Lista de Poemas

SOLUÇOS DA TARDE

Chora o rio maranhão
O seu maior aventureiro
Partiu agora o Sostão
Tal qual um vento ligeiro

Não mais seus risos festivos
Seus acampamentos insanos
Suas noites veladas ao frio
Junto a cascatas jorrando

Não mais os saltos das pedras
Suas escaladas malucas
Nem as conquistas de serras
Com suas cavernas ocultas

Não mais seus cantos a noite
Nem seu clarim na alvorada
Não mais picadas a foice
Nem represas improvisadas

Não mais contos da caserna
Nem suas piadas e anedotas
Não mais o cavar das cisternas
Nem o tirar cobras das tocas

Não mais vigílias nos montes
Nem viagens missionárias
Não mais nascentes e fontes
Findou-se aqui sua jornada

Deixa-nos a terna lembrança
De seus abraços e carinho
Sempre firme na esperança
Fez lá na glória o seu ninho
459

MATERNIDADE

Um lindo sonho, a por leme em sua vida
Supera os medos, do ventre as batidas
Não mais se divide, é só dele a guarida
Nada mais importa, em afeto esta perdida

Nasce-lhe o filho, encanto e mistério
Adolescência, ali começa o vitupério
Boa a semente, mas seu broto é gaudério
Se o parto é dor, loucura é o puerpério

Um terço foi sonho, espera e ansiedade
O outro dor, da angústia a realidade
O último: desencanto, tristeza e saudade

Vida consumida, passou-se a mocidade
Sonhos perdidos - quão dura esta verdade
Olhos fechados, quisera fosse a madre
386

REVOLTA DAS SOMBRAS

Quando a descrença a nossa alma invade
A justiça apodrece e a esperança morre
A corrupção fermenta e a violência arde
As sombras se levantam e o clamor ocorre

Jovens revoltos, unidos em desesperança
Revoltos, indomáveis, cheios de ousadia
Clamam por justiça, por sonhos e segurança
Liberdade à pátria amada, ainda que tardia

Invadem ruas, queimam e entregam fores
Sem lema definido nem partido por premissa
Despem-se, pintam-se, gritam e fazem versos

Chega de anarquia, de governos dos favores!
Querem oportunidades e confiança na justiça
Faxina já! Ordem e limpeza no congresso
428

A DOR DAS FLORES

Olhei as flores do campo e voltei-me no tempo. Tempos que a razão me diz terem sido por demais difíceis − pobreza, doenças e plena desassistência do Estado. Mas não foi por isso que para lá voltei. Voltei pela nostalgia de flores semelhantes a estas que infestavam toda a área de um campo verde em frente a nossa casa. Ah! Como é doce recordar o cheiro daquela relva colorida. Magia que transformava vidas tão sofridas em momentos únicos e belos na nossa existência. Estas flores trazem consigo o cheiro de uma infância plena, das aventuras de crianças, dos sonhos e crenças em heróis místicos, os quais a realidade, cruel e friamente, ousou destruir. Já não há mais ciclopes, nem gato de botas, nem heróis a enfrentar gigantes que invadiam o nosso mundo de fantasias. Hoje, os heróis são suspeitos, interesseiros e hipócritas. Os gatos não usam botas, usam terno e gravata ou até mesmo togas. Restaram apenas os ciclopes, povo de um olho só, mas que hoje já não enxergam nada. O olho que lhes restavam foi tomado pelo clientelismo e sedução das esmolas públicas. Já não enxergam a realidade nem a miséria a que estão sujeitos. Conformam-se apenas com a papa podre que lhes colocam aos lábios em um tatear de mãos frágeis por restos corrompidos.
485

QUESTÃO DE FOCO

O que é o mar? O que é a terra?
A pescaria começa ou encerra?
Mentes confusas, visões trocadas
Tarde em crepúsculo ou alvorada?

Águas escuras ou esverdeadas?
Areias brancas ou avermelhadas?
Dunas de areia ou morros distantes?
Partida na noite ou a espera do instante?

Tudo se pode ver como você quiser
Águas transparentes ou turvas e escuras
A maldade e o ódio ou o amor e a fé
Mais que as alheias, importa a sua postura
446

ACIMA DAS NUVENS

Fui acima das nuvens da minha tristeza
Ver a luz do destino que a razão já não vê
Encontrei coisas novas de exuberante beleza
Que além da amargura, vêm dar vida e prazer

Vi que a dor das tragédias e mudanças de rumo
É a mão do que rege a esquadrinhar meu viver
É o moldar do oleiro a por o vaso no prumo
Pois no descarte ou monturo, não deseja me ver

Nem sempre é cruel a lamina que corta
Se a razão exacerba, a fé está morta
E na fúria das águas ao Mestre não vê

Mesmo em águas contrárias posso eu descansar
O meu guia é divino, sabe a nau manejar
Ele é o farol do caminho e a paz do meu ser
466

HIBERNAÇÃO

Não mais é a mesma a noite, quando a lua some
Nem estruge a cascata quando o inverno cai
Nas geleiras da alma, meu espírito se esconde
Quando os teus lindos olhos não contempla mais

No aguardar do Sol, a natureza hiberna
Certa do retorno, dorme e sonha em paz.
Se certo de rever-te, fosse eu, quem dera!
Estes meus pesares eu não levava mais.
493

ACALENTO DO TEMPO

Há tristezas rudes que nunca deixam o ninho
Sonhos coloridos que nunca alçaram voo
Chagas abertas, em um eterno espinho
Canções tristonhas, que em silêncio entoo

Lágrimas já vertidas, por uma causa inerte
Longas caminhadas, pra se chegar ao nada
Esforços gigantescos, tomados como um flerte
Angústias duradouras, na espera da alvorada

Caminhos repartidos, sentimentos escusos
Feridas e amarguras, a podridão exposta
Sonhos de amor desfeitos, alegrias mortas

Palavras perdidas, a invejar os mudos
Amigos de outrora, a fechar-me as portas
O Sol nasce de novo, só isto me conforta
445

MÃOS DA ESPERANÇA

As minhas mãos jamais darei ao que difama
Ao que oprime, ao que falseia e a dor inflama
Quero mãos limpas, sono de paz, alvo o pijama

Não me cumprimentes, cruzo as mãos por segurança
Alma cingida em pacto de fé com a esperança
De ver um país onde possa sorrir toda criança

Não vituperes em gesto vil a minha inocência
És estrupício, voz de maldade, pura excrescência
Tintura de sangue, pacto macabro com a violência

Que hoje os jovens tomem por credo esta firmeza
Não dar a larápios os lauréis de votos pela esperteza
Também assassinos matando em miséria, fome e pobreza
602

CUMPLICIDADE

Minhas alegrias são também as tuas
As minhas vergonhas para ti estão nuas
Nas minhas tristezas, o verter de tuas lágrimas
E nos meus devaneios a razão de tuas mágoas

O meu rosto marcado, diz o quanto te amo
Nos pesadelos da noite é por você que eu clamo
Sob os teus julgamentos, sou sempre perdoado
Até mesmo quando eu me confesso o culpado

Esta cumplicidade, para muitos: loucura
Para nós é o prazer e da alegria a ventura
E que me faz tão feliz, estar a ti enlaçado

O amor contagia, contamina o parceiro
Entre muitos pecados, o amar é o primeiro
Se amar-te é desvairo, me declaro aloprado
509

Comentários (2)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Obrigado Eusébio, espero vê-lo cheio de inspirações felizes.

Que bom ler teus poemas meu amigo estive andando por ai a procura de inspiração e voltei cheio de desejos e para começar quiz ler algo novo algo que me encante assim como teus poemas um abraço

            Nasci e cresci pobre, mas não tenho vergonha disso. Sofri na pele as injustiças da pobreza, mas mesmo assim vivi feliz pois não conhecia a sua verdadeira fonte. Saudei heróis forjados na podridão, mas vestidos no linho fino do engodo e da publicidade paga. Sobrevivi milagrosamente à miséria por puro lampejo da graça divina.
            Sonhei com um mundo livre e justo. Acreditei que as oportunidades eram uma questão de esforço e que o sucesso só dependia da capacidade e do desprendimento. Pensei que os homens bons transformariam o mundo e que as injustiças seriam aniquiladas pela educação e a sensatez
            Infelizmente, a maturidade revelou-me que os pobres são mais pobres de espírito que de oportunidades. Que os ricos, pra se fazerem ricos, já venderam a alma. Que as oportunidades não surgem, são compradas às escuras. Que a decência, quase sempre, sucumbe à propina e ao favorecimento. Que os idealistas se vendem ao poder. Que os justos não subsistem no trono. Que a caridade quase sempre não é cega. Que a violência e a miséria são orquestradas do trono. Que a abnegação tem a infâmia como troco. Que as pessoas amam mais imundícia que a dignidade. Que os insanos são mais aplaudidos que os sensatos. Que a morte é triste, mas sem ela os homens seriam eternos escravos de seus páreos.
            Hoje eu luto, não mais para reformar o mundo, mas para não ser sucumbido por ele. Sofro para provar que nem toda dignidade está à venda. Combato a indecência e imoralidade, mesmo sabendo que perderei a batalha.  Quero morrer com orgulho, não de ter vencido a guerra, mas de ter lutado sempre em defesa do que é correto. Não quero ser lembrado por ter mudado o mundo, mas apenas por não ter feito coro com aqueles que o tornam fétido.
            Algum dia, espero que ainda longe, esta será apenas mais uma página esquecida e provavelmente apagada por falta de manutenção ou custeio. Todavia, antes que este dia chegue, quero fazer transbordar nela as inquietudes da minha alma; fazer soar os clarins da vida, sem ter a presunção de ser o dono da verdade, mas convicto de que proclamei meus erros como alerta aos jovens e chamei à reflexão os pensadores em busca de uma vida mais digna e próspera para as gerações vindouras.