yuri petrilli

yuri petrilli

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n. 2000-12-26, Cerquilho SP

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três sonetilhos

I

este infinito instante
em que vives agora
basta apenas que pisques
e pronto: é memória

inda não dás por isto
à sombra das batalhas
mas o tempo que torna
as crianças grisalhas

é este mesmo que colhe
teus momentos dispersos
e te confunde os olhos

para te dar, enfim,
da vida, alguns versos,
dos sonhos, seus espólios.


II

abre os olhos e vê:
o tempo já passou.
apenas em você
o instante não murchou.

este lugar não é
o de quando eras outro.
se aqui ainda vives,
talvez estejas morto.

nem houve no intervalo
de tempo dos teus olhos
qualquer sonho ou excesso...

mas se passaram anos.
e é como se tivesses
vivido em retrospecto.


III

como aceitar que a mão
que a minha mão enlaça
é só minha outra mão
que o coração disfarça?

a memória é um tecido
assim dissimulado
que tanto nos engana
mesmo estando rasgado

ah, que doce a mentira
que em mim se acalora
quase fisicamente...

mas o tecido é falho.
e as minhas mãos se esfriam
melancolicamente...

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Poemas

8

a vida é súbita

súbitas foram todas as flores
pelos caminhos colhidas,
e nunca palpáveis à distância:
no ponto em que surgiram,
existiram,
e traduzidas não cessaram.

nem foram catalogados
em futurologias
os cantos das aves submersas
em folhas de verde silêncio,
que imprescindíveis
e imprevisíveis
o fogo dos poentes sustentaram.

agora,
a sombra encobre
a encruzilhada.
o silêncio não acalanta,
a voz não chega à superfície,
e entre as pedras espalhadas
pelos incompreensíveis poros
que distam presente e memória,
resquícios de riso
buscam o riso,
porém se quebram e calam.

aves com asas de faca
rodeiam a morta flor
delimitada
dentro da palavra flor.
o desperdiçado pólen
pesa sobre a mão
que conteve a abelha.
a cidade é grande,
mortalmente pragmática.
é fácil perder 
as flores.

mas a poeira nas botas
remete à permanência da estrada.
entre uma pedra e outra pedra,
súbitas são as flores.

mas o coração sabidamente vermelho
pulsa alinhado
às cores das pétalas.
súbitos são os pássaros.

a mim,
desaprendido do ofício da alegria,
não seja, talvez, tempo
de desprender-me do ofício
da esperança.
a vida é súbita,
entre a inflorescência e a semente arruinada,
lampeja e desaparece,
e então regressa,
sempre à espera de nascer.
uma centelha rompendo
um caminho sem luz.

velha vida, lembrança da vida futura,
porque te amei – não mais te amando – ainda espero.
35

dois dísticos

I

esta recordação vai me exceder
eu vou morrer e não vou esquecer

 

II

por intermédio da memória de quem fomos
viveremos sempre sendo mais do que somos
19

o que fica

o que pretendi deixar
para deixar-me consigo,
não poupa-me de levar 
a mim pra morrer comigo.

posto no que agora sou,
não posso estar no que fiz.
só sombra se enraizou
da árvore sem raiz.

se mudo de opinião
à margem do tempo ido,
as letras não sabem: são.

mas, meu nome as tendo ungido,
resto, pra sempre, em meu não.
lembrado, e entanto, esquecido.
268

sibilo

em meu mosaico de escamas
guardo as partidas estrelas;
vê-as passar, se as amas,
que é inútil buscar retê-las.

aquele que me segura
ilude-se com um fantasma;
e o perfume que procura
reduz-se a mero miasma.

por isso, inda que eu te fira
o céu vazio, possessivo,
e teu sonho até prefira

um morto sol a um sol vivo,
não fujas à minha lira,
pois tanto eu dou quanto privo:

do rastro da luz que arquivo,
já um novo astro respira
– e outra vez tua vida gira.
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chronos

flutuo, enquanto a chuva não cai,
ao redor dos anéis de saturno, outra vez.
do alto deste ponto, me avisto noutro ponto.
de lá, porém, eu não me avisto. estou ocupado demais
amando as coisas que já não amo,
brincando em castelos de areia agora desfeitos,
dormindo à sombra de uma luz antiga.
sorrio: somos iguais. neste instante, noutro instante,
também me vê quem não me vejo.
ele que também sorri de meus oásis
enquanto se prepara para a morte.

unidos pelo ponteiro e separados por suas voltas
– um estalido familiar, à meia noite, anuncia: é tudo real.
17

de rosa em jasmim

e quando falas da flor,
este, que é um símbolo herdado,
falas, de fato, do amor
que algum poeta, há mil anos,
morreu sem ter confessado
20

poesia

a poesia é uma coroa de flores
sobre a miséria do amor
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pérola

surgido de sob a pele,
vindo de quaisquer dos lados,
o deserto nos impele
a oásis já desvendados.

em meio às areias dele,
nadamos, insaciados,
supondo águas que vertem
tão somente no passado;

então, vem o tempo: e corta,
antes do gole, a visão;
e resta, da imagem torta,

quando se impõe a razão,
só uma ilusão natimorta
dentro da concha da mão
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Comentários (4)

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sthefany

seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!

rosalinapoetisa

Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços

rosalinapoetisa

Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.

biancardi

Belos textos.