Ébrio
Sou um ébrio amante que mudou de foco:
Se era antes o teu corpo, é agora o copo.
Não mais há mel dos lábios, mãos, ou seios...
Há só o torpor de um desamor sem anseios.
Sou quem busca o incerto em devaneios
Diluído em cerveja, afogado em receios
Vendo a imagem reluzente de ti, no topo,
Florida na sujeira – ramo triste de hissopo.
Mas o solo que há em mim é alcoolizado
Pobre e mendigo, incapaz de abrigar flor,
E a visão que tenho de ti é um sonho malogrado,
Emoldurado, na lembrança, como um amor,
Sendo o âmbar defronte a este ébrio desatinado
De tais distorções sentimentais, o catalisador.
Poço
Tentar extrair deste poço de angústia que sou
Uma mísera redondilha de amor, que seja,
É tal qual personificar a figura do tolo
Que busca fisgar espadartes no rio.
...É possível.
Desde que seja história de pescador.
Manias Birutas
O amor é um rei louco
Que dita regras ao coração,
Desejando sempre de tudo um pouco,
Sem saber acatar um “não”;
Nessa loucura do tal amor,
É o coração quem sofre o estorvo...
Mal se cura da última dor,
E já é obrigado a amar de novo;
Amando assim, tão loucamente,
Fere-se na busca por candor...
Mas, afinal, quem é que entende
As manias birutas do amor?
Migalha
Tem muito de ti
No pouco de mim.
Tu és começo e fim
Do que escrevo aqui.
Cada rouca rima
Dedico-te, a um traço
Ou, quiçá, um abraço
– Mesmo uma lágrima.
Todas as memórias doces
São dóceis fragmentos
Do que me fosses.
E cada poema meu
Não passa de migalha
De um sorriso teu.
Lembranças Feitas de Chuva
Tenho lembranças feitas de chuva:
Aguaçais, relâmpagos e trovões!
Desaguam suas tempestades imprevistas
Em pancadas fortes de emoções.
Como se exaure a chuva, senão com chuva?
...E muito chovo, assim, a relembrar...
De pingo em pingo, de gota em gota
Poder-se-ia encher todo um mar.
O mar que encho se chama página,
Em versos nublados de chuva caída.
Tenho lembranças feitas de chuva...
E nuvens feitas de águas da vida.
Intermédio
Não vivo, nem morro.
Existo em intermédio
A vaguear no tédio
Sem saber pra onde corro.
O céu, o sonho...
Não me são tristes ou pesados.
São apenas dessaborados
Pelo ócio enfadonho.
Eu sigo.
Retratos
Ver-se crescido é angustiar-se
Ao revisitar velhos retratos
E não mais reconhecer-se.
Ah! Saudosos tempos abstratos...
Criança efêmera a rir-se...
Combustível
Não há poesia que surja do acaso.
Por trás de cada verso há um caso.
Nas estrofes há sangue. Nas letras, há dor.
Há as culminações dos instantes
Há desventuras de amor.
Há a felicidade, e há o desejo de ser feliz!
Há o choro, o sorriso – há aquilo que não se diz.
Há a culpa. Há a coragem.
Há a imaginação. Há a miragem.
Há guerras, há paz,
Há um misto de insumo
De humano, de tolo, e de sagaz.
Há, ainda que se possa desaperceber,
Fragmentos do que somos
– E do que pensamos (e desejamos) ser.
Há sempre algo mais
Que reside por trás
Da arte que se faz.
Mesmo o verso espontâneo
Não é um surgimento sem explicação:
É o estouro da barragem
Do denso rio do coração
Que faz com que todos os seus percursos
Convirjam em uma direção.
...É a vida o combustível
Que torna a poesia possível.
Aliança
Formas partidas de cores queridas
Na carne de dois dançantes errantes
Que sucumbem aos grilhões dos instantes
Até que os instantes calem suas vidas
E embora calem as vidas, jazidas,
À sepultura do amor dos amantes,
Inda giram na memória, cantantes,
No carrossel das emoções perdidas...
Tão sutil lembrança, sem esperança...
Tal qual treco quebrado, sem conserto.
Esquecida, numa caixa, a aliança...
Moldada com esmero, por decerto,
Dada, inda, à insignificância
De remeter corações ao deserto.
Crepúsculo da Estrela
Meu corpo é uma casca que jaz alheada,
Neste crepúsculo de céu profundo,
Esquecida da vida, esquecida do mundo,
Vislumbrando uma rua repleta de nada;
Acima desta rua nula, triste e desatinada,
Reside, ao degredo, um lume jucundo
Observada por meu espírito moribundo,
No azul, reluz uma única estrela abandonada;
Perco um suspiro nesta acre contemplação:
Vejo-a, e penso que ela me vê, também...
Alva luz súbita – leito de meu ferido coração;
Só o que me liga a mim, é o brilho que ela tem...
Em seu exílio vão, encontro eu compreensão
E sigo em solidão; só eu, a estrela, e mais ninguém;