DESAPEGO
Parte meu bem depressa, antes que amanheça
Quero com as estrelas, ver apagar esta ilusão
Prá que desta noite eu sem demora esqueça
Loucuras e fantasias a entorpecer meu coração
Parte depressa, deixa-me a sós com a tristeza.
Minhas desventuras, não as queiras conhecer
Não manches em mágoas a tua graça e beleza
De novo as quero, se outra vez puder te ver
Parte meu bem com a alegria e o sorriso
De quem possui toda magia e sedução
Pois és a barca que conduz ao paraíso
Meu ser desfeito por tristeza e solidão
FACETAS
Amores e dores
Nas mesmas cores
Espinhos e flores
Tristeza ou saudade
Ora parte ora invade
Ora adoça ora arde
Choro e canção
Luz e escuridão
Entre sonho e razão
Fé e desengano
Acendendo e apagando
Continuo tentando
Ora sábio ora um tonto
Ora atraio ora espanto
Ah se um dia eu te encanto!
APARTHEID
Eu sei que no altar tu a mim juraste
Amar-me com toda a força do teu ser
Mas põe, por favor, a jura à parte
E cumpra tão somente o teu querer
Não a quero junto a mim por compromisso
Sem que a tua alma aqui queira estar
Amar é devoção, não sacrifício
Nem cruz que se pegou pra carregar
Não posso mais viver da nostalgia
Nem na tristeza perenemente arrastar
Indiferença, dor, segregação
Não quero mais do descaso a companhia
Nem o lamento a marcar meu caminhar
À afronta, eu prefiro a solidão
FATOS E FOTOS
Que faço das fotos?
Perguntas a mim.
- O que já a tudo fizeste,
Pisar e dar fim.
Para que recordar,
O que não soube manter?
Por acaso o lembrar,
As fará reviver?
Não carregue na mente
O que da alma tirou
Nem mais chore ou lamente
O que consciente deixou
Vá te entregue as loucuras
Que ousaste criar
Mas, por favor, me exclua
Deste teu vadiar
Tenho um rumo sincero
Para o meu prosseguir
Por isso esqueço e renego
Quem ousou me cuspir
De minha alma arrancada
Tua imagem findou
Tuas cinzas cremadas
Já o vento levou
Happy Hour
Sai mais uma vez ao vento
Enche tua alma da brisa
Ventura do amor e alento
Que a toda dor cicatriza
Ainda que em tempo incerto
Teu ser, encontrar precisa
Oculto em um olhar discreto
A graça de uma Monalisa
Corre, abandona a carga
Vai de encontro ao destino
Há muita vida além desta serra
Apressa-te, a noite não tarda
O trem do tempo é mesquinho
Para pouco e a ninguém espera
Carta ao Papai Noel
Meu querido Papai Noel, sou muito grato a você pelos presentes que você me tem dado todos os anos. No Natal passado ganhei uma bike importada e um game station. Fiquei muito feliz. Vovó me disse que você é um velhinho muito bom e que faz a alegria das crianças. Eu acho isso muito bonito. Não sei onde você mora, mas sendo assim tão bonzinho, deve morar perto do céu. Quero te pedir uma coisa: este ano, não me mande presentes, apenas me faça um favor: Sei que a sua tarefa é fazer as crianças felizes e minha mãe não é criança, mas é que ela anda muito triste, ultimamente. Assim, ao invés de trazer presente pra mim, você podia trazer uns presentes para ela. Eu não sei se você tem mãe, mas se tiver uma saberá que não há como ser feliz quando a mãe da gente está triste. Não sei o que ela quer no Natal. Se ela fosse criança eu até saberia, porque sei o que minhas primas gostam quando ganham de presente. Eu só sei que, às vezes, quando eu a vejo de joelhos orando, ela pede a Jesus algumas coisas que eu não compreendo bem. Já a vi pedindo sustento, carinho, compreensão, tranqüilidade e paz de espírito. Não sei o que são estas coisas, nunca vi ninguém brincando com isto, mas devem ser coisas boas, senão ela não pediria. Provavelmente você não tenha nada disso na sua oficina porque só faz brinquedos, mas morando aí perto do céu você pode ver com Jesus o que são essas coisas e trazer para ela no seu trenó de natal, quando vier à minha casa. O quarto dela fica depois do meu. Passe só depois de meia noite, porque ela demora a dormir. Ah! sim, mais uma coisa. Eu já ia esquecendo: Não diga a ela que foi eu que pedi isso a você. Quero ver o sorriso dela cheio de surpresa. Um beijo. Carlinhos.
O MÉDICO
Quase sempre de branco
Mas carmesim é sua cor
Na aflição e no pranto
Rege a música da dor
A quem primeiro socorre?
Cabe a ele o julgar
Até conhece o que morre
Mas não o pode chorar
É mal súbito ou crônico?
Que se pode fazer?
É local ou sistêmico?
Pode-se reverter?
Se o consegue, é exaltado
Mas se não, é incompetente!
Não importa o estado
Dê-se a vida ao doente!
Quem conhece suas mágoas?
Quem já o ouvir chorar?
Quem esqueceu suas chagas
E foi a ele abraçar?
Quando olham pra ele
Todos só se lembram de si
Mas, só abracem hoje a ele
Pois ele também quer sorrir
O presente de Papai Noel
Papai Noel, no mês passado eu completei sete anos de vida. Fui para a escola e descobri que você na verdade não existe. Fiquei muito decepcionado, mas depois pensando melhor, conclui que você nunca existiu mesmo. Não estava aqui quando eu chorava; nunca me levou para brincar na praça nem entrou comigo em uma piscina. Deu-me uma bicicleta, mas não me ensinou a andar nela. Não tenho nenhuma foto de você comigo. Este ano eu quero outro presente. Não o presente do papai, mas o papai presente. Presente quando eu chorar, quando eu sorrir, ou simplesmente quando eu quiser um colo pra deitar. Quero você presente para ser o meu herói e me fazer sonhar como os outros garotos sonham. Não quero mais dormir abraçado com o cachorro de pelúcia, quero o meu pai. Não me interessa se você vive magoado com minha mãe, eu sou seu filho e quero que você seja de fato o meu pai. Pode deixar aqui o presente que me trouxeste, mas leve a caixa vazia contigo para que se lembre que estás ausente para comigo. E que sem você o meu passado foi triste, o meu presente é vazio e o meu futuro é incerto e tenebroso. Beijos, Carlinhos.
Pedido de Perdão
Papai Noel, eu deixei este recadinho pra você para pedir-lhe perdão. Você não sabe do que se trata mais eu sei. Há mais ou menos um mês, minha professora falou sobre racismo. Fiquei muito impressionado com a maldade das pessoas. Ela nos contou sobre um sujeito chamado Hitler, tão mal que até passei a chamar o cachorro da vizinha por este nome. Coitado do cachorro, mas às vezes eu vejo a maldade nos olhos dele. Foi aí que eu pequei. Fiquei pensando: será que, apesar de tão bonzinho, você também não poderia ser um racista? A professora falou que os racistas normalmente são pessoas de boa aparência e até educadas. Não entendi nada, será que a educação faz isto com as pessoas? Mas o que importa é que eu pensei que você fosse um racista, porque sempre dá presentes pra todas as crianças do meu bloco, mas nunca deu presentes para os garotos ali da periferia. Eu não acho que eles sejam maus meninos. O Fernando, por exemplo, obedece muito mais a mãe dele do que eu obedeço à minha e tem bem melhores notas que eu na escola. Contudo, você não deu nada pra ele no ano passado. Ele chorou muito. Contei isto pra vovó, então ela me explicou que você já está tão velhinho que anda esquecendo as coisas. Aí então percebi que eu havia pecado de novo, pois eu é quem devia ter lembrado isso a você, eu sempre lembro a vovó de tomar o remédio dela. Por isso, estou pedindo perdão e deixando aqui uma lista com os nomes de meus amiguinhos lá da periferia, para que você não mais se esqueça deles. Outra coisa, minha avó toma fosfozol, diz ela que é bom pra memória. Pedi a vovó que deixasse uns comprimidos pra você, mas ela não quis deixar, mas você pode comprar na farmácia do Almeida. Beijos, Carlinhos
ILHA DOS SONHOS
Encha-te de fé e sai outra vez em busca de sua alma gêmea. Não sabes como ela é, mas com certeza a conhecerás quando, em um só sorriso, tua alma for resgatada da tormenta e for levada de novo a sentir o cheiro da terra firme. Abandone o diário de bordo, crivo das tuas muitas lamentações, dê espaço amplo a alegria. Alegria esta construída no fiar de muitos sonhos e tecida nos desejos de uma alma carente. Fios sem o aço das juras eternas, sem a segurança do tempo, mas trançados nas ilusões hibernadas da juventude e amaciados pelo aguçar dos sentidos, os quais te lembram que deves ser feliz, ainda que por tempo incerto.
Não é fácil por de novo o barco n'água. Cada naufrágio vivido ressoa como pesadelo em noites de trovoadas. Porém, o amor te impulsiona e te diz que há, por certo, uma ilha deserta onde a desconfiança nunca atracou nem o egoismo fez morada. Nela sim, poderás habitar isenta de todos os teus medos.
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza