Sofiarocha

Sofiarocha

n. 1980 PT PT

Se os olhos são o espelho da alma, os poemas são o ser a nú. Ficará a saber mais de mim lendo-os do que em meia dúzia de linhas autobiográficas que aqui possa escrever. Obras Publicadas: "Um Poeta nas Trincheiras"; " A Conspiração Das Criaturas".

n. 1980-07-28, Lisboa

Perfil
7 732 Visualizações

Mais ou menos poema de amor

Não sei escrever poemas de amor

 
Ainda que tenha a quem ame de verdade

E não é porque nunca tenha amado

Não é porque não saiba o que é a dor

De perder ou de sair magoado

Não é porque não conheça o vórtice

O buraco negro, a tempestade

Que no peito se agita

Na pele se eletriza

E por todo o corpo se grita

Enquanto todas as lógicas

São amordaçadas por uma vontade


Conheço a magia, a fantasia,

A alegria, a realidade

Experimentei toda uma palete de tons de amor

E ainda que não me sinta pintora

Jamais largarei o desejo de pintar com intensidade

 

Mas escrever…

Não sei escrever poemas de amor

 
Tenho na verdade uma ambição maior

Espero saber amar aqueles a quem amo

Da forma que precisam de ser amados.
Ler poema completo

Poemas

4

TENHO A CERTEZA DE QUE DUVIDO

Eu não duvido que um Deus me acompanha
Eu, que sei dos meus dolorosos momentos de atEia
Eu não duvido da ciência que coloca hipóteses
Somente daquela que advoga certezas
E eu que nunca duvidei de mim
Sempre tenho momentos em que não sei se é bem assim

Eu sempre soube algo mais
Além do que os meus olhos vêm
Mas mesmo eu
- que os quero abertos olhando bem o mundo que me rodeia -
Sei que às vezes é quando os fecho que melhor vejo
E na escuridão vejo acender uma candeia

Eu sempre tive medo das grandes certezas que me toldam o discernimento
Mas vivi certa de muitas coisas até essas convicções se esfumarem com o vento ...
E eu que sempre busquei o conhecimento,
Saber o que não sei
Entender o que não entendo

Ainda assim
Em paradoxo
É esta ausência de algo
Que leva à dúvida de tudo
O permanente ruir e construir de mim
Que me move e que me guia
Feliz assim ...
Em expedição
Numa busca desconhecida
Que me preenche enquanto me esvazia
Todos os dias da minha vida

Sofia Rocha Silva
131

OS MINIMEUS

Tanto se fala do gigante poeta, que nós os poetas da treta 
até esquecemos que não somos grandes...

Porque sonhamos tantos sonhos acordados, 
com frases inteiras que voam em mundos diferentes
que habitam cá dentro da gente
enquanto que o mundo lá fora
se desenrola e devora tudo o que lhe dão a comer
e o fazem engordando com as mesmas imagens de sempre...

Sentimo-nos sequiosos de palavras mágicas
daquelas que viajam directas ao coração
e do toque dos sonhos que se desenrolam enquanto a cabeça vai às nuvens
mas o corpo nos segura aqui firmes no chão.
Sentimo-nos tão pequeninos quando nos apercebemos
que a imensidão daquilo que trazemos cá dentro
nunca poderemos colocar no papel...

E notamos que a morte e a dor vendem mais que o amor
e por isso até parece mal mostrar algo diferente...

Mas confesso que quando a cabeça se perde nas tais nuvens de que vos falei,
ou quando segue em direcção à lua
e num sitio ou no outro se demora e permite que aí sinta a minha alma, desnuda,
aí me vejo grande! Me sinto grande!
Enquanto incho, cresço, me agiganto e aventuro em universos diferentes,
tal como o "(...) João Sem Medo"
que com medo ou não, viveu aventuras surpreendentes...

Sou uma poetisa de pé descalço,
não porque não tenha sapatos mas porque gosto de sentir os pés no chão
e afinal não sou grande e com um metro e sessenta e quatro não chego à lua,
mas já cheguei às nuvens e até já voei!

E também gosto de sair à rua cá em baixo e olhar para cima
e ver que lá no alto há mais quem se arrisque a ir às nuvens, a ir à lua e voar também...

E ao ver o outro crescer e sonhar e viver
e voar o seu voo diferente do meu pois é seu
sinto-me bem, pois sei que nesta terra há gigantes e minimeus
mas a versão desta história quem a escreve sou eu
e o fim dela ainda não encontrei
por isso não sei bem que papel é o meu ...

Quero experimentar um pouco mais antes de decidir olhar para trás
para saber afinal qual foi o papel que andei a desempenhar
e se a minha história para a história de alguém ficar, a razão é simples.
Não é porque fui grande ou pequena...

É porque o meu valor quem mo deu fui eu!


Sofia Rocha Silva
222

A MINHA AMIGA ÁRVORE

Certo dia, estando eu muito angustiada
Enfartada de coisas ruins
Cá dentro acumuladas
Fui ter com uma árvore amiga
Sentei-me e encostei-lhe a cabeça à barriga
E sabendo-a de confiança digna
Abracei-a e confiei-lhe o que sentia

 “Não contas a ninguém”?
Perguntei confiando na resposta.

“Não”.
Respondeu.

Então cá vai.
“Estou triste”.  Confessei eu.
Em júbilo, abanou as folhas e os ramos.
Senti que uma lágrima de seiva lhe escorregava e pelo tronco                                               [abaixo lentamente avançava.
“Por favor. Não fiques tu também triste”
Pedi eu

“OH QUE MARAVILHA!!”
Me respondeu

“Como assim que maravilha?
Não me ouviste?
Estou triste!”

“Sim, eu percebi. E fico muito feliz por ti”

Incrédula, pensei que a pobre enlouquecia
Coitada, de estar ali parada
Pelos humores do clima fustigada
Noite e dia.

 “Sabes, mil anos tenho eu
E se há coisa que aprendi
Sobre vocês humanos
É que a vocês próprios não conhecem
Tudo o que possam sentir
Da dor ao prazer,
Da raiva à tristeza
Da alegria ao êxtase
É para poderem avançar

Cada forma de sentir
É um indicador dos caminhos
Que farão bem em seguir
Na maior parte dos casos
É quando sentem desamparo, revolta
E que não vão a nenhum lado
É quando a coisa fica intensa
E andam tristes e angustiados
É quando se questionam

Falam a nós árvores, aos céus
A todos os que creem seus aliados
Buscando auxílio
Para a mudança que adivinham
E nós cá estamos prontos a ajudar
Na natureza se poderão sempre refugiar      

Assim todos nos procurassem
E das vossas dúvidas se distanciassem
Parando e calando, ruídos de fundo
Que vos vão baralhando
Sem a pretensão
Da perfeição no vosso modo de estar
E que da profunda tristeza soubessem
O melhor de vocês resgatar

Ela é campaínha de alerta
Sempre que algo vai mal no coração
Assim como a física dor vos avisa
Quando algo precisa de atenção.”

Abracei a árvore e agradeci
Levantei-me e pela primeira vez senti
O propósito desta minha tristeza
Mas, malograda dúvida
Antes de partir perguntei

“E será que vou conseguir? Que sabe uma árvore do sentir?
Destes que nos fazem desesperar?”

E disse-me ela - “Minha querida amiga…
Se duvidas, que tens a perder em tentar?”

Ouvi o alerta e decidida
A aceitar a sabedoria da minha amiga
Chorei o que havia a chorar até me cansar
Soltando o que havia para soltar
Aceitei que não sentia a força
Que estava tudo bem em dobrar
Sob o peso do que me estava a assombrar
Abrindo espaço a que outro sentimento

Vontade de Auto-Conhecimento
Viesse meu coração ocupar
270

O SOBREIRO

Sentei-me debaixo de um Sobreiro
E ouvi a sua voz ao vento
Suas folhas e ramos silvavam e resmalhavam
E em conforto me deixei ali ficar
Descaíndo o rabo até me deitar

Fechei os olhos e estiquei os braços
Lá para trás da minha cabeça
Dobrei as pernas e finquei os pés no chão seguro
A terra debaixo deles agradou-me
E movi os pés para a frente e para trás
Brincando assim com a terra da terra mãe

Senti o sotaque alentejano
Nos sons que me chegavam
E nos banhos quentes
Com que as minhas pálpebras cerradas se deleitavam

No chão uma bolota se rebolou
Até chegar junto dos meus dedos
Toquei-a e agarrei nela sem abrir os olhos
E sem me mover
Tomei a resolução de trazê-la comigo
No regresso a casa
Porque o sobreiro sempre foi meu amigo
E a sua semente me acorda a memória
Das coisas boas que passei consigo

Brincando junto de si
Escondendo-me atrás do seu tronco

Que me oferecia abrigo frente a qualquer perigo
Usando a cortiça
Que o sobreiro doou aos homens
Sem qualquer cobiça
Deixa-se despir para doar de si

Sinto o sotaque alentejano
Nas formas do seu tronco, nas rugas
Nos sulcos das texturas
E se houverem sobreiros noutras partes do mundo
Onde quer que estejam, sei que se me sentar junto deles
Também nos vamos entender

Pois nem que seja na China
O sobreiro fala sempre Alentejano !!
265

Comentários (10)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
devoto

Oi Sofia, grande sensibilidade nos teus poemas. Parabéns

sofiarocha

Muito Obrigada Wilson :) É sempre bom ter feedback.

CORASSIS

Olá Sofia Gosto muto do seus versos Parabéns

sofiarocha

Octaviano, que bom que gostou! Para além das descobertas que vamos fazendo sobre nós próprios, não há nada melhor que sentirmos que inspiramos alguém. Obrigada. Cumprimentos.

Octaviano Joba
Octaviano Joba

Inspiradora...