Valdir Gomes

Valdir Gomes

Escritor brasileiro Contista Cronista Poeta Romancista Novelista

n. 0000-00-00, Curitiba

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Velhice II

A distância é a mesma,
Mas nossas forças que minaram!
As cores são as mesmas,
Mas nossos olhos embaçaram...
O sol continua lá,
As estrelas continuam lá
As asas da imaginação ainda voam,
Mas já não tem pernas para pousar.

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Poemas

122

Acreditar

Tenho fé,

No que faço,

Mas não acredito

No que penso.

 

Se acredito,

No que faço,

Penso que

não tenho fé

 

Se no que penso,

Tenho fé e acredito,

No que faço

Faço nada.

 

Se penso que

Tenho fé.

No que faço

Eu acredito.

 

Mas, se faço nada

E tenho fé.

No que penso,

Não acredito.

 

Não acredito

Que tenho fé...

Se no que penso,

Não faço.

 

Não tenho fé.

Não acredito.

Não faço nada.

Não penso.

535

Mundo Criança

O mundo criança é tão lento...

Nos permite viver pra viver.

O mundo adulto é tão rápido

Que pra viver se permite sofrer.

 

O mundo criança é límpido,

Inocente, decente, puro!

Ao passo que o adulto, corrompido

Se mostra apático, imaturo!

 

O mundo criança é sincero.

A verdade começa sorrindo.

O mundo adulto é austero

E a verdade abafa, mentindo!

 

O mundo criança tem cores

E aprazível se mostra fantástico!

Quanto ao adulto, envolto em dores

Remedia; se sustenta apático.

 

O mundo criança semeia

Com olhos fixos adiante,

Mas o mundo adulto tateia

E, cego, não colhe o que plantara antes.

 

O mundo criança quando apanha,

Devia sorrir por tamanha sorte!

Pois o mundo adulto, sem manha,

Nos leva ao ápice: a morte.

 

É por isso que a previno, minha flor,

Que o mundo que à porta avança,

Será o mundo adulto, de pavor,

Não mais o mundo criança.

475

Meu Mundo

Meu mundo era indescritível, quando tevi.

Tinha estrelas, mares, florestas evento.

Meu mundo tinha até sincronia com otempo.

Meu mundo era enorme, quando te conheci.

 

Tinha gente, ruas, prédios, arranha-céus

Tinha um rio que nascia no meio damontanha.

Meu mundo tinha esperança tamanha.

Meu mundo era grande, quando te vi sob ovéu.

 

Era um quarteirão. Tinha campo. Tinhasavana.

Meu mundo tinha um riacho

Tinha casa; um fogão, com um fogolaracho.

Meu mundo era tal, quando te vi nua,insana.

 

Meu mundo tinha paredes, tinha janelas.

Tinha vidraças. Meu mundo não era lama.

Tinha piso, tapetes. No fogão, panelas.

 

Quando te senti, meu mundo era uma cama.

Tinha uma camisa, uma calça, com cintasem fivela.

Quando acordei, meu mundo não tinha maisum rio.

 

Ele tinha uma cor fria, um cheiro ocre,todo calado.

Meu mundo tinha meu tamanho. Meioapertado e frio

Quando te perdi, meu mundo tinha tampa ealças dos lados.

479

A Caneta

Da sua ponta escorre a tinta. 
De sua tinta faz mistério... 
E o que escreve parece tão sério 
Que não existem dúvidas que minta 

Se as palavras que transcreve 
São sinceras e latentes 
Não pode ferir tanta gente 
Que sonha, labuta, se atreve. 

Porém, não tem vida própria; 
Não pensa, não anda, nem atura 
Tampouco compaixão e ternura 

Quem lhe manipula textos e torturas 
E a faz transmitir covardia 
Quem, senão, a mão que a segura! 
453

O Que Pensa a Mente?

Quero te fazer uma pergunta 
Quero suscitar uma dúvida 
Quero te fazer pensar, pensar, pensar... 
Se ela é: profunda, reveladora ou estúpida! 

Quero te fazer buscar a resposta 
Que seja correta, que seja convincente! 
Quero te fazer do seu íntimo externar: 
— O que achas, o que pensas sobre a mente? 

Tudo o que se queira fazer, 
Como o correr, o dormir, o edificar 
Ela comanda, ela retrai ou incita. 

Quando usada, para o bem, ensina amar 
Quando erra, deixa dúvidas, não se explica. 
A resposta que se quer para meditar 

Que minha mente tem agido sem razão, 
É: Se quando não se pode, nos faz apaixonar, 
Por que então ela não comanda o coração?
556

Chora Maria

Chora Maria, 
Quando o marido sai. 
Chora Maria, 
quando o marido vem... 
chora Maria, 
quando a criança chora 
pelo leite que não tem! 
Chora Maria, 
quando a paz lhe falta. 
Chora Maria, 
pelo seu vintém. 
Chora Maria, 
pela sua dor 
e tudo que lhe convém! 
Chora Maria, 
chora pela seca 
que lhe esturrica as lágrimas... 
chora com a alma, 
chora com o coração! 
Chora Maria, 
Pelo filho que lhe beija a face! 
Chora Maria, 
Pelo gado, pelo cão! 
Chora Maria, 
Pela fraqueza dos braços, 
Pelos calos na mão... 
Chora Maria, 
Pelo pé que lhe dói agora... 

Chora, Maria, CHORA!
520

O Que é o Feio ?

Às vezes fico pensando 
Se o que questiono tem fundamento 
E, num lapso de memória, por um momento 
Coisas estranhas vou me perguntando: 

- Por que o que é bonito é desejado, 
E por que o desejo procura forma? 
Se pra amar não se tem uma norma, 
Mas o diferente é desprezado? 

Fico assim pensando... 
Sem nada entender e a mente perturbada 
Se a coisa só é diferente quando com outra comparada(...) 

Mas nada se compara, quando se está amando 
O bonito e o feio são pontos de vista numa estrada 
E enquanto caminho, vou vivendo e questionando... 
523

Sob o Lençol

O poeta, sob o lençol,

só quer saber de lua;

nada de sol.

Só a companhia tua.

 

O poeta, sob o lençol,

não quer dormir...

Quer viajar sob o teu céu...

e que seu mar venha fluir.

 

O poeta, sob o lençol,

quer sentir seu calor,

apreciar o arrebol,

da manhã do teu amor.

 

O poeta, sob o lençol,

Fica calado.

Mas quer cantar feito rouxinol

em seus braços, entrelaçado.

 

O poeta, sob o lençol,

só quer dormir, se for vencido.

O poeta, sob o lençol,

poetisa e sonha. Não faz gemido.

455

Carta Branca

Se observares ao seu lado, 
Verás que cada peça, no mundo, nosso cenáculo, 
São pedaços separados 
Mas que juntos formam o espetáculo! 

Pessoas arduamente trabalhando, 
No afã de algo produzir 
E deixar um legado para que seus sucessores 
Possam dele, usufruir. 

Pessoas se preocupando com as outras; 
Médicos curando doenças 
Sacerdotes procurando introduzir 
Mesmo que nem acreditem em sua crença. 

Pessoas plantando o alimento, 
Soldados defendendo sua pátria. 
Um músico afinando o instrumento 
Para encenar a sua ária. 

Homem edificando ou destruindo-se. 
Tudo se pode fazer, temos carta branca 
Mas não se pode esquecer 
Que se colhe tudo que planta. 
585

Todos somos Cúmplices

Todos somos cúmplices

De um crime hediondo

Somos herdeiros de uma dor

Que de longe é incurável.

 

Um crime que fechamos os olhos,

Que calamos ao invés de falar,

Que desvencilhamos ao invés de nosenvolver

Que faz a dor ser inquebrantável!

 

Somos parceiros da mediocridade

Andamos lada a lado com o repulsivo

Alimentamos na boca, o imoral

E dizemos não, ao que é perdoável!

 

Se parássemos pra pensar,

Ou se pensássemos em parar...

E ouvir o que o silêncio nos diz

No seu ponto de vista tão louvável,

 

Daríamos valor ao próximo

Não seríamos condenados pelo descaso

E tudo ao nosso redor teria mais valor

Se nos tornássemos, cada um, maisamável.

556

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