Lista de Poemas

A ECLOSÃO

De repente ela caiu em si - estava só. Descobriu que a sua fortaleza de pedra, intransponível aos olhos do mundo, a qual pensara por tanto tempo ser o seu refúgio era de fato o seu degredo. Lá isolou seus entes da crueldade do mundo, do desenfreio urbano e da lascívia do consumismo. Sua casa fortificada a consumira em cuidados. Passara os melhores dias da sua vida postada de sentinela, lutando para que as angústias da vida não atingisse aos seus filhos como havia feito com ela. A procriação transforma os sentimentos humanos. Troca-se o fascínio da aventura pela âncora da segurança. Faz do comedor de ovos um guardião de ninhos, da faladora desbocada a voz da prudência e o ditame da moralidade.

Tudo parece seguro até que os ovos eclodem. As janelas agora não são forçadas por fora, mas abertas por dentro em surdina à sombra da confiança. São os filhos que quebram as cascas dos ovos, por isso são chamados de rebentos. É dura e triste a sensação de ter lutado em vão. Os sonhos construídos na fornalha do sacrifício são agora desfeitos na moenda do descaso, da ingratidão explícita e no curtume da indiferença. O segundo parto dói muito mais que o primeiro. No primeiro o sonho alivia a dor, mas no segundo é o desfazer dos sonhos que provoca as dores. Num nasce a esperança no outro a desilusão. Num a alegria de conhecer quem chega no outro a tristeza de se desconhecer quem parte.

Já não sabe se chora por si ou por eles. A dor da desilusão é tão profunda quanto a amargura do desterro. Busca conforto no sentimento da obrigação cumprida, mas este foge dela lançando-lhe ao rosto a sua vida usada e o seu esforço inútil em favor de quem não o merecia. Posteriormente, depois de aprender a suportar a amargura da derrota, tentará achar no sorriso infante de seus netos o bálsamo de gratidão que lhes devia os filhos. Pensando bem, se tivesse a chance de recomeçar, faria tudo do mesmo jeito. Carregaria consigo a dor da abnegação vazia, mas guardaria sempre em seu bojo a certeza de que amou acima da razão e que tudo fez para que eles fossem plenamente felizes.

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DESCRENÇA

Não creio:

- No tempo como instrumentalidade do perdão;

- No arrependimento sem lágrimas;
- No amor que não se expressa em obras;
- Nas mudanças sem a firmeza dos propósitos;
- Na solidariedade dos discursos;
- No perdão cunhado em bronze;
- Nas amizades curtidas nos interesses;
- Na alegria regada no mosto;
- Na caridade do sobejo;
- Na ideologia da conveniência;
- Na fé que não enfrenta as tempestades;
- Na justiça dos impróbios;
- Na felicidade dos profanos;
- Na paz dissociada da decência;
- Na esperança não fundamentada na Cruz.
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O MÉDICO

Quase sempre de branco
Mas carmesim é sua cor
Na aflição e no pranto
Rege a música da dor

A quem primeiro socorre?
Cabe a ele o julgar
Até conhece o que morre
Mas não o pode chorar

É mal súbito ou crônico?
Que se pode fazer?
É local ou sistêmico?
Pode-se reverter?

Se o consegue, é exaltado
Mas se não, é incompetente!
Não importa o estado
Dê-se a vida ao doente!

Quem conhece suas mágoas?
Quem já o ouvir chorar?
Quem esqueceu suas chagas
E foi a ele abraçar?

Quando olham pra ele
Todos só se lembram de si
Mas, só abracem hoje a ele
Pois ele também quer sorrir
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CREPÚSCULO

Os velhos às vezes conversam demais
São casos enfadonhos e repetitivos
As coisas passadas, deixemos pra trás!
Prosas antigas nos cansam os ouvidos

As vezes em silêncio, com um olhar vazio
O velho se ausenta e mergulha no tempo
Busca refrigério num mundo esquecido
Nada mais nos fala é só seu o momento

Pra onde vai sua alma naquele mergulho?
Por que tanto se enoja e foge da gente?
É que é duro ser visto um peso ou entulho
Quem passou sua vida cuidando da gente

Ela vai para onde a mesquinhez não chega
Lá onde os velhos e novos são todos iguais
Onde os braços de Cristo é quem aconchega
Onde a velhice é apenas o alcançar da paz




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O PESO DAS COISAS

Quem pesa mais, uma arruda de algodão ou uma arroba de chumbo?

A arroba é uma medida de massa e não de volume ou capacidade, assim ambas as cargas pesam iguais. Engraçado, a piadinha é velha mas nos ensina muito. As vezes renunciamos centenas de gestos de carinho por causa de apenas um desacato. Damos muitos mais peso as ofensas do que ao amor, embora em volume, os gestos de carinho são muito mais abundantes. Detestamos as agressões. Todavia, damos a elas um local de destaque nas nossas vidas. A fraternidade é registrada em areia, mas as ofensas são gravadas em bronze. Se nos perdoássemos na mesma proporção que perdoamos os outros, na certa nos mataríamos. "Assim como nós perdoamos aos nossos devedores", nos ensinou Cristo. Perdoar é o ato de conceder aos outros a misericórdia que almejamos. A justiça do olho-por-olho foi revogada em Cristo porque Deus viu em nós uma humanidade cega, não havia um justo sequer, nenhum caolho. Onde não há perdão, reina a mágoa, a angústia, a depressão e a tristeza. Cristo foi a personificação do amor, mas passou sua vida nos dando lições de misericórdia. Não desperdices as aulas de Cristo, seja feliz!
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BRANCA DE NEVE

Já não quero mais caminhar
Eu ando trôpego sem ti
Teu passo era meu compasso

Já não quero mais conversar
Ninguém me escutava como tu
Entendias o que não falei

