SEM PALAVRAS
Não me peças palavras para a ti dedicar
Já sou fonte sem água, só tristeza a jorrar
Sou cantiga sem vida, sou o piar do sertão,
Sou uma ave ferida a se arrastar pelo chão.
Já não vejo poesia em um nascer do sol,
Só há penumbra e tristeza no cair do arrebol
Muito mais que angustia é o que estou a sentir,
soluços de minh'alma, é melhor não ouvir.
Não se pede ajuda a quem não tem um tostão
Nem se estende o braço a quem não tem mais as mãos
Não há música ou poesia no apagar da ilusão
Do soluço o bramido é minha única expressão.
ALIENAÇÃO
É estranho e confuso o que estou a sentir,
pois estou tão perdido como pluma no ar,
como ave migrante - sem saber aonde ir,
minha alma inquieta não consegue se achar
Em meu porto seguro não mais quero atracar
Mãos que me deram afago já não me podem agradar
Tenho medo do escuro, mas já não quero o luar
Como um ébrio sem álcool, um estranho no lar
Me angustia e me alegra o que minh'alma tem
É confuso e gostoso este meu querer bem,
esta louca ternura e fixação por você,
que não sei se possuo, mas não quero perder
O HERÓI DESCONHECIDO
Nós na escola estudamos
sobre heróis desconhecidos
suas história decoramos
e repassamos aos nossos filhos
Mas às vezes somos injustos
em manter no anonimato
não um herói, mas um vulto
que é lembrado em todo fato
Não tem história nem honra
para aos outros repassar,
sua vida é apenas vergonha,
não pode dela falar
Nunca venceu uma batalha
pois nelas nunca entrou
Mas sempre encheu sua mala
com o que um outro conquistou
Ele é do brio a negação,
um eterno escravo do medo,
um parasita entre irmãos
ou simplesmente: pelego
BOLSA-ESCOLA
Condoa-se o rei com a mãe do fenecido
preste-lhe auxilio e amenize seu drama,
mas não divida da outra o filho vivo
nem chame de equidade a tal infâmia
Justiça não se faz com hipocrisia
nem se nivela por baixo a má sorte
Não se aniquila o caminhar dos que tem vida
para igualá-los na inércia da morte
Não se admite o ato salafrário
de dar bolsa-escola a um pequenino
tirando os direitos e o salário
daquele que ministra o próprio ensino
VIAGEM INSANA
Excesso de amor na bagagem
tornou o marujo insano,
pois nem percebeu ser miragem
o que julgou ser oceano
Em seu insano desejo
no mar do amor foi navegar
e nem da verdade o lampejo
fez o marujo acordar
Ao cais do desdém amarrado,
seu barco nunca partiu,
mas pelo amor obcecado
este detalhe não viu
Em seu diário da vida
a ventura do amor descreveu
e não há expert que diga
que ela nunca aconteceu
De volta ao porto, cansado,
o marujo por fim voltou
e seus olhos contristados
são prova de quanto amou
Se foi verdade ou loucura
já ninguém sabe dizer,
mas um amor com tal ventura
todos são loucos pra ter
A PARTIDA
Eu quero tanto saber por que partiste
de modo súbito qual estrela cadente
Por que a noite enluarada de minha vida
deixaste em trevas assim tão de repente?
Não sei se quero saber de sua partida
explicações que nada podem reparar
Talvez agucem e magoem as feridas
Que o tempo tenta em vão cicatrizar
Não quero nunca saber os teus motivos,
se outra paixão ou se de mim rancor
Ao desengano, a dúvida eu prefiro
pois assim penso que ainda és meu amor.
Eu quero tanto esquecer tua partida,
não com um amor que me sirva de consolo,
mas com o raiar de minha outra nova vida,
que só começa no anunciar de seu retorno
REVELAÇÃO
Quem escreve poemas também pinta quadros
Em palavras e versos qual tinta a escorrer
Às vezes é rude, insensível ou antiquado
Mas é voz de sua alma a angustia de um ser
Quem lê um poema contempla uma paisagem
Que nas cores dos versos alguém quis pintar
Lá há dores, há sonhos, realidade e miragem
E em fantasias ou lembranças o leitor vai se achar
Quem gosta de poemas, gosta de mergulhar
Em águas profundas de mistérios sem par
Quem mergulha nos versos pode até encontrar
Entre sorrisos e lágrimas, sua alma a cantar
LEMBRANÇAS
O amor pode cobrir mágoas
Crescer, florir e despontar
Mas a dor do peito em chagas
Ao coração faz chorar
A lembrança traz momentos
Que não se quer reviver,
Mas a dor e o sofrimento
Ninguém consegue esquecer
Quem dera esquecer o que amamos
E alheio aos desígnios viver
Mandar para além do oceano
A dor que nos faz padecer
INFORTÚNIO
Vendo-me assim, tão pequeno e faminto,
Te comoves e sentes por mim compaixão,
Mas ao pensar nos culpados deste meu vil destino,
Tua raiva sufoca a primeira emoção.
Eu não fiz a escolha do lar que nasci,
E o pai que eu tenho, não te censuro julgar,
Mas um pedaço de pão, foi só o que pedi.
Tua revolta não pode minha fome matar.
Com o Samaritano, precisamos aprender:
Quem legaliza o infortúnio, não o quer resolver.
Do faminto o problema, só achará solução
Nos que acima da mente, vêem com o coração.
EM BUSCA DE TI
Eu saio ao ermo em busca de ti...
lembranças trazidas à revelia do tempo.
Te vejo na chuva, na brisa e no vento,
em tudo onde passo, estou a te ver.
As nuvens rebeldes são teus cabelos esvoaçando em festa.
Se desmanchadas em chuvas, são também eles
molhados, presos em touca ou escorridos na testa.
Se troveja, me vem à mente a tua excitação nos nossos momentos íntimos.
Se a chuva cai fina e constante, te vejo dengosa,
deitada em meu colo sob uma canção de ninar,
onde o tempo caminha em passos leves e delicados,
para não nos perturbar o aconchego.
Te vejo nos agudos picos dos montes,
em saliências e escarpas de teu corpo nu
mas, também as campinas e prados
e os remansos dos rios me falam de ti,
serena, meiga e delicada.
Onde o meu corpo acomodado,
encontra por fim descanso após uma longa jornada.
Ali, sim, meus medos são banidos e minháalma,
entorpecida por seus encantos, consegue enfim ser feliz.
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza