GÊNESIS
No princípio era só eu, abrindo os olhos, aprendendo a amar, a ver Porque havia luz, havia paz, eu sentia o ar, o mar, um lar nascer E se ele não tinha forma, como a terra que também era vazia, Precisou Deus fazer tudo luzir, a solidão se despedir, primazia, Aquecer o coração, desenhar o firmamento, por um momento, E já era paraíso aqui, quando aquela barriga cresceu, na certa Existiu aquela mulher entre você e eu, que fez a descoberta, Que deixou os traços, aqueles braços abertos para mim, enfim, A terra já havia sido criada, já tinha o sol, já tinha a lua, estrelas, E ao vê-las, sorriu a natureza, aves, peixes, conheci a beleza Representada à imagem, à semelhança divina, nesta menina, Nathalia, Ná, Naná, Lia, não importa, a porta da casa abria, A vida em festa te recebia, para morar e ganhar o alimento, Teu sustento no seio que eu primeiro amara, tomara para si, No jardim, plantas e frutos a surgirem, a florirem, a sorrirem, A repetirem, como o Criador, que era bom, o som do seu choro, Que acalentei no colo, que vi crescer neste solo e comemoro, Hoje, sempre, meu presente, agora, como Deus, posso descansar.
FOGO
Quando o coração fica apertado e não tem ninguém ao seu lado, fica o vazio, Fica o rio com a calha exposta, uma vida sem resposta, sem saída, represada; Quanto tempo mais se faz necessário, qual será o melhor itinerário para fugir, Para rugir e espantar fantasmas do passado, sorrir, revigorar o rosto cansado. A janela se abriu e tem bastante sol lá fora, a flor aflora com graça sem igual, Tudo fica muito especial, quando uma barreira é transposta e, aquela encosta Não vai mais desmoronar e soterrar sonhos cultivados com tamanho cuidado, Deixar verde o gramado, o jardim colorido foi concebido para tê-la à sua volta. Estou mais forte, como as raízes deste chão e pronto para segurar as rédeas, Fazer escolhas e encher as folhas com novas histórias, atrizes e finais felizes, Tão parecidos com este novo momento e, sinto o vento como sendo um sinal Para seguir em frente e, fazer diferente, subir um degrau, tocar o céu, resistir. Segure a minha mão e não tente escapar desta velha prisão, é início de verão E de férias que pareciam nunca chegar, sinto o gosto do mar e macia a areia, Preparativos para a ceia, enquanto olhares se aproximam e bocas confirmam Ao se tocarem, ao se molharem, que, corpos tão acesos, continuam a queimar.
EUGENIO
Não sei quanto tempo ainda tenho e se disse e fiz tudo o que poderia, Nem mesmo penso estar pronto para seguir sem segurar suas mãos, Inevitável é que o dia virá, posso senti-lo, também procuro ficar calmo, Como fiquei assim que vi você pela primeira vez, minha melhor visão. Foram tantas lições que espero aprendidas, feita de gestos, palavras, Estradas que cruzamos confiantes, de que juntos, seríamos vitoriosos Como agora nos sentimos e rimos, relembrando os perrengues, afins, Limiar da maior aventura e, que ainda reserva outros tantos capítulos. Gratidão basta para expressar o sentimento de estar nesta celebração, Onde a realização se mede em silêncio, o mesmo que se torna diálogo No dialeto de quem tem laços profundos se percebidos pela respiração, Eufórico coração, tão cercado de cuidados, onde seu nome foi gravado. Do suor que trouxe o pão, aprendi a melhor lição e ela quis disseminar, Perpetuando nela o legado, o nome que para mim é santo, consagrado, Por ele fui abençoado e agraciado, que trago e, outorgo como herança, O amor de quem sempre foi mais filho do que pai, porque pai, só você!
ENTRE O BANHO E O SONO
Como um breve lapso de memória, sem distinguir o real do imaginário, Enquanto a água caia, o ritual se repetia com duas ou até quatro mãos, As únicas certezas são da porta destrancada, de o cão não querer latir. Se os dedos se entrelaçavam, arranhavam azulejos, uma vez ou outra, Nada perderia seu valor, no campo físico ou fictício, no frio ou no calor, Sei que entre deslizar e se agarrar, restaram forças contrárias e felizes. O vapor criou uma nuvem densa e tudo se perdeu, tudo se achou aqui, A espuma que escondia, a água desnudou, o olhar abriu, arregalou-se, E, entre superfícies úmidas e quentes, dispersas em inúmeras frentes, Vieram sensações, novas dimensões, tudo se encaixou, tudo se fundiu. Como fosse pouco, tudo recomeçou do ponto que normalmente termina, O que era frescor se converteu em adrenalina, suor, desejo e endorfina, Quem gritava não, implorou pelo sim, mãos que afastavam, já acolhiam, O cérebro apagou, acordou, e, a casa também estava virada do avesso.
DRA. MONICA VIANA
Quando os anjos dormem os passarinhos fazem silêncio, Eu me arrependo dos pecados que cometi e peço perdão, Olho esta expressão tão desgastada e ainda apaixonada Como da primeira vez que serviu, tinha traços de criança. O rock como atitude, a virtude de não se dar por vencida, Destemida como heroína em fúria, mãe cuidando do filho, Estudando a lição, preparando o coração, tantos milagres, A oração como início, solo propício ao dom, pode realizar. Não há tempo para lamentações, consolações para dores, Flores que renascem na alma enferma, querendo se curar, Um mero instrumento que por si só jamais poderia realizar As obras que foram sopradas e que agora se fazem ouvir. A música celeste inunda as salas, as mãos firmes operam, São filhos que esperam, que rezam, nós somos pequenos, A grandeza divina é impenetrável, inefável vê-la realizar-se, É tão lindo o seu manto, um avental branco escrito médica.
DEISE
Eu não sei restringir sonhos, quando eles se desgarram do controle, Também não tenho modos, quando o assunto é esperar o momento, Meu alento, é que vale à pena ser assim, por quem faz por merecer. Seus olhos derramam em mim, toda esta pressa, a intensa vontade De puxar o tapete, roubar o chão, seqüestrar e saquear sem perdão, Porque eles me acompanham, ainda que, persista em esconder-me. A boca que é um exagero, um desespero para quem gosta de beijar, Quer abusar, selar a noite, o dia, a eternidade, a cumplicidade, tudo, Tudo fica parado, quando ela quer, linda, linda, esplendor de mulher. Quando penso saber tudo e, sortudo ter decorado as curvas e traços, Laços desfeitos, o feixe aberto, ela desnorteia, incendeia ainda mais, Tonto, um novo brinquedo, mais parece o João Bobo, é bobo demais, Já não tenho receios, nem meios, de evitar que prossiga, me domine, Que incline o corpo e jogue o cabelo para trás, sentencie, até ilumine, Que exija um pedido de clemência, enquanto eu só penso em morrer.
CONEXÃO
Quando o tempo se depara com o despertar sonolento De sonhos ambientados em imponentes arranha-céus Ali mesmo onde os pássaros causam inveja aos mortais Estes olhos que alimentaram rios contemplam horizontes Dentes que se confundem com as nuvens, cama do piano Manancial da alma, luz que acalma, fagulha de sentimento Sentinela do desejo, começo do beijo incipiente, embrionário Cabelos que se aninham onde os dedos queriam estar, ninho Paladar que a boca veio aguçar, num acaso do destino, vinho Seiva que circula entre amontoados de cinza e concreto, vida Matéria que deu forma à perfeição confinada em uma tela Imagem permeável irrigando veias como corpo do espírito Tamanho atrito não rompe as barreiras e a sede não finda É só o lençol de vidro irradiando calor digital aos conectados