Não há mais anedotas a contar
Ninguém sorria como tu
Debochavas de mim com ternura

Não há mais com o que sonhar
A minha inspiração eras tu
Encanto que se desfez

Não há muito a se explicar
A Branca era de neve
E ao calor do sol derreteu

Não houve final feliz
O castelo foi demolido
E a princesa morreu
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E N S I N O M E D Í O

Não precisa estudar nada
Quem quer fazer faculdade
Só reprova quem não paga
É uma nova realidade

Ralar em livro é absurdo
Estudar é coisa brega
A internet tem tudo
Marca-se, cola e entrega

Quatro anos passam rápido
É um ótimo investimento
Com um cachê intermediário
Forma-se antes do tempo

Se for gente de influência

Logo estará empregado
Numa ONG, na Previdência
Quiçá até no Senado

Entre em cargo de confiança

Por um amigo deputado
E em acordos de lideranças
Serás logo efetivado

É o novo ensino m e d í o

Que o PT implantou
Medíocre em todos os termos
Honoris causa ao "doutor"!
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COTAS RACIAIS

é cretinice, é hipocrisia:
Querer que navegue em trevas
Quem nunca viu a luz do dia

é afronta, é insanidade:
Matar por sucumbência e desengano
Aos que se negou o ensino de qualidade

Não é coceira ou virose
Aprendizado é um processo
Nunca vi conhecimento se transferir por osmose

é muita petulância:
Matam a escola por inércia
E fazem da faculdade o sepulcro da ignorância

é a política mesquinha
E não a cor quem segrega
é caviar para elite, prá pobre pão e farinha

Prá os filhos de a
padrinhados
Há creches escolas e transporte
Mas lá na periferia, até o lanche é mofado


é um plano vil, plano macabro
Jogam os pobres no fogo
Fazendo-os sentirem-se os culpados





743

VIAGEM INSANA

Excesso de amor na bagagem
tornou o marujo insano,
pois nem percebeu ser miragem
o que julgou ser oceano

Em seu insano desejo
no mar do amor foi navegar
e nem da verdade o lampejo
fez o marujo acordar

Ao cais do desdém amarrado,
seu barco nunca partiu,
mas pelo amor obcecado
este detalhe não viu

Em seu diário da vida
a ventura do amor descreveu
e não há expert que diga
que ela nunca aconteceu

De volta ao porto, cansado,
o marujo por fim voltou
e seus olhos contristados
são prova de quanto amou

Se foi verdade ou loucura
já ninguém sabe dizer,
mas um amor com tal ventura
todos são loucos pra ter


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O HERÓI DESCONHECIDO

Nós na escola estudamos
sobre heróis desconhecidos
suas história decoramos
e repassamos aos nossos filhos

Mas às vezes somos injustos
em manter no anonimato
não um herói, mas um vulto
que é lembrado em todo fato

Não tem história nem honra
para aos outros repassar,
sua vida é apenas vergonha,
não pode dela falar

Nunca venceu uma batalha
pois nelas nunca entrou
Mas sempre encheu sua mala
com o que um outro conquistou

Ele é do brio a negação,
um eterno escravo do medo,
um parasita entre irmãos
ou simplesmente: pelego

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Comentários (2)

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Obrigado Eusébio, espero vê-lo cheio de inspirações felizes.

Que bom ler teus poemas meu amigo estive andando por ai a procura de inspiração e voltei cheio de desejos e para começar quiz ler algo novo algo que me encante assim como teus poemas um abraço

            Nasci e cresci pobre, mas não tenho vergonha disso. Sofri na pele as injustiças da pobreza, mas mesmo assim vivi feliz pois não conhecia a sua verdadeira fonte. Saudei heróis forjados na podridão, mas vestidos no linho fino do engodo e da publicidade paga. Sobrevivi milagrosamente à miséria por puro lampejo da graça divina.
            Sonhei com um mundo livre e justo. Acreditei que as oportunidades eram uma questão de esforço e que o sucesso só dependia da capacidade e do desprendimento. Pensei que os homens bons transformariam o mundo e que as injustiças seriam aniquiladas pela educação e a sensatez
            Infelizmente, a maturidade revelou-me que os pobres são mais pobres de espírito que de oportunidades. Que os ricos, pra se fazerem ricos, já venderam a alma. Que as oportunidades não surgem, são compradas às escuras. Que a decência, quase sempre, sucumbe à propina e ao favorecimento. Que os idealistas se vendem ao poder. Que os justos não subsistem no trono. Que a caridade quase sempre não é cega. Que a violência e a miséria são orquestradas do trono. Que a abnegação tem a infâmia como troco. Que as pessoas amam mais imundícia que a dignidade. Que os insanos são mais aplaudidos que os sensatos. Que a morte é triste, mas sem ela os homens seriam eternos escravos de seus páreos.
            Hoje eu luto, não mais para reformar o mundo, mas para não ser sucumbido por ele. Sofro para provar que nem toda dignidade está à venda. Combato a indecência e imoralidade, mesmo sabendo que perderei a batalha.  Quero morrer com orgulho, não de ter vencido a guerra, mas de ter lutado sempre em defesa do que é correto. Não quero ser lembrado por ter mudado o mundo, mas apenas por não ter feito coro com aqueles que o tornam fétido.
            Algum dia, espero que ainda longe, esta será apenas mais uma página esquecida e provavelmente apagada por falta de manutenção ou custeio. Todavia, antes que este dia chegue, quero fazer transbordar nela as inquietudes da minha alma; fazer soar os clarins da vida, sem ter a presunção de ser o dono da verdade, mas convicto de que proclamei meus erros como alerta aos jovens e chamei à reflexão os pensadores em busca de uma vida mais digna e próspera para as gerações vindouras.