Poemas
122Mundo Criança
O mundo criança é tão lento...
Nos permite viver pra viver.
O mundo adulto é tão rápido
Que pra viver se permite sofrer.
O mundo criança é límpido,
Inocente, decente, puro!
Ao passo que o adulto, corrompido
Se mostra apático, imaturo!
O mundo criança é sincero.
A verdade começa sorrindo.
O mundo adulto é austero
E a verdade abafa, mentindo!
O mundo criança tem cores
E aprazível se mostra fantástico!
Quanto ao adulto, envolto em dores
Remedia; se sustenta apático.
O mundo criança semeia
Com olhos fixos adiante,
Mas o mundo adulto tateia
E, cego, não colhe o que plantara antes.
O mundo criança quando apanha,
Devia sorrir por tamanha sorte!
Pois o mundo adulto, sem manha,
Nos leva ao ápice: a morte.
É por isso que a previno, minha flor,
Que o mundo que à porta avança,
Será o mundo adulto, de pavor,
Não mais o mundo criança.
Todos somos Cúmplices
Todos somos cúmplices
De um crime hediondo
Somos herdeiros de uma dor
Que de longe é incurável.
Um crime que fechamos os olhos,
Que calamos ao invés de falar,
Que desvencilhamos ao invés de nosenvolver
Que faz a dor ser inquebrantável!
Somos parceiros da mediocridade
Andamos lada a lado com o repulsivo
Alimentamos na boca, o imoral
E dizemos não, ao que é perdoável!
Se parássemos pra pensar,
Ou se pensássemos em parar...
E ouvir o que o silêncio nos diz
No seu ponto de vista tão louvável,
Daríamos valor ao próximo
Não seríamos condenados pelo descaso
E tudo ao nosso redor teria mais valor
Se nos tornássemos, cada um, maisamável.
Quando tudo se acaba...
Pouca luz. ValdirGomes
Poucas falas.
Nenhum abraço.
Nenhum carinho.
Frio.
Muito frio.
Sem conforto,
sem vida.
Eu sozinho.
Você lá...
Eu aqui...
Eu choro.
Você sorri.
Eu falo,
você levanta.
Eu fumo,
você embriaga...
Nem volta dormir.
Você sai.
Nada diz.
Durmo só.
Nem sonho.
Você chega,
eu me levanto.
Dois estranhos
em desencanto.
Ontem juntos,
hoje distantes...
Um amando,
outro sofrendo
Saio à rua.
A brisa me acalenta.
Difícil é voltar,
me ver ali,
depois chorar
e você sorrir.
O Que é o Feio ?
Se o que questiono tem fundamento
E, num lapso de memória, por um momento
Coisas estranhas vou me perguntando:
- Por que o que é bonito é desejado,
E por que o desejo procura forma?
Se pra amar não se tem uma norma,
Mas o diferente é desprezado?
Fico assim pensando...
Sem nada entender e a mente perturbada
Se a coisa só é diferente quando com outra comparada(...)
Mas nada se compara, quando se está amando
O bonito e o feio são pontos de vista numa estrada
E enquanto caminho, vou vivendo e questionando...
O Poeta
O poeta não deveria existir.
O mundo não o compreende;
As pessoas não lhe dão esperança.
Mas suas palavras as levam a refletir...
O que o poeta fala,
não deveria ser levado em conta.
Dependendo do instante, seu grito écontido.
Às vezes a verdade é retida e ele secala.
Quem entende o poeta,
Tem a vida desarraigada!
Sente com os olhos; vê, com o coração.
Vive um mundo de aresta.
Só quem vive, entende o poeta!
Toda Saudade
Uma noite inteira, acordado
Planejando o dia vindouro
Visando sonhos sonhados
Sonhos de prata e de ouro
Casar-se, ter filho, ter casa,
Numa ordem inversa talvez.
Te amar, desejar, atiçar a brasa
E depois calar-se, provocar altivez.
Saudades desse tempo, que se viajava,
Flutuando, navegando, correndo
Atrás de certo sonho que não alcançava
E que quando tocava, vivia sofrendo
Ficava ansioso, perdia-se no tempo
Desconhecia a hora, desligava-se de tudo
Entre desejos e sonhos ao vento
Gritar, falar, murmurar, ficar mudo.
Eis que tudo se resume
Em lembranças de um tempo de vaidade...
Que talvez não mais se repita
Ficando uma saudade, duas saudades; todasaudade!
Sob o Lençol
O poeta, sob o lençol,
só quer saber de lua;
nada de sol.
Só a companhia tua.
O poeta, sob o lençol,
não quer dormir...
Quer viajar sob o teu céu...
e que seu mar venha fluir.
O poeta, sob o lençol,
quer sentir seu calor,
apreciar o arrebol,
da manhã do teu amor.
O poeta, sob o lençol,
Fica calado.
Mas quer cantar feito rouxinol
em seus braços, entrelaçado.
O poeta, sob o lençol,
só quer dormir, se for vencido.
O poeta, sob o lençol,
poetisa e sonha. Não faz gemido.
Vivia Só
Era feliz
Vivia só.
Tinha paz
E de mim, dó.
Não sonhava,
Falava pouco.
Emudecido,
Ficava louco
Sozinho,
Comia muito,
Bebia vinho
Gratuito.
Sedentário,
Só assistia
Tudo voar
Em agonia.
Eis que surgiu
A mim dizendo
Coisas mil
E convencendo
Então lancei
A minha sorte
E me joguei
Aos pés da morte.
Pois feliz
Vivia só.
Troquei a paz
E tornei-me pó.
O Que Pensa a Mente?
Quero suscitar uma dúvida
Quero te fazer pensar, pensar, pensar...
Se ela é: profunda, reveladora ou estúpida!
Quero te fazer buscar a resposta
Que seja correta, que seja convincente!
Quero te fazer do seu íntimo externar:
— O que achas, o que pensas sobre a mente?
Tudo o que se queira fazer,
Como o correr, o dormir, o edificar
Ela comanda, ela retrai ou incita.
Quando usada, para o bem, ensina amar
Quando erra, deixa dúvidas, não se explica.
A resposta que se quer para meditar
Que minha mente tem agido sem razão,
É: Se quando não se pode, nos faz apaixonar,
Por que então ela não comanda o coração?
Cronica do Alto
Um cão que late
Uma mulher que a rua atravessa
Um boi correndo para o abate
Dois amantes emendando conversas
Um empresário temeroso de um assalto,
Tudo da pra ver daqui do alto.
Um cansado no banco da praça
Alimenta pombos e observa o movimento
No cruzamento, o palhaço e sua graça,
Na expectativa de garantir o seu sustento.
O feirante, o bicheiro. O padeiro sovando a massa...
E o gari varrendo o asfalto,
Tudo da pra ver daqui do alto.
Um bebê nascendo corado
E sua mãe o observando a sorrir.
Correndo para a condução, o jovem atrasado
Porque se esqueceu que noite é feita pra dormir.
Um policial na esquina parado,
E uma linda jovem caindo do salto.
Tudo da pra ver daqui do alto.
O médico com seu paciente dialogando
E o pediatra acalmando uma criança
O lavrador após a chuva, o milho plantando
O jovem casal trocando alianças.
Um injusto mandatário governando.
Tudo da pra ver daqui do alto.
Tudo. Tudo mesmo da pra ver daqui do alto.
Comentários (0)
Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.