Viriato Oliveira

Viriato Oliveira

n. 1955 PT PT

n. 1955-12-02, Lisboa

Perfil
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Lendo Pessoa

Ah, Fernando, ainda um dia gostaria de conversar contigo, sem pressas, ao entardecer sereno de Lisboa.
A nossa conversa seria entre os espaços das palavras e a sua sombra em nós, entre o teu tempo e o meu, espíritos
partilhando algo universal, algo que transcende carpinteiros e poetas.

          Se eu não sei o que é ser poeta, porque não mo explicas tu ? Mas tu não podes, viveste em Lisboa e partiste
para o indefinido muito antes de eu nascer. E, mesmo que tivéssemos sido contemporâneos, igual seria. Suspeito
que também tu não sabias o que é ser poeta.
           Serias tu poeta ? Que fazias naquele tempo em Portugal, na Rua dos Douradores, discorrendo sobre assuntos
tão removidos do tempo e do espaço, sobretudo do espaço ? Ninguém te entendeu, ninguém jamais te entenderá.
Eu, serei apenas um leitor confuso, ou um escritor confuso, que julga ver nas entrelinhas de ti algo de real, ou o que
de real têm os sonhos.
           O que tu não conseguiste dizer, nem eu nem ninguém o conseguirá nunca, mas tu tentáste-o sem medo e
sem escrúpulos, com toda a força da tua alma e da tua inteligência. Está aí o teu génio. Talvez, no entanto, o
tivesses dito, e muitas vezes, mas é que, afinal, tudo se esbateu por entre o sol poente.
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Poemas

13

NAVEGAR (1984)

Navego pela consciência de não pensar nisto.
   a tentar mascarar a minha solidão
   e a sonhar com o inverso do que me pesa
   pela janela aberta voam borboletas
   de dentro para fora
   e o ar é frio
   e eu estou do lado de dentro mas sei que o ar é frio do lado de fora. 
   a minha mente ultrapassa-me
   nesta corrida sem meta real
   e eu, o atleta que nunca vence,
   atiro-me abaixo do precipício de me cantarem na pela a vitória...
112

NAQUELE DIA

Naquele dia procurei-te no café. Estava calor e o sol delirava. Não estavas lá.
   Desesperado, procurei-te por onde pudesses estar. 
   Fui espreitar o jardim encantado, de flores vermelhas; por um telescópio espreitei o espaço, mas o foguetão que vi não tinha uma janela
por onde me pudesses acenar; procurei-te nas ruas, e descobri que as estrelas também dormem sem te encontrar.
   No café, os saquinhos de açucar continuavam a subir e a descer.
   Silencioso, olhei a tua fotografia. Fitavas-me com um sorriso cheio de desejo. Então, quando as palavras se juntavam num último orgasmo,
procurei-te em delírio para te pedir um cigarro.
   Não te encontrei e a noite caiu.
122

CALMARIA (1974)


Há qualquer coisa de calmo nessas folhas
será paz, distância ou apatia
-é a noite que cai...
há cores no céu, vermelho plácido
há árvores tombadas e livremente selvagens
do vento que soprou...
é a pequena morte de um dia de trabalho,
o silêncio é mais duro
e as folhas são ainda mais calmas...
há amor nas pedras, e nisso há já um pouco de ódio
há beleza no ar, e nisso há já um pouco de fealdade
mas a Natureza parece imutável...
nela há qualquer coisa de calmo, e nisso há já agitação
ao longe há montanhas e céu como aqui
de longe vem a agitação indecisa
que me torna humano
e me faz contemplar a calmaria da terra...
127

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