O SUPER PAI
Em nenhuma atenção falhou
Em problemas não se perdeu
Em nenhuma festa faltou
Nenhuma data esqueceu
Nunca perdeu as estribeiras
Nunca com um filho brigou
Nunca sua voz foi grosseira
Nem de forma errada julgou
Sempre o rei da perfeição
No agir, no ouvir e falar
Tem sempre pronta a lição
Em como um filho educar
A estultice não tolera
A irreverência, jamais!
Não dá ouvido a quimeras
Pois este nunca foi pai
ENTARDECER
Antes que ...
A voz acabe, declare
Finde a alegria, sorria
A noite chegue, aconchegue
A dor faça um corte, se importe
A vida escoe, perdoe
Porque mui breve ...
Um conto será só um ponto
A conversa nada mais expressa
Todas as flores, perderão as cores
Todo som perderá o tom
A taça da alegria estará vazia
E a vida sucumbida
JOGO DA DESONRA
Entrei no jogo já em final de partida. Uma dama branca, que depois entendi ser a peça chave do tabuleiro. Uma torre branca, que de longe estava de olho no castelo do rei branco e quiçá no do preto. Um peão preto, estúpido e preguiçoso, mas navegando garbosamente sob os paparicos do rei preto. Uma torre preta que acenava à dama branca sua bandeira rota de boas vindas.
Eu, cavalo branco, escolado na vida por duras caminhadas, me achando sabedor de todas as regras, lutava para dar um fim glorioso a partida; tipo aqueles: "xeque mate em cinco lances". Foi aí que descobri qual era realmente o jogo: Os reis branco e preto estavam mancomunando as escondidas, com propósitos diferentes mas igualmente sórdidos. A torre branca abrira há muito as portas da fortaleza para encontros furtivos da dama branca com o peão preto. O rei preto já havia montado um palácio pra dama branca. Por fim, que dama branca já não era mais dama e nem branca, pois já estava armando jogadas a favor do time adversário. Foi aí que percebi que eu já não era mais o cavalo e sim o burro - pulei fora do tabuleiro e abandonei o jogo antes que eu fosse parar no xadrez.
ACIMA DAS NUVENS
Fui acima das nuvens da minha tristeza
Ver a luz do destino que a razão já não vê
Encontrei coisas novas de exuberante beleza
Que além da amargura, vêm dar vida e prazer
Vi que a dor das tragédias e mudanças de rumo
É a mão do que rege a esquadrinhar meu viver
É o moldar do oleiro a por o vaso no prumo
Pois no descarte ou monturo, não deseja me ver
Nem sempre é cruel a lamina que corta
Se a razão exacerba, a fé está morta
E na fúria das águas ao Mestre não vê
Mesmo em águas contrárias posso eu descansar
O meu guia é divino, sabe a nau manejar
Ele é o farol do caminho e a paz do meu ser
ACALENTO DO TEMPO
Há tristezas rudes que nunca deixam o ninho
Sonhos coloridos que nunca alçaram voo
Chagas abertas, em um eterno espinho
Canções tristonhas, que em silêncio entoo
Lágrimas já vertidas, por uma causa inerte
Longas caminhadas, pra se chegar ao nada
Esforços gigantescos, tomados como um flerte
Angústias duradouras, na espera da alvorada
Caminhos repartidos, sentimentos escusos
Feridas e amarguras, a podridão exposta
Sonhos de amor desfeitos, alegrias mortas
Palavras perdidas, a invejar os mudos
Amigos de outrora, a fechar-me as portas
O Sol nasce de novo, só isto me conforta
A DOR DAS FLORES
Olhei as flores do campo e voltei-me no tempo. Tempos que a razão me diz terem sido por demais difíceis − pobreza, doenças e plena desassistência do Estado. Mas não foi por isso que para lá voltei. Voltei pela nostalgia de flores semelhantes a estas que infestavam toda a área de um campo verde em frente a nossa casa. Ah! Como é doce recordar o cheiro daquela relva colorida. Magia que transformava vidas tão sofridas em momentos únicos e belos na nossa existência. Estas flores trazem consigo o cheiro de uma infância plena, das aventuras de crianças, dos sonhos e crenças em heróis místicos, os quais a realidade, cruel e friamente, ousou destruir. Já não há mais ciclopes, nem gato de botas, nem heróis a enfrentar gigantes que invadiam o nosso mundo de fantasias. Hoje, os heróis são suspeitos, interesseiros e hipócritas. Os gatos não usam botas, usam terno e gravata ou até mesmo togas. Restaram apenas os ciclopes, povo de um olho só, mas que hoje já não enxergam nada. O olho que lhes restavam foi tomado pelo clientelismo e sedução das esmolas públicas. Já não enxergam a realidade nem a miséria a que estão sujeitos. Conformam-se apenas com a papa podre que lhes colocam aos lábios em um tatear de mãos frágeis por restos corrompidos.
QUESTÃO DE FOCO
O que é o mar? O que é a terra?
A pescaria começa ou encerra?
Mentes confusas, visões trocadas
Tarde em crepúsculo ou alvorada?
Águas escuras ou esverdeadas?
Areias brancas ou avermelhadas?
Dunas de areia ou morros distantes?
Partida na noite ou a espera do instante?
Tudo se pode ver como você quiser
Águas transparentes ou turvas e escuras
A maldade e o ódio ou o amor e a fé
Mais que as alheias, importa a sua postura
HIBERNAÇÃO
Não mais é a mesma a noite, quando a lua some
Nem estruge a cascata quando o inverno cai
Nas geleiras da alma, meu espírito se esconde
Quando os teus lindos olhos não contempla mais
No aguardar do Sol, a natureza hiberna
Certa do retorno, dorme e sonha em paz.
Se certo de rever-te, fosse eu, quem dera!
Estes meus pesares eu não levava mais.
HORAS MARCADAS
De repente olhei o relógio, não mais se mexia
Sacudi-o, andou um pouco, parou em seguida
Assim é a pilha, assim é a idade, assim é a vida
De ouro ou bronze, belos ou feios, jazem amontoados
Seus tic-tacs ninguém mais escuta, são só passado
Não mais os entes, nem os amigos, nem aliados
Relógios velhos, repousam perdidos no esquecimento
Adornaram paredes, cingiram punhos, marcaram o tempo
Assim é a vida - morte esculpida ao sol e ao vento
Horas passadas, folhas mofadas, obras esquecidas
Prédios tombados, abandonados, paredes caídas
Assim é a memória, assim é história, assim é a vida
Cada um levando consigo o odor do que é ou que era
Seu altruísmo, caráter, cinismo e as suas misérias
Há um trono branco, justiça postada a nossa espera
CUMPLICIDADE
Minhas alegrias são também as tuas
As minhas vergonhas para ti estão nuas
Nas minhas tristezas, o verter de tuas lágrimas
E nos meus devaneios a razão de tuas mágoas
O meu rosto marcado, diz o quanto te amo
Nos pesadelos da noite é por você que eu clamo
Sob os teus julgamentos, sou sempre perdoado
Até mesmo quando eu me confesso o culpado
Esta cumplicidade, para muitos: loucura
Para nós é o prazer e da alegria a ventura
E que me faz tão feliz, estar a ti enlaçado
O amor contagia, contamina o parceiro
Entre muitos pecados, o amar é o primeiro
Se amar-te é desvairo, me declaro aloprado
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza