O PRESÉPIO DE JESUS
Muitos dos que entraram saíram logo. Alguns até com seus narizes tampados de nojo. Outros nem sequer chegaram perto, apenas balançaram a cabeça com ares de quem perdeu a viagem. Também, o lugar era horrível. Fezes de animais e mosquitos por toda parte. Não sei como alguém consegue ficar num ambiente destes. Assim era a estrebaria, sem tirar nem por nada; cavalos, vacas, cachorro, porcos e outros pequenos animais. Todavia, em um cantinho dela, num pequeno cocho forrado de palha, estava o menino Jesus. Simples e resplandecente. Trazia em seu olhar a esperança, não de um povo, mas de toda a humanidade. Nele estava a redenção e o cumprimento de todas as promessas. Nele a vida tomava forma, não a vida do menino, mas a vida eterna aos homens.
Quando queremos ir ver a Jesus é preciso ter foco. Há sempre muitos incômodos. Nas igrejas também há porcos, cachorros, vacas e vários insetos. Quem vai a igreja para ver a Jesus não se importa com o contexto. Ele é a luz, e luz resplandece nas trevas. A estrebaria não foi desocupada para que Jesus recebesse os seus adoradores. Estes foram lá e o adoraram. Quando bucarmos critérios para limpar um lugar onde queremos que Jesus esteja, perceberemos que, na maioria das vezes, deveríamos também ser expurgados na faxina!
FATOS E FOTOS
Que faço das fotos?
Perguntas a mim.
- O que já a tudo fizeste,
Pisar e dar fim.
Para que recordar,
O que não soube manter?
Por acaso o lembrar,
As fará reviver?
Não carregue na mente
O que da alma tirou
Nem mais chore ou lamente
O que consciente deixou
Vá te entregue as loucuras
Que ousaste criar
Mas, por favor, me exclua
Deste teu vadiar
Tenho um rumo sincero
Para o meu prosseguir
Por isso esqueço e renego
Quem ousou me cuspir
De minha alma arrancada
Tua imagem findou
Tuas cinzas cremadas
Já o vento levou
FACETAS
Amores e dores
Nas mesmas cores
Espinhos e flores
Tristeza ou saudade
Ora parte ora invade
Ora adoça ora arde
Choro e canção
Luz e escuridão
Entre sonho e razão
Fé e desengano
Acendendo e apagando
Continuo tentando
Ora sábio ora um tonto
Ora atraio ora espanto
Ah se um dia eu te encanto!
Carta ao Papai Noel
Meu querido Papai Noel, sou muito grato a você pelos presentes que você me tem dado todos os anos. No Natal passado ganhei uma bike importada e um game station. Fiquei muito feliz. Vovó me disse que você é um velhinho muito bom e que faz a alegria das crianças. Eu acho isso muito bonito. Não sei onde você mora, mas sendo assim tão bonzinho, deve morar perto do céu. Quero te pedir uma coisa: este ano, não me mande presentes, apenas me faça um favor: Sei que a sua tarefa é fazer as crianças felizes e minha mãe não é criança, mas é que ela anda muito triste, ultimamente. Assim, ao invés de trazer presente pra mim, você podia trazer uns presentes para ela. Eu não sei se você tem mãe, mas se tiver uma saberá que não há como ser feliz quando a mãe da gente está triste. Não sei o que ela quer no Natal. Se ela fosse criança eu até saberia, porque sei o que minhas primas gostam quando ganham de presente. Eu só sei que, às vezes, quando eu a vejo de joelhos orando, ela pede a Jesus algumas coisas que eu não compreendo bem. Já a vi pedindo sustento, carinho, compreensão, tranqüilidade e paz de espírito. Não sei o que são estas coisas, nunca vi ninguém brincando com isto, mas devem ser coisas boas, senão ela não pediria. Provavelmente você não tenha nada disso na sua oficina porque só faz brinquedos, mas morando aí perto do céu você pode ver com Jesus o que são essas coisas e trazer para ela no seu trenó de natal, quando vier à minha casa. O quarto dela fica depois do meu. Passe só depois de meia noite, porque ela demora a dormir. Ah! sim, mais uma coisa. Eu já ia esquecendo: Não diga a ela que foi eu que pedi isso a você. Quero ver o sorriso dela cheio de surpresa. Um beijo. Carlinhos.
