FACETAS
Amores e dores
Nas mesmas cores
Espinhos e flores
Tristeza ou saudade
Ora parte ora invade
Ora adoça ora arde
Choro e canção
Luz e escuridão
Entre sonho e razão
Fé e desengano
Acendendo e apagando
Continuo tentando
Ora sábio ora um tonto
Ora atraio ora espanto
Ah se um dia eu te encanto!
OVELHA CAMPESTRE
Às vezes tu pensas que não prezo por de ti
Pois te deixo tão solta, não vivo a ti seguir
Eu sei que há perigo em meio à cerração
Atrás de uma rocha pode haver um leão
Que uivem os lobos ao vê-la passar
A ovelha esperta não se deixa levar
Ovelha em cabresto é que deseja fugir
Mas a livre e feliz, não é vista a mugir
Lobos e raposas há em todo lugar
O coelho ou a lebre tem é que se cuidar
Da gaiola a loucura, nunca foi proteção
A ovelha da relva, a correr e saltitar
Corre riscos de fato, pode se machucar
Mas é livre e feliz, longe da escravidão
ILHA DOS SONHOS
Encha-te de fé e sai outra vez em busca de sua alma gêmea. Não sabes como ela é, mas com certeza a conhecerás quando, em um só sorriso, tua alma for resgatada da tormenta e for levada de novo a sentir o cheiro da terra firme. Abandone o diário de bordo, crivo das tuas muitas lamentações, dê espaço amplo a alegria. Alegria esta construída no fiar de muitos sonhos e tecida nos desejos de uma alma carente. Fios sem o aço das juras eternas, sem a segurança do tempo, mas trançados nas ilusões hibernadas da juventude e amaciados pelo aguçar dos sentidos, os quais te lembram que deves ser feliz, ainda que por tempo incerto.
Não é fácil por de novo o barco n'água. Cada naufrágio vivido ressoa como pesadelo em noites de trovoadas. Porém, o amor te impulsiona e te diz que há, por certo, uma ilha deserta onde a desconfiança nunca atracou nem o egoismo fez morada. Nela sim, poderás habitar isenta de todos os teus medos.
AMORGRAFIA
O amor é um fogo de facho
Calor que evapora o riacho
Loucuras que só ele faz
O amor tem as raspas de tacho
Tem mel e tem uvas em cachos
E o gostinho de "quero mais"
O amor tem lembranças obscuras
Tem na dor o colchão e a ternura
Saudades do que é fugaz
O amor tem tristezas ocultas
Loucuras em vidas impolutas
Carência dura e tenaz
O amor tem enrustido o seu medo
No carinho, as doses de placebo
Pra uma dor que não se desfaz
O amor tem o glamour de momentos
Tem ódio entre outros sentimentos
Tem ventos que só o tempo traz
O amor tem a magia dos fados
Mas também cicatrizes de cravos
Que nem um outro amor as desfaz
O amor tem ranhuras profundas
Paixões que se leva pra tumba
Das quais não se esquece jamais
DESAPEGO
Parte meu bem depressa, antes que amanheça
Quero com as estrelas, ver apagar esta ilusão
Prá que desta noite eu sem demora esqueça
Loucuras e fantasias a entorpecer meu coração
Parte depressa, deixa-me a sós com a tristeza.
Minhas desventuras, não as queiras conhecer
Não manches em mágoas a tua graça e beleza
De novo as quero, se outra vez puder te ver
Parte meu bem com a alegria e o sorriso
De quem possui toda magia e sedução
Pois és a barca que conduz ao paraíso
Meu ser desfeito por tristeza e solidão
Carta ao Papai Noel
Meu querido Papai Noel, sou muito grato a você pelos presentes que você me tem dado todos os anos. No Natal passado ganhei uma bike importada e um game station. Fiquei muito feliz. Vovó me disse que você é um velhinho muito bom e que faz a alegria das crianças. Eu acho isso muito bonito. Não sei onde você mora, mas sendo assim tão bonzinho, deve morar perto do céu. Quero te pedir uma coisa: este ano, não me mande presentes, apenas me faça um favor: Sei que a sua tarefa é fazer as crianças felizes e minha mãe não é criança, mas é que ela anda muito triste, ultimamente. Assim, ao invés de trazer presente pra mim, você podia trazer uns presentes para ela. Eu não sei se você tem mãe, mas se tiver uma saberá que não há como ser feliz quando a mãe da gente está triste. Não sei o que ela quer no Natal. Se ela fosse criança eu até saberia, porque sei o que minhas primas gostam quando ganham de presente. Eu só sei que, às vezes, quando eu a vejo de joelhos orando, ela pede a Jesus algumas coisas que eu não compreendo bem. Já a vi pedindo sustento, carinho, compreensão, tranqüilidade e paz de espírito. Não sei o que são estas coisas, nunca vi ninguém brincando com isto, mas devem ser coisas boas, senão ela não pediria. Provavelmente você não tenha nada disso na sua oficina porque só faz brinquedos, mas morando aí perto do céu você pode ver com Jesus o que são essas coisas e trazer para ela no seu trenó de natal, quando vier à minha casa. O quarto dela fica depois do meu. Passe só depois de meia noite, porque ela demora a dormir. Ah! sim, mais uma coisa. Eu já ia esquecendo: Não diga a ela que foi eu que pedi isso a você. Quero ver o sorriso dela cheio de surpresa. Um beijo. Carlinhos.
PAISAGEM DE NATAL
Não sei exatamente porque, mas para mim a melhor paisagem de Natal está associada à imagem de umas casinhas num recanto da serra, cobertas de neve e com suas chaminés esfumaçando num céu cheio de estrelas. É estranho como a imaginação nos transporta para este mundo irreal, bucólico e fantasioso, pois nunca estive num lugar assim. Muitos dizem que as paisagens de Natal são assim definidas porque foram apregoadas pelos europeus e, como é inverno na Europa no mês de dezembro, as imagens de natal ficam assim associadas a ele. Todavia, eu ouso pensar diferente.
Para mim o Natal é aconchego. É o momento da busca de braços fraternos, familiares ou não. É a lembrança da humanidade dos homens. É a hora de nos lembrarmos que não somos só umas máquinas ferozes, lutando por espaço num mundo egoísta e competitivo. A vida é mais que uma disputa, é uma tela vazia onde cabe a nós definir as cores. Somos humanos, precisamos de afeto, carinho, amor, perdão e fraternidade. A alegria autóctone não existe e a beleza só toma forma na instrumentalidade de seus admiradores.
Independente das guloseimas, nenhuma ceia é plena sem os seus convidados. O sorriso para o espelho loucura e nada mais que isso. É o brilho dos olhos alheios que dá realização as almas. Tudo o que temos e fazemos é com o propósito de encontrar nos olhares de outrem o brilho do orgulho, o sorriso do reconhecimento e o gesto da gratidão pela nossa existência. É esta a emoção que dá sabor a vida e coroa de louros a nossa jornada. Sem isto, toda carreia é inútil e toda a glória alcançada é vã. O Natal representa o aquecer dos corações pela lareira do amor divino, num mundo frio, injusto e mesquinho. Feliz Natal
Pedido de Perdão
Papai Noel, eu deixei este recadinho pra você para pedir-lhe perdão. Você não sabe do que se trata mais eu sei. Há mais ou menos um mês, minha professora falou sobre racismo. Fiquei muito impressionado com a maldade das pessoas. Ela nos contou sobre um sujeito chamado Hitler, tão mal que até passei a chamar o cachorro da vizinha por este nome. Coitado do cachorro, mas às vezes eu vejo a maldade nos olhos dele. Foi aí que eu pequei. Fiquei pensando: será que, apesar de tão bonzinho, você também não poderia ser um racista? A professora falou que os racistas normalmente são pessoas de boa aparência e até educadas. Não entendi nada, será que a educação faz isto com as pessoas? Mas o que importa é que eu pensei que você fosse um racista, porque sempre dá presentes pra todas as crianças do meu bloco, mas nunca deu presentes para os garotos ali da periferia. Eu não acho que eles sejam maus meninos. O Fernando, por exemplo, obedece muito mais a mãe dele do que eu obedeço à minha e tem bem melhores notas que eu na escola. Contudo, você não deu nada pra ele no ano passado. Ele chorou muito. Contei isto pra vovó, então ela me explicou que você já está tão velhinho que anda esquecendo as coisas. Aí então percebi que eu havia pecado de novo, pois eu é quem devia ter lembrado isso a você, eu sempre lembro a vovó de tomar o remédio dela. Por isso, estou pedindo perdão e deixando aqui uma lista com os nomes de meus amiguinhos lá da periferia, para que você não mais se esqueça deles. Outra coisa, minha avó toma fosfozol, diz ela que é bom pra memória. Pedi a vovó que deixasse uns comprimidos pra você, mas ela não quis deixar, mas você pode comprar na farmácia do Almeida. Beijos, Carlinhos
Happy Hour
Sai mais uma vez ao vento
Enche tua alma da brisa
Ventura do amor e alento
Que a toda dor cicatriza
Ainda que em tempo incerto
Teu ser, encontrar precisa
Oculto em um olhar discreto
A graça de uma Monalisa
Corre, abandona a carga
Vai de encontro ao destino
Há muita vida além desta serra
Apressa-te, a noite não tarda
O trem do tempo é mesquinho
Para pouco e a ninguém espera
ACADEMIA REVERSA
Os filhos são, quase sempre, juízes antes de serem advogados ou sequer se postarem como alunos do direito. Quando, por fim, aprendem a justiça a pena imposta já foi cumprida por inteira e o edital de reparação, quando ocorre, é póstumo. Soa apenas como uma cantiga de remorso a registrar que a imaturidade é a mãe da estupidez e, quase sempre, verdugo das relações fraternas. Não é à toa que a toga é preta!