valdirgomes

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Escritor, poeta, cronista, contista e ilustrador

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Deste lado do rio

Deste lado do rio consigo tudo ver agora
A paz que queria, mas que de lá insistiu em negar.
Deste lado do rio percebo em mim uma melhora
Que jamais remediaria a margem de lá.

Deste lado do rio, o vento sopra melhor,
Enquanto de lá, o calor continua insuportável.
Deste lado sinto brilhar o sol do amor
Que do lado de lá é intenso e sufocável.

Deste lado do rio o verde é bem mais verde,
E as flores são muito mais perfumadas.
Deste lado do rio os pássaros cantam
Em firmes e melodiosas notas afinadas.

Deste lado do rio se vive intensamente
Num prazer indescritível e constante.
Não existe deste lado rio medos na mente,
Mas prazeres, volúpias e audácias variantes.

Tudo isso observarei amanhã, quando lá estiver fisicamente;
Minha mente sim, quem cruzou suas águas bravias,
Baseada nas margens de cá, em suas rotinas tão presentes.
Daquele lado, se vive sonhos que sonho todo dia.
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Poemas

81

Sem tema

Fiquei pensando em compor um soneto
Singelo, forte e que me fizesse renascer
Ah, um soneto? Pode sim, fazer reviver,
quem lhe cante ou declame sem medo.

Um soneto... que tema escolher?
Que fale de amor, traição, felicidade imerecida?
Não vem-me à mente um tema sequer.
Talvez precise tomar um drinque, uma bebida...

Me lembro que isto me perturba a mente.
Faz renascer cicatriz já tão esquecida...
Um livro ou uma notícia que se torne semente

E que possa me inspirar um tema,
mas nada me atiça a escrever livremente.
Decido escolher: vou ler um poema.
224

Algo errado

Tinha tudo pra dar certo,
Mas algo não seguiu o planejado
Eu queria de você chegar bem perto
E expor o que tinhas conquistado.

Decidido estava a lhe dar meu coração,
Dar-lhe do meu tempo, do meu vinho,
Para te fartares, e de amor, viveres paixão.
Para que também percorresses meu caminho...

E ao meu lado vivêssemos um sonho
Que felizes, realizaríamos com carinho.
E curtiríamos, juntinhos, um século risonho(...)

Mas me pregastes uma peça, me deixando sozinho
A replanejar minha vida, que agora a repensar me ponho,
Ao fechares teus lindos olhos devagarinho.
237

Sob o Lençol

O poeta, sob o lençol,
só quer saber de lua;
nada de sol
e a companhia tua.

O poeta, sob o lençol,
não quer dormir...
Quer viajar sob o teu céu...
e que o prazer venha fluir.

O poeta, sob o lençol,
quer sentir seu calor,
apreciar o arrebol,
da manhã do teu amor.

O poeta, sob o lençol,
Não fica calado.
Quer cantar feito um rouxinol
em seus braços, entrelaçado.

O poeta, sob o lençol,
só quer dormir, quando vencido.
O poeta, sob o lençol,
declama e sonha. Não faz gemido.
279

Passos

Ouço passos
Passos lentos,
passos velozes.
Ouço sons
Ouço gritos,
Ouço vozes

Passos e vozes
Vozes e passos
Vozes velozes
Passos em compassos
De vozes atrozes.

234

Ainda sopra o vento

A saudade que agora me faz sofrer
Vem de longe; vem distante.
Vem de onde o sol queima
Vem do temor constante.
Vem do verde bem mais verde
E do sentimento de tormento.
Vem de onde passa o vento.

Meu coração todo enaltece
Pela terra de onde venho...
Que tem pássaros que gorjeiam
Que tem águas cristalinas
Que surge de uma mina
Que irriga solos cinzentos
E é de onde corre o vento

Meus olhos pranteiam
De saudades donde nasci
Onde no telhado canta o galo
Avisando um novo dia
Onde o gado em verdes pastos
Vem mugindo a contento.
Sou de onde canta o vento.

Mas o que posso fazer,
Se minha terra não mais existe?
Ela é isto aqui, toda fria e complexada...
Toda projetada, pelo homem transformada
Num frio e cinzento monte persiste.
Mas procuro ser feliz e disto me alimento,
Pois aqui ainda sopra o vento.
241

A estrada

A estrada é longa.
Ando nela
Deito nela
Choro nela
Canto nela
Nasço nela.

A estrada é larga.
Ando nela
Deito nela
Choro nela
Canto nela
Cresço nela.

A estrada é fria.
Ando nela
Deito nela
Choro nela
Canto nela
Vivo nela.

A estrada tem ladeira.
Ando nela
Deito nela
Choro nela
Canto nela
Envelheço nela.

A estrada é íngreme.
Ando nela
Deito nela
Choro nela
Canto nela...
Morro nela.
374

Vivia só

Era feliz
Vivia só.
Tinha paz
E de mim, dó.

Não sonhava,
Falava pouco.
Emudecido,
Ficava louco

Sozinho,
Comia muito,
Bebia vinho
Gratuito.

Sedentário,
Só assistia
Tudo voar
Em agonia.

Eis que surgiu
A mim dizendo
Coisas mil
E convencendo

Então lancei
A minha sorte
E me joguei
Aos pés da morte.

Pois feliz
Vivia só.
Troquei a paz
E tornei-me pó.
256

Quando tudo se acaba

Pouca luz. Valdir Gomes
Poucas falas.
Nenhum abraço.
Nenhum carinho.

Frio.
Muito frio.
Sem conforto,
sem vida.
Eu sozinho.

Você lá...
Eu aqui...
Eu choro.
Você sorri.

Eu falo,
você levanta.
Eu fumo,
você embriaga...
Nem volta dormir.

Você sai.
Nada diz.
Durmo só.
Nem sonho.

Você chega,
eu me levanto.
Dois estranhos
em desencanto.
Ontem juntos,
hoje distantes...

Um amando,
outro sofrendo

Saio à rua.
A brisa me acalenta.
Difícil é voltar,
me ver ali,
depois chorar
e você sorrir.

242

Chora Maria

Chora Maria,
Quando o marido sai.
Chora Maria,
quando o marido vem...
chora Maria,
quando a criança chora
pelo leite que não tem!
Chora Maria,
quando a paz lhe falta.
Chora Maria,
pelo seu vintém.
Chora Maria,
pela sua dor
e tudo que lhe convém!
Chora Maria,
chora pela seca
que lhe esturrica as lágrimas...
chora com a alma,
chora com o coração!
Chora Maria,
Pelo filho que lhe beija a face!
Chora Maria,
Pelo gado, pelo cão!
Chora Maria,
Pela fraqueza dos braços,
Pelos calos na mão...
Chora Maria,
Pelo pé que lhe dói agora...

Chora, Maria, CHORA!

250

Retrato

Calada se encontra
Numa postura inerte.
Nem a posição inverte
Nem luz movimenta sombra.

Cabelos passivos
Olhar a esmo
E o plácido sorriso, mesmo
Sem som, compreensivo

Pele aparente
De cor saudável.
Já há muito desbotável
Se fosse vivente!

Parecem dias
Mas já se vão anos!
Que um pedaço de pano
Teu corpo envolvia.

Me deixa acordado
Lembranças vindas
Que pincéis, pastas e tintas
Eterniza-a em um quadro.
251

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