AMORGRAFIA
O amor é um fogo de facho
Calor que evapora o riacho
Loucuras que só ele faz
O amor tem as raspas de tacho
Tem mel e tem uvas em cachos
E o gostinho de "quero mais"
O amor tem lembranças obscuras
Tem na dor o colchão e a ternura
Saudades do que é fugaz
O amor tem tristezas ocultas
Loucuras em vidas impolutas
Carência dura e tenaz
O amor tem enrustido o seu medo
No carinho, as doses de placebo
Pra uma dor que não se desfaz
O amor tem o glamour de momentos
Tem ódio entre outros sentimentos
Tem ventos que só o tempo traz
O amor tem a magia dos fados
Mas também cicatrizes de cravos
Que nem um outro amor as desfaz
O amor tem ranhuras profundas
Paixões que se leva pra tumba
Das quais não se esquece jamais
PAISAGEM DE NATAL
Não sei exatamente porque, mas para mim a melhor paisagem de Natal está associada à imagem de umas casinhas num recanto da serra, cobertas de neve e com suas chaminés esfumaçando num céu cheio de estrelas. É estranho como a imaginação nos transporta para este mundo irreal, bucólico e fantasioso, pois nunca estive num lugar assim. Muitos dizem que as paisagens de Natal são assim definidas porque foram apregoadas pelos europeus e, como é inverno na Europa no mês de dezembro, as imagens de natal ficam assim associadas a ele. Todavia, eu ouso pensar diferente.
Para mim o Natal é aconchego. É o momento da busca de braços fraternos, familiares ou não. É a lembrança da humanidade dos homens. É a hora de nos lembrarmos que não somos só umas máquinas ferozes, lutando por espaço num mundo egoísta e competitivo. A vida é mais que uma disputa, é uma tela vazia onde cabe a nós definir as cores. Somos humanos, precisamos de afeto, carinho, amor, perdão e fraternidade. A alegria autóctone não existe e a beleza só toma forma na instrumentalidade de seus admiradores.
Independente das guloseimas, nenhuma ceia é plena sem os seus convidados. O sorriso para o espelho loucura e nada mais que isso. É o brilho dos olhos alheios que dá realização as almas. Tudo o que temos e fazemos é com o propósito de encontrar nos olhares de outrem o brilho do orgulho, o sorriso do reconhecimento e o gesto da gratidão pela nossa existência. É esta a emoção que dá sabor a vida e coroa de louros a nossa jornada. Sem isto, toda carreia é inútil e toda a glória alcançada é vã. O Natal representa o aquecer dos corações pela lareira do amor divino, num mundo frio, injusto e mesquinho. Feliz Natal
DESAPEGO
Parte meu bem depressa, antes que amanheça
Quero com as estrelas, ver apagar esta ilusão
Prá que desta noite eu sem demora esqueça
Loucuras e fantasias a entorpecer meu coração
Parte depressa, deixa-me a sós com a tristeza.
Minhas desventuras, não as queiras conhecer
Não manches em mágoas a tua graça e beleza
De novo as quero, se outra vez puder te ver
Parte meu bem com a alegria e o sorriso
De quem possui toda magia e sedução
Pois és a barca que conduz ao paraíso
Meu ser desfeito por tristeza e solidão
OVELHA CAMPESTRE
Às vezes tu pensas que não prezo por de ti
Pois te deixo tão solta, não vivo a ti seguir
Eu sei que há perigo em meio à cerração
Atrás de uma rocha pode haver um leão
Que uivem os lobos ao vê-la passar
A ovelha esperta não se deixa levar
Ovelha em cabresto é que deseja fugir
Mas a livre e feliz, não é vista a mugir
Lobos e raposas há em todo lugar
O coelho ou a lebre tem é que se cuidar
Da gaiola a loucura, nunca foi proteção
A ovelha da relva, a correr e saltitar
Corre riscos de fato, pode se machucar
Mas é livre e feliz, longe da escravidão
FANTASIAS DE NATAL
Apesar do mercantismo - coisa que eu detesto por princípio, acho o natal um período mágico maravilhoso. É claro que está cheio de símbolos sem fundamentação histórica ou religiosa, mas o quechamo aqui a atenção é ao poder da fantasia. Para os adultos pode ser babaquice, mas para uma criança a fantasia talvez seja a única válvula de escape que lhe resta em um mundo de desilusões e tragédias.
