O NATAL DO PALÁCIO
Na estrebaria o povo adorava
Nos campos e prados, os anjos cantavam
No céu uma estrela ao Rei indicava
E os magos de longe, presentes ofertavam
No palácio de Herodes, tudo era diferente
Era inveja, era ódio era um plano macabro
Era uma trama de morte contra todo inocente
Pois entre eles, por certo, estava o Rei adorado
O Brasil de hoje, é a Belém de outrora
Se fomenta o mal, enquanto o povo adora
Nos pacotes de hoje, não há mirra ou incenso
È imposto, é torpeza, é usura, é aumento
Assim, a história do Natal se repete
Não mais com o sangue derramado à espada
Mas com a morte do povo que por fome, inerte
Em pobreza e miséria aos poucos se acaba
O Herodes de hoje, como o outro é cruel
Massacrando seu o povo, é uma afronta aos céus
Em corrupção e bandalheira, rege a música do paço
E em MPs e decretos, faz da nação um fracasso!
AMOR POSSESSIVO
Redoma de vidro de ouro enfeitada,
perfumada de lírios e de encantos tomada,
arquitetada nos sonhos de um contos de fada,
cativa e seduz a pessoa amada.
Cortejo e juras completam o encanto,
sorrisos e beijos -- uma veneração;
jamais se encontra, em qualquer outro canto,
alguém que a ame com tal devoção.
Gazela da tarde, que saltita no campo,
não vês que é a brisa, que te faz sedução,
mas se presa de amor te fizerdes, no entanto,
sumirá dos seus lábios esta doce canção.
Ao peixinho de aquário não se vê saltitar,
seu olhar é sem vida, seu viver deprimido
preferia ser feio, mas livre no mar,
a ser belo, mas preso à redoma de vidro.
O amor, muitas vezes, é uma contradição,
é esplendor, mas é poda em pleno verão,
é flor arrancada de um jardim rico em vida
para murchar em um vaso duma sala perdida.
Quem ama de fato suporta a ventura
de ver sua amada, por outros querida,
mas mantendo no rosto a terna doçura
de viver seu amor rico em graça e vida.
O amor que aprisiona é obsessão,
é mesquinhez, é loucura é também perdição,
pois joga o seu dono em uma trama sem fim
que maltrata o amor e acaba sozinho.
A SAGA DE LAURA
Em 1912, a Dona Laura nasceu,
Quando por triste destino, a sua mãe faleceu.
Entregue foi a sua tia, para piorar sua sina
Sofrendo muitos horrores, pelas mãos de suas primas
Cinco anos se passaram, seu pai então se casou,
Entre chuvas e enchentes, Laura pra casa voltou.
Pelas mãos de sua madrasta, ela foi bem recebida,
E entre seis novos irmãos, começou uma nova vida.
Entre afazeres e bailes, ao Geraldo conheceu,
E em menos de dois anos, um grande amor floresceu.
Foi festa, bolo e baile, depois a lua-de-mel
Foram morar num ranchinho, lá no morro do chapéu.
Laura teve sete filhos, trabalho árduo no lar,
Enxada, fogão, desnatadeira, em tudo pronta a ajudar.
Mas por sorte traiçoeira, Geraldo tudo estragou,
Com uma amante faceira, um outro lar começou.
Geraldo em bigamia e Laura em grande aflição,
Em ciúme e dor sucumbia, mas não tinha outra opção!
Dezoito anos passaram quando um fato aconteceu:
Laura, a amante está morta, esses quatro filhos são seus!
Uma menina de dois anos, Laura logo batizou.
Seus filhos lhe deu por padrinhos, dedicação e amor.
Hoje, idosa e dependente, quem dela está a cuidar?
É aquela bebê carente, que em pranto e dor quis amar
Há certas coisas na vida que ninguém sabe explicar
Fiinha foi dádiva em vida, e recompensa do amar
Mas não cessa aqui o mistério desta imensa gratidão
Pois lá no trono de Cristo, as duas terão galardão
FLAGELO
Zumbem aos teus ouvidos, assediam tua sopa,
Impregnam o ar e te mancham a roupa.
Num lugar tão horrível não se pode comer.
Vais prá outro - é igual, não tens pra onde correr.
Essas vespas urbanas atacam aos milhares
Nos shoppings, nas ruas, restaurantes e bares.
Não são brancas nem pretas, são todas amarelas,
Maltrapilhas, doentes e quase sempre banguelas.
Algumas são ferozes, agem com violência.
Te agridem, te ferem, perderam a paciência.
Na espera de ação, vivem a pedir esmolas,
Hibernadas no álcool, no craque e na cola.
São todas conhecidas, tem número e crachá,
Só não tem quem, das ruas, as queiram tirar.
Às vezes são ordenhadas em pseudo fundações
Onde se filma a miséria prá ter votos aos milhões.
FESTIVAL DO CARAPEBA
Peba, na língua indígena, significa: achatado ou largo. Assim, carapeba
significa: peixe chato de rio Acará ou simplesmente cará chato. Em
tupi-guarani, especificamente, significa também: comum. Na linguagem
nordestina, principalmente do Ceará, o termo peba passou a ser usado de
forma depreciativa como: pobre, otário e desvalido.
Para nós, amigos aqui reunidos, esquecendo a etimologia da palavra,
chamemos de carapeba apenas de um cara comum, ou seja, o individuo em
si, sem títulos, sem patentes ou cargos que o diferenciem dos demais colegas.
Nesses termos, o Festival do Carapeba é um encontro das pessoas
comuns, ou melhor, é onde as pessoas comuns se encontram.
É entre uma cervejinha e um conversa fiada que se descobre a cantora, o
poeta, o pai de família, a mãe dedicada, a amiga fiel e as grandes almas que
se escondem atrás das formas rígidas do labor cotidiano. Lá descobrimos que
o nosso colega é mais que um cara grande, é um grande cara, rico em nobres sentimentos, com experiências de vida tão belas, que nos trazem às lágrimas
quando as descreve. Ali, nós vemos mais que o amigo de fé, vemos a fé do amigo.
Lá percebemos que ele é como qualquer um de nós. Ele tem tristezas, sonhos, desencantos e realizações, mas, acima de tudo, muita, muita alegria de viver!
O PRESENTE DO PAPAI
Neste dia do papai, já não sei o que comprar
O papai é tão severo, não sei do que ele vai gostar
Um sapato, uma cueca? Eu só sei comprar bonecas!
Sei que gosta de futebol, mas não dá conta de jogar
Mamãe diz: dê um Viagra! Vovó diz: não! Vai enfartar!
Acho melhor dá uma cadeira pra ele só se balançar.
Ausência em bronze
Aqui estou conforme o vosso pleito
Em data, local, hora e traje a rigor
Cá não estou de fato, só de direito
Vazio de alma, de afeto e de glamour
Gravai meu sorriso, minha pose e meus passos
Registrai em filmes e fotos, o rito e o momento
Forjai engodo aos tolos, montai o palco falso,
Erguido em ignomínia, em nojo, e fingimento.
O marco apenas ao vosso vazio atesta
Que vejam todos: já nada mais vos resta
Rompestes comigo os limites da decência
Em promessas foi balizada a vossa segurança
Mas em loucuras descarrilastes a confiança
Em bronze eternizastes a minha ausência
O RIBEIRO
Ribeiro Fontes morreu
Como qualquer indigente
Minguando aos olhos dos seus
Sem que ninguém o lamente
Viveu por milhões de anos
Mas não ficou resistente
Contra o agente humano
Destruidor do ambiente
Por resíduos contaminados
Seus pulmões capitularam.
Por seus sulcos depilados
Seus braços fortes secaram
Seu leito seco em avenida
Em breve será transformado
E o doce canto da vida
Prá sempre silenciado
BRASIL QUE DÁ GOSTO
Brasil tropical, de um mar sem igual
que eterniza o verão,
Dos credos nas praças, da paz entre as raças
e da miscigenação
Sem avalanches, vulcões, terremotos, tufões
ou outras tormentas quaisquer,
De mil rios e florestas, da natureza em festa ,
onde a vida é o mister.
Brasil da alegria, do samba e poesia,
és um Brasil canção!
Lar da democracia e da poligenia,
país da livre expressão!
Brasil da festança, do folclore e da dança,
terra da promissão
Brasil do aconchego, da cachaça e levedo
e da fartura de grãos
Vazios os fortes da serra, és uma pátria sem guerra,
és uma casa de irmãos!
Oh meu Brasil pacifista, de qualquer ponto vista,
és a melhor das nações!
Quem ainda não te conhece, vive missa sem prece
e por certo está a perder:
Um Brasil que dá gosto, dá alegria e remoço,
terra prá se viver!
Natal à Brasileira
Dia vinte e cinco, noite estrelada.
Maria, em parto, geme na parada.
Transeuntes da noite vêem e não fazem nada,
Apenas contemplam e dizem: coitada!
José, no Inamps, clama desesperado.
A ambulância se encontra em outra "emergência",
Pois desde a tarde, fato não registrado,
Saíra a serviço de alguém da gerência.
José volta atônito e encontra Maria
Transtornada de dor e de tanta aflição.
Apresenta no rosto uma amarga alegria,
Pois já tem em seus braços o menino Tião.
Tião nasceu prematuro, quase natimorto:
Só mesmo um milagre o manteve com vida.
Raquítico, doente, só em pele e osso,
Amargo retrato da mãe desnutrida.
Vivia Tião como os garotos pobres,
Se alimentando do lixo da sua cidade,
Se escondendo do ódio de tantos Herodes
Assassinos vestidos de justiça e verdade.
Apreenderam o Tião em plena capital,
Clamando por pão e sedento de escola.
Taxaram-no de ladrão e de vil marginal
E o calaram com o vinagre do ópio e da cola.
Autódromos, metrôs e obras faraônicas
Consomem os recursos de um governo cruel
Que deixa com fome as nossas crianças:
É Herodes matando os filhos de Raquel.
No calvário das ruas das nossas cidades
Jazem nossas crianças em estado letal,
E os que nada fazem contra esta calamidade
Com Pilatos e Herodes celebram o Natal.
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza