Abre a mente ao que eu te revelo
e retém bem o que eu te digo, pois não é ciência
ouvir sem reter o que se escuta.(Dante Alighieri)
Um homem apaixonado por poesia.
Tento traduzir os pensamentos na fidelidade que estes me concebem.Não tenho a pretensão de ser poeta,e se por acaso as palavras me metamorfosear em algo parecido,não me culpe;apenas me perdoe.(Sirlânio Jorge Dias Gomes)
Me dê tuas mãos, Que a paixão nos queime, Permita que meus lábios, Te beije contínuamente, Pândego ardor entre olhares, Vertiginosos abraços a nos possuir, Extasiados pela música em nós, Nestes corpos ardentes, Ímpeto de encantos, Concêntrico bailar exaltado, Giros de amor consentido, Corpórea sedução em volúpia, Quimérica sensualidade enlaçada.
506
Abissal
Andejamos ao poente, À terra sucumbida, Moribunda entre as estações, Estranhamente entre os mundos, Escabrosa trilha de pedras, Homens inabitados, Brados moucos, Olhares invulgares, Perdidos na selva, Agudo punhal em sumos. Onde estão os campos? Reunimos ao redor da fogueira, Arruinou-se a carne gélida, Mostrai-me as criaturas, Escondidas na tempestade, Fel incolor entre as bocas, Famintas sem beleza. As bordas escorregadias do monte, Sepulcro dos apáticos, Soberanos em seus tumores, Chaga de dores verminais, Danação dos homens santos, Em seus estupores irrequietos.
493
Exílio
Diáfano nestas trevas rochosas, O prado invade meus aposentos, Avulta suas raízes primitivas, Seivas onde faz-se o rito, Acrisolando a vida aos cantos das aves, No entoar dos rios o mantra das matas. Infindamente a brisa celeste, Beija a luz do sol, Rico ornamento da matéria, Ao chão de rastros em prece, Sussurrando a alma atenta, A opulência das asas. Ás covas as promessas, O último olhar de mãos estendidas, Acariciando o junco da terra, Na certeza de se tornar semente.
392
Matizes
Fusão em teu corpo, Contíguo pecado nativo, Odorífera Tentação em idílios, Irmana-me em seus suspiros, Tonalidade em semitons, Música dos teu gemidos. Abra-se como uma flor, E deixe que eu seja o vento, Que te faz bailar livremente, E perceber esta suavidade, Álibi de minha procura, Transição de almas. Envolva-me em teu olhar, Sereno igual a luz da lua, Que toda nua, Te reflete em meus laços, Genuíno flertar de nossa caça. Canto em torno de ti, E danço em tua paixão, Que também sendo minha, Me devora insandecida. Teus toques me atavia, Enflorando meu querer enobrecido, Sou príncipe em teu castelo, Este manacial de devotado apego.
533
Cative o meu coração
Ao cair das trevas enreda-me em tua afeição, Uma vez adormecido te descubra, Na aurora a prismar o pejo do teu querer, Esta obstinação que me queima, Destruindo a fortaleza desta timidez. Invada-me teus segredos, Que o mel dos teus lábios, Afugente minhas dores, Me dê repouso, Neste teu céu de deleites. Meus olhos são teus, Em teu olhar me apresso, Olência que me encanta, Nesta pele em brasas, Sensualidade em vendavais. Este ócio que me concedes, Plasma meu sorriso ao teu, Vem e toma este cálice, Bebamos esta cálida devoção , Esqueçamos do tempo, Sou teu e nada mais.
513
Clarão da lua
Afável anjo adeja o domo celeste, Devoluta ventana de fantasias, Beijando o mar em venustidade, Quando em seus abraços, No preamar da noite, Escreve na areia teus versos, Evos imortais de poesia. De tua paz ouve-se o canto, Ecos vibrantes de amar veemente, Suave bailar da criação em silêncio, Terno afagar da luz de tua beleza. Do teu éden de sonhos, Adorna com cantigas o vento, Abraçando as flores e o deserto, Rios e vales, Escutando as discretas emoções, Dos corações singulares. De lá sondas a pena, Dos afoitos consortes, Intrépidos covardes, Em seus incógnitos plangores.
442
O peregrino
Gracejo de mim nesta penumbra, Histrião tragicômico de tal angústia, Neste lamento de facetas contraditórias, Fastioso sarcasmo de abrupta compaixão. Zombo de mim neste caos, Desdita vida em suas convulsões, Náusea fremente em suplícios, Desta boca maldita, Rogações infestas de um réprobo. Aos meus aís deixo o vento, levar algures minha ruína, Quem sabe também a culpa, De não lutar diante da dor, De um amor tão pálido. Do chão fiz meu leito, Imaturo jazigo em flor, A despetalar meu último suspiro, No grande espetáculo da vida.
429
Desamparo
Amada,esta alvéa imagem aos meus olhos, Fino repouso de tua alegria, Precioso sacrário que te aquebranta, Ao meu regressar em galardão, Obséquio condolente ao amor ausente. Arqueja meu peito de apego, Este melindre ao afã de tuas batalhas, Entidade ávida de um orbe infinito, Latíbulo florido em reminiscências, Deste corpo um dia unido ao meu, E agora apartado pelo destino. Segue este coração golpeado, Sentimento prescrito de tua ausência, Eterno laço da verdade que me destes.
535
Te permito
Em minhas instâncias, Deixo que me leve, Desejando onde me descobriste, Total esmero do que sinto. O teu querer é meu, Na exata medida que me quiseres. Sou lume que te agasalha, Neste amor vibrante, Cujos lábios me recolhe, Suave atração a inundar-me. O cintilar que de ti emana, Finda a escuridão que me flagela, Este raptar contínuo em suas nuances, Quando tu não estás.
490
Libido
Nos vestígios te procuro em algum espaço, No crepúsculo brilhante donzela, Estes cabelos,desejo em si escondidos, Corpo reluzente entre névoas.
No improviso miro teus seios, Estas curvas de um gosto selvagem, Ao mesmo tempo tão doce, Minha altivez flameja entre o delírio, Bebendo o suor do teu fogo.
Perfeito anelo de ti me compreende, Este fulgor revestido de versos, Fonte de águas cristalinas, A saciar minha sede em tuas veredas.
És minha sem sê-lo totalmente, Neste insolente coração inflamado, Aplainando sonhos, Enquanto durar esta noite.