Lista de Poemas

O Poeta

O poeta não deveria existir.

O mundo não o compreende;

As pessoas não lhe dão esperança.

Mas suas palavras as levam a refletir...

 

O que o poeta fala,

não deveria ser levado em conta.

Dependendo do instante, seu grito é contido.

Às vezes a verdade é retida e ele se cala.

 

Quem entende o poeta,

Tem a vida desarraigada!

Sente com os olhos; vê, com o coração.

Vive um mundo de aresta.

 

Só quem vive, entende o poeta!

466

O Que é o Feio ?

Às vezes fico pensando 
Se o que questiono tem fundamento 
E, num lapso de memória, por um momento 
Coisas estranhas vou me perguntando: 

- Por que o que é bonito é desejado, 
E por que o desejo procura forma? 
Se pra amar não se tem uma norma, 
Mas o diferente é desprezado? 

Fico assim pensando... 
Sem nada entender e a mente perturbada 
Se a coisa só é diferente quando com outra comparada(...) 

Mas nada se compara, quando se está amando 
O bonito e o feio são pontos de vista numa estrada 
E enquanto caminho, vou vivendo e questionando... 
512

Carta Branca

Se observares ao seu lado, 
Verás que cada peça, no mundo, nosso cenáculo, 
São pedaços separados 
Mas que juntos formam o espetáculo! 

Pessoas arduamente trabalhando, 
No afã de algo produzir 
E deixar um legado para que seus sucessores 
Possam dele, usufruir. 

Pessoas se preocupando com as outras; 
Médicos curando doenças 
Sacerdotes procurando introduzir 
Mesmo que nem acreditem em sua crença. 

Pessoas plantando o alimento, 
Soldados defendendo sua pátria. 
Um músico afinando o instrumento 
Para encenar a sua ária. 

Homem edificando ou destruindo-se. 
Tudo se pode fazer, temos carta branca 
Mas não se pode esquecer 
Que se colhe tudo que planta. 
574

Vivia Só

Era feliz

Vivia só.

Tinha paz

E de mim, dó.

 

Não sonhava,

Falava pouco.

Emudecido,

Ficava louco

 

Sozinho,

Comia muito,

Bebia vinho

Gratuito.

 

Sedentário,

Só assistia

Tudo voar

Em agonia.

 

Eis que surgiu

A mim dizendo

Coisas mil

E convencendo

 

Então lancei

A minha sorte

E me joguei

Aos pés da morte.

 

Pois feliz

Vivia só.

Troquei a paz

E tornei-me pó.

430

Quando tudo se acaba...

Pouca luz.                                                                               Valdir Gomes

Poucas falas.

Nenhum abraço.

Nenhum carinho.

 

Frio.

Muito frio.

Sem conforto,

sem vida.

Eu sozinho.

 

Você lá...

Eu aqui...

Eu choro.

Você sorri.

 

Eu falo,

você levanta.

Eu fumo,

você embriaga...

Nem volta dormir.

 

Você sai.

Nada diz.

Durmo só.

Nem sonho.

 

Você chega,

eu me levanto.

Dois estranhos

em desencanto.

Ontem juntos,

hoje distantes...

 

Um amando,

outro sofrendo

 

Saio à rua.

A brisa me acalenta.

Difícil é voltar,

me ver ali,

depois chorar

e você sorrir.

493

Chora Maria

Chora Maria, 
Quando o marido sai. 
Chora Maria, 
quando o marido vem... 
chora Maria, 
quando a criança chora 
pelo leite que não tem! 
Chora Maria, 
quando a paz lhe falta. 
Chora Maria, 
pelo seu vintém. 
Chora Maria, 
pela sua dor 
e tudo que lhe convém! 
Chora Maria, 
chora pela seca 
que lhe esturrica as lágrimas... 
chora com a alma, 
chora com o coração! 
Chora Maria, 
Pelo filho que lhe beija a face! 
Chora Maria, 
Pelo gado, pelo cão! 
Chora Maria, 
Pela fraqueza dos braços, 
Pelos calos na mão... 
Chora Maria, 
Pelo pé que lhe dói agora... 

Chora, Maria, CHORA!
507

Acreditar

Tenho fé,

No que faço,

Mas não acredito

No que penso.

 

Se acredito,

No que faço,

Penso que

não tenho fé

 

Se no que penso,

Tenho fé e acredito,

No que faço

Faço nada.

 

Se penso que

Tenho fé.

No que faço

Eu acredito.

 

Mas, se faço nada

E tenho fé.

No que penso,

Não acredito.

 

Não acredito

Que tenho fé...

Se no que penso,

Não faço.

 

Não tenho fé.

Não acredito.

Não faço nada.

Não penso.

525

Sem Tema

Fiquei pensando em compor um soneto 
Singelo, forte e que me fizesse renascer 
Ah, um soneto? Pode sim, fazer reviver, 
quem lhe cante ou declame sem medo. 

Um soneto... que tema escolher? 
Que fale de amor, traição, felicidade imerecida? 
Não vem-me à mente um tema sequer. 
Talvez precise tomar um drinque, uma bebida... 

Me lembro que isto me perturba a mente. 
Faz renascer cicatriz já tão esquecida... 
Um livro ou uma notícia que se torne semente 

E que possa me inspirar um tema, 
mas nada me atiça a escrever livremente. 
Decido escolher: vou ler um poema. 
484

A Caneta

Da sua ponta escorre a tinta. 
De sua tinta faz mistério... 
E o que escreve parece tão sério 
Que não existem dúvidas que minta 

Se as palavras que transcreve 
São sinceras e latentes 
Não pode ferir tanta gente 
Que sonha, labuta, se atreve. 

Porém, não tem vida própria; 
Não pensa, não anda, nem atura 
Tampouco compaixão e ternura 

Quem lhe manipula textos e torturas 
E a faz transmitir covardia 
Quem, senão, a mão que a segura! 
440

Sob o Lençol

O poeta, sob o lençol,

só quer saber de lua;

nada de sol.

Só a companhia tua.

 

O poeta, sob o lençol,

não quer dormir...

Quer viajar sob o teu céu...

e que seu mar venha fluir.

 

O poeta, sob o lençol,

quer sentir seu calor,

apreciar o arrebol,

da manhã do teu amor.

 

O poeta, sob o lençol,

Fica calado.

Mas quer cantar feito rouxinol

em seus braços, entrelaçado.

 

O poeta, sob o lençol,

só quer dormir, se for vencido.

O poeta, sob o lençol,

poetisa e sonha. Não faz gemido.

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