Noites dominantes
Enchendo de expectativas vidas que adormecem
Pois nelas as raízes dos dias seguintes se firmam
E são regadas nas esperanças que delas se abastecem.
Ouço passos
Passos lentos,
passos velozes.
Ouço sons
Ouço gritos,
Ouço vozes
Passos e vozes
Vozes e passos
Vozes velozes
Passos em compassos
De vozes atrozes.
Chora Maria,
Quando o marido sai.
Chora Maria,
quando o marido vem...
chora Maria,
quando a criança chora
pelo leite que não tem!
Chora Maria,
quando a paz lhe falta.
Chora Maria,
pelo seu vintém.
Chora Maria,
pela sua dor
e tudo que lhe convém!
Chora Maria,
chora pela seca
que lhe esturrica as lágrimas...
chora com a alma,
chora com o coração!
Chora Maria,
Pelo filho que lhe beija a face!
Chora Maria,
Pelo gado, pelo cão!
Chora Maria,
Pela fraqueza dos braços,
Pelos calos na mão...
Chora Maria,
Pelo pé que lhe dói agora...
Chora, Maria, CHORA!
Pouca luz. Valdir Gomes
Poucas falas.
Nenhum abraço.
Nenhum carinho.
Frio.
Muito frio.
Sem conforto,
sem vida.
Eu sozinho.
Você lá...
Eu aqui...
Eu choro.
Você sorri.
Eu falo,
você levanta.
Eu fumo,
você embriaga...
Nem volta dormir.
Você sai.
Nada diz.
Durmo só.
Nem sonho.
Você chega,
eu me levanto.
Dois estranhos
em desencanto.
Ontem juntos,
hoje distantes...
Um amando,
outro sofrendo
Saio à rua.
A brisa me acalenta.
Difícil é voltar,
me ver ali,
depois chorar
e você sorrir.
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