Tenho fé, No que faço, Mas não acredito No que penso.
Se acredito, No que faço, Penso que não tenho fé
Se no que penso, Tenho fé e acredito, No que faço Faço nada.
Se penso que Tenho fé. No que faço Eu acredito.
Mas, se faço nada E tenho fé. No que penso, Não acredito.
Não acredito Que tenho fé... Se no que penso, Não faço.
Não tenho fé. Não acredito. Não faço nada. Não penso.
318
Meu mundo
Meu mundo era indescritível, quando te vi. Tinha estrelas, mares, florestas e vento. Meu mundo tinha até sincronia com o tempo. Meu mundo era enorme, quando te conheci.
Tinha gente, ruas, prédios, arranha-céus Tinha um rio que nascia no meio da montanha. Meu mundo tinha esperança tamanha. Meu mundo era grande, quando te vi sob o véu.
Era um quarteirão. Tinha campo. Tinha savana. Meu mundo tinha um riacho Tinha casa; um fogão, com um fogo laracho. Meu mundo era tal, quando te vi nua, insana.
Meu mundo tinha paredes, tinha janelas. Tinha vidraças. Meu mundo não era lama. Tinha piso, tapetes. No fogão, panelas.
Quando te senti, meu mundo era uma cama. Tinha uma camisa, uma calça, com cinta sem fivela. Quando acordei, meu mundo não tinha mais um rio.
Ele tinha uma cor fria, um cheiro ocre, todo calado. Meu mundo tinha meu tamanho. Meio apertado e frio Quando te perdi, meu mundo tinha tampa e alças dos lados.
258
O poeta
O poeta não deveria existir. O mundo não o compreende; As pessoas não lhe dão esperança. Mas suas palavras as levam a refletir...
O que o poeta fala, não deveria ser levado em conta. Dependendo do instante, seu grito é contido. Às vezes a verdade é retida e ele se cala.
Quem entende o poeta, Tem a vida desarraigada! Sente com os olhos; vê, com o coração. Vive um mundo de aresta.
Só quem vive, entende o poeta!
253
A estrada
A estrada é longa. Ando nela Deito nela Choro nela Canto nela Nasço nela.
A estrada é larga. Ando nela Deito nela Choro nela Canto nela Cresço nela.
A estrada é fria. Ando nela Deito nela Choro nela Canto nela Vivo nela.
A estrada tem ladeira. Ando nela Deito nela Choro nela Canto nela Envelheço nela.
A estrada é íngreme. Ando nela Deito nela Choro nela Canto nela... Morro nela.
373
Ainda sopra o vento
A saudade que agora me faz sofrer Vem de longe; vem distante. Vem de onde o sol queima Vem do temor constante. Vem do verde bem mais verde E do sentimento de tormento. Vem de onde passa o vento.
Meu coração todo enaltece Pela terra de onde venho... Que tem pássaros que gorjeiam Que tem águas cristalinas Que surge de uma mina Que irriga solos cinzentos E é de onde corre o vento
Meus olhos pranteiam De saudades donde nasci Onde no telhado canta o galo Avisando um novo dia Onde o gado em verdes pastos Vem mugindo a contento. Sou de onde canta o vento.
Mas o que posso fazer, Se minha terra não mais existe? Ela é isto aqui, toda fria e complexada... Toda projetada, pelo homem transformada Num frio e cinzento monte persiste. Mas procuro ser feliz e disto me alimento, Pois aqui ainda sopra o vento.
241
Sem tema
Fiquei pensando em compor um soneto Singelo, forte e que me fizesse renascer Ah, um soneto? Pode sim, fazer reviver, quem lhe cante ou declame sem medo.
Um soneto... que tema escolher? Que fale de amor, traição, felicidade imerecida? Não vem-me à mente um tema sequer. Talvez precise tomar um drinque, uma bebida...
Me lembro que isto me perturba a mente. Faz renascer cicatriz já tão esquecida... Um livro ou uma notícia que se torne semente
E que possa me inspirar um tema, mas nada me atiça a escrever livremente. Decido escolher: vou ler um poema.
223
A caneta
Da sua ponta escorre a tinta. De sua tinta faz mistério... E o que escreve parece tão sério Que não existem dúvidas que minta
Se as palavras que transcreve São sinceras e latentes Não pode ferir tanta gente Que sonha, labuta, se atreve.
Porém, não tem vida própria; Não pensa, não anda, nem atura Tampouco compaixão e ternura
Quem lhe manipula textos e torturas E a faz transmitir covardia Quem, senão, a mão que a segura!
Frio. Muito frio. Sem conforto, sem vida. Eu sozinho.
Você lá... Eu aqui... Eu choro. Você sorri.
Eu falo, você levanta. Eu fumo, você embriaga... Nem volta dormir.
Você sai. Nada diz. Durmo só. Nem sonho.
Você chega, eu me levanto. Dois estranhos em desencanto. Ontem juntos, hoje distantes...
Um amando, outro sofrendo
Saio à rua. A brisa me acalenta. Difícil é voltar, me ver ali, depois chorar e você sorrir.
241
Sob o Lençol
O poeta, sob o lençol, só quer saber de lua; nada de sol e a companhia tua.
O poeta, sob o lençol, não quer dormir... Quer viajar sob o teu céu... e que o prazer venha fluir.
O poeta, sob o lençol, quer sentir seu calor, apreciar o arrebol, da manhã do teu amor.
O poeta, sob o lençol, Não fica calado. Quer cantar feito um rouxinol em seus braços, entrelaçado.
O poeta, sob o lençol, só quer dormir, quando vencido. O poeta, sob o lençol, declama e sonha. Não faz gemido.
279
A Segunda Decepção
Quando ali te conheci, E você ainda nem me conhecia... De você a mim, a atração vinha se aproximando; e a você, meu afeto aproximando ia.
Todo aceso, te mandava um sinal. E você, com outro sinal, me correspondia... Pressenti que nada obscuro de você a mim restava; então me convenci que nenhum segredo já entre nós existia.
Com um toque de mão te acariciava... E você me correspondia com outro toque de mão. Entretanto, uma dúvida sobre mim pairava,
Quando, observei em um dos dedos da sua mão Algo reluzente e alguém que num canto nos espreitava... Descobri que eras casada; eu, não!