SINCRETISMO
Olhos azuis, cabelos dourados, boca pequena
Lábios grossos, cabelos crespos, pele morena
Diferenças a parte, nasce o amor, a paixão reina
Derruba os tabus, mistura valores e miscigena
Malas aparentemente iguais em forma e porte
Numa vive Jeová, mas na outra está Moloque
Sincretismo de fé, com tolerância o amor suporta
Até que nasça a dor e a aflição lhes bata à porta
Cada um a seu jeito busca saída para o problema
Instala-se um altar e acende-se velas ao deus de lata
A outra mala jaz vazia, Jeová a muito saiu de cena
Jeová é Deus, com a idolatria não miscigena
Nem tem promessas para o cristão vira-casaca
Lembre-se disto em seus amores e seus dilemas
DISCERNIR
- O querer de quem ama e o amar de quem quer;
- A paixão dos que amam e os que amam as paixões;
- As fantasias de amor e o amor de fantasias;
- O prazer dos amantes e o amante dos prazeres;
- O falador da verdade e a verdade do falador;
- Os poemas ao amor profundo e o profundo amor aos poemas;
- O mundo de quem ama a verdade e a verdade de quem ama o mundo;
- O desejo de quem te ama e o amar de quem te deseja;
- A beleza dos adoradores e os adoradores da beleza;
- Os que pensam muito a teu respeito e os que respeitam pouco o que tu pensas;
QUERO
Quero ver o teu sorriso nas minhas chegadas
E a confiança de quem ama nas minhas partidas
Quero o teu encanto nas manhãs ensolaradas
Mas também teu canto nas tardes caídas
Quero teu mimo nas noites cor-de-rosa
Mas também as rosas nas noites sem cor
Quero a euforia no ouvir de minhas prosas
Mas também ternura quando calado for
Não quero presentes para fazer amor
Quero o amor a se fazer presente
Mesmo quando a jornada difícil esteja
E quando a formosura do teu corpo se for
Tua simples companhia me fará contente
Pois na graça de tua alma está tua beleza
DEUS NÃO AINDA
Deus não ainda cura
Deus não ainda restaura
Deus não ainda perdoa
Deus não ainda fala
Você ainda pode nele crer!
Ainda pode ser curado!
Ainda pode o receber!
E ser por Ele resgatado!
Deus cura, Deus faz; Deus rege;
Mas Ele vos ama, vede isto,
Oh efêmeros, tais quais vermes!
Deus era; Deus é e sempre o será
Quem assim crê, desfruta disto
Mas quem não o crê, constatará
FOLHAS AO VENTO
Em nada me admires
Nem sequer me censures
Ao meu ego não afagues
Nem também me esmurres
De herói não me faças
Nem também de bandido
Sou um vulto que passa
Para ser esquecido
Minhas marcas no mundo
Vem o tempo e apaga
O que te parece profundo
Lá no fundo é nada
Nada fiz de concreto
Tudo foi passageiro
No que pus meu afeto
Foi-se em vento ligeiro
Que importa escrituras
Do que alguém veio a ter?
Tempo, vento e chuva
A tudo faz perecer
Só há um que merece
A vossa admiração
Exaltai-o nas preces
Ele reina em Sião
ILHA DOS SONHOS
Encha-te de fé e sai outra vez em busca de sua alma gêmea. Não sabes como ela é, mas com certeza a conhecerás quando, em um só sorriso, tua alma for resgatada da tormenta e for levada de novo a sentir o cheiro da terra firme. Abandone o diário de bordo, crivo das tuas muitas lamentações, dê espaço amplo a alegria. Alegria esta construída no fiar de muitos sonhos e tecida nos desejos de uma alma carente. Fios sem o aço das juras eternas, sem a segurança do tempo, mas trançados nas ilusões hibernadas da juventude e amaciados pelo aguçar dos sentidos, os quais te lembram que deves ser feliz, ainda que por tempo incerto.
Não é fácil por de novo o barco n'água. Cada naufrágio vivido ressoa como pesadelo em noites de trovoadas. Porém, o amor te impulsiona e te diz que há, por certo, uma ilha deserta onde a desconfiança nunca atracou nem o egoismo fez morada. Nela sim, poderás habitar isenta de todos os teus medos.
APARTHEID
Eu sei que no altar tu a mim juraste
Amar-me com toda a força do teu ser
Mas põe, por favor, a jura à parte
E cumpra tão somente o teu querer
Não a quero junto a mim por compromisso
Sem que a tua alma aqui queira estar
Amar é devoção, não sacrifício
Nem cruz que se pegou pra carregar
Não posso mais viver da nostalgia
Nem na tristeza perenemente arrastar
Indiferença, dor, segregação
Não quero mais do descaso a companhia
Nem o lamento a marcar meu caminhar
À afronta, eu prefiro a solidão
O PESO DAS COISAS
Quem pesa mais, uma arruda de algodão ou uma arroba de chumbo?
A arroba é uma medida de massa e não de volume ou capacidade, assimambas as cargas pesam iguais. Engraçado, a piadinha é velha mas nosensina muito. As vezes renunciamos centenas de gestos de carinho porcausa de apenas um desacato. Damos muitos mais peso as ofensas do queao amor, embora em volume, os gestos de carinho são muito maisabundantes. Detestamos as agressões. Todavia, damos a elas um local dedestaque nas nossas vidas. A fraternidade é registrada em areia, mas asofensas são gravadas em bronze. Se nos perdoássemos na mesma proporçãoque perdoamos os outros, na certa nos mataríamos. "Assim como nósperdoamos aos nossos devedores", nos ensinou Cristo. Perdoar é o ato deconceder aos outros a misericórdia que almejamos. A justiça doolho-por-olho foi revogada em Cristo porque Deus viu em nós umahumanidade cega, não havia um justo sequer, nenhum caolho. Onde não háperdão, reina a mágoa, a angústia, a depressão e a tristeza. Cristo foi apersonificação do amor, mas passou sua vida nos dando lições demisericórdia. Não desperdices as aulas de Cristo, seja feliz!
O presente de Papai Noel
Papai Noel, no mês passado eu completei sete anos de vida. Fui para a escola e descobri que você na verdade não existe. Fiquei muito decepcionado, mas depois pensando melhor, conclui que você nunca existiu mesmo. Não estava aqui quando eu chorava; nunca me levou para brincar na praça nem entrou comigo em uma piscina. Deu-me uma bicicleta, mas não me ensinou a andar nela. Não tenho nenhuma foto de você comigo. Este ano eu quero outro presente. Não o presente do papai, mas o papai presente. Presente quando eu chorar, quando eu sorrir, ou simplesmente quando eu quiser um colo pra deitar. Quero você presente para ser o meu herói e me fazer sonhar como os outros garotos sonham. Não quero mais dormir abraçado com o cachorro de pelúcia, quero o meu pai. Não me interessa se você vive magoado com minha mãe, eu sou seu filho e quero que você seja de fato o meu pai. Pode deixar aqui o presente que me trouxeste, mas leve a caixa vazia contigo para que se lembre que estás ausente para comigo. E que sem você o meu passado foi triste, o meu presente é vazio e o meu futuro é incerto e tenebroso. Beijos, Carlinhos.
Pedido de Perdão
Papai Noel, eu deixei este recadinho pra você para pedir-lhe perdão. Você não sabe do que se trata mais eu sei. Há mais ou menos um mês, minha professora falou sobre racismo. Fiquei muito impressionado com a maldade das pessoas. Ela nos contou sobre um sujeito chamado Hitler, tão mal que até passei a chamar o cachorro da vizinha por este nome. Coitado do cachorro, mas às vezes eu vejo a maldade nos olhos dele. Foi aí que eu pequei. Fiquei pensando: será que, apesar de tão bonzinho, você também não poderia ser um racista? A professora falou que os racistas normalmente são pessoas de boa aparência e até educadas. Não entendi nada, será que a educação faz isto com as pessoas? Mas o que importa é que eu pensei que você fosse um racista, porque sempre dá presentes pra todas as crianças do meu bloco, mas nunca deu presentes para os garotos ali da periferia. Eu não acho que eles sejam maus meninos. O Fernando, por exemplo, obedece muito mais a mãe dele do que eu obedeço à minha e tem bem melhores notas que eu na escola. Contudo, você não deu nada pra ele no ano passado. Ele chorou muito. Contei isto pra vovó, então ela me explicou que você já está tão velhinho que anda esquecendo as coisas. Aí então percebi que eu havia pecado de novo, pois eu é quem devia ter lembrado isso a você, eu sempre lembro a vovó de tomar o remédio dela. Por isso, estou pedindo perdão e deixando aqui uma lista com os nomes de meus amiguinhos lá da periferia, para que você não mais se esqueça deles. Outra coisa, minha avó toma fosfozol, diz ela que é bom pra memória. Pedi a vovó que deixasse uns comprimidos pra você, mas ela não quis deixar, mas você pode comprar na farmácia do Almeida. Beijos, Carlinhos
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza