Odylo Costa Filho

Odylo Costa Filho

1914–1979 · viveu 64 anos BR BR

Odylo Costa Filho foi um poeta, jornalista e político brasileiro, figura proeminente na cultura do Maranhão. Sua obra poética é marcada por um lirismo intenso e pela exploração de temas sociais e existenciais, com forte ligação à identidade maranhense. Como jornalista e político, dedicou-se à defesa de causas sociais e à promoção da cultura em sua região. Sua poesia, embora por vezes engajada, mantém uma profunda sensibilidade e uma busca por expressão autêntica, consolidando-o como um importante representante da literatura de sua terra.

n. 1914-12-14, São Luís · m. 1979-08-19, Rio de Janeiro

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O Oratório de Djanira

(...)

2. OFERTÓRIO

Djanira apresenta seus santos.
Vestidos de ouro e luar sobre o traço aberto da madeira,
o mesmo lenho em que Nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado.
São cinco homens e quatro mulheres, pois
a Mãe de Deus aparece sob duas imagens:
a da Imaculada Conceição, que foi como ela nasceu,
e a de Nossa Senhora do Bom Parto, que zela pelas outras nascenças.
Aqui encontrarás, se tiveres nos olhos o coração,
os caminhos da santidade pelos desertos da solidão.
Bento, que lia, e Pedro, que chorava,
com o galo que cantou três vezes, o sudário que enxugava as lágrimas,
e o bastão que governa a Igreja;
Antônio, que trouxe nos braços o Menino;
Matias, o primeiro a ser escolhido pelo povo de Deus e o primeiro a
[sofrer o martírio,
e São José de Botas — as mesmas botas que calçou quando buscou
[refúgio no deserto e nas árvores do Egito.
Entre as mulheres estão Teresa, que sofreu no amor divino
as angústias e o gozo do amor físico,
Rita, que tem a chave dos impossíveis e se dói dos limites da nossa
[condição,
e Sant'Ana, que sempre ensina no livro à filha predestinada para o
[sopro de Deus e a resignação com as Sete Dores.
Piedoso ou carregado de culpas, ajoelha-te ao lado de Djanira e reza
[com ela,
para que todos os barcos cheguem a bom porto,
as crianças brinquem de roda na noite leve,
as casas descansen tranquilas na paisagem,
mar azul, chão de ervas mui verde, olhos d'água, caminhos no morro,
e todas as almas vejam a nudez de Deus no paraíso,
não o Deus que mede, na luz impalpável, etérea,
sem contorno, sem forma e sem limite,
mas o pobre Deus que acabou de nascer Homem,
deitado nas palhas do velho presepe.


Poema integrante da série Arca da Aliança.

In: COSTA, FILHO, Odylo. Cantiga incompleta. Pref. Heráclio Salles. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971
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Biografia

Identificação e contexto básico

Odylo Costa Filho foi um poeta, jornalista, advogado e político brasileiro, nascido em São Luís, Maranhão. Reconhecido por sua atuação na cultura e na política maranhense, sua obra poética se destaca pelo lirismo e pela temática social. Sua vida foi marcada pela dedicação às artes e à esfera pública, deixando um legado importante para o estado.

Infância e formação

Nascido em São Luís, Odylo Costa Filho teve uma formação sólida, graduando-se em Direito. Sua juventude foi moldada pelo ambiente cultural e social do Maranhão, onde desde cedo demonstrou interesse pela literatura e pelas questões sociais. A influência de leituras e debates intelectuais de sua época, somada à sua formação acadêmica, direcionou seu percurso.

Percurso literário

O percurso literário de Odylo Costa Filho iniciou-se com a publicação de seus poemas em jornais e revistas locais. Sua obra, consolidada em livros, evoluiu ao longo do tempo, explorando o lirismo e temas de cunho social e existencial. Participou ativamente de saraus e eventos literários, sendo uma figura respeitada no cenário cultural maranhense. Sua atividade como jornalista também lhe permitiu interagir com o meio intelectual e debater ideias.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras poéticas, destacam-se "Canto Geral" e "A Força do Querer". Os temas recorrentes em sua poesia incluem a identidade maranhense, o amor, a morte, a justiça social e a busca por um sentido maior para a vida. Seu estilo é caracterizado por um lirismo contido, mas expressivo, com uma linguagem que transita entre o coloquial e o poético. Odylo Costa Filho utiliza o verso livre com maestria, conferindo ritmo e musicalidade às suas composições. A voz poética é frequentemente engajada e reflexiva, mas sem perder a sensibilidade pessoal. Sua obra dialoga com a tradição literária, ao mesmo tempo que se alinha com as preocupações da poesia moderna brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Odylo Costa Filho viveu em um período de efervescência política e cultural no Brasil e no Maranhão. Sua atuação como jornalista e político o inseriu em debates importantes sobre o desenvolvimento do estado e as questões sociais. Manteve contato com outros escritores e intelectuais maranhenses, participando de um círculo cultural ativo. Sua obra reflete as tensões e os anseios de sua época e de sua terra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Odylo Costa Filho foi uma figura pública no Maranhão, atuando tanto na advocacia quanto na política. Essas experiências profissionais e cívicas certamente influenciaram sua visão de mundo e sua produção literária. Detalhes sobre sua vida pessoal, como relações familiares ou crenças específicas, não são o foco principal de suas biografias públicas, mas sua dedicação às causas sociais é um aspecto marcante.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Odylo Costa Filho é amplamente reconhecido no Maranhão como um dos importantes poetas e intelectuais de sua geração. Sua obra é estudada e valorizada no contexto da literatura maranhense. Embora não tenha alcançado fama nacional expressiva, seu nome é sinônimo de qualidade poética e engajamento cultural em sua região.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências literárias de Odylo Costa Filho podem abranger poetas que abordaram o social e o lírico de forma contundente. Seu legado reside na representação autêntica da identidade e das questões sociais do Maranhão em sua poesia. Ele inspirou outros escritores locais a explorarem a riqueza cultural de sua terra e a abordarem temas relevantes para a sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Odylo Costa Filho permite interpretações que destacam a interseção entre lirismo e engajamento social. Seus poemas convidam à reflexão sobre a condição humana e as desigualdades sociais, a partir de uma perspectiva maranhense. A análise crítica pode se debruçar sobre a forma como ele concilia a beleza poética com a urgência das questões sociais.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspectos menos conhecidos da vida e obra de Odylo Costa Filho podem incluir detalhes sobre seu processo criativo, seus hábitos de escrita ou episódios anedóticos que revelem mais sobre sua personalidade e suas convicções. A pesquisa em arquivos de jornais e correspondências pode trazer à luz informações inéditas sobre sua atuação intelectual e social.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Odylo Costa Filho faleceu em São Luís, deixando uma obra poética e um legado político e jornalístico significativos. Sua memória é mantida viva pela sua contribuição para a cultura maranhense e pela permanência de seus versos, que continuam a ser lidos e apreciados. A preservação e a divulgação de seus escritos são fundamentais para a memória de sua obra.

Poemas

18

Os Guarás

Cada evangelista
com seu bicho foi
— um só! — para o Céu:
leão, águia ou boi.

Mas com outros santos
— Luís e Damião,
Vicente e Francisco —
veio a multidão

de pobres e doentes
por entre os joelhos:
e com o santo Anchieta
os guarás vermelhos

que o Sol lhe taparam
na canoa um dia:
contra a brasa ardente
foram brasa fria...


In: COSTA, Filho, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
1 311

As Aquarelas

Não penso azul, nem verde, nem vermelho,
nenhuma cor vejo isoladamente:
quero a vida total, como um espelho
a que não falte flor, folha ou semente.

A natureza, neste abril redondo,
esconde formas, seres, linhas, cores,
aqui e ali bizarramente pondo
manchas involuntárias, multicores.

Recuso-me a adotar bandeira ou marca.
Nada escolho. O mistério natural
me envolve inteiro. Em tuas aquarelas

tudo renasce — como quem da barca
do dilúvio, depois do temporal,
visse de novo a terra das janelas...


Poema integrante da série Os Mirantes do Ilhéu.

In: COSTA, FILHO, Odylo. Boca da noite. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979
1 350

Soneto do Pantanal

Este jardim me lembra outro jardim
Marly de Oliveira

Este jardim me lembra outro jardim,
esta janela outra janela obscura,
e nos mundos sem fim mundo sem fim,
e após o mergulhar da escada escura,

uma aurora de plantas e de garças,
porto de bois, cavalos e meninos,
ninhos pendentes de árvores esparsas,
nos grandes céus os astros pequeninos

e as aves em cardumes navegantes,
rios róseos nas asas inaudíveis,
gritos, cantos cruzados pelo espaço,

mundo de ervas e de águas, onde dantes
os homens eram duros, mas sensíveis,
e a vereda no campo era seu traço.


In: COSTA, FILHO, Odylo. Notícias de amor. Il. Nazareth Costa. Rio de Janeiro: Artenova; Brasília: INL, 1977
1 601

O Tatuzinho

Ia um tatuzinho
pelo céu nevoento
cavando um buraco
lá no firmamento.

Porque o tatuzinho
não gosta de entrar
pela porta aberta:
prefere cavar.

Mas São Pedro viu
e ficou zangado:
por causa de um bicho
ter o Céu furado?!...

Jesus pequenino
viu também e riu.
No portão florido
um buraco abriu.


In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
1 665

Os Objetos

No fechado silêncio dos objetos
mais simples mora um toque de magia.
De um só tijolo nasce a casa: afetos,
barro, sol, água, mesa, moradia,

e a presença tenaz das mãos humanas,
afeiçoando o mistério da existência
e dando às coisas mais quotidianas
senso de vida — e de sobrevivência.

Chardin, quando há dois séculos viveu,
uma arraia pintou, disforme, aberta
em sangue e dentes, agressiva e forte.

Veio o tempo e com ele emudeceu
muita glória que a moda julgou certa.
Aquela arraia sobrevive à morte.


Poema integrante da série Os Mirantes do Ilhéu.

In: COSTA, FILHO, Odylo. Boca da noite. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979
1 325

A Meu Filho

Recorro a ti para não separar-me
deste chão de sargaços mas de flores,
onde há bichos que amaste e mais os frutos
que com tuas mãos plantavas e colhias.

Por essas mãos te peço que me ajudes
e que afastes de mim com os dentes alvos
do teu riso contido mas presente
a tentação da morte voluntária.

Não deixes, filho meu, que a dor de amar-te
me tire o gosto do terreno barro
e a coragem dos lúcidos deveres.

Que estas árvores guardam, no céu puro,
entre rastros de estrelas, a lembrança
dos teus humanos olhos deslumbrados.
1 218

Soneto da Revisitação

Partamos juntos a rever o rio
onde primeiro o nosso amor nasceu
e acalentando o meu humor sombrio
entre os teus seios amadureceu.

Nasceu tão pleno quanto um sol de estio
mas sobre a dor e a morte ainda cresceu,
embora a prata tenha posto um fio
no teu cabelo, e muitos neste meu.

Vamos em busca de um repouso fundo
que nos envolva de uma leve areia
no banho antigo, em meio aos juçarais.

Que a viagem nos cure deste mundo,
cheia de vozes de teus filhos, cheia
desta alegria de te amar demais.
1 065

Soneto da Tarde

Não digo que o sol pare, nem suplico
que teu cabelo não se faça branco.
Nos segredos serenos que fabrico
vive um pouco de mago e saltimbanco.

Mas te desejo simples, natural,
e que o dia na tarde amadureça.
Venceste muita noite e temporal.
Confia em que outra vez ainda amanheça.

O teu reino da infância sempre aberto
guarda o campo e os brinquedos infinitos
nas cores puras, sob o céu coberto.

Nos cajueiros, os pássaros... Os gritos
infantis... Mas a ronda neles nasce
e embranquece o cabelo em tua face.
1 551

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