Esqueçamos as tragédias, quero lembrar aqui da minha primeira arvore de natal. Primeira? Talvez não, mas a primeira a ser fotografada na tela do meu mundo infantil e a me transportar além das fronteiras de uma realidade dura e cruel. Lembro-me como se fosse hoje. Nunca imaginei que houvesse algo assim: bolas coloridas espelhadas e resplandecentes que cintilavam ao piscar de estrelinhas mágicas numa visão de encanto que jamais esqueci. Transportei-me para o mundo dos sonhos. Conclui que o paraíso deveria era daquele jeito. Nunca havia visto luz elétrica nem bolas espelhadas em cores tão divinas. Fiquei preso ali por horas sem que nada conseguisse tirar a minha atenção até que me tirassem a força. Senti-me como Adão sendo expulso do paraíso. Jamais esquecerei aquele dia.
Interessante, o que coisas simples como bolas de lantejoulas e uma bateria ligada há um pisca-pisca podem fazer com a mente de uma criança carente? Neste Natal, pegue uma criança da periferia e leve ao shopping, pague-lhe uma volta na pista de gelo e um sorvete de morango e estarás eternizado no mundo de suas fantasias! Feliz Natal. Ho, ho, ho, ho!
A ECLOSÃO
De repente ela caiu em si - estava só. Descobriu que a sua fortaleza de pedra, intransponível aos olhos do mundo, a qual pensara por tanto tempo ser o seu refúgio era de fato o seu degredo. Lá isolou seus entes da crueldade do mundo, do desenfreio urbano e da lascívia do consumismo. Sua casa fortificada a consumira em cuidados. Passara os melhores dias da sua vida postada de sentinela, lutando para que as angústias da vida não atingisse aos seus filhos como havia feito com ela. A procriação transforma os sentimentos humanos. Troca-se o fascínio da aventura pela âncora da segurança. Faz do comedor de ovos um guardião de ninhos, da faladora desbocada a voz da prudência e o ditame da moralidade.
Tudo parece seguro até que os ovos eclodem. As janelas agora não são forçadas por fora, mas abertas por dentro em surdina à sombra da confiança. São os filhos que quebram as cascas dos ovos, por isso são chamados de rebentos. É dura e triste a sensação de ter lutado em vão. Os sonhos construídos na fornalha do sacrifício são agora desfeitos na moenda do descaso, da ingratidão explícita e no curtume da indiferença. O segundo parto dói muito mais que o primeiro. No primeiro o sonho alivia a dor, mas no segundo é o desfazer dos sonhos que provoca as dores. Num nasce a esperança no outro a desilusão. Num a alegria de conhecer quem chega no outro a tristeza de se desconhecer quem parte.
Já não sabe se chora por si ou por eles. A dor da desilusão é tão profunda quanto a amargura do desterro. Busca conforto no sentimento da obrigação cumprida, mas este foge dela lançando-lhe ao rosto a sua vida usada e o seu esforço inútil em favor de quem não o merecia. Posteriormente, depois de aprender a suportar a amargura da derrota, tentará achar no sorriso infante de seus netos o bálsamo de gratidão que lhes devia os filhos. Pensando bem, se tivesse a chance de recomeçar, faria tudo do mesmo jeito. Carregaria consigo a dor da abnegação vazia, mas guardaria sempre em seu bojo a certeza de que amou acima da razão e que tudo fez para que eles fossem plenamente felizes.
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza