Abre a mente ao que eu te revelo
e retém bem o que eu te digo, pois não é ciência
ouvir sem reter o que se escuta.(Dante Alighieri)
Um homem apaixonado por poesia.
Tento traduzir os pensamentos na fidelidade que estes me concebem.Não tenho a pretensão de ser poeta,e se por acaso as palavras me metamorfosear em algo parecido,não me culpe;apenas me perdoe.(Sirlânio Jorge Dias Gomes)
Desabrochou a flor da lua em seu fulgor, Asilo apaixonado do amor, Perfumado círio celeste, A beijar sua alma cheia de afeto, Abraçada ao infindo amar, Na plenitude de tua adorada face. A noite admirada com teus encantos, Cativou as estrelas e te deu asas, A voar guiada pelo vento, Ouvindo as confissões mais belas, De cada coração desperto, Nos desejos a suspirar. De cada brilho do olhar, Gotejava versos de rimas profundas, Tocando a eternidade comovida, Invisível caminho da felicidade, Estampada em laços de ternura, Jurando fidelidade a íntima carne. Entreabriu-se o paraíso aguardado, Fervorosa nupcia silente, Ameigando a volúpia ansiosa, Nos corpos ardentes impolutos, Suave idílio de pétalas copiosas, Nobre rosa de juras envanecidas.
326
Perversidade
Pulsam na terra os traços mórbidos, Pena secular aos dissímeis mortais, Humana disparidade da morte, Tocaia silenciosa do preconceito, Entrincheirados nas esquinas do ódio, Trazendo no coração suas confluências, Forjada em dor e sangue. Escravos, de escravos da soberba, Sarcasmo da fragilidade em mãos vazias, Ao manjar ignorante de vermes famintos, Ínfimas criaturas encarniçadas, Castigadas ao próprio fastio, Transbordante de si no precipício. Uma a uma seguem em chamas, Atormentadas em seus infernos contraditórios, Anjos demoníacos travestidos de compaixão, Afogando-se no vômito de suas mentiras, Suicidando-se nos paradoxos de uma falsa vida, Túmulos atemporais de tolos. Há um grito em cada canto, Ecoando aos surdos transeuntes, Agitando suas bandeiras desconexas, Buscando abrigo em suas prisões, Repletas de escórias sociais libertinas, Escondidas em suas casas falidas, Enquanto a existência os punem.
198
Brilhante
Beleza radiante encantadora, Eis o teu nome murmúrio em meus lábios, Que tantas vezes tocaram os teus, Sorrindo com os olhos, Tão cintilante tesouro guardado, Ao primeiro encontro notado, Feito estrela de primeira grandeza. O silêncio deste poema declama teu nome, Versos da saudade que a rima do tempo, Ornado de inspiração celeste carnal, Recriou o desejo a nós concebido, Tocando o infinito dos nossos corpos, Interpretando o amor em sutilezas, Inocência perdida da timidez vertente. Ardendo em nossos beijos ávidos, O pensamento grato deleite da memória, Escreveu o livro plácido romance, Cuja pena ímpeto alento, Grafou no coração páginas confessas, Audaciosa Loucura vivida.
232
Resquício
Sim, existo! Meu coração sente o teu calor, Percebendo-te além, Nesta calmaria dos desejos, Suave tentação aprazível abrigo, Grata feminilidade selvagem, Reservada ao íntimo confidente, Laços surreais da afinidade. Tua onipresença beija minha vontade, Penosa saudade que me atina, Aos epílogos transcendente de nós, Eternos afrescos poéticos, Estampados em nossas almas, Enquanto dorme a noite silente. Sim, Existo! Sob o teu olhar que nos recria, A cada memória evocada, Feito a mais bela canção, Sussurrada pelos teus lábios, Poetizando baixinho a grandeza do amor, Desenhada em nossos corpos sedentos, Minúcias esculturais do querer absoluto, A divagar pelo impetuoso infinito, Revérbero instinto que nos pulsa.
246
Poema livre
Um poema tem muitas faces, Espelho de muitos olhos, Quem sabe um olhar surdo, Ou talvez um ouvido mudo, Amigo da boca pensante, Neste embaralhado tempo, Onde a liberdade as vezes corrida, Esquece de ser livre e acenar, Mesmo sabendo que estão ali. Um poema é um poema, O seu criador o sente n'alma, Sabendo que mesmo em silêncio, Ou falta de aplausos voa, Com suas asas invisíveis, Pousando suavemente onde deva ser, Num elogio espontâneo, Longe dos holofotes. O poema não quer ser escravizado, De senhores bastam os críticos, Cheios de si numa sabedoria louca, Muito distante da verdade do poeta, Que num cantinho só seu, Soube revelar o intransponível, Na eternidade dos seu lábios, Cantando na mente os versos, Tão seu, tão nosso e de ninguém. O poema precisa ser descoberto, Deixando de si as impressões, Um carteiro de destino infinito, Sem pressa de chegar, Sabendo que alguém estará lá, Quando for a hora do encontro, Sem paradigmas angustiantes.
294
Consubstanciação
O manto de areia meu último retiro, Causticante estio mira meu destino, Este purgatório onde meus olhos sangram, Expiação do meu espírito maculado, Abraçado ao chão vertiginoso refúgio, Vultuoso caos de altivez entorpecida. Meus sonhos se foram no meio da noite, Revolutearam como pétalas ao vento, Sentenças do perdido amor no temporal, Feito páginas amareladas pelo tempo, Imagem irônica do meu ser em pergaminhos, Poeira imortal da minha plenitude. Rasgaram-se as velas da minha caravela, Findou-se minha aventura humana, Naufraguei antes de aportar no cais, Sufocou-se nas águas sombrias a beleza, Realeza da vida que me animava, Protegida sob a pele complacente, Imenso fim de faces imprevisíveis. Pereceu o juízo oclusa razão, Num tudo repleto de nada, Igual as nuvens que vem e vão, Testemunhando o amor e o ódio, Assumindo formas espaçadas, Tal qual nossas dúbias emoções.
207
Estação
O tempo corre incluso em seus detalhes, Espectável liberdade ao fim do dia, Começo da noite regressa a esperança, Sublime melodia afrontando a morte, Contínuo acercar da grata senilidade. Seixos brutos terrificam a carne, Sulcos latejantes da vida que arde, Feitos folhas da alma etéreo outono, Condimentando a terra nobre leito, Ao último olhar deslumbrado. A árvore volta a ser semente, Pó de estrelas elixir da criação, Escol imortal da existência, Eternizando a humanidade recolhida, A brincar com a brisa leve.
279
Inanidade
O dia desliza por entre as nuvens, O sol vai cortejando a lua, Beijo diáfano de lábios reluzentes, Declamando estrelas invisíveis, Interlúdio perene dos astros, Memorável poesia celeste. Regressa a noite confidente, Desabrochando os sonhos, Bailando cerimoniosa no infinito, Orbe fantástico sobre faces incendidas, Tênue viagem ao decrépito sentir. As paixões cálidas alegóricas, Acenam ao platônico amor, A flertar a fidelidade melancólica, Que enrubescida ao caprichoso afeto, Canta ao vento suas memórias, Lírica melodia de tons aturdidos. As vozes reprimidas silenciosas, Ecoam enigmáticas nas trevas, Lamuriando o volúvel desejo, A gemer em suas voláteis aventuras, Seduzindo a dúbia vontade consentida, Ao lúgubre abraço excitado.
1 081
Despertar
Cessei de viver uma vida postiça, Fadada a tanta melancolia, Revirando os escombros da alma, A caminhar perdido na ilusão, Enlaçado taciturnamente ao caos, Banhado de lágrimas copiosas. Não desejo mais tantos eus, Clones mórbidos promíscuos, Flertando na paranoica escuridão, Aos beijos com a apaixonada solidão, Risonha em seus contrastes, Ao lado do inverso amor, A oferecer suas pobres migalhas. Deixo o túmulo para os mortos, Onde sepulto minha loucura, Este óbito há tanto desejado, Na esperança da felicidade, Feito a tímida alvorada, Que mansamente faz girar o tempo, Feito eu e minha esperança, No grande círculo da vida.
215
Primeiro beijo
Pousei meus lábios nos teus, Meu sensível coração curvou-se, Ao calor embevecido deleite, Tremor suave libido exaltado, A fresca flor beijada. Entreabriu-se o amor solene, Ao gentil encanto da castidade, Obsequioso fascínio instigado, Pleno sorriso do olhar, Inquieto refúgio evidente. De tal inocência o fino véu, Descortinando no céu o luar, Retrato da alma arraigada, Suspirando nos braços de eros, Indelével afeto evocado.