cosmologia
ver-te nua a compor constelações:
a água percorre teu cosmos febril,
a lâmpada te cede a estrela infante
se sobre a pele não se guarda o instante,
sob a pele se guarda o arrepio
tríptico sem título
I
meu coração se dissipou no laço.
restou-me o laço, amarrado no peito.
restou-me o peito, vazio descompasso.
restou-me o coração na mão sem jeito,
pois que do peito, onde antes se cumpria,
dissipou-se. enforcou-se na lembrança.
partiu para fora da poesia.
caiu na minha mão, sem esperança.
mas, coração, tem olhos e calor.
olhos que guardam o abismo e o espelho.
o vejo. me vê... (quase uma centelha).
se dissipará na mão o seu fulgor.
depois nada. nada? ...não. - o vermelho
laço restará na morada velha.
II
não tenho flor com que adornar o rude
labirinto de artérias e de músculos
que me compõe a vida. onde pude,
busquei. destrinchei mesmo os mais minúsculos
canteiros pisoteados das praças
da cidade, por onde o coração,
que tive, caminhava, em noites baças,
chutando latas - e recordação.
não tenho flor. não tenho rima ou verso.
tenho palavras. tenho duas mãos,
dentre as quais só uma escreve - impelida
pela falta. pelo pouco. pelo inverso.
nem disso a flor nasce. ah, e são tão vãos
os espólios desta ausência partida!...
III
a serpente se insere no silêncio.
nada é feito. então, vêm as aranhas.
nada é feito, mas visto: um olhar pênsil
(o meu?) o assiste. mas as teias, tamanhas,
estão já armadas para a captura.
serpente e aranhas. nada, nada é feito.
outro olhar vê. e outro. e outro. e da impura
inação surgem moscas. zumbe o peito
(o meu?) que se supõe bem mais sensível,
e indaga, contente, qual a razão
da perpetuação de tal má sorte.
por fora: "ninguém se importa? é possível?"
(mas a esperança dorme em sua mão.)
por dentro: "é. talvez nem eu me importe"
tríptico de outubro
i.
a noite acusa
crimes
diurnos.
ii.
espias pela janela
e sabes:
ninguém te espera.
fitas o fundo da noite
e sentes:
ninguém te ouve.
anônimo e só,
não há estrela visível,
não há esperança por acaso plausível,
e a música que se insinua distante
é apenas um borrão sonoro
indistinguível.
entendes que não virá canto
compensar a treva dispersa,
e mesmo o campo já não te comove
(viste lá também a morte).
sabes, pequeno, das dores,
das flores, dos bichos, das chuvas,
dos instantes se esfarelando...
esqueces e calas.
muito não sabes ainda do que ainda te fará sofrer,
e só o compreendes de longe.
e ainda assim em ti se faz um poema:
um poema se faz
nas suas entranhas.
um poema forjado com palavras indizíveis, dolorosas,
extraídas das turvas formas
e faces
da noite.
um poema que ninguém espera,
um poema que ninguém ouve,
um poema retorcido, heroico, imenso e patético
que ninguém jamais saberá sequer
que um dia
existiu.
mas tu, e só tu só,
à janela de ferro pobre,
carregas a dor
e sabes
que o poema existe.
e persiste
por idades
cruamente.
iii.
a noite destilada
decomposta
pinga
na ferida
exposta
que arde
e se fecha
lentamente.
provisoriamente
são absolvidos
os mutiladores
confessos
de alvoradas.
dormem todos...
– com facas
e sementes
nas mãos
fechadas.
ambíguo
não tens resposta e não teces proposta
em poema. lamentas, mas lamentos
são cansativos e cansar desgosta.
já não te alevantas contra os momentos.
a poesia esvaziou-se toda.
a poesia não tem mais poesia.
na superfície pensas: "que se foda,
é isto", mas, de fato, sob a névoa fria
e espessa que paira sobre teus olhos
(e que te impele a escrever de tal modo,
alheio e amargurado, como agora)
cativas a luminescência entre espólios.
és vela opaca sobre um mundo todo.
e és o próprio pavio que te devora.
o tempo e as coisas
fará cinquenta anos o primeiro videogame
e logo vinte anos de eu menino a teimar:
"deixa eu jogar!" (à noite), e minha mãe: "não teime!".
e ainda haverá o meu irmão para teimar.
fará trinta anos o filme que via há tanto,
filme que via sabendo que ia me assustar.
fará trinta anos! cinquenta, cem... e, no entanto,
ainda haverá o meu amigo para se assustar.
fará seis anos o momento que passei,
lembrança compartilhada a reverberar.
momento que se distancia no que sei.
e ainda haverá a minha irmã para o lembrar.
depois não serei. o que fui vai se acabar.
e ainda haverá algo meu no tempo e coisas, no ar.
quando eu era criança...
quando eu era criança
e tarde da noite cismava permanecer acordado,
diziam meus pais:
"vai dormir,
que todas as outras crianças do mundo
já estão dormindo tranquilamente
uma hora dessas",
e eu dormia,
meio a contragosto,
mas em comunhão com as crianças todas do mundo,
supostas.
hoje, sabendo do desamparo,
das calçadas frias e duras
de são paulo,
do chão arenoso áspero de terras muito longes,
de estouros de rojão e de tiroteios e cólera,
da parte que porventura tomo nisto tudo
e da impotência das vozes e mãos e crenças humanas,
já não mais podendo, assim, tornar da vida
à mentira suave,
ao tal sono em comunhão
com todas as crianças do mundo
dormindo tranquilamente,
me resto acordado
por vezes
me envenenando.
eventualmente, dormirei.
mas, perdida a ilusão,
talvez nunca mais tão tranquilamente.
a cidade revisitada
...mas a cidade ainda existe,
e tem ainda casas e ruas e labirintos
e alicerces
que, revistos,
encarnam as cores de todos os olhos
que espiam incrédulos.
mas ainda existem – e por muito existirão –
pés deslizando bruscos pelas calçadas
e calcanhares e pernas apressadas
de homens e mulheres
trespassando o mormaço
a serviço,
ou tornando da vida
à noite
para um cigarro, talvez, ou dois, ou três.
há infinitos pisoteada e existindo,
a cidade é o palco
dos sapateados involuntários,
da pantomima de alguns,
dos monólogos de tantos,
dos silêncios de inúmeros.
é o teatro onde as cortinas só se cerram
sob a terra ignorada,
onde não se alegra com as flores dadas por conveniência
ao fim do espetáculo.
e ainda existe porque a arte vaga de existir
em tudo se imprime ainda
no que não existe, e se projeta no tangível.
a cidade ainda existe.
“que venha logo a escura noite,
com seu intervalo e seu álcool”,
clamam as almas
que em seus estômagos sabem
do ato vindouro e sem ensaio.
o barquinho
Um par de mares claros
E outro de mãos macias
Instruíam-me ligeiros.
Modelei, às suas luzes,
Em um folhetim qualquer
Seus ensinamentos precisos:
Nascia então o primeiro
De meus barquinhos
– Já à deriva, naqueles olhos.
Hoje, todo o potencial
Que outrora teve de cortar águas
Está naufragado em uma caixa.
E embora tal tragédia
Não comova, inda cismo imaginar
Como teriam sido suas viagens...
(Por pensamentos esparsos,
Meu primeiro amor
Navega).
as notícias
cá neste Brasil confesso
que de cansado me apresso.
e o jornal lembra um romance
quando lido de relance:
fome, crime passional,
previsão do tempo e astral,
eventos mirabolantes,
gravatas beligerantes,
holocausto, pianista,
inferno, salada mista,
estética e tendência,
e uns mil mortos por doença;
leio-o sem nó na garganta,
no café, no almoço, na janta...
pois não há alma num número,
nem braço tem quem quebra o úmero
se se o lê numa contagem,
dentre tantos, é miragem,
teatral estripulia,
coluna de poesia,
ficção, melancolia,
mágica e demagogia.
melhor pular essa parte.
estou farto de tanta arte.
tchau, tchau, viu, senhor jornal?
(quase te pensei real).
quero arroz, feijão e vagem
e um pouco de sacanagem.
noturno contrito
noite,
rasga a camisa da pele
que visto,
mas pousa-me
um anel
de perdão
em meu bolso.
apedreja o vitral
dos meus olhos cansados,
mas dá-me
o sabor
do silêncio
partido.
cava-me o peito vazio
até não restar nada,
mas traz-me
de volta
um sonho
na concha
das mãos.
noite.