
E quando indagados, sobre quem é culpado,
todos dizem: não sei.
Mas são todos unânimes: a um viver tão infame,
preferiam o rei .
Não por menor agonia ou por qualquer nostalgia
que se queira manter.
É que naqueles dias, o povo ao menos sabia
quem deveria morrer.
PRANTO SECO
Um silêncio profundo cerca o corpo inerte
São parentes e amigos que se pode avisar
Os olhares se cruzam e se esquivam em flerte
O remorso e a tristeza estão a si cortejar
No amargo silêncio alguém arrisca um discurso
Louva e exalta as virtudes do que agora findou
É um pastor, um vigário ou um político intruso
Do remorso a mordaça, aos amigos calou
O ditame da presença traz à tona a culpa
De quem a tantos convites rejeitou ou não fez
Por cansaço, preguiça, mão importa a desculpa
Já é tarde demais, foi-se a bola da vez
Copiosas promessas no seu âmago ecoam
De aos que ainda lhe resta, ser agora leal
Mas passado o velório, no labor se escoam
Até um novo chamado pra mais um funeral
LEMBRANÇAS
O amor pode cobrir mágoas
Crescer, florir e despontar
Mas a dor do peito em chagas
Ao coração faz chorar
A lembrança traz momentos
Que não se quer reviver,
Mas a dor e o sofrimento
Ninguém consegue esquecer
Quem dera esquecer o que amamos
E alheio aos desígnios viver
Mandar para além do oceano
A dor que nos faz padecer
CLAMOR ÁUREO E VERDE
Gemidos de fome e do descaso o pranto
Retumbam nas noites de um País sem igual
Que cobre os horrores com áureo e verde manto
E ignora a miséria, num silêncio venal.
Maldito o destino de seus pobres filhos.
Oh País da vergonha e de injustiça atroz
Pois de infante sangue alimenta seus rios
E dos que clamam por pão, ignora a voz!
Estampido na noite, já não incomoda ninguém
Chacina é manchete em todo o jornal
Dá Ibope a desgraça dos que nada têm
Violência e miséria já é o viver natural.
Adormecido gigante ao clamor do seu povo
Cujo berço é esplêndido, mas cheira a podridão
Busca hoje em teu íntimo dignidade e renovo
Para fazer de teus filhos ao menos cidadãos.
O NATAL DO PALÁCIO
Na estrebaria o povo adorava
Nos campos e prados, os anjos cantavam
No céu uma estrela ao Rei indicava
E os magos de longe, presentes ofertavam
No palácio de Herodes, tudo era diferente
Era inveja, era ódio era um plano macabro
Era uma trama de morte contra todo inocente
Pois entre eles, por certo, estava o Rei adorado
O Brasil de hoje, é a Belém de outrora
Se fomenta o mal, enquanto o povo adora
Nos pacotes de hoje, não há mirra ou incenso
È imposto, é torpeza, é usura, é aumento
Assim, a história do Natal se repete
Não mais com o sangue derramado à espada
Mas com a morte do povo que por fome, inerte
Em pobreza e miséria aos poucos se acaba
O Herodes de hoje, como o outro é cruel
Massacrando seu o povo, é uma afronta aos céus
Em corrupção e bandalheira, rege a música do paço
E em MPs e decretos, faz da nação um fracasso!
DEUS FEZ AS MÃES
Deus fez a mulher, augusta e bela
Do flanco de Adão uma costela,
E um grande coração deu Ele a ela
Pra dar aos filhos, amor, perdão e curatela
Benditas mães, fiéis e espoliadas
Dilaceradas no amor, quantas vezes, cuspido
Em pranto, em dor e em lágrimas sufocadas
Consomem-se em amar, um filho embrutecido
Deus deu ao homem a força e autoridade
Impôs-lhe o labor e o provimento
Mas deu à mulher: a abnegação e a madre
E um amor incondicional pelo rebento
Que seria de nós, filhos insensatos
Na mão paterna, justa e cartesiana
Não fosse da mãe, o amor nato
Que independente do erro, ao filho ama?
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza