Lista de Poemas

ALMEJOS – Desejos da Alma

Almejo as poesias líricas, de beleza pura
Não os versos tristes manchados de dor
Almejo ver em todos, o olhar da ternura
A nobreza esplêndida, adornada de amor

Almejo encontrar no despontar alvorada
A esperança dos homens, a fé no amanhã
Não a violência que assombra a madrugada
Que semeia as tristezas e alimenta o pavor

Almejo ver em todos, o sorriso da criança
O olhar sem inveja, a feição do amor
Onde a fraternidade plenamente reinasse

Almejo a boa fé, mãe de toda a esperança
Que desfazendo as mágoas faz nascer a flor
E ver no moribundo a alegria de quem nasce
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BREVE JORNADA

Olhai as sombras,
A marcha do sol é contínua

Vede as dunas,
Nada é perene ao reger do tempo

Observai os ninhos,
A vida se renova a cada alvorada

Contemplai o espelho,
O tempo arrasta os vagões da vida

Olhai o crepúsculo,
O dia se apaga, mesmo ante sonhos inconclusos

Olhai o mar,
Para lá se vão todas as águas

Vede os peixes,
O frenesi acaba quando a ração termina

Lavai os olhos,
Cada dia merece seu novo alento

Amai ao próximo,
Quem sabe, seu último amigo no caminho

Dobrai os joelhos,
Há bálsamo pra toda dor no trono eterno

Olhai o esquife,
Toda soberba é vazia, ante o clarim da morte

Olhai para cima,
Alguém te espera ao final da jornada

Abra uma semente,
Só há um que detém o poder da vida

Olhai para a cruz,
Há quem alveje vossas veste manchadas
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SINCRETISMO

Olhos azuis, cabelos dourados, boca pequena
Lábios grossos, cabelos crespos, pele morena
Diferenças a parte, nasce o amor, a paixão reina
Derruba os tabus, mistura valores e miscigena

Malas aparentemente iguais em forma e porte
Numa vive Jeová, mas na outra está Moloque
Sincretismo de fé, com tolerância o amor suporta
Até que nasça a dor e a aflição lhes bata à porta

Cada um a seu jeito busca saída para o problema
Instala-se um altar e acende-se velas ao deus de lata
A outra mala jaz vazia, Jeová a muito saiu de cena

Jeová é Deus, com a idolatria não miscigena
Nem tem promessas para o cristão vira-casaca
Lembre-se disto em seus amores e seus dilemas
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DEUS NÃO AINDA

Deus não ainda cura
Deus não ainda restaura
Deus não ainda perdoa
Deus não ainda fala

Você ainda pode nele crer!
Ainda pode ser curado!
Ainda pode o receber!
E ser por Ele resgatado!

Deus cura, Deus faz; Deus rege;
Mas Ele vos ama, vede isto,
Oh efêmeros, tais quais vermes!

Deus era; Deus é e sempre o será
Quem assim crê, desfruta disto
Mas quem não o crê, constatará
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FOLHAS AO VENTO

Em nada me admires
Nem sequer me censures
Ao meu ego não afagues
Nem também me esmurres

De herói não me faças
Nem também de bandido
Sou um vulto que passa
Para ser esquecido

Minhas marcas no mundo
Vem o tempo e apaga
O que te parece profundo
Lá no fundo é nada

Nada fiz de concreto
Tudo foi passageiro
No que pus meu afeto
Foi-se em vento ligeiro

Que importa escrituras
Do que alguém veio a ter?
Tempo, vento e chuva
A tudo faz perecer

Só há um que merece
A vossa admiração
Exaltai-o nas preces
Ele reina em Sião
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O presente de Papai Noel

