valdirgomes

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Escritor, poeta, cronista, contista e ilustrador

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Deste lado do rio

Deste lado do rio consigo tudo ver agora
A paz que queria, mas que de lá insistiu em negar.
Deste lado do rio percebo em mim uma melhora
Que jamais remediaria a margem de lá.

Deste lado do rio, o vento sopra melhor,
Enquanto de lá, o calor continua insuportável.
Deste lado sinto brilhar o sol do amor
Que do lado de lá é intenso e sufocável.

Deste lado do rio o verde é bem mais verde,
E as flores são muito mais perfumadas.
Deste lado do rio os pássaros cantam
Em firmes e melodiosas notas afinadas.

Deste lado do rio se vive intensamente
Num prazer indescritível e constante.
Não existe deste lado rio medos na mente,
Mas prazeres, volúpias e audácias variantes.

Tudo isso observarei amanhã, quando lá estiver fisicamente;
Minha mente sim, quem cruzou suas águas bravias,
Baseada nas margens de cá, em suas rotinas tão presentes.
Daquele lado, se vive sonhos que sonho todo dia.
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Poemas

81

Crônica do alto

Uma criança que corre
Um cão que late
Uma mulher que a rua atravessa
Um boi correndo para o abate
Dois amantes emendando conversas
Um empresário temeroso de um assalto,
Tudo da pra ver daqui do alto.

Um cansado no banco da praça
Alimenta pombos e observa o movimento
No cruzamento, o palhaço e sua graça,
Na expectativa de garantir o seu sustento.
O feirante, o bicheiro. O padeiro sovando a massa...
E o gari varrendo o asfalto,
Tudo da pra ver daqui do alto.

Um bebê nascendo corado
E sua mãe o observando a sorrir.
Correndo para a condução, o jovem atrasado
Porque se esqueceu que noite é feita pra dormir.
Um policial na esquina parado,
E uma linda jovem caindo do salto.
Tudo da pra ver daqui do alto.

O médico com seu paciente dialogando
E o pediatra acalmando uma criança
O lavrador após a chuva, o milho plantando
O jovem casal trocando alianças.
Um injusto mandatário governando.
Tudo da pra ver daqui do alto.
Tudo. Tudo mesmo da pra ver daqui do alto.
260

Acreditar

Tenho fé,
No que faço,
Mas não acredito
No que penso.

Se acredito,
No que faço,
Penso que
não tenho fé

Se no que penso,
Tenho fé e acredito,
No que faço
Faço nada.

Se penso que
Tenho fé.
No que faço
Eu acredito.

Mas, se faço nada
E tenho fé.
No que penso,
Não acredito.

Não acredito
Que tenho fé...
Se no que penso,
Não faço.

Não tenho fé.
Não acredito.
Não faço nada.
Não penso.
318

O poeta

O poeta não deveria existir.
O mundo não o compreende;
As pessoas não lhe dão esperança.
Mas suas palavras as levam a refletir...

O que o poeta fala,
não deveria ser levado em conta.
Dependendo do instante, seu grito é contido.
Às vezes a verdade é retida e ele se cala.

Quem entende o poeta,
Tem a vida desarraigada!
Sente com os olhos; vê, com o coração.
Vive um mundo de aresta.

Só quem vive, entende o poeta!
253

O que pensa a mente?

Quero te fazer uma pergunta
Quero suscitar uma dúvida
Quero te fazer pensar, pensar, pensar...
Se ela é: profunda, reveladora ou estúpida!

Quero te fazer buscar a resposta
Que seja correta, que seja convincente!
Quero te fazer do seu íntimo externar:
- O que achas, o que pensas sobre a mente?

Tudo o que se queira fazer,
Como o correr, o dormir, o edificar
Ela comanda, ela retrai ou incita.

Quando usada, para o bem, ensina amar
Quando erra, deixa dúvidas, não se explica.
A resposta que se quer para meditar

Que minha mente tem agido sem razão,
É: Se quando não se pode, nos faz apaixonar,
Por que então ela não comanda o coração?
255

A caneta

Da sua ponta escorre a tinta.
De sua tinta faz mistério...
E o que escreve parece tão sério
Que não existem dúvidas que minta

Se as palavras que transcreve
São sinceras e latentes
Não pode ferir tanta gente
Que sonha, labuta, se atreve.

Porém, não tem vida própria;
Não pensa, não anda, nem atura
Tampouco compaixão e ternura

Quem lhe manipula textos e torturas
E a faz transmitir covardia
Quem, senão, a mão que a segura!
275

Tente

Tente
Tente me amar
Tente me amar profundamente
Tente me amar profundamente com o coração
Tente me amar profundamente com o coração aberto
Tente me amar profundamente com o coração aberto para me entender

Tente
Tente me entender
Tente me entender observando
Tente me entender observando a chuva
Tente me entender observando a chuva quando cai
Tente me entender observando a chuva quando cai sobre um leito
Tente me entender observando a chuva quando cai sobre um leito de rio seco

Tente
Tente me observar
Tente me observar com a paixão
Tente me observar com a paixão da cigarra
Tente me observar com a paixão da cigarra quando canta
Tente me observar com a paixão da cigarra quando canta sua última melodia!

Tente
Tente se encantar
Tente se encantar como o beija-flor
Tente se encantar como o beija-flor pela linda flor
Tente se encantar como o beija-flor pela linda flor que o fascina
Tente se encantar como o beija-flor pela linda flor que o fascina num belo jardim!

Tente ser feliz!
Tente!
252

A bela senhora

Perguntou-me a bela senhora
A que horas o trem passava...
Mostrei-lhe o relógio no alto
Que o minuto somente indicava

Ela me olhou e um sorriso surgiu
Pois não entendeu o que eu estava indicando.
Respondi-lhe com um gesto sutil
Que o trem estava chegando.

Continuou me observando a bela senhora
Enquanto o relógio prosseguia o tempo urgindo
Somente o segundo marcava, menos a hora.
Indiquei-lhe que o trem já estava partindo.

Parada ficou a bela senhora
Que os olhos vasculhavam-me em profundo;
Já não mais intencionava ir embora
Pra viver comigo um segundo.
243

Meu mundo

Meu mundo era indescritível, quando te vi.
Tinha estrelas, mares, florestas e vento.
Meu mundo tinha até sincronia com o tempo.
Meu mundo era enorme, quando te conheci.

Tinha gente, ruas, prédios, arranha-céus
Tinha um rio que nascia no meio da montanha.
Meu mundo tinha esperança tamanha.
Meu mundo era grande, quando te vi sob o véu.

Era um quarteirão. Tinha campo. Tinha savana.
Meu mundo tinha um riacho
Tinha casa; um fogão, com um fogo laracho.
Meu mundo era tal, quando te vi nua, insana.

Meu mundo tinha paredes, tinha janelas.
Tinha vidraças. Meu mundo não era lama.
Tinha piso, tapetes. No fogão, panelas.

Quando te senti, meu mundo era uma cama.
Tinha uma camisa, uma calça, com cinta sem fivela.
Quando acordei, meu mundo não tinha mais um rio.

Ele tinha uma cor fria, um cheiro ocre, todo calado.
Meu mundo tinha meu tamanho. Meio apertado e frio
Quando te perdi, meu mundo tinha tampa e alças dos lados.
258

Retrato x Poesia

A natureza, pintada em aquarela
Nem um quadro que retrata um ser,
Não se compara com a poesia, em descrever,
O retrato da mulher mais bela!
227

O que é o feio?

às vezes fico pensando
Se o que questiono tem fundamento
E, num lapso de memória, por um momento
Coisas estranhas vou me perguntando:

- Por que o que é bonito é desejado,
E por que o desejo procura forma?
Se pra amar não se tem uma norma,
Mas o diferente é desprezado?

Fico assim pensando...
Sem nada entender e a mente perturbada
Se a coisa só é diferente quando com outra comparada(...)

Mas nada se compara, quando se está amando
O bonito e o feio são pontos de vista numa estrada
E enquanto caminho, vou vivendo e questionando...
265

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