Deste lado do rio consigo tudo ver agora A paz que queria, mas que de lá insistiu em negar. Deste lado do rio percebo em mim uma melhora Que jamais remediaria a margem de lá.
Deste lado do rio, o vento sopra melhor, Enquanto de lá, o calor continua insuportável. Deste lado sinto brilhar o sol do amor Que do lado de lá é intenso e sufocável.
Deste lado do rio o verde é bem mais verde, E as flores são muito mais perfumadas. Deste lado do rio os pássaros cantam Em firmes e melodiosas notas afinadas.
Deste lado do rio se vive intensamente Num prazer indescritível e constante. Não existe deste lado rio medos na mente, Mas prazeres, volúpias e audácias variantes.
Tudo isso observarei amanhã, quando lá estiver fisicamente; Minha mente sim, quem cruzou suas águas bravias, Baseada nas margens de cá, em suas rotinas tão presentes. Daquele lado, se vive sonhos que sonho todo dia.
Uma criança que corre Um cão que late Uma mulher que a rua atravessa Um boi correndo para o abate Dois amantes emendando conversas Um empresário temeroso de um assalto, Tudo da pra ver daqui do alto.
Um cansado no banco da praça Alimenta pombos e observa o movimento No cruzamento, o palhaço e sua graça, Na expectativa de garantir o seu sustento. O feirante, o bicheiro. O padeiro sovando a massa... E o gari varrendo o asfalto, Tudo da pra ver daqui do alto.
Um bebê nascendo corado E sua mãe o observando a sorrir. Correndo para a condução, o jovem atrasado Porque se esqueceu que noite é feita pra dormir. Um policial na esquina parado, E uma linda jovem caindo do salto. Tudo da pra ver daqui do alto.
O médico com seu paciente dialogando E o pediatra acalmando uma criança O lavrador após a chuva, o milho plantando O jovem casal trocando alianças. Um injusto mandatário governando. Tudo da pra ver daqui do alto. Tudo. Tudo mesmo da pra ver daqui do alto.
260
Acreditar
Tenho fé, No que faço, Mas não acredito No que penso.
Se acredito, No que faço, Penso que não tenho fé
Se no que penso, Tenho fé e acredito, No que faço Faço nada.
Se penso que Tenho fé. No que faço Eu acredito.
Mas, se faço nada E tenho fé. No que penso, Não acredito.
Não acredito Que tenho fé... Se no que penso, Não faço.
Não tenho fé. Não acredito. Não faço nada. Não penso.
318
O poeta
O poeta não deveria existir. O mundo não o compreende; As pessoas não lhe dão esperança. Mas suas palavras as levam a refletir...
O que o poeta fala, não deveria ser levado em conta. Dependendo do instante, seu grito é contido. Às vezes a verdade é retida e ele se cala.
Quem entende o poeta, Tem a vida desarraigada! Sente com os olhos; vê, com o coração. Vive um mundo de aresta.
Só quem vive, entende o poeta!
253
O que pensa a mente?
Quero te fazer uma pergunta Quero suscitar uma dúvida Quero te fazer pensar, pensar, pensar... Se ela é: profunda, reveladora ou estúpida!
Quero te fazer buscar a resposta Que seja correta, que seja convincente! Quero te fazer do seu íntimo externar: - O que achas, o que pensas sobre a mente?
Tudo o que se queira fazer, Como o correr, o dormir, o edificar Ela comanda, ela retrai ou incita.
Quando usada, para o bem, ensina amar Quando erra, deixa dúvidas, não se explica. A resposta que se quer para meditar
Que minha mente tem agido sem razão, É: Se quando não se pode, nos faz apaixonar, Por que então ela não comanda o coração?
255
A caneta
Da sua ponta escorre a tinta. De sua tinta faz mistério... E o que escreve parece tão sério Que não existem dúvidas que minta
Se as palavras que transcreve São sinceras e latentes Não pode ferir tanta gente Que sonha, labuta, se atreve.
Porém, não tem vida própria; Não pensa, não anda, nem atura Tampouco compaixão e ternura
Quem lhe manipula textos e torturas E a faz transmitir covardia Quem, senão, a mão que a segura!
275
Tente
Tente Tente me amar Tente me amar profundamente Tente me amar profundamente com o coração Tente me amar profundamente com o coração aberto Tente me amar profundamente com o coração aberto para me entender
Tente Tente me entender Tente me entender observando Tente me entender observando a chuva Tente me entender observando a chuva quando cai Tente me entender observando a chuva quando cai sobre um leito Tente me entender observando a chuva quando cai sobre um leito de rio seco
Tente Tente me observar Tente me observar com a paixão Tente me observar com a paixão da cigarra Tente me observar com a paixão da cigarra quando canta Tente me observar com a paixão da cigarra quando canta sua última melodia!
Tente Tente se encantar Tente se encantar como o beija-flor Tente se encantar como o beija-flor pela linda flor Tente se encantar como o beija-flor pela linda flor que o fascina Tente se encantar como o beija-flor pela linda flor que o fascina num belo jardim!
Tente ser feliz! Tente!
252
A bela senhora
Perguntou-me a bela senhora A que horas o trem passava... Mostrei-lhe o relógio no alto Que o minuto somente indicava
Ela me olhou e um sorriso surgiu Pois não entendeu o que eu estava indicando. Respondi-lhe com um gesto sutil Que o trem estava chegando.
Continuou me observando a bela senhora Enquanto o relógio prosseguia o tempo urgindo Somente o segundo marcava, menos a hora. Indiquei-lhe que o trem já estava partindo.
Parada ficou a bela senhora Que os olhos vasculhavam-me em profundo; Já não mais intencionava ir embora Pra viver comigo um segundo.
243
Meu mundo
Meu mundo era indescritível, quando te vi. Tinha estrelas, mares, florestas e vento. Meu mundo tinha até sincronia com o tempo. Meu mundo era enorme, quando te conheci.
Tinha gente, ruas, prédios, arranha-céus Tinha um rio que nascia no meio da montanha. Meu mundo tinha esperança tamanha. Meu mundo era grande, quando te vi sob o véu.
Era um quarteirão. Tinha campo. Tinha savana. Meu mundo tinha um riacho Tinha casa; um fogão, com um fogo laracho. Meu mundo era tal, quando te vi nua, insana.
Meu mundo tinha paredes, tinha janelas. Tinha vidraças. Meu mundo não era lama. Tinha piso, tapetes. No fogão, panelas.
Quando te senti, meu mundo era uma cama. Tinha uma camisa, uma calça, com cinta sem fivela. Quando acordei, meu mundo não tinha mais um rio.
Ele tinha uma cor fria, um cheiro ocre, todo calado. Meu mundo tinha meu tamanho. Meio apertado e frio Quando te perdi, meu mundo tinha tampa e alças dos lados.
258
Retrato x Poesia
A natureza, pintada em aquarela Nem um quadro que retrata um ser, Não se compara com a poesia, em descrever, O retrato da mulher mais bela!
227
O que é o feio?
às vezes fico pensando Se o que questiono tem fundamento E, num lapso de memória, por um momento Coisas estranhas vou me perguntando:
- Por que o que é bonito é desejado, E por que o desejo procura forma? Se pra amar não se tem uma norma, Mas o diferente é desprezado?
Fico assim pensando... Sem nada entender e a mente perturbada Se a coisa só é diferente quando com outra comparada(...)
Mas nada se compara, quando se está amando O bonito e o feio são pontos de vista numa estrada E enquanto caminho, vou vivendo e questionando...