Lista de Poemas

Sobre ser Puta

Não, Rute, não estás desgraçada!
Não há desonra alguma em ser considerada puta, 
Pode uma mulher ser socialmente puta por sua amabilidade não preconceituosa,
Por gostar de vestir-se com pouco pano,
Por dizer o que pensa e ir onde bem entende,
Por sua insaciedade sexual,
Pode, imagine o absurdo, Rita, uma mulher ser considerada puta por ser tão bondosa a ponto de dar-se a muitos, indistintamente;
Sem falar das que por serem inseguras ou exigentes demais passam a vida em busca do relacionamento perfeito, tornando-se vítimas da má fama e do escarninho vulgar;
Há incontáveis e inomináveis putas no mundo.
Umas anônimas, outras famosas,
Umas imbecis, outras geniais,
Umas divertidas, outras enfadonhas,
Abençoadas putas religiosas,
Exemplares putas educadoras, 
Poderosas putas empresárias,
Respeitáveis putas esposas,
Adoráveis putas namoradas,
Ordinárias putas pobres,
Nobilíssimas putas ricas,
Bondosas e malvadas, vítimas e assassinas, leais e desleais, solidárias e egoístas...
Alices, Patrícias, Anas, Sheilas, Jaquelines, Terezas, Aparecidas, Marianas;
Janaínas, Lúcias, Letícias, Adrianas, Vânias, Susanas, Leias, Cátias, Elizabetes, Michelles;
Carlas, Cecílias, Helenas, Sandras, Alessandras, Cristines, Cristianes, Carolines...
Basta prestar a atenção, Rosa!

Tereza Duzai
 
 
293

Inútil Genitor

Como te sentes, velho?
Como é chegar aos 60 e ter fracassado como pai? Como avô? Como exemplo à família com quem ficou?
Tens ido à igreja, falso devoto?
Tens pedido perdão de teus pecados? Cínico!
Ou finges que está tudo bem?
Não está.
Morrerás sem perdão.
Sabes aquela noite quado te ligamos lá do Hospital Maternidade Marieta Konder Bornhausen?
Tinhas uma filha e um neto recém-nascido precisando de tua ajuda.
Tua resposta: "Não vou, estou cansado, vou dormir".
Tua esposa, a porca submissa, esforçou-se para desdenhar de minha filha, lambuzando-se ainda mais na lama desse matrimônio forjado.
Pois bem, no raiar do dia, havia-os perdido para sempre: filha e neto te desprezam.
Não haverá perdão para ti, nem no leito de morte.
Aliás, desejo tua morte desde sempre,
homem feio, insensível e machista.
Criatura supérflua. Não farás falta.
249

Volúpia

Todas nós, mulheres do mundo, somos Virgens Marias,
parimos virgens e continuamos virgens;
todas nós, mulheres do mundo,
temos um José ausente, insuficiente;
todas nós, mulheres do mundo,
queremos um anjo Gabriel que nos visite ao anoitecer;
todas nós, mulheres do mundo,
temos um amante invisível, que nos acende,
nos santifica e nos penetra com sua luz;
todas nós, mulheres do mundo,
somos o nosso próprio milagre, o nosso próprio Deus, o nosso próprio diabo.
Somos mães, irmãs e filhas de nós mesmas.
271

Mudez

Desprezo o silêncio,
mesmo o mais diabólico,
a quem dedico o pior de mim.
Desprezo seus nervos, sua respiração,
deixo-o, porém, que deslize por minha língua,
que desça por minha garganta,
e adormeça em meu peito,
Deixo-o,
este assombroso asilo de morcegos,
apenas para que eu possa cavalgar
e errar,
e errar,
e errar... ...
In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti. Amen.
344

Morrer para livrar-me de Deus

Sim, a morte não é o fim da vida, 
É a extinção de todos os males físicos e psíquicos. 
É o fim de Deus e do Diabo,
O fim das ilusões humanas.
Deus não está morto, pois ele nunca existiu.
287

De Pernas Abertas

Como um tumor outrora revestido por delicada capa brilhante,
Você avança com seus tentáculos vermelhos.
Como você se sente, senhora B.?
Santa Senhora B.
Sempre tão orgulhosa com suas toalhas de prato bordadas,
E uma cidade para defendê-la.
Bonitinha, enfeitadinha,
Anedota de bajuladores.
Esposa, mãe, filha, tia, 
Prostituta conjugal.
Sem rumo em sua própria casa,
Você aguarda a volta de seu potro;
Amordaçada num casamento de aparências,
Privada do privilégio de ser a protagonista de sua própria mentira.
A culpa é sua, Senhora B.
Você é culpada por essa casa, esses móveis, essas cortinas, essas refeições;
Você é culpada por esses vizinhos, essas visitas, o egoísmo de seus filhos.
Você decidiu permanecer,
Permitiu que a adestrassem: ele e os outros.
Primeiro um carro para ele, depois para você – um modelo inferior, um carrinho “de mulher”,
Você é culpada, Senhora B.
Por todas as traições sofridas,
Não se faça de vítima, você as mereceu,
Você as merece. Você é falsa e conivente, Senhora B.
Não o julgue pelos filhos concebidos em leitos alheios;
E não finja tê-lo perdoado, pois você jamais se perdoou,
Sobretudo, não finja amar esses filhos gerados noutros ventres,
Isso pode ser perigoso para eles, e para você, Senhora B.
Saiba: ódio e amor são sentimentos antagônicos.
Essas moças, a quem você chama “vagabundas”, 
São tão vagabundas quanto você, Senhora B.
357

Casto

As leis transparentes de Deus,
as roupas alvas de Deus,
o corpo iluminado de Deus,
a barba e os cabelos brancos de Deus,
os olhos azuis de Deus,
a pele clara de Deus,
o pênis róseo e inútil de Deus.
325

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