valdirgomes

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Escritor, poeta, cronista, contista e ilustrador

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Noites dominantes

Dominam densamente as noites todos os sonhos,
Enchendo de expectativas vidas que adormecem
Pois nelas as raízes dos dias seguintes se firmam
E são regadas nas esperanças que delas se abastecem.
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Poemas

81

Passos

Ouço passos
Passos lentos,
passos velozes.
Ouço sons
Ouço gritos,
Ouço vozes

Passos e vozes
Vozes e passos
Vozes velozes
Passos em compassos
De vozes atrozes.

234

Sóbrios e bêbados

Músicas e fumaças saíam do bar...
... E quando o dia veio chegando,
Sóbrios e bêbados se abraçavam...
Enquanto aqueles as horas iam consultando,
Estes somente pela companhia se preocupavam!
269

Chora Maria

Chora Maria,
Quando o marido sai.
Chora Maria,
quando o marido vem...
chora Maria,
quando a criança chora
pelo leite que não tem!
Chora Maria,
quando a paz lhe falta.
Chora Maria,
pelo seu vintém.
Chora Maria,
pela sua dor
e tudo que lhe convém!
Chora Maria,
chora pela seca
que lhe esturrica as lágrimas...
chora com a alma,
chora com o coração!
Chora Maria,
Pelo filho que lhe beija a face!
Chora Maria,
Pelo gado, pelo cão!
Chora Maria,
Pela fraqueza dos braços,
Pelos calos na mão...
Chora Maria,
Pelo pé que lhe dói agora...

Chora, Maria, CHORA!

250

A estrada

A estrada é longa.
Ando nela
Deito nela
Choro nela
Canto nela
Nasço nela.

A estrada é larga.
Ando nela
Deito nela
Choro nela
Canto nela
Cresço nela.

A estrada é fria.
Ando nela
Deito nela
Choro nela
Canto nela
Vivo nela.

A estrada tem ladeira.
Ando nela
Deito nela
Choro nela
Canto nela
Envelheço nela.

A estrada é íngreme.
Ando nela
Deito nela
Choro nela
Canto nela...
Morro nela.
374

Ainda sopra o vento

A saudade que agora me faz sofrer
Vem de longe; vem distante.
Vem de onde o sol queima
Vem do temor constante.
Vem do verde bem mais verde
E do sentimento de tormento.
Vem de onde passa o vento.

Meu coração todo enaltece
Pela terra de onde venho...
Que tem pássaros que gorjeiam
Que tem águas cristalinas
Que surge de uma mina
Que irriga solos cinzentos
E é de onde corre o vento

Meus olhos pranteiam
De saudades donde nasci
Onde no telhado canta o galo
Avisando um novo dia
Onde o gado em verdes pastos
Vem mugindo a contento.
Sou de onde canta o vento.

Mas o que posso fazer,
Se minha terra não mais existe?
Ela é isto aqui, toda fria e complexada...
Toda projetada, pelo homem transformada
Num frio e cinzento monte persiste.
Mas procuro ser feliz e disto me alimento,
Pois aqui ainda sopra o vento.
241

A Segunda Decepção

Quando ali te conheci,
E você ainda nem me conhecia...
De você a mim, a atração vinha se aproximando;
e a você, meu afeto aproximando ia.

Todo aceso, te mandava um sinal.
E você, com outro sinal, me correspondia...
Pressenti que nada obscuro de você a mim restava;
então me convenci que nenhum segredo já entre nós existia.

Com um toque de mão te acariciava...
E você me correspondia com outro toque de mão.
Entretanto, uma dúvida sobre mim pairava,

Quando, observei em um dos dedos da sua mão
Algo reluzente e alguém que num canto nos espreitava...
Descobri que eras casada; eu, não!
184

A caneta

Da sua ponta escorre a tinta.
De sua tinta faz mistério...
E o que escreve parece tão sério
Que não existem dúvidas que minta

Se as palavras que transcreve
São sinceras e latentes
Não pode ferir tanta gente
Que sonha, labuta, se atreve.

Porém, não tem vida própria;
Não pensa, não anda, nem atura
Tampouco compaixão e ternura

Quem lhe manipula textos e torturas
E a faz transmitir covardia
Quem, senão, a mão que a segura!
275

Quando tudo se acaba

Pouca luz. Valdir Gomes
Poucas falas.
Nenhum abraço.
Nenhum carinho.

Frio.
Muito frio.
Sem conforto,
sem vida.
Eu sozinho.

Você lá...
Eu aqui...
Eu choro.
Você sorri.

Eu falo,
você levanta.
Eu fumo,
você embriaga...
Nem volta dormir.

Você sai.
Nada diz.
Durmo só.
Nem sonho.

Você chega,
eu me levanto.
Dois estranhos
em desencanto.
Ontem juntos,
hoje distantes...

Um amando,
outro sofrendo

Saio à rua.
A brisa me acalenta.
Difícil é voltar,
me ver ali,
depois chorar
e você sorrir.

242

O poeta

O poeta não deveria existir.
O mundo não o compreende;
As pessoas não lhe dão esperança.
Mas suas palavras as levam a refletir...

O que o poeta fala,
não deveria ser levado em conta.
Dependendo do instante, seu grito é contido.
Às vezes a verdade é retida e ele se cala.

Quem entende o poeta,
Tem a vida desarraigada!
Sente com os olhos; vê, com o coração.
Vive um mundo de aresta.

Só quem vive, entende o poeta!
253

Sob o Lençol

O poeta, sob o lençol,
só quer saber de lua;
nada de sol
e a companhia tua.

O poeta, sob o lençol,
não quer dormir...
Quer viajar sob o teu céu...
e que o prazer venha fluir.

O poeta, sob o lençol,
quer sentir seu calor,
apreciar o arrebol,
da manhã do teu amor.

O poeta, sob o lençol,
Não fica calado.
Quer cantar feito um rouxinol
em seus braços, entrelaçado.

O poeta, sob o lençol,
só quer dormir, quando vencido.
O poeta, sob o lençol,
declama e sonha. Não faz gemido.
279

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