Escrevo porque não tenho nada para dizer. Escrevo porque preciso. Não tenho mensagens nem respostas. Não faz sentido mesmo. E sim, são coisas 'esquisitas' porque eu não sei fazer outra coisa.
Vê o que lá está e que veio, veio de uma origem, de onde se puxam as veias, veias retesadas, a retinir, em paralelo, ao comprido.
As guitarras já lá estavam, já as tinham ouvido, já as tinham tocado como quem se enfia na toca.
Os acorrentados, nas correntes de ar, portas e janelas abertas, saltam das dobradiças, e, contra nós, aos pedaços de maçã podre fermentada num licor doce aos golinhos.
E depois cantamos, acompanhamos a cigarra, dedilhamos as veias, rearranjamos a guitarra.
Quem: Estudante de Línguas, Linguistica, Cultura, e Artes Liberais no geral. Actualmente a tirar mestrado nessa área.
Sobre o que escreve aqui: dissociação, estados alterados, amor, comunidade, alienação, niilismo, raiva, metapoesia, experimental, coisas que vê, quando não consegue falar com coerência (o que acontece com frequência), escreve.
Aqui, se vê e se lê e quem não é, crê. Palavras dispersas personas diversas.
Dizem o que sentem, dizem o que dizem. Mas antes de clicar no botão de gravar uma vontade ardente uma vaidade inocente.
Porque escrevemos? Porque queremos? Sim. Porque podemos? Sim. Porque sentimos? Sim.
Nestas palavras poucas por partes pequenos poemas trémulas artes articulamos o que, o que na boca se perde não sai.
Porque no fim e é mesmo assim no fim, com as mãos podemos riscar podemos apagar e ninguém vai saber nem vai julgar.
Se a voz gagueja também a escrita a escrita também também gagueja.
Se na voz o sentido sentido mas não não entendido porque não faz não faz sentido e os demais as demais não não o apanham frutas demasiado altas não vale a pena só tendo a ladra ladra o canito e não há pau só a ladra de lata inútil e o sentido lá fica em cima e ninguém mais ninguém o apanha e cai então podre e aí então ninguém o quer mais.
Mas não é isso que queria dizer aí está o que tentamos fazer, fazer que quem nos lê, quem nos lê nos veja, e veja também com os nossos olhos e ouça com os nossos ouvidos e tenha ainda tido as mesmas experiências.
Não é assim. Não é assim. Porque em cada mão em cada corpo em cada coração está um mundo um mundo que difere e fere porque não não é possível o entendimento sem confusão. 08/07/2018
332
IRA
Como dizer como falar como expressar. Expresso e pressiono nas têmporas, temperos sem sono, sem sabor, sem ar. Armários arfando exaustos das esporas um bufar cavalar com o sangue a jorrar.
Ah, se pudesse, se soubesse, se quisesse, se dissesse e em diamantes dementes, dormentes, doces e refulgentes, e dormisse durante anos, anos, anos, anos! Sob o encanto mágico do medo (e da pieguice).
Antes, tão antes, tão longe, tão brilhante. No medo enrolado, embolado, inconsciente, dormente como que um monstro hibernante, no frio incandescente a alma fechada, uma fachada, jovem, cedo fermentada.
E agora aqui, agora aqui, aqui, explodem! Como balas escaldantes as palavras que com os dedos feios lavras. Quente é o pecado, o quinto círculo, onde vai essa emoção, esse coração(?) (chamam-lhe assim, porque não?) e que os risos fizeram ridículo.
Mas sabes que és capaz de amar, sabes sabes, sabes, sabes, sabes! Com tanta força que te perdes, e te convences, a ti a ti convences que não há nem haverá para ti amor amor, não para ti. Ah, o teu peito cheio clama, o amor explosivo que sentes e gritas que amas! Gritas que és capaz és capaz de amar! Mas por ti só sentes ódio. Por ti só sentes ódio.
07/07/2018
393
desarticulação
"Levanta a cabeça princesa, senão a coroa cai" a cabeça caiu no chão, nunca teve coroa, e já lá vai rebolou para tão, tão longe que se perdeu deu vontade de rir, mas chorar foi o que aconteceu.
"Será que algum dia vou vencer na vida? Eu tenho certeza que não" grande filósofo, poeta e pobre, e sentindo, o grande, Paulo, Juão a fotossíntese de que ele fala não posso porque não tenho nem osso.
Na pele rasteja a dúvida e o cansaço como vermes verdes, viscosos, vagos e dos olhos desliza o embaraço rebolam grossas como bagos.
Espreme-as, espreme-as e bebe-as como um sumo patético como és como és tu, o sumo, o teu dos teus olhos mortiços doentes e cercados de breu.
Está escuro, aqui, aqui no fundo onde se perde tudo e só há cacos está cheio, mas sem ver, o mundo aqui em baixo, não há buracos, é uma massa de medo e merda o que alguém como tu herda porque é isso que mereces. É só isso que mereces.
04/07/2018
629
dos perdidos
Triunfo dos emocionados emaciados
macios, mentirosos, metralhados
balas e abalas em fuga
uma ruga.
Uma viagem sem regresso.
Longe,
no tempo e no espaço e range
escadas dentadas e delapidadas
uma pedra fria e, claro, vazia.
Azia e melancolia
e ninguém lia
toda a boca comia
mas daquela cara
repugnante
só água escorria.
E nem dó
porque merecia
e nem dó
porque também se ria.
Escrito a 04/07/2018
348
O nascer do pôr-do-sol
Nasce o pôr-do-sol ao cair da manhã e as gotas secas a dormir no divã, uma caminha num caminho à esquerda, como do céu, um torvelinho de merda.
Sabidas as subidas e as descidas mas caem como potes de papel mascaradas de patos, despidas descendo por fitas de rapel.
Fitando o horizonte onde nasce o sol poente, a ocidente e os olhos vesgos onde renasce a ansiedade ardente.
Escrito a 02/07/2018
614
Mas ainda tenho
Vi um sonho colorido pequenino. Urgente, sentido, e franzino. Músicas em miniatura. Danças sem sincronia. Sem preparação como nascem os sonhos rebentos de energia e alegria.
(Vi amor.)
Vi um entusiasmo que hoje mos torna medonhos porque debaixo dos pés quais percevejos peçonhentos, fedorentos, as fés que pudesse ter tido todas, todas idas. Esmagadas como percevejos feitas frutas espremidas num sumo supressor que bebi e decerto não morri. Tudo no passado ido, quebrado o cadeado e o literal coração despedaçado.
(Perdi amor.)
Ah, mas tantos anos depois, quando no pensamento soube que tinha de o consertar, mesmo que sem alento, já ido o sonho, já depois de se apagar, consertei.
(Esse não recuperei.)
Mas vi hoje, o mesmo sonho. Vi o mesmo sentimento, como que num espelho, aquele meu rebento. Vi-o colorido, vi o alento, vi o passado, vi o brilho ido tão longe quase esquecido.
(Mas ainda tenho.)
Escrito a 29/06/2018
616
O que pode ser poesia
Se não são de amor, de paixão e afeição, de se perder, ardor, de se dissolver, não, de se entregar, dor, de dor de amar em vão... então, então não é poesia?
Se cai em abismos pastosos e sem, sem sentidos nem aforismos. Sem ouvidos, nem olhos. Sem bocas nem inimigos. Com tocas, com umbigos onde não, onde não liga um mamífero bipede que, que te pede que, que o abraces, que o acaricies e o leves ao mais, ao mais alto dos, dos sonhos então, então não é poesia?
Se de toques e carícias, perdidos os sentidos, de doces e breves malícias, os dedos ainda tidos, como que estando, estando na pele, e o ritmo acelerando... E depois um frio porque se apaga. A vela come o pavio e tudo apaga e vai, e vai sem desaparecer. Deixa só nas mãos, nas mãos a vontade, a saudade, os dedos para escrever então, então é, é poesia?
Mas e se, e se, e se... e se nos peitos não acelerados pelos efeitos, desses toques e bafejos, doces, divinos, mas acelerados pela ausência, vazios, perdidos, desvairados. Nesses também pulsa uma febre, febre incandescente vulcões explodindo sós! Sós, sem som, sem sentido. E esses dedos, esses dedos buscam, buscam e buscam e buscam e buscam! Nos estilhaços, pedaços, pedaços desconexos que juntar malformados, sempre, sempre, malformados. Flores não saudosas com hastes e dentaduras esgaçando sorrisos coloridos de verdes de esmeraldas de olhos e azuis de cerúleo céu de cabelos e ao vento, nas espaldas folhosas um cinzento, brilhante véu.
Não pode? Não pode? Não pode essa também? Não pode essa também ser? Não pode essa também ser poesia?
Escrito a 26/06/2018
605
Apeadeiro
Essas brumas vagas no apeadeiro do silêncio. No escuro puxa-se a corda, segura-a e eleva-se.
Grunhido apagado, iluminado. Luz vermelha e pela borda do oceano, seco de breu mole pegajoso e invisível no topo de uma árvore.
Frio e silencioso, amarrado, de passagem pela ponte do sol. Ondas curtas e longas e nenhumas. Verdadeiras e descontroladas. P'ra cima, p'ra baixo.
emerge Mergulha, , mergulha.
No ar seco que encharca os braços nus, as tuas mãos cansadas sacodem as cordas, e mergulhas em segredo. A árvore carpideira de braços nus e secos. Braços nus e secos, encharcados. E não se dissipa a bruma. Nunca houve comboio. Escrito a 18/09/2017
626
O que restará
Língua empapada de sangue. Pedaços de limos pestilentos, esquecidos nos ouvidos sonolentos.
Imagens usadas como balas, uma baleia rodopia, num deserto encharcado, em carne esquecida nas valas.
Se dela escorrem os sangues, de vozes silenciadas, apagadas e agora exangues, dela correm também palavras de afecto tão puro, tão discreto. Oprimido por ladaínhas odiosas como espinhas dos sonhos o mais desperto.
Resiste, resiste ainda. Resiste ainda o amor. Resiste ainda o amor.
Escrito a 23/10/2017
644
Estagnação
Queria agora estar num comboio, vagão para qualquer lugar. As janelas sem vidros no frio do Inverno os pés as mãos doridos. Gelo, do vento, das janelas, do vagão, escancarado e escuro, na noite. Para qualquer lugar. Mas aqui vais ficar. Escrito a 08/01/2018