Caras Quebradas
Caras quebradas, na dor da vida forjadas.
Esquecem seu egoísmo ao ver que são nada!
Barro desfeito, amarguras no peito.
Só lembranças de afeto lhes seguem pro leito
REVOLTA DAS SOMBRAS
Quando a descrença a nossa alma invade
A justiça apodrece e a esperança morre
A corrupção fermenta e a violência arde
As sombras se levantam e o clamor ocorre
Jovens revoltos, unidos em desesperança
Revoltos, indomáveis, cheios de ousadia
Clamam por justiça, por sonhos e segurança
Liberdade à pátria amada, ainda que tardia
Invadem ruas, queimam e entregam fores
Sem lema definido nem partido por premissa
Despem-se, pintam-se, gritam e fazem versos
Chega de anarquia, de governos dos favores!
Querem oportunidades e confiança na justiça
Faxina já! Ordem e limpeza no congresso
A FORMIGUINHA
Cruzou uma formiga o meu caminho
E num reflexo tolo, desviei meu pisar
Assustei-me então, vendo-me assim em seu lugar
Quantas delas já não pisei indo ou vindo?
Se ela vive ou se morre, a quem importa?
Mudará por isso, o mundo a sua rota?
Quem contabiliza as que perderam o rumo?
Quem porventura estabeleceu suas metas?
Receberá críticas ou elogios por sua tarefa?
Alguém lamentará seus infortúnios?
Há por acaso um leito vazio à sua espera?
Sentirá alguém à noite, alguma falta dela?
Olhei pra o céu, e vi-me então uma formiga
Diante do mundo e do tempo, o que é a minha vida?
Pura presunção, mancha de nada em mão vazia
Pus-me de volta ao meu caminho, feliz da vida
Pois mesmo que esqueçam a mim os que eu prezo
Vela por mim, e me acalenta um Deus eterno
SOLUÇOS DA TARDE
Chora o rio maranhão
O seu maior aventureiro
Partiu agora o Sostão
Tal qual um vento ligeiro
Não mais seus risos festivos
Seus acampamentos insanos
Suas noites veladas ao frio
Junto a cascatas jorrando
Não mais os saltos das pedras
Suas escaladas malucas
Nem as conquistas de serras
Com suas cavernas ocultas
Não mais seus cantos a noite
Nem seu clarim na alvorada
Não mais picadas a foice
Nem represas improvisadas
Não mais contos da caserna
Nem suas piadas e anedotas
Não mais o cavar das cisternas
Nem o tirar cobras das tocas
Não mais vigílias nos montes
Nem viagens missionárias
Não mais nascentes e fontes
Findou-se aqui sua jornada
Deixa-nos a terna lembrança
De seus abraços e carinho
Sempre firme na esperança
Fez lá na glória o seu ninho
MATERNIDADE
Um lindo sonho, a por leme em sua vida
Supera os medos, do ventre as batidas
Não mais se divide, é só dele a guarida
Nada mais importa, em afeto esta perdida
Nasce-lhe o filho, encanto e mistério
Adolescência, ali começa o vitupério
Boa a semente, mas seu broto é gaudério
Se o parto é dor, loucura é o puerpério
Um terço foi sonho, espera e ansiedade
O outro dor, da angústia a realidade
O último: desencanto, tristeza e saudade
Vida consumida, passou-se a mocidade
Sonhos perdidos - quão dura esta verdade
Olhos fechados, quisera fosse a madre
A PROCLAMA
Traz no seu corpo a bandeira
Nas cores da pátria se veste
De busto altivo, alma cheia
Seu coração jaz em prece
Cara pintada, boca em proclama
Faz ecoar os seus gritos
Justiça já! É o povo que clama:
Abaixo estes políticos malditos!
Chega de clientelismo
De corrupção, nepotismo
E população na sarjeta
Políticos podres, vendidos
Governo aliciador de partidos
E justiça vendida em maletas
SAUDADE
Saudade, flor branca e triste
Pétalas de amargura,
Que em dor se desfaz
Saudade, eu sei que existes
E do jardim das desventuras
Vem teu perfume assaz
Saudade, quem roubou tuas cores?
Que esperanças trazes?
Por que padeces assim?
Saudade, esqueças teus amores
Veste-te de outros trajes
Deixa esta dor ter um fim
ÍCARO
Ah se a pátria minha desses asas aos meus sonhos
E como ingênua criança eu tivesse orgulho da bandeira
Ver sua riqueza sanar a dor e o pranto dos tristonhos
Filhos seus, vazios de fé diante a tanta bandalheira
Fecho os meus olhos e grito, como quem nasce agora
Quero minha vida, de mãe pátria o carinho e afago
Sou fruto do ventre, filho legítimo, quero sem demora
Saúde, dignidade e pão dos livres e não de escravos
Não quero mais por tutores os seus amantes
Que lhe sugam as tetas, roubando-me o leite
Quero no seu regaço sonhar e ser feliz
Bote-os porta a fora, lava-te o quanto antes
Sane já a esta orgia, cruel e vil deleite
Seja-me pátria mãe, não mais a meretriz
UTOPIA DE AMOR
Amar-te é dar asas aos meus sonhos
Intangíveis, surreais, inconseqüentes
Só uma regra a Morfeu, ali imponho:
Eu ao teu lado estar sempre presente
Sonho tão lindo colorido de ternura
Ao mundo em derredor, indiferente
Faz-me assim a mais feliz das criaturas
Imerso em seu amor, eternamente
Nesta doce vida, razão é algo irrelevante
Em nuvens de venturas e grandes planos
Da terra desconhecem os desenganos
Na loucura da utopia vivem os amantes
Inertes, num mundo aquém da realidade
Mas por certo, desfrutam ali, felicidade
O ANDARILHO
Nos caminhos que eu ando, sozinho e triste, encontro
Sorrisos vazios, estranheza de afetos, lágrimas sem sal
Às vezes penso que achei minha alma gêmea, que tonto
Apenas ave desgarrada, buscando abrigo em minha nau
Às vezes encontro pessoas boas, puras, de almas belas
Mas seus caminhos são outros, não mudam seu norte
Censurá-las como? São como eu, almas em sequelas
Despedimo-nos apenas, desejando ao outro: boa sorte
Os caminhos se cruzam, paramos por um momento
Com algumas vivo o pranto, de outras só o sorriso
Umas me roubam a alma, outras me dão alento
Assim na viagem prossigo: trilha, ilusão e tempo
De algumas levo saudades, quisera tê-las comigo
De outras lavo a maldade, da ambição o fermento
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza