Trouxxana

Trouxxana

n. 2005 PT PT

" poeta nascitur, non fit "- o poeta nasce, não se faz. Esta é a ideia que eu defendo com todas as forças; fazer poesia pode ser treinado, mas a genuína essência; a genuína característica mágica que chega a tocar na alma dos leitores, reside no coração do poeta, desde o seu primeiro batimento.

n. 2005-03-26, Setúbal

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Sinto um tsunami léxico em mim:

Sinto um tsunami léxico em mim:
As palavras, expressões e metáforas
Sobrepõem-se e eu, sem âncora,
Afogo-me neste oceano sem fim.

Numa tentativa infrutífera de emergir, 
Deixo-me levar pela forte corrente -
Transponho para o papel, desordenadamente,
Todas as ideias provenientes do seu surgir.

E no momento em que sinto elevação,
E capto os raios solares refratados,
Retorno à penetrante e marítima escuridão.


Para sempre assim eu hei de permanecer:
Aprisionada nas profundezas dos meus intrincados
Pensamentos; na minha maresia de ser


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Poemas

2

Gävlebocken

Não sei se a Terra colapsa, ou se eu sucumbo
À fábula que é acreditar na coexistência
Da minha consciência viciada e deste mundo
- a minha essência não passa de uma besta;
Da personificação mais fiel de uma criatura
Para lá da putrefação, velada pela 
Rigidez dos músculos deste focinho frígido,
Que mascara, em estoicismo, esta mortal loucura.

É loucura, sim - não vejo mais ninguém assim;
É mortal, sim - não paro de sonhar no meu fim. 

O meu coração afunda-se a cada vez mais 
Que eu tento, nesta infinita fossa de perdição
Que é viver, sentir sinais vitais e ver astrais
Premonições que vaticinem o meu destino
E que me façam acreditar na pura ilusão
Pela qual todos os outros humanos querem 
Continuar a viver; continuar neste martírio
Envolto de demónios e espíritos malignos
Que assombram até a epítome da inocência;
Que deturpam até a fonte ancestral de imanência 
Humana - esta infame sacromania profana
Que, de transcendência apenas a decadência. 

Fogo que arde sem se ver é a minha alma,
Desde que imersa neste vórtice terreno
- inflamou-se em infinda incandescência,
E agora, entre cinzas perdidas, a bruma
Encobre o que sobra de mim neste inferno,
Meros vestígios da minha certa inexistência:
Maldições, mentiras, sátiras e blasfémias.

Que o fogo não cesse, antes me consuma,
Queimando eternamente a minha ausência;
Pois viver é ser cinza que se esfuma,
E morrer, oh! A derradeira recompensa.

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Nem por instantes cogitei ser necessário

Nem por instantes cogitei ser necessário
Reencaminhar das cordas vocais aos lábios
A plenitude que na minha alma despoletas,
Visto todo o meu ser te servir a ti, apenas.

Pensei, até, que fosse pelo contrário:
Um superlativado indubitável facto,
Já que dele parto para qualquer ato;
Já que, meramente, ajo a teu apanágio.

Tão indubitável que se torna avassalador
Este sudário interminável de vazio,
Que me cobre quando não estás presente.

Mas, tão sublimemente o meu espírito sente
Cada renascimento que em mim incendeias, de amor...
A minha génese é abraçar cada último suspiro.

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