Poemas
122Cronica do Alto
Um cão que late
Uma mulher que a rua atravessa
Um boi correndo para o abate
Dois amantes emendando conversas
Um empresário temeroso de um assalto,
Tudo da pra ver daqui do alto.
Um cansado no banco da praça
Alimenta pombos e observa o movimento
No cruzamento, o palhaço e sua graça,
Na expectativa de garantir o seu sustento.
O feirante, o bicheiro. O padeiro sovando a massa...
E o gari varrendo o asfalto,
Tudo da pra ver daqui do alto.
Um bebê nascendo corado
E sua mãe o observando a sorrir.
Correndo para a condução, o jovem atrasado
Porque se esqueceu que noite é feita pra dormir.
Um policial na esquina parado,
E uma linda jovem caindo do salto.
Tudo da pra ver daqui do alto.
O médico com seu paciente dialogando
E o pediatra acalmando uma criança
O lavrador após a chuva, o milho plantando
O jovem casal trocando alianças.
Um injusto mandatário governando.
Tudo da pra ver daqui do alto.
Tudo. Tudo mesmo da pra ver daqui do alto.
A Caneta
De sua tinta faz mistério...
E o que escreve parece tão sério
Que não existem dúvidas que minta
Se as palavras que transcreve
São sinceras e latentes
Não pode ferir tanta gente
Que sonha, labuta, se atreve.
Porém, não tem vida própria;
Não pensa, não anda, nem atura
Tampouco compaixão e ternura
Quem lhe manipula textos e torturas
E a faz transmitir covardia
Quem, senão, a mão que a segura!
Mundo Criança
O mundo criança é tão lento...
Nos permite viver pra viver.
O mundo adulto é tão rápido
Que pra viver se permite sofrer.
O mundo criança é límpido,
Inocente, decente, puro!
Ao passo que o adulto, corrompido
Se mostra apático, imaturo!
O mundo criança é sincero.
A verdade começa sorrindo.
O mundo adulto é austero
E a verdade abafa, mentindo!
O mundo criança tem cores
E aprazível se mostra fantástico!
Quanto ao adulto, envolto em dores
Remedia; se sustenta apático.
O mundo criança semeia
Com olhos fixos adiante,
Mas o mundo adulto tateia
E, cego, não colhe o que plantara antes.
O mundo criança quando apanha,
Devia sorrir por tamanha sorte!
Pois o mundo adulto, sem manha,
Nos leva ao ápice: a morte.
É por isso que a previno, minha flor,
Que o mundo que à porta avança,
Será o mundo adulto, de pavor,
Não mais o mundo criança.
Carta Branca
Verás que cada peça, no mundo, nosso cenáculo,
São pedaços separados
Mas que juntos formam o espetáculo!
Pessoas arduamente trabalhando,
No afã de algo produzir
E deixar um legado para que seus sucessores
Possam dele, usufruir.
Pessoas se preocupando com as outras;
Médicos curando doenças
Sacerdotes procurando introduzir
Mesmo que nem acreditem em sua crença.
Pessoas plantando o alimento,
Soldados defendendo sua pátria.
Um músico afinando o instrumento
Para encenar a sua ária.
Homem edificando ou destruindo-se.
Tudo se pode fazer, temos carta branca
Mas não se pode esquecer
Que se colhe tudo que planta.
O Que Pensa a Mente?
Quero suscitar uma dúvida
Quero te fazer pensar, pensar, pensar...
Se ela é: profunda, reveladora ou estúpida!
Quero te fazer buscar a resposta
Que seja correta, que seja convincente!
Quero te fazer do seu íntimo externar:
— O que achas, o que pensas sobre a mente?
Tudo o que se queira fazer,
Como o correr, o dormir, o edificar
Ela comanda, ela retrai ou incita.
Quando usada, para o bem, ensina amar
Quando erra, deixa dúvidas, não se explica.
A resposta que se quer para meditar
Que minha mente tem agido sem razão,
É: Se quando não se pode, nos faz apaixonar,
Por que então ela não comanda o coração?
Chora Maria
Quando o marido sai.
Chora Maria,
quando o marido vem...
chora Maria,
quando a criança chora
pelo leite que não tem!
Chora Maria,
quando a paz lhe falta.
Chora Maria,
pelo seu vintém.
Chora Maria,
pela sua dor
e tudo que lhe convém!
Chora Maria,
chora pela seca
que lhe esturrica as lágrimas...
chora com a alma,
chora com o coração!
Chora Maria,
Pelo filho que lhe beija a face!
Chora Maria,
Pelo gado, pelo cão!
Chora Maria,
Pela fraqueza dos braços,
Pelos calos na mão...
Chora Maria,
Pelo pé que lhe dói agora...
Chora, Maria, CHORA!
Meu Mundo
Meu mundo era indescritível, quando te
vi.
Tinha estrelas, mares, florestas e
vento.
Meu mundo tinha até sincronia com o
tempo.
Meu mundo era enorme, quando te conheci.
Tinha gente, ruas, prédios, arranha-céus
Tinha um rio que nascia no meio da
montanha.
Meu mundo tinha esperança tamanha.
Meu mundo era grande, quando te vi sob o
véu.
Era um quarteirão. Tinha campo. Tinha
savana.
Meu mundo tinha um riacho
Tinha casa; um fogão, com um fogo
laracho.
Meu mundo era tal, quando te vi nua,
insana.
Meu mundo tinha paredes, tinha janelas.
Tinha vidraças. Meu mundo não era lama.
Tinha piso, tapetes. No fogão, panelas.
Quando te senti, meu mundo era uma cama.
Tinha uma camisa, uma calça, com cinta
sem fivela.
Quando acordei, meu mundo não tinha mais
um rio.
Ele tinha uma cor fria, um cheiro ocre,
todo calado.
Meu mundo tinha meu tamanho. Meio
apertado e frio
Quando te perdi, meu mundo tinha tampa e
alças dos lados.
Quando tudo se acaba...
Pouca luz.
Valdir
Gomes
Poucas falas.
Nenhum abraço.
Nenhum carinho.
Frio.
Muito frio.
Sem conforto,
sem vida.
Eu sozinho.
Você lá...
Eu aqui...
Eu choro.
Você sorri.
Eu falo,
você levanta.
Eu fumo,
você embriaga...
Nem volta dormir.
Você sai.
Nada diz.
Durmo só.
Nem sonho.
Você chega,
eu me levanto.
Dois estranhos
em desencanto.
Ontem juntos,
hoje distantes...
Um amando,
outro sofrendo
Saio à rua.
A brisa me acalenta.
Difícil é voltar,
me ver ali,
depois chorar
e você sorrir.
Acreditar
Tenho fé,
No que faço,
Mas não acredito
No que penso.
Se acredito,
No que faço,
Penso que
não tenho fé
Se no que penso,
Tenho fé e acredito,
No que faço
Faço nada.
Se penso que
Tenho fé.
No que faço
Eu acredito.
Mas, se faço nada
E tenho fé.
No que penso,
Não acredito.
Não acredito
Que tenho fé...
Se no que penso,
Não faço.
Não tenho fé.
Não acredito.
Não faço nada.
Não penso.
O Poeta
O poeta não deveria existir.
O mundo não o compreende;
As pessoas não lhe dão esperança.
Mas suas palavras as levam a refletir...
O que o poeta fala,
não deveria ser levado em conta.
Dependendo do instante, seu grito é
contido.
Às vezes a verdade é retida e ele se
cala.
Quem entende o poeta,
Tem a vida desarraigada!
Sente com os olhos; vê, com o coração.
Vive um mundo de aresta.
Só quem vive, entende o poeta!
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