WillLukazi

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Eu sofro de Letramorfoses...e não tem cura

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A Lenda da Cidade das Maos Dadas

Venho aqui contar a Lenda da Cidade das Mãos Dadas. Na Cidade das Mãos Dadas existe a mão que se cola a tua e que não se pergunta até quando, até onde, nem se diz adeus e nem mesmo até breve. Lá não existe o desespero, visto que a palavra é feia e não transmite nada além daquilo que origina o choro. Lá se permite apenas o desejo de que o afago e o abraço sejam o mais demorado possível. Lá se permite sim, que o beijo revele o que ainda as bocas distantes não sabem. Há o beijo inflamável que queima o pessimismo e a pele até o final da tarde; que se incendeia numa reação em cadeia de amor , saliva e respeito. Na Cidade das Mãos Dadas, as mãos viram asas e as nuvens viram calçadas em Domingos de alento, sombra e brandura cor escarlate. As frases são ditas murmuradas e recheadas de pausas já que certas coisas não se falam rápido e nem alto. Exigem uma vagarosidade planejada, exigem naturalidade e mínimos detalhes, exigem não se pensar em tudo e nem em nada, permitindo-se assim que o instinto torne-se o mais novo e importante convidado nesta festa de sensações em demasia. Nesta cidade cujas catedrais entoam os cantos mais bonitos eu encontrei uma mão e um mindinho__ e ambos me acolheram e disseram 'Seja bem-vindo' !

Na Cidade das Mãos Dadas não se preocupem com quem vem lá__ é quase certo de que seja sua alma gêmea__ com um mindinho à solta, flutuando pela atmosfera.
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Poemas

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A Despedida

Talvez ele quisesse sair mais fortalecido com a última conversa que tivemos, talvez ele quisesse me dizer algo, talvez ele estivesse com aquele receio que antecede as premonições nunca bem-vindas__ dúvidas que carregarei comigo. O momento era caricato: tudo não passava de uma mera sombra do que havíamos sido. E embora ficamos felizes quando nos vimos, não houve aquela alegria de nossos saudosos tempos antigos, tão presente em outros reencontros. De certo, apenas que ainda éramos amigos... e muito e como e tanto!!!

A conversa foi breve, sem muito riso. Falávamos sobre coisas supérfluas, sem nos aprofundarmos em nenhum assunto específico. Depois que o instante passa, e só depois que ele passa, a gente tem essa mania de ficar analisando tudo, os detalhes mais mínimos, os gestos mais imperceptíveis e todos os miúdos. Hoje eu sei que, na verdade, estávamos era tristes, sem brilho, nos despedindo tímida e silenciosamente um do outro, mesmo que não tivéssemos plena consciência disso naquele minuto. Eu não tenho dúvida alguma quanto a isso__ estávamos, sem saber, já carregando conosco, em nosso corpo, o vírus da saudade que se seguiria.

Como sempre fazia, me acompanhou até ao portão, mas dessa vez, e só dessa vez, não me perguntou quando eu voltaria. Um abraço e um aperto de mão selou meu último encontro com meu grande amigo naquela rua chamada Rua Do Vaga-Lume.

Sessenta dias depois novamente eu o vi... apenas para me despedir__ ele havia partido para sempre. Me deixou uma estranha saudade que caminha comigo. Uma saudade que copia sua voz, veste suas mesmas roupas e ainda por cima também me chama de melhor amigo.
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Texto(Sterona)

Eu estava denso e exótico dentro daquelas roupas. Cada um de meus movimentos eram códigos e pistas perfeitos às mulheres que ao meu redor seduziam-me com gestos muitas vezes até inconscientes e quase invisíveis, quase imperceptíveis. Gestos estes denunciados pelos meus elevados níveis de testosterona nascidos de meu lado animal de puro instinto e selvageria__ vem comigo ?
Eu sentia no ar toda aquela alquimia, cujo cheiro feminino e afrodisíaco daquelas bocas dotadas de línguas úmidas me lembravam de que material também fui feito, além de espírito. Meu coração oferecia imagens impressionantes de amor em coretos de praças e de encontros ardentes e inesquecíveis. Dinâmico e incessante eu caminhava por aquela calçada como se estivesse ouvindo a trilha sonora de minha vida ou fosse receber o Oscar das mãos de um ícone. Eu rasgaria uma peça íntima com os dentes naquele momento ou queimaria o Título 'Civilidade' que tenho e trocaria pela Alcunha 'Desejo'.
Esplêndido! Aquilo era mais um raiar de um novo dia. Um dia depois do fim. Era mais uma chance d'eu escrever uma estória arrebatadora. Ao cair da noite, eu sentado em meu sofá ou talvez num bar, poderia ler mais um capítulo de minha própria vida, onde nada é fictício e os gêneros se misturam.
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Dias Cinzentos

E nesses dias em que a inspiração me falha e se acovarda, eu percebo que a única idéia brilhante que tenho é viver. Viver e exigir tudo que me é plausível, que me é formidável, que me é prazeroso. E exigirei sim, para que depois não digam que eu quis e desejei muito pouco as coisas que me eram verdadeiramente boas; para que não digam que eu mereci a sarjeta e um espírito torpe a me perseguir. Querer é descobrir em si uma ânsia funda, onde cabe um nome, onde cabe um grito ou até uma planta. Querer é remover o vírus de quem se acomoda por cima de uma cama estando em plena saúde; querer é ter nascido; querer é pôr fogo na água do íntimo; é sonhar mesmo que não faça nenhum sentido... Querer é direito adquirido__ sonhemos!!!

E eu vou continuar querendo, pois como eu já disse, a grande idéia que tive é continuar vivendo. Às vezes se perde um grande amigo ou simplesmente ele parte na nossa frente e descobrimos que nossa dor não é ferrugem para cessar as engrenagens da vida e por isso todo o seu movimento continua. Nossa dor não falará em todas as línguas e conseqüentemente não será entendida por todos.

Os dias podem até vir sem inspiração alguma, mas nossa respiração continua, meus amigos!

Quero terminar como comecei e ser propositalmente repetitivo ao dizer que a única idéia brilhante que tenho e tive é viver. Quero ver essa chuva de Novembro e sentir de algum modo que tudo vale a pena, até mesmo este meu descontentamento com não sei o quê.
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Insônia

Em uma época distante fui adepto à pratica de dormir à noite. Tenho saudades. Hoje, confesso que já não consigo. Dormir me parece uma palavra longínqua que me lembra infância e paz__ duas das coisas que me abandonaram na madrugada. Hoje sou um homem de mente inquieta, de visão perturbada por coisas, acreditem, que não vejo. E passo a maior parte do tempo me intrigando com notícias que não são comigo, com palavras que não foram direcionadas aos meus ossos ou ouvidos e com fatos que aconteceram a outros seres vivos. Sinceramente, não sei e não quero fugir disso.

Hoje em dia já tenho dois fios de cabelo branco...e contando__ é só o início.
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Última Página

Admiro os dias cinzentos que me entregam minhas noites escuras. Ouço as canções mais melodiosas e me agrado ao escalar as montanhas mais altas e pontiagudas. Gosto muito de navegar por entre meus mistérios, de roer minhas unhas e de conhecer, de vez em quando, pessoas loucas, consideradas sem muito nexo. Já fiz falsas amizades que tentaram rasgar as folhas em que escrevi e ainda escrevo. Foram muitas as folhas rasgadas até o dia em que descobri que meus rabiscos cabiam em meu espírito e que papel não era o segredo desse ofício.

Nunca me digam que eu não consigo, é quase certo de que irei rir da sua cara__e isso antes mesmo que eu consiga. Não precisa confiar sempre em mim__ deixe isso comigo. Não me venham com promessas de amor, pois eu sei aonde vai dar meu coração. Não precisa aparecer por aqui com um sorriso forçado, você é livre pra não gostar de mim e a recíproca é mais que verdadeira. Não adianta me elogiar demais, foi-se o tempo em que a vaidade me destruia. Não adianta me criticar em excesso, pois eu não acreditarei em só palavra sua. Eu quero muito é viver enquanto estiver vivo. Quero esquecer e pedir pra que ninguém me lembre da vida alheia. Quero aprender tocar mais de 4 músicas no violão ao redor de uma fogueira. E antes de dormir não quero ficar pensando em coisas que já se passaram como se na verdade estivessem ainda e sempre acontecendo.Na verdade acho que todos nós somos um livro com a última página rasgada, justamente aquela do beijo. E alguns consideram esse o final perfeito.
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Ir Alem

Silenciei minhas explicações lógicas só por hoje. Só por hoje eu não irei contaminá-los com minha racionalidade condutora de respostas prontas, quadradas e brandas. Definitivamente,só por hoje, ela não nos atrapalhará. Hoje acordei assim, sendo um corpo estranho dentro de mim e de meus próprios pensamentos que voaram e, mesmo não me dizendo por onde estiveram, sei que voltaram de longe.
Hoje acordei sozinho e sorrindo para tudo que é vago, solto e por isso livre. Acreditem: consciência tem mesmo voz, eu a ouvi, mas não tem timbre__ Sorri em um só canto da boca.

Vontade imensa de viver, mas só depois de me permitir ir além dos sonhos perdidos, dos choros invisíveis e das coisas palpáveis. Vontade de caminhar em direção ao Mar imenso, qualquer que fosse, segurando balões vermelhos inundados de hélio e perguntas recentes e remotas. Soltá-los-iam a mercê do vento, mas só depois de algum tempo tendo a água salgada batendo em meu peito, neste meu peito que serviria de bússola para a confusa corrente marítima__ seriam dois perdidos. Tsunami à vista.

Não, não seria um auto-extermínio. Eu voltaria à praia e contaria a todos da areia como é bonito preencher a imensidão de cor, leveza e um pouquinho só de falta de juízo.
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Felicidade chucra

Talvez tenha muito a ver com o fato de termos um espírito selvagem, galopante, daqueles que esfregam a cara no vento e dão uma relinchada com força, jogando no ar suor, vigor, feromônio e um convite oculto.
Mesmo que façam suas cercas e estendam seus arames, deixem ao menos atentos seus ouvidos__só assim saberão de nosso salto, de nossos cascos cortando poeira e terra tendo como única direção o instinto, o invisível, o uivo da curva, o mais importante.
Cansado de tudo que os olhos podem tocar me recolho às coisas que o coração, e só ele, pode sentir. Nada de pedir créditos, nada de mendigar credibilidade, meu sentimento me basta. Fecho os olhos, pois só lá, onde morrem as aparências é que consigo ver tudo que é real, tudo que pulsa querendo acontecer, lá sim, longe de todos, longe das leis dos homens, vejo seres em seu estado normal.
E ainda que um laço me roce a crina passará no vazio, pois eu já me decidi.
Ainda pertenço à relva verde e isso é ser livre, meu Deus !
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Manhãs, Mulher e Melancolia

Densa e quente como uma larva de vulcão, eu desço das montanhas mais altas. Ignoro as paisagens verdes pelas quais eu passo e que me reportam a um tempo bom que ficou distante. Às vezes acho a vida chata em igual número de vezes em que a acho interessante. Mais do que a falta deles, os amores me deixaram assim. Criaram em mim uma mulher livre, presa dentro de si mesma. Uma mulher livre que cumpre sua sina de ir e vir incessantemente, na maioria das vezes, todas a esmo. Em cada passo dado eu conto o vazio a que me entregam. Um vazio intenso como um eco a me gritar pelo interior de uma caverna, cujas paredes rochosas distorcem cada sílaba e morfema deste meu nome tão pequeno.

Terá curiosidade quando perceber que minha tristeza é espessa e pode até ser tocada e sujar a mão com ela. Não me pergunte qual a cor de minha tristeza, pois em tempos em que o sorriso é raro tudo não passa de cinza, numa melancolia nostalgicamente daltônica. Uma espécie de areia movediça pela qual me afundo, surpreendo e renasço. Qual seria a estória que carrego comigo dentro deste peito insólito e sem muito nexo?

Num sobressalto de agonia eu desperto no meio da noite e interrompo um sonho antigo. Nele, as vozes, o cheiro e os sorrisos, que fizeram de mim uma amante das coisas inérteis e frias, me pedem abrigo. E vou até a varanda desta minha casa escura, onde lá, sendo madrugada, eu me junto a treva que me consola e já consigo me acalmar tendo como companhia o silêncio noturno e o barulho sagrado das coisas não-ditas__e me curo.

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Adélia

Eu sei que ela leria um livro em qualquer lugar. Afinal ela sempre ouvia uma doce música vinda das páginas quando as abria. Um toque sublime e imaginário de piano e nostalgia...delícia. Aliás nunca se soube ao certo quem abria quem ou o quê. Às vezes se tinha a nítida impressão de que os livros é que abriam Adélia e a viravam do avesso.
A-DÉ-LIA: que linda menina perfeitamente disfarçada de mulher!!! Parecia salva de tudo quando lia uma boa estória. Sua vida seguia. Letra por letra, fonemas por fonemas. Idéias e Mundos invisíveis só aos cegos por opção ou pela tristeza do analfabetismo.

__Ei Adélia, desça dessa árvore, menina!
Não havia como descer. Adélia não descia. Ela lia um livro lá em cima. Respirava fundo quando algum trecho lhe lembrava coisas que vinham à tona de vez em quando.
__Adélia, os carros vão te atropelar! Pelo amor de Deus, Adélia!
Mas ela não tinha medo de morrer atropelada. Ela tinha medo de morrer sem poder ler um bom livro, um olhar..um conto de fadas.

Um dia num papel letras e mais letras se encarregaram de lhe dar uma notícia, a mais triste de sua vida. Um exame de saúde nada rotineiro deu positivo. E ela já sabia que aquilo era o fim de sua jornada humana. Se encheu de tristeza quando pensou nos livros que não mais leria, naqueles que estavam ainda sendo publicados e em todos os outros que já existiam.

Um trecho de um livro foi lido em seu enterro__ o Livro Sagrado. Não, não chovia forte. Aquilo não era um filme. Adélia havia mesmo ido.
Adélia nunca quis ser uma estrela no céu. Bastava a ela ser página de livro.
Por que diabos, pessoas assim morrem__se perguntavam em silêncio os mais achegados e amigos. A resposta não viria.

Gustavo, namorado de Adélia, voltou mais tarde naquele jazigo. Retirou do bolso uma página de um livro lido por ela e jogou por sobre a terra que a cobria, que cobria Adélia. Era um epílogo e tinha esses dizeres que um dia foram sublinhados por ela:

''...já fui Caminho, já fui Paisagem e hoje sou Destino''.

Gustavo chorou. Para ele não havia ninguém como Adélia no Mundo.
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