súbitas foram todas as flores pelos caminhos colhidas, e nunca palpáveis à distância: no ponto em que surgiram, existiram, e traduzidas não cessaram.
nem foram catalogados em futurologias os cantos das aves submersas em folhas de verde silêncio, que imprescindíveis e imprevisíveis o fogo dos poentes sustentaram.
agora, a sombra encobre a encruzilhada. o silêncio não acalanta, a voz não chega à superfície, e entre as pedras espalhadas pelos incompreensíveis poros que distam presente e memória, resquícios de riso buscam o riso, porém se quebram e calam.
aves com asas de faca rodeiam a morta flor delimitada dentro da palavra flor. o desperdiçado pólen pesa sobre a mão que conteve a abelha. a cidade é grande, mortalmente pragmática. é fácil perder as flores.
mas a poeira nas botas remete à permanência da estrada. entre uma pedra e outra pedra, súbitas são as flores.
mas o coração sabidamente vermelho pulsa alinhado às cores das pétalas. súbitos são os pássaros.
a mim, desaprendido do ofício da alegria, não seja, talvez, tempo de desprender-me do ofício da esperança. a vida é súbita, entre a inflorescência e a semente arruinada, lampeja e desaparece, e então regressa, sempre à espera de nascer. uma centelha rompendo um caminho sem luz.
velha vida, lembrança da vida futura, porque te amei – não mais te amando – ainda espero.
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dois dísticos
I
esta recordação vai me exceder eu vou morrer e não vou esquecer
II
por intermédio da memória de quem fomos viveremos sempre sendo mais do que somos
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o que fica
o que pretendi deixar para deixar-me consigo, não poupa-me de levar a mim pra morrer comigo.
posto no que agora sou, não posso estar no que fiz. só sombra se enraizou da árvore sem raiz.
se mudo de opinião à margem do tempo ido, as letras não sabem: são.
mas, meu nome as tendo ungido, resto, pra sempre, em meu não. lembrado, e entanto, esquecido.
268
sibilo
em meu mosaico de escamas guardo as partidas estrelas; vê-as passar, se as amas, que é inútil buscar retê-las.
aquele que me segura ilude-se com um fantasma; e o perfume que procura reduz-se a mero miasma.
por isso, inda que eu te fira o céu vazio, possessivo, e teu sonho até prefira
um morto sol a um sol vivo, não fujas à minha lira, pois tanto eu dou quanto privo:
do rastro da luz que arquivo, já um novo astro respira – e outra vez tua vida gira.
278
chronos
flutuo, enquanto a chuva não cai, ao redor dos anéis de saturno, outra vez. do alto deste ponto, me avisto noutro ponto. de lá, porém, eu não me avisto. estou ocupado demais amando as coisas que já não amo, brincando em castelos de areia agora desfeitos, dormindo à sombra de uma luz antiga. sorrio: somos iguais. neste instante, noutro instante, também me vê quem não me vejo. ele que também sorri de meus oásis enquanto se prepara para a morte.
unidos pelo ponteiro e separados por suas voltas – um estalido familiar, à meia noite, anuncia: é tudo real.
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de rosa em jasmim
e quando falas da flor, este, que é um símbolo herdado, falas, de fato, do amor que algum poeta, há mil anos, morreu sem ter confessado
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poesia
a poesia é uma coroa de flores sobre a miséria do amor
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pérola
surgido de sob a pele, vindo de quaisquer dos lados, o deserto nos impele a oásis já desvendados.
em meio às areias dele, nadamos, insaciados, supondo águas que vertem tão somente no passado;
então, vem o tempo: e corta, antes do gole, a visão; e resta, da imagem torta,
quando se impõe a razão, só uma ilusão natimorta dentro da concha da mão