diante agora do teu rosto colho o fruto de quando não te via: em como vens, te despedes em como te aproximas, te apartas
morte e vida consubstanciadas em contraditórias flores, crescendo, enroscadas, dentro de mim
sem jardim que lhes dê repouso
259
a rosa mnemónica
– s.
ponto de referência em si mesmo indefinido de um tempo de espanto e incerteza: poderia mesmo ter explodido?
poderia mesmo ter colorido as paredes com seu pigmento, e abraçado a casa toda no rubor de um só momento?
ou – menos que isso – poderia, ainda, ter permanecido, simplesmente, em sua jarra triste, sem mais que um vento , a que se desse, nem mais que um olhar, a que iludisse?
explosão, ilusão? desdobra-se, rosa, ao sabor sempre vário da minha incongruência, que em mim se reparte e ressuscita, ao que reinvento a tua essência
do xilema ao floema do poema, as pétalas se desprendem dos segundos, desintegrando-se diante dos meus olhos, reconstruindo-se em meus abismos mais profundos
disforme, conforme, pluriforme rosa, perpétua na dor que carrego sempre comigo; é e não é, e o que será, já não sei: a dúvida em meu peito é o seu jardim ambíguo
273
traço
depois, sem saber se era ele o esboço de seus sonhos ou se seus sonhos eram o esboço de si,
ficou só como um destes tantos desenhos que iniciara em cadernos esquecidos.
rabiscos ali perdidos, para sempre sem pernas, sem mãos, nem faces nem nomes.
antropomórficos sem dinâmica em páginas cruas.
desenhos até que bem legais
290
feliz aniversário
as velas se multiplicam sobre o silêncio da distância
eu te conhecerei por quem você não é e você me conhecerá por quem eu não sou
e assim vamos de mãos dadas através do fogo
eternamente unidos e desconhecidos
279
fósforo
vida: em maior parte, reticências (mil contos nas distâncias de três pontos) estando nela, nunca estamos prontos o coração coleciona ausências
e cresce sem que cresça o seu tamanho (daí a sensação de decepado embora nada tenha se anulado) fendido entre o familiar e o estranho
e assim levamos este peso, sem saber bem a o que ou a quem tantas reminiscências entregar
de estarmos cheios do que não sabemos querendo nascer, de cada dispêndio a partir da parte que nunca lemos:
a parte que resta depois do incêndio em seu sonho perpétuo de queimar na chama extinta que não sobe achar
299
episódio
tão breve dançou dentre as brasas e já se esvaiu
dessa cinza se faz tinta: eis a vida após a morte
dança de novo coração medroso na cor morta que imita a aurora
celebra em ti teu sonho distante que não se conclui jamais
269
diante de um texto póstumo
prazer de encontrar-te outra vez onde eu não te esperava
pudor de pousar o olhar numa só palavra
primor de escutar outra vez a tua canção
pavor de matar a esperança de ter sido a morte somente ilusão
243
o símbolo
onde o poeta acaba a poesia nasce
assim amamos as flores: para compor jardins do que nos escapa
257
canto
em meio ao que permanece, porque não permaneço, posso sofrer e cantar
fosse eu infinito para além da infinidade com que sinto, a cidade e a canção não eram tão grandes
302
poema de hades à espera do inverno
mediu-se à maneira de anúbis e viu voar a pluma
não por seu ódio, mas por seu amor, tão impiedoso quanto