FRAGRÂNCIA DO AMOR
Busquei do amor o perfume na trilha da ilusão
Caminho ha muito fechado pelas malvas da dor
Assombros de amores perdidos cortados a facão
Flores de afeto pendentes, mas vazia de amor
Ventos uivantes na noite pregam-me a sedução
Folhas de paixão e carícias se espalham no ar
Galhos de sonhos desfeitos despencam no chão
Nada me indica a fragrância que anseio encontrar
Cansado da busca inútil paro pra descansar
Nada mais vejo na relva que valha mirar
Não mais a mesma é a mata em que nascia o amor
Cheiro de amor me desperta me invade o nariz
Ao lado uma flor da ventura, do esplendor a matiz
Renasce em mim a ternura, volto a ser sonhador
TRISTE CINZA
Eu vi o seu rosto
Na flor que brotou
Também nele o desgosto
De quem muito chorou
Sua beleza infinda
Já não pôde esconder
A amargura que ainda
Faz o seu padecer
Quem dera esta flor
Eu pudesse abrir
Afugentar esta dor
E fazê-la sorrir
Se tua face tão linda
Pudesse eu colorir
Nunca mais o tom cinza
Pousaria em ti
HORAS MARCADAS
De repente olhei o relógio, não mais se mexia
Sacudi-o, andou um pouco, parou em seguida
Assim é a pilha, assim é a idade, assim é a vida
De ouro ou bronze, belos ou feios, jazem amontoados
Seus tic-tacs ninguém mais escuta, são só passado
Não mais os entes, nem os amigos, nem aliados
Relógios velhos, repousam perdidos no esquecimento
Adornaram paredes, cingiram punhos, marcaram o tempo
Assim é a vida - morte esculpida ao sol e ao vento
Horas passadas, folhas mofadas, obras esquecidas
Prédios tombados, abandonados, paredes caídas
Assim é a memória, assim é história, assim é a vida
Cada um levando consigo o odor do que é ou que era
Seu altruísmo, caráter, cinismo e as suas misérias
Há um trono branco, justiça postada a nossa espera
CUMPLICIDADE
Minhas alegrias são também as tuas
As minhas vergonhas para ti estão nuas
Nas minhas tristezas, o verter de tuas lágrimas
E nos meus devaneios a razão de tuas mágoas
O meu rosto marcado, diz o quanto te amo
Nos pesadelos da noite é por você que eu clamo
Sob os teus julgamentos, sou sempre perdoado
Até mesmo quando eu me confesso o culpado
Esta cumplicidade, para muitos: loucura
Para nós é o prazer e da alegria a ventura
E que me faz tão feliz, estar a ti enlaçado
O amor contagia, contamina o parceiro
Entre muitos pecados, o amar é o primeiro
Se amar-te é desvairo, me declaro aloprado
MÃOS DA ESPERANÇA
As minhas mãos jamais darei ao que difama
Ao que oprime, ao que falseia e a dor inflama
Quero mãos limpas, sono de paz, alvo o pijama
Não me cumprimentes, cruzo as mãos por segurança
Alma cingida em pacto de fé com a esperança
De ver um país onde possa sorrir toda criança
Não vituperes em gesto vil a minha inocência
És estrupício, voz de maldade, pura excrescência
Tintura de sangue, pacto macabro com a violência
Que hoje os jovens tomem por credo esta firmeza
Não dar a larápios os lauréis de votos pela esperteza
Também assassinos matando em miséria, fome e pobreza
VISITA A XINGÓ
Vi um rio tristonho
Em represa de mágoas
E cascatas de sonhos
Na saudade a morrer
Nas pinturas rupestres
Sombras de amarguras
Que em tristes figuras
Insistem em viver
Assim como estas águas
Ali também a minha alma
Quer sua dor esquecer
Sangradouro espumante
Clama em voz retumbante
é preciso viver
ODISSÉIA
Depois de longa jornada, parei!
Contei meus passos e tropeços
No mapa da vida as mudanças de rota
Subi nas asas do tempo, voltei!
Revi cada decisão tomada
Agora como quem já conhece a dor
Percorri os sonhos da juventude, pasmei!
Vivi as glórias de quem com alma ama
Nada ousei mudar no meu percurso
De volta ao porto da realidade, chorei!
Tudo o que fiz, faria de novo
Senti orgulho em ser quem sou
ALMEJOS – Desejos da Alma
Almejo as poesias líricas, de beleza pura
Não os versos tristes manchados de dor
Almejo ver em todos, o olhar da ternura
A nobreza esplêndida, adornada de amor
Almejo encontrar no despontar alvorada
A esperança dos homens, a fé no amanhã
Não a violência que assombra a madrugada
Que semeia as tristezas e alimenta o pavor
Almejo ver em todos, o sorriso da criança
O olhar sem inveja, a feição do amor
Onde a fraternidade plenamente reinasse
Almejo a boa fé, mãe de toda a esperança
Que desfazendo as mágoas faz nascer a flor
E ver no moribundo a alegria de quem nasce
MARCHA NA AREIA
Me despi do medo dos meus desencontros
Me desfiz dos sonhos da trilha da ilusão
Esqueci os motivos de todos assombros
Me livrei do amor e também da paixão
Sigo nova marcha por trilhas na rocha
Onde a flor não brota e pássaros não há
Lá de veios d'água, só marcas remotas
Sombras, só de pedras, vento a assoviar
É uma marcha triste, mas é livre e solta
Nenhum espinho nasce nessa sequidão
Meu calçado é velho, minha veste é rota
Mas lá mágoas não atingem o meu coração
SINCRETISMO
Olhos azuis, cabelos dourados, boca pequena
Lábios grossos, cabelos crespos, pele morena
Diferenças a parte, nasce o amor, a paixão reina
Derruba os tabus, mistura valores e miscigena
Malas aparentemente iguais em forma e porte
Numa vive Jeová, mas na outra está Moloque
Sincretismo de fé, com tolerância o amor suporta
Até que nasça a dor e a aflição lhes bata à porta
Cada um a seu jeito busca saída para o problema
Instala-se um altar e acende-se velas ao deus de lata
A outra mala jaz vazia, Jeová a muito saiu de cena
Jeová é Deus, com a idolatria não miscigena
Nem tem promessas para o cristão vira-casaca
Lembre-se disto em seus amores e seus dilemas
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza