das partes que não partiram é que somos compostos. somente através de regressos amamos e vivemos.
o tempo nos fere e nos divide. despedimo-nos de nós mesmos e das coisas a cada mínimo instante, e, no entanto, jamais abandonamos nada.
parte a estação, resta-nos a pétala. apertando-a contra o peito, sangramos. e mal percebemos que é por meio dela que vamos a novas primaveras.
parte o beijo para o impossível, mas a reminiscência do beijo, nos lábios, permanece - e assim, em nós, o anseio de revivê-lo, de acalorar o corpo morno, de vencer a morte.
sim: para cada história em nós decepada, uma busca incessante em nós se elabora. traços vagos no meio da noite nos guiam a sonhos incríveis.
e mal percebemos que amamos. e mal percebemos que vivemos. o tempo consome-se em música e a poeira cintila como estrelas à luz de um novo dia.
269
lugar
só quando correres pelo campo, e não ao campo, é que provarás da liberdade.
do que é esconderijo nenhum lar nasce, eis a áspera verdade.
não te trarão promessas as árvores, nem nascerão prelúdios de fantasias nos rios profundos onde te espelhas.
nem brotará da terra o amor, nem mesmo paz ou conclusão surgirão sob as estrelas.
mas aguça bem o teu anseio e vê: verdor, frescor, sementes e lumes derramam uma realidade inteira
sobre um renovado campo sem finalidade: pertencimento, possibilidade, liberdade verdadeira.
e já nem saberás, de repente, como foi que chegaste àquele lugar...
o habitarás, simplesmente: um lugar menos mundo, no mundo, e mais lar.
283
viajar
escrever é também assumir o compromisso de criar viagens, e não quaisquer viagens: viagens independentes e perenes. você, escritor, cria uns percursos através das palavras e involuntariamente dá à luz certos percursos ocultos (a que outros, que não você, possivelmente encontrarão depois), e mal se dá conta do que faz enquanto consuma a cada linha teu esforço e intento, sem qualquer garantia de alívio ou precisão. e então, uma vez concluída a obra, é que você vê, se olhar bem, que ela está menos concluída que nunca.
subitamente, ela é uma viagem. e é como um filho: a tua participação foi essencial para que ela existisse, e entanto ela não te pertence. ela está lá, se desenvolvendo à parte de ti, no desamparo do mundo, sem esperança. existindo. viajando e conduzindo outros a viagens sempre imprevisíveis e distintas, se renovando sempre e desabrochando outros caminhos que outrora estiveram dormentes em suas entranhas absurdas.
acaso há mais doce favo de poesia do que isto? viajo outra vez.
273
descobrir
mas o que me mantém vivo é a íntima perspectiva de descobrir algo novo a cada ínfimo dia.
é saber que a grande noite pode não ser maior que as estrelas que ali estão, contanto que eu assim as busque
e as perscrute, atentamente. que sequer é necessário ir tão longe para ver que ainda há muito pra ver.
é saber que, como há estrelas, e insetos, e aves, e sapos, há também canções mais belas em algum lugar, dormentes,
as quais posso despertar e trazer até quem sou, promovendo a integração, a meu mundo, de um novo ar
de renovado perfume ou sufocante verdade, de qualquer modo bastando por ser, sobretudo, a vida.
sim - o que me mantém vivo é a íntima perspectiva de descobrir, amanhã, uma canção polonesa,
um novo sabor ou cheiro, um país dentro de um bairro, ou o segredo dos pássaros (estes tais dinossaurinhos).
ou, ainda, algo menor: um silêncio, um pensamento, uma sensação sem nome de serenidade ímpar.
não é o sonho de viver quando já não for meu tempo. nem o anseio de conter algo eterno, a que repilo.
é o mero o prazer de andar de um ponto ao outro, observando o quanto for observável no instante único que é tudo,
e atestar que ali há muito, há tanto, tanto que não conheço! e que desconheço em meu desconhecimento!
é a recordação do espanto buscando ressuscitar, para outra vez afirmar o privilégio da alma.
é o que me mantém vivo. a íntima perspectiva de descobrir algo novo a cada ínfimo dia.
316
precisão
bem sei que é preciso fazer carreira, aproveitar o tempo, ter propósito. e cedo aprendi que é recomendável optar por ver somente as boas coisas
que flutuam sobre as calçadas sujas que, sem ver, pisamos, pelo bom pão. bem sei – é verdade! – que é preciso rir, de olhos fechados, do diferente,
envenenando-se, sábado, à mesa, jogando cartas e se diluindo. e farrear, fazer sexo, ter filhos! e recuperar-se, enfim, no domingo.
sofrer humilhações, furtar-se ao óbvio, engolir sapos que que à fome não matam só pra depois poder comer o básico no intervalo entre o isto e o nada;
sim, incontestavelmente é preciso. bem sei. trago comigo o protocolo debaixo do braço e no peito oco. só de algo não estou certo: ...preciso?
273
permanência
quando não é a música, de que se desenrolam traços de outros momentos que se infiltram na presente verdade, quando não é a música é a cidade.
quando não é a cidade, com seus espelhos e lugares e sombras de dentro dos quais salta à luz tudo o que há de mais secreto e tudo o que há de açoite, quando não é a cidade é a noite.
e quando não é a noite, a noite, com suas estrelas e taquicardia, noite que guia a angustiada mão até as linhas tortuosas de uma vigésima tentativa de exprimir em rimas mortas uma coisa que é viva,
sim, a noite, onde boia a lua com seu semblante tristonho, nas águas escuras de seu esmo... quando não é a noite é o sonho. sou eu mesmo.
quando não é isto, é aquilo, e se por acaso não é aquilo, então é outra coisa.
mas não há nunca um dia sequer em que tudo falhe em te trazer de volta a mim – as vidas, as hipóteses, os espólios –, para que eu outra vez me renda e morra, contritamente, no fundo dos teus olhos.
329
poema sonolento
duas da madrugada.
conforme o anseio de nadar se vai sucumbindo ao de entregar-se às águas, um nome ecoa nas conchas do mar... e em meus ouvidos naufragam as mágoas.
três da madrugada.
nenhuma porta suspensa no ar, e, se acaso houvesse, eu decerto a fecharia. nem porto a destino, nem cais a que atar-se. um lençol de maresia encobre a tudo... e nunca fora tão pacífico afogar-se.
quatro da madrugada.
nenhuma lágrima pela luta perdida. nenhum pungente impulso por compreender ou transformar. sumberso, vê-se, de fato, a tudo: vária paisagem amorfa de que mais parece que se vai despertar.
cinco, seis, sete, oito, infinito.
o tempo cambaleia no meio sono. o tempo sonâmbulo confunde as coisas.
e tudo pesa sobre os olhos em uma fração de segundo... um indefinido segundo prolongando-se, a cismar, o coitado: só mais um mísero mundo. mais um que o sol virá matar.
dorme o coração que desconhece o nome que ecoa nas conchas.
330
presença
há algo na tua presença, sim, na tua presença, que me ficou impresso em tua ausência, desse jeito, independente... e que a mim regressa sempre por através de caminhos distintos.
mesmo a luz que me rege se rende à tua figura amorfa remanescente: mesmo que não estejas, permanece a tua sombra, e tudo à tal sombra se dá.
talvez porque de mim fiz uma casa a nós, em um passado em que ainda era possível sonhar: agora, sou uma casa sem lar, de janelas quebradas e vivas situada em uma rua deserta. uma casa a que não se demole por pena, e que se faz abrigo de fantasmas. os mais lindos fantasmas. os mais incompletos fantasmas. as paredes frias compostas de silêncio, emoldurando a porta, e nela um cadeado – como um milímetro que separasse, por eternidade, dois lábios que se pertencessem.
talvez porque de mim fizeste teu deleite, e me insinuaste teus segredos em meus recantos menos nobres, eternamente ardentes e incônscios, apaixonados pela sombra à ausência da figura, apaixonados e tristes, porque não entendem que a vida se transforma.
talvez porque a cidade permanece a mesma, e toda ela já nos viu passar: esta cidade que fala demais com casas e árvores repetidas, com palavras repetidas, inquiridora, galeria de espelhos. esta cidade que me traz de volta estes lugares a que ainda te projeto através dos olhos, assim como uma luz de lanterna que denunciasse uma rosa no escuro: uma rosa murcha, tão murcha e humilde, e contrita, como se esperasse, talvez, que lhe descesse de um céu turvo o milagre de um perdão definitivo. uma rosa tão murcha... mas tão bonita.
de qualquer maneira, é certo: há algo no que foi tua presença que resiste imenso, monumental, e simples. há algo. resta algo. e por isso retornas a mim repetidas vezes. trazendo, sempre, nos teus olhos ilusórios, a chave do cadeado, a água para a sede dos abismos, a possibilidade de suturar os lugares que sangram; sem que para tanto necessites dar um passo, sem que seja necessário um gesto.
sim, algo... e eu estou triste, e respiro profundamente e escrevo desatentamente: não é preciso atenção, pois tua mão me calça a minha mão, agora, e me guia através destas linhas inúteis em direção a você – talvez na contramão de todo o resto.
em direção a esta duradoura presença que não compreendo. essa presença tão distante que só assim a ouso buscar, e ainda assim tão presente que não buscar se faz impossível.
algo que chora na casa vazia.
261
reinos
rei de nada, assento-me em cada trono de cada instante sem posse ou vaidade: que seja a eternidade só um sono, que seja a vida a única verdade.
em deixar que caia a breve coroa não há sofrimento nem abandono: o que foi, se vai: junto ao tempo voa; e é-me leve - pois nunca fui seu dono.
pois mais suave é a areia que, entre os dedos, escorre, elaborando seus castelos num chão que encerra todos os segredos,
sem elo ou perspectiva de ter elos. e eis que vejo, rei de nada, sem medos: tais castelos são, ao vento, mais belos.
298
três sonetilhos
I
este infinito instante em que vives agora basta apenas que pisques e pronto: é memória
inda não dás por isto à sombra das batalhas mas o tempo que torna as crianças grisalhas
é este mesmo que colhe teus momentos dispersos e te confunde os olhos
para te dar, enfim, da vida, alguns versos, dos sonhos, seus espólios.
II
abre os olhos e vê: o tempo já passou. apenas em você o instante não murchou.
este lugar não é o de quando eras outro. se aqui ainda vives, talvez estejas morto.
nem houve no intervalo de tempo dos teus olhos qualquer sonho ou excesso...
mas se passaram anos. e é como se tivesses vivido em retrospecto.
III
como aceitar que a mão que a minha mão enlaça é só minha outra mão que o coração disfarça?
a memória é um tecido assim dissimulado que tanto nos engana mesmo estando rasgado
ah, que doce a mentira que em mim se acalora quase fisicamente...
mas o tecido é falho. e as minhas mãos se esfriam melancolicamente...