Lista de Poemas

A FORMIGUINHA

Cruzou uma formiga o meu caminho
E num reflexo tolo, desviei meu pisar
Assustei-me então, vendo-me assim em seu lugar

Quantas delas já não pisei indo ou vindo?
Se ela vive ou se morre, a quem importa?
Mudará por isso, o mundo a sua rota?

Quem contabiliza as que perderam o rumo?
Quem porventura estabeleceu suas metas?
Receberá críticas ou elogios por sua tarefa?

Alguém lamentará seus infortúnios?
Há por acaso um leito vazio à sua espera?
Sentirá alguém à noite, alguma falta dela?

Olhei pra o céu, e vi-me então uma formiga
Diante do mundo e do tempo, o que é a minha vida?
Pura presunção, mancha de nada em mão vazia

Pus-me de volta ao meu caminho, feliz da vida
Pois mesmo que esqueçam a mim os que eu prezo
Vela por mim, e me acalenta um Deus eterno
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O SUPER PAI

Em nenhuma atenção falhou
Em problemas não se perdeu
Em nenhuma festa faltou
Nenhuma data esqueceu

Nunca perdeu as estribeiras
Nunca com um filho brigou
Nunca sua voz foi grosseira
Nem de forma errada julgou

Sempre o rei da perfeição
No agir, no ouvir e falar
Tem sempre pronta a lição
Em como um filho educar

A estultice não tolera
A irreverência, jamais!
Não dá ouvido a quimeras
Pois este nunca foi pai
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O ANDARILHO

Nos caminhos que eu ando, sozinho e triste, encontro
Sorrisos vazios, estranheza de afetos, lágrimas sem sal
Às vezes penso que achei minha alma gêmea, que tonto
Apenas ave desgarrada, buscando abrigo em minha nau

Às vezes encontro pessoas boas, puras, de almas belas
Mas seus caminhos são outros, não mudam seu norte
Censurá-las como? São como eu, almas em sequelas
Despedimo-nos apenas, desejando ao outro: boa sorte

Os caminhos se cruzam, paramos por um momento
Com algumas vivo o pranto, de outras só o sorriso
Umas me roubam a alma, outras me dão alento

Assim na viagem prossigo: trilha, ilusão e tempo
De algumas levo saudades, quisera tê-las comigo
De outras lavo a maldade, da ambição o fermento
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ENTARDECER

Antes que ...

A voz acabe, declare
Finde a alegria, sorria
A noite chegue, aconchegue
A dor faça um corte, se importe
A vida escoe, perdoe


Porque mui breve ...

Um conto será só um ponto
A conversa nada mais expressa
Todas as flores, perderão as cores
Todo som perderá o tom
A taça da alegria estará vazia
E a vida sucumbida
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UTOPIA DE AMOR

Amar-te é dar asas aos meus sonhos
Intangíveis, surreais, inconseqüentes
Só uma regra a Morfeu, ali imponho:
Eu ao teu lado estar sempre presente

Sonho tão lindo colorido de ternura
Ao mundo em derredor, indiferente
Faz-me assim a mais feliz das criaturas
Imerso em seu amor, eternamente

Nesta doce vida, razão é algo irrelevante
Em nuvens de venturas e grandes planos
Da terra desconhecem os desenganos

Na loucura da utopia vivem os amantes
Inertes, num mundo aquém da realidade
Mas por certo, desfrutam ali, felicidade
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O PAI BANIDO

Julgado fora em todas suas falhas
Justificativas a elas nunca houve
Não há honra, mérito ou medalha
A quem aos filhos educar não soube

Nas minhas carências, quase sempre ausente
Os meus desejos, quase sempre renegados
Aos meus sonhos, questionava mui resistente
Como se eu fosse, um burro ou retardado

Cresci revolto, tratando como a nada
A quem a vida me impôs como tutor
E seus cuidados que tanto me enojou

Só quando em paixão mui desvairada
Tornei-me de uma criança o genitor
Eu soube quanto o velho a mim amou
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Caras Quebradas

Caras quebradas, na dor da vida forjadas.
Esquecem seu egoísmo ao ver que são nada!

Barro desfeito, amarguras no peito.
Só lembranças de afeto lhes seguem pro leito
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ÍCARO

Ah se a pátria minha desses asas aos meus sonhos
E como ingênua criança eu tivesse orgulho da bandeira
Ver sua riqueza sanar a dor e o pranto dos tristonhos
Filhos seus, vazios de fé diante a tanta bandalheira

Fecho os meus olhos e grito, como quem nasce agora
Quero minha vida, de mãe pátria o carinho e afago
Sou fruto do ventre, filho legítimo, quero sem demora
Saúde, dignidade e pão dos livres e não de escravos

Não quero mais por tutores os seus amantes
Que lhe sugam as tetas, roubando-me o leite
Quero no seu regaço sonhar e ser feliz

Bote-os porta a fora, lava-te o quanto antes
Sane já a esta orgia, cruel e vil deleite
Seja-me pátria mãe, não mais a meretriz
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JOGO DA DESONRA

Entrei no jogo já em final de partida. Uma dama branca, que depois entendi ser a peça chave do tabuleiro. Uma torre branca, que de longe estava de olho no castelo do rei branco e quiçá no do preto. Um peão preto, estúpido e preguiçoso, mas navegando garbosamente sob os paparicos do rei preto. Uma torre preta que acenava à dama branca sua bandeira rota de boas vindas.

Eu, cavalo branco, escolado na vida por duras caminhadas, me achando sabedor de todas as regras, lutava para dar um fim glorioso a partida; tipo aqueles: "xeque mate em cinco lances". Foi aí que descobri qual era realmente o jogo: Os reis branco e preto estavam mancomunando as escondidas, com propósitos diferentes mas igualmente sórdidos. A torre branca abrira há muito as portas da fortaleza para encontros furtivos da dama branca com o peão preto. O rei preto já havia montado um palácio pra dama branca. Por fim, que dama branca já não era mais dama e nem branca, pois já estava armando jogadas a favor do time adversário. Foi aí que percebi que eu já não era mais o cavalo e sim o burro - pulei fora do tabuleiro e abandonei o jogo antes que eu fosse parar no xadrez.
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SAUDADE

Saudade, flor branca e triste
Pétalas de amargura,
Que em dor se desfaz

Saudade, eu sei que existes
E do jardim das desventuras
Vem teu perfume assaz

Saudade, quem roubou tuas cores?
Que esperanças trazes?
Por que padeces assim?

Saudade, esqueças teus amores
Veste-te de outros trajes
Deixa esta dor ter um fim
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Comentários (2)

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Obrigado Eusébio, espero vê-lo cheio de inspirações felizes.

Que bom ler teus poemas meu amigo estive andando por ai a procura de inspiração e voltei cheio de desejos e para começar quiz ler algo novo algo que me encante assim como teus poemas um abraço

            Nasci e cresci pobre, mas não tenho vergonha disso. Sofri na pele as injustiças da pobreza, mas mesmo assim vivi feliz pois não conhecia a sua verdadeira fonte. Saudei heróis forjados na podridão, mas vestidos no linho fino do engodo e da publicidade paga. Sobrevivi milagrosamente à miséria por puro lampejo da graça divina.
            Sonhei com um mundo livre e justo. Acreditei que as oportunidades eram uma questão de esforço e que o sucesso só dependia da capacidade e do desprendimento. Pensei que os homens bons transformariam o mundo e que as injustiças seriam aniquiladas pela educação e a sensatez
            Infelizmente, a maturidade revelou-me que os pobres são mais pobres de espírito que de oportunidades. Que os ricos, pra se fazerem ricos, já venderam a alma. Que as oportunidades não surgem, são compradas às escuras. Que a decência, quase sempre, sucumbe à propina e ao favorecimento. Que os idealistas se vendem ao poder. Que os justos não subsistem no trono. Que a caridade quase sempre não é cega. Que a violência e a miséria são orquestradas do trono. Que a abnegação tem a infâmia como troco. Que as pessoas amam mais imundícia que a dignidade. Que os insanos são mais aplaudidos que os sensatos. Que a morte é triste, mas sem ela os homens seriam eternos escravos de seus páreos.
            Hoje eu luto, não mais para reformar o mundo, mas para não ser sucumbido por ele. Sofro para provar que nem toda dignidade está à venda. Combato a indecência e imoralidade, mesmo sabendo que perderei a batalha.  Quero morrer com orgulho, não de ter vencido a guerra, mas de ter lutado sempre em defesa do que é correto. Não quero ser lembrado por ter mudado o mundo, mas apenas por não ter feito coro com aqueles que o tornam fétido.
            Algum dia, espero que ainda longe, esta será apenas mais uma página esquecida e provavelmente apagada por falta de manutenção ou custeio. Todavia, antes que este dia chegue, quero fazer transbordar nela as inquietudes da minha alma; fazer soar os clarins da vida, sem ter a presunção de ser o dono da verdade, mas convicto de que proclamei meus erros como alerta aos jovens e chamei à reflexão os pensadores em busca de uma vida mais digna e próspera para as gerações vindouras.