Valdir Gomes

Valdir Gomes

Escritor brasileiro Contista Cronista Poeta Romancista Novelista

n. 0000-00-00, Curitiba

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Velhice II

A distância é a mesma,
Mas nossas forças que minaram!
As cores são as mesmas,
Mas nossos olhos embaçaram...
O sol continua lá,
As estrelas continuam lá
As asas da imaginação ainda voam,
Mas já não tem pernas para pousar.

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Poemas

122

Cronica do Alto

Uma criança que corre 
Um cão que late 
Uma mulher que a rua atravessa 
Um boi correndo para o abate 
Dois amantes emendando conversas 
Um empresário temeroso de um assalto, 
Tudo da pra ver daqui do alto. 

Um cansado no banco da praça 
Alimenta pombos e observa o movimento 
No cruzamento, o palhaço e sua graça, 
Na expectativa de garantir o seu sustento. 
O feirante, o bicheiro. O padeiro sovando a massa... 
E o gari varrendo o asfalto, 
Tudo da pra ver daqui do alto. 

Um bebê nascendo corado 
E sua mãe o observando a sorrir. 
Correndo para a condução, o jovem atrasado 
Porque se esqueceu que noite é feita pra dormir. 
Um policial na esquina parado, 
E uma linda jovem caindo do salto. 
Tudo da pra ver daqui do alto. 

O médico com seu paciente dialogando 
E o pediatra acalmando uma criança 
O lavrador após a chuva, o milho plantando 
O jovem casal trocando alianças. 
Um injusto mandatário governando. 
Tudo da pra ver daqui do alto. 
Tudo. Tudo mesmo da pra ver daqui do alto.
494

A Caneta

Da sua ponta escorre a tinta. 
De sua tinta faz mistério... 
E o que escreve parece tão sério 
Que não existem dúvidas que minta 

Se as palavras que transcreve 
São sinceras e latentes 
Não pode ferir tanta gente 
Que sonha, labuta, se atreve. 

Porém, não tem vida própria; 
Não pensa, não anda, nem atura 
Tampouco compaixão e ternura 

Quem lhe manipula textos e torturas 
E a faz transmitir covardia 
Quem, senão, a mão que a segura! 
451

Mundo Criança

O mundo criança é tão lento...

Nos permite viver pra viver.

O mundo adulto é tão rápido

Que pra viver se permite sofrer.

 

O mundo criança é límpido,

Inocente, decente, puro!

Ao passo que o adulto, corrompido

Se mostra apático, imaturo!

 

O mundo criança é sincero.

A verdade começa sorrindo.

O mundo adulto é austero

E a verdade abafa, mentindo!

 

O mundo criança tem cores

E aprazível se mostra fantástico!

Quanto ao adulto, envolto em dores

Remedia; se sustenta apático.

 

O mundo criança semeia

Com olhos fixos adiante,

Mas o mundo adulto tateia

E, cego, não colhe o que plantara antes.

 

O mundo criança quando apanha,

Devia sorrir por tamanha sorte!

Pois o mundo adulto, sem manha,

Nos leva ao ápice: a morte.

 

É por isso que a previno, minha flor,

Que o mundo que à porta avança,

Será o mundo adulto, de pavor,

Não mais o mundo criança.

474

Carta Branca

Se observares ao seu lado, 
Verás que cada peça, no mundo, nosso cenáculo, 
São pedaços separados 
Mas que juntos formam o espetáculo! 

Pessoas arduamente trabalhando, 
No afã de algo produzir 
E deixar um legado para que seus sucessores 
Possam dele, usufruir. 

Pessoas se preocupando com as outras; 
Médicos curando doenças 
Sacerdotes procurando introduzir 
Mesmo que nem acreditem em sua crença. 

Pessoas plantando o alimento, 
Soldados defendendo sua pátria. 
Um músico afinando o instrumento 
Para encenar a sua ária. 

Homem edificando ou destruindo-se. 
Tudo se pode fazer, temos carta branca 
Mas não se pode esquecer 
Que se colhe tudo que planta. 
583

O Que Pensa a Mente?

Quero te fazer uma pergunta 
Quero suscitar uma dúvida 
Quero te fazer pensar, pensar, pensar... 
Se ela é: profunda, reveladora ou estúpida! 

Quero te fazer buscar a resposta 
Que seja correta, que seja convincente! 
Quero te fazer do seu íntimo externar: 
— O que achas, o que pensas sobre a mente? 

Tudo o que se queira fazer, 
Como o correr, o dormir, o edificar 
Ela comanda, ela retrai ou incita. 

Quando usada, para o bem, ensina amar 
Quando erra, deixa dúvidas, não se explica. 
A resposta que se quer para meditar 

Que minha mente tem agido sem razão, 
É: Se quando não se pode, nos faz apaixonar, 
Por que então ela não comanda o coração?
555

Chora Maria

Chora Maria, 
Quando o marido sai. 
Chora Maria, 
quando o marido vem... 
chora Maria, 
quando a criança chora 
pelo leite que não tem! 
Chora Maria, 
quando a paz lhe falta. 
Chora Maria, 
pelo seu vintém. 
Chora Maria, 
pela sua dor 
e tudo que lhe convém! 
Chora Maria, 
chora pela seca 
que lhe esturrica as lágrimas... 
chora com a alma, 
chora com o coração! 
Chora Maria, 
Pelo filho que lhe beija a face! 
Chora Maria, 
Pelo gado, pelo cão! 
Chora Maria, 
Pela fraqueza dos braços, 
Pelos calos na mão... 
Chora Maria, 
Pelo pé que lhe dói agora... 

Chora, Maria, CHORA!
518

Meu Mundo

Meu mundo era indescritível, quando te vi.

Tinha estrelas, mares, florestas e vento.

Meu mundo tinha até sincronia com o tempo.

Meu mundo era enorme, quando te conheci.

 

Tinha gente, ruas, prédios, arranha-céus

Tinha um rio que nascia no meio da montanha.

Meu mundo tinha esperança tamanha.

Meu mundo era grande, quando te vi sob o véu.

 

Era um quarteirão. Tinha campo. Tinha savana.

Meu mundo tinha um riacho

Tinha casa; um fogão, com um fogo laracho.

Meu mundo era tal, quando te vi nua, insana.

 

Meu mundo tinha paredes, tinha janelas.

Tinha vidraças. Meu mundo não era lama.

Tinha piso, tapetes. No fogão, panelas.

 

Quando te senti, meu mundo era uma cama.

Tinha uma camisa, uma calça, com cinta sem fivela.

Quando acordei, meu mundo não tinha mais um rio.

 

Ele tinha uma cor fria, um cheiro ocre, todo calado.

Meu mundo tinha meu tamanho. Meio apertado e frio

Quando te perdi, meu mundo tinha tampa e alças dos lados.

478

Quando tudo se acaba...

Pouca luz.                                                                               Valdir Gomes

Poucas falas.

Nenhum abraço.

Nenhum carinho.

 

Frio.

Muito frio.

Sem conforto,

sem vida.

Eu sozinho.

 

Você lá...

Eu aqui...

Eu choro.

Você sorri.

 

Eu falo,

você levanta.

Eu fumo,

você embriaga...

Nem volta dormir.

 

Você sai.

Nada diz.

Durmo só.

Nem sonho.

 

Você chega,

eu me levanto.

Dois estranhos

em desencanto.

Ontem juntos,

hoje distantes...

 

Um amando,

outro sofrendo

 

Saio à rua.

A brisa me acalenta.

Difícil é voltar,

me ver ali,

depois chorar

e você sorrir.

503

Acreditar

Tenho fé,

No que faço,

Mas não acredito

No que penso.

 

Se acredito,

No que faço,

Penso que

não tenho fé

 

Se no que penso,

Tenho fé e acredito,

No que faço

Faço nada.

 

Se penso que

Tenho fé.

No que faço

Eu acredito.

 

Mas, se faço nada

E tenho fé.

No que penso,

Não acredito.

 

Não acredito

Que tenho fé...

Se no que penso,

Não faço.

 

Não tenho fé.

Não acredito.

Não faço nada.

Não penso.

533

O Poeta

O poeta não deveria existir.

O mundo não o compreende;

As pessoas não lhe dão esperança.

Mas suas palavras as levam a refletir...

 

O que o poeta fala,

não deveria ser levado em conta.

Dependendo do instante, seu grito é contido.

Às vezes a verdade é retida e ele se cala.

 

Quem entende o poeta,

Tem a vida desarraigada!

Sente com os olhos; vê, com o coração.

Vive um mundo de aresta.

 

Só quem vive, entende o poeta!

475

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