Papai Noel, no mês passado eu completei sete anos de vida. Fui para a escola e descobri que você na verdade não existe. Fiquei muito decepcionado, mas depois pensando melhor, conclui que você nunca existiu mesmo. Não estava aqui quando eu chorava; nunca me levou para brincar na praça nem entrou comigo em uma piscina. Deu-me uma bicicleta, mas não me ensinou a andar nela. Não tenho nenhuma foto de você comigo. Este ano eu quero outro presente. Não o presente do papai, mas o papai presente. Presente quando eu chorar, quando eu sorrir, ou simplesmente quando eu quiser um colo pra deitar. Quero você presente para ser o meu herói e me fazer sonhar como os outros garotos sonham. Não quero mais dormir abraçado com o cachorro de pelúcia, quero o meu pai. Não me interessa se você vive magoado com minha mãe, eu sou seu filho e quero que você seja de fato o meu pai. Pode deixar aqui o presente que me trouxeste, mas leve a caixa vazia contigo para que se lembre que estás ausente para comigo. E que sem você o meu passado foi triste, o meu presente é vazio e o meu futuro é incerto e tenebroso. Beijos, Carlinhos.
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APARTHEID

Eu sei que no altar tu a mim juraste
Amar-me com toda a força do teu ser
Mas põe, por favor, a jura à parte
E cumpra tão somente o teu querer

Não a quero junto a mim por compromisso
Sem que a tua alma aqui queira estar
Amar é devoção, não sacrifício
Nem cruz que se pegou pra carregar

Não posso mais viver da nostalgia
Nem na tristeza perenemente arrastar
Indiferença, dor, segregação

Não quero mais do descaso a companhia
Nem o lamento a marcar meu caminhar
À afronta, eu prefiro a solidão
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O PRESÉPIO DE JESUS

Muitos dos que entraram saíram logo. Alguns até com seus narizes tampados de nojo. Outros nem sequer chegaram perto, apenas balançaram a cabeça com ares de quem perdeu a viagem. Também, o lugar era horrível. Fezes de animais e mosquitos por toda parte. Não sei como alguém consegue ficar num ambiente destes. Assim era a estrebaria, sem tirar nem por nada; cavalos, vacas, cachorro, porcos e outros pequenos animais. Todavia, em um cantinho dela, num pequeno cocho forrado de palha, estava o menino Jesus. Simples e resplandecente. Trazia em seu olhar a esperança, não de um povo, mas de toda a humanidade. Nele estava a redenção e o cumprimento de todas as promessas. Nele a vida tomava forma, não a vida do menino, mas a vida eterna aos homens.
Quando queremos ir ver a Jesus é preciso ter foco. Há sempre muitos incômodos. Nas igrejas também há porcos, cachorros, vacas e vários insetos. Quem vai a igreja para ver a Jesus não se importa com o contexto. Ele é a luz, e luz resplandece nas trevas. A estrebaria não foi desocupada para que Jesus recebesse os seus adoradores. Estes foram lá e o adoraram. Quando bucarmos critérios para limpar um lugar onde queremos que Jesus esteja, perceberemos que, na maioria das vezes, deveríamos também ser expurgados na faxina!
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FATOS E FOTOS

Que faço das fotos?
Perguntas a mim.
- O que já a tudo fizeste,
Pisar e dar fim.

Para que recordar,
O que não soube manter?
Por acaso o lembrar,
As fará reviver?

Não carregue na mente
O que da alma tirou
Nem mais chore ou lamente
O que consciente deixou

Vá te entregue as loucuras
Que ousaste criar
Mas, por favor, me exclua
Deste teu vadiar

Tenho um rumo sincero
Para o meu prosseguir
Por isso esqueço e renego
Quem ousou me cuspir

De minha alma arrancada
Tua imagem findou
Tuas cinzas cremadas
Já o vento levou
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FANTASIAS DE NATAL

Apesar do mercantismo - coisa que eu detesto por princípio, acho o natal um período mágico maravilhoso. É claro que está cheio de símbolos sem fundamentação histórica ou religiosa, mas o quechamo aqui a atenção é ao poder da fantasia. Para os adultos pode ser babaquice, mas para uma criança a fantasia talvez seja a única válvula de escape que lhe resta em um mundo de desilusões e tragédias.

Esqueçamos as tragédias, quero lembrar aqui da minha primeira arvore de natal. Primeira? Talvez não, mas a primeira a ser fotografada na tela do meu mundo infantil e a me transportar além das fronteiras de uma realidade dura e cruel. Lembro-me como se fosse hoje. Nunca imaginei que houvesse algo assim: bolas coloridas espelhadas e resplandecentes que cintilavam ao piscar de estrelinhas mágicas numa visão de encanto que jamais esqueci. Transportei-me para o mundo dos sonhos. Conclui que o paraíso deveria era daquele jeito. Nunca havia visto luz elétrica nem bolas espelhadas em cores tão divinas. Fiquei preso ali por horas sem que nada conseguisse tirar a minha atenção até que me tirassem a força. Senti-me como Adão sendo expulso do paraíso. Jamais esquecerei aquele dia.

Interessante, o que coisas simples como bolas de lantejoulas e uma bateria ligada há um pisca-pisca podem fazer com a mente de uma criança carente? Neste Natal, pegue uma criança da periferia e leve ao shopping, pague-lhe uma volta na pista de gelo e um sorvete de morango e estarás eternizado no mundo de suas fantasias! Feliz Natal. Ho, ho, ho, ho!
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Comentários (2)

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Obrigado Eusébio, espero vê-lo cheio de inspirações felizes.

Que bom ler teus poemas meu amigo estive andando por ai a procura de inspiração e voltei cheio de desejos e para começar quiz ler algo novo algo que me encante assim como teus poemas um abraço

            Nasci e cresci pobre, mas não tenho vergonha disso. Sofri na pele as injustiças da pobreza, mas mesmo assim vivi feliz pois não conhecia a sua verdadeira fonte. Saudei heróis forjados na podridão, mas vestidos no linho fino do engodo e da publicidade paga. Sobrevivi milagrosamente à miséria por puro lampejo da graça divina.
            Sonhei com um mundo livre e justo. Acreditei que as oportunidades eram uma questão de esforço e que o sucesso só dependia da capacidade e do desprendimento. Pensei que os homens bons transformariam o mundo e que as injustiças seriam aniquiladas pela educação e a sensatez
            Infelizmente, a maturidade revelou-me que os pobres são mais pobres de espírito que de oportunidades. Que os ricos, pra se fazerem ricos, já venderam a alma. Que as oportunidades não surgem, são compradas às escuras. Que a decência, quase sempre, sucumbe à propina e ao favorecimento. Que os idealistas se vendem ao poder. Que os justos não subsistem no trono. Que a caridade quase sempre não é cega. Que a violência e a miséria são orquestradas do trono. Que a abnegação tem a infâmia como troco. Que as pessoas amam mais imundícia que a dignidade. Que os insanos são mais aplaudidos que os sensatos. Que a morte é triste, mas sem ela os homens seriam eternos escravos de seus páreos.
            Hoje eu luto, não mais para reformar o mundo, mas para não ser sucumbido por ele. Sofro para provar que nem toda dignidade está à venda. Combato a indecência e imoralidade, mesmo sabendo que perderei a batalha.  Quero morrer com orgulho, não de ter vencido a guerra, mas de ter lutado sempre em defesa do que é correto. Não quero ser lembrado por ter mudado o mundo, mas apenas por não ter feito coro com aqueles que o tornam fétido.
            Algum dia, espero que ainda longe, esta será apenas mais uma página esquecida e provavelmente apagada por falta de manutenção ou custeio. Todavia, antes que este dia chegue, quero fazer transbordar nela as inquietudes da minha alma; fazer soar os clarins da vida, sem ter a presunção de ser o dono da verdade, mas convicto de que proclamei meus erros como alerta aos jovens e chamei à reflexão os pensadores em busca de uma vida mais digna e próspera para as gerações vindouras.