Olavo Bilac

Olavo Bilac

1865–1918 · viveu 53 anos BR BR

Olavo Bilac foi um poeta, jornalista e professor brasileiro, amplamente considerado um dos maiores nomes do Parnasianismo no Brasil. Sua obra é marcada pela perfeição formal, pelo rigor métrico e pela temática voltada para o amor, a pátria e os ideais clássicos. Bilac é conhecido por seu nacionalismo exacerbado e por sua habilidade em versificar, tendo sido um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

n. 1865-12-16, Rio de Janeiro · m. 1918-12-28, Rio de Janeiro

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Um beijo

Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior...Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
batismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto....
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Biografia

Identificação e contexto básico

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac foi um poeta, jornalista, professor e crítico literário brasileiro. Nasceu no Rio de Janeiro em 16 de dezembro de 1865 e faleceu na mesma cidade em 28 de dezembro de 1918. É considerado o "Príncipe dos Poetas Brasileiros" e um dos maiores expoentes do Parnasianismo no Brasil. Era filho de Augusto Emílio Bilac e de Dona Delfina Martins Guimarães.

Infância e formação

Passou a infância e a juventude no Rio de Janeiro. Iniciou os estudos de humanidades no Colégio Abaeté e depois no Colégio São Pedro de Alcântara. Chegou a ingressar na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, mas abandonou o curso para se dedicar ao jornalismo e à literatura. Sua formação foi marcada por uma sólida base clássica e por leituras de autores como Victor Hugo, Goethe e os poetas parnasianos franceses.

Percurso literário

Começou a escrever poesia na adolescência, influenciado pelo Romantismo tardio e pela emergente estética parnasiana. Seu primeiro livro, "A Poeira", foi publicado em 1888. A partir daí, consolidou-se como um dos líderes do movimento parnasiano no Brasil, destacando-se por sua habilidade técnica e pela busca da perfeição formal. Foi um jornalista atuante e prolífico, colaborando com diversos jornais e revistas da época, onde também publicava crônicas e poemas. Participou ativamente da vida cultural carioca.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Suas obras principais incluem "A Poeira" (1888), "Via Láctea" (1888), "Profissão de Fé" (1888), "Riachão" (1891), "Poesias" (1895), "Tarde" (1914) e "D.N.A." (1915). Temas recorrentes em sua obra são o amor, a pátria, a beleza clássica, a efemeridade do tempo e a busca pela perfeição artística. Seu estilo é marcadamente parnasiano, caracterizado pelo rigor formal, pelo uso de métrica e rima perfeitas, pela objetividade descritiva e pelo vocabulário culto e preciso. Dominava o soneto e outras formas poéticas tradicionais. Sua poesia é frequentemente celebrada pela musicalidade e pela riqueza imagética, mas criticada por um certo academicismo e distanciamento da realidade social. Bilac inovou ao incorporar temas nacionais e ao defender uma poesia engajada com o Brasil, afastando-se do egocentrismo de alguns românticos e da objetividade fria de outros parnasianos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Viveu durante um período de grandes transformações no Brasil, como a Proclamação da República e o início do século XX. Foi um período de consolidação do Estado nacional e de busca por uma identidade cultural brasileira. Bilac, com seu forte nacionalismo, contribuiu para a construção dessa identidade, exaltando a pátria e a língua portuguesa. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras em 1897, onde teve papel de destaque. Era um intelectual influente e respeitado em sua época, dialogando com outros escritores de sua geração e participando ativamente dos debates culturais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Casou-se com Amália dos Prazeres de Oliveira, com quem teve duas filhas. Dedicou-se intensamente à vida literária e ao jornalismo, tendo sido professor de português no Colégio Pedro II. Sua vida foi marcada pela dedicação à arte e à pátria. Teve convicções republicanas e defendeu o ensino da língua portuguesa com fervor. Apesar de seu prestígio, enfrentou dificuldades financeiras em alguns momentos de sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Foi aclamado em vida como o "Príncipe dos Poetas Brasileiros", um título que reflete o imenso prestígio que desfrutou. Recebeu diversas homenagens e foi um dos nomes mais celebrados da literatura brasileira de sua época. Sua obra foi amplamente divulgada em jornais, revistas e antologias, e seu nome tornou-se sinônimo de excelência poética. Embora o Parnasianismo tenha caído em desuso com o advento de novas escolas literárias, o nome de Bilac permaneceu como um marco na história da poesia brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Foi influenciado pelos parnasianos franceses, como Théophile Gautier e Leconte de Lisle, e também por poetas da língua portuguesa como Camões. Seu legado é o de um mestre da forma poética, um nacionalista fervoroso e um dos pilares do Parnasianismo brasileiro. Sua influência pode ser vista na geração de poetas que o sucederam, que admiravam sua técnica e seu patriotismo. Ele ajudou a moldar o cânone literário brasileiro e a consolidar a língua portuguesa como veículo de expressão poética de alta qualidade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bilac tem sido objeto de análises que destacam tanto sua maestria técnica quanto o conteúdo de seus versos. Enquanto alguns críticos apontam para a perfeição formal e a beleza das imagens, outros questionam a originalidade e a profundidade de suas reflexões sobre a condição humana. O debate sobre a relevância do Parnasianismo e do nacionalismo em sua obra continua a alimentar a crítica literária.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bilac era conhecido por seu perfeccionismo na escrita, passando longas horas a lapidar cada verso. Era um defensor ardoroso da língua portuguesa e um crítico severo dos desvios gramaticais. Dizia-se que era capaz de "desentortar" frases e palavras. Uma curiosidade é que ele teve problemas de saúde, como a tuberculose, que o acompanharam por parte de sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Olavo Bilac faleceu em 1918, em decorrência de uma pneumonia, poucos dias após seu aniversário de 53 anos. Sua morte causou grande comoção nacional. Foi sepultado no Cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro. Sua memória é mantida viva através de seus poemas, que continuam a ser lidos e estudados, e de ruas, escolas e logradouros que levam seu nome em todo o Brasil. Continua a ser um símbolo da poesia nacional e da Academia Brasileira de Letras.

Poemas

73

Um beijo

Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior...Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
batismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto....
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A Pátria

Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
É um seio de mãe a transbordar carinhos.
Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!
Vê que grande extensão de matas, onde impera
Fecunda e luminosa, a eterna primavera!

Boa terra! jamais negou a quem trabalha
O pão que mata a fome, o teto que agasalha...

Quem com o seu suor a fecunda e umedece,
Vê pago o seu esforço, e é feliz, e enriquece!

Criança! não verás país nenhum como este:
Imita na grandeza a terra em que nasceste!


In: BILAC, Olavo. Poesias infantis. 18.ed. Rio de Janeiro: F. Alves, 195
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Ora (direis) Ouvir Estrelas!

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.
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O Pássaro Cativo

Armas, num galho de árvore, o alçapão
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.
Dás-lhe então, por esplêndida morada,
Gaiola dourada;

Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos e tudo.
Por que é que, tendo tudo, há de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste sem cantar?
É que, criança, os pássaros não falam.

Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:

"Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro

Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores
Sem precisar de ti!

Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola,
De haver perdido aquilo que perdi...
Prefiro o ninho humilde construído

De folhas secas, plácido, escondido.
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pombas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me, covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade!
Não me roubes a minha liberdade...
Quero voar! Voar!

Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar,
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição,
E a tua mão tremendo lhe abriria
A porta da prisão...

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Delírio

Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci....

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Língua Portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


Publicado no livro Tarde (1919).

In: BILAC, Olavo. Poesias. Posfácio R. Magalhães Júnior. Rio de Janeiro: Ediouro, 197
31 216

As Ondas

Entre as trêmulas mornas ardentias,
A noite no alto-mar anima as ondas.
Sobem das fundas úmidas Golcondas,
Pérolas vivas, as nereidas frias:

Entrelaçam-se, correm fugidias,
Voltam, cruzando-se; e, em lascivas rondas,
Vestem as formas alvas e redondas
De algas roxas e glaucas pedrarias.

Coxas de vago ônix, ventres polidos
De alabastro, quadris de argêntea espuma,
Seios de dúbia opala ardem na treva;

E bocas verdes, cheias de gemidos,
Que o fósforo incendeia e o âmbar perfuma,
Soluçam beijos vãos que o vento leva...


Publicado no livro Tarde (1919).

In: BILAC, Olavo. Poesias. Posfácio R. Magalhães Júnior. Rio de Janeiro: Ediouro, 197
18 720

As Velhas Árvores

Olha estas velhas árvores, — mais belas,
Do que as árvores mais moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas . . .

O homem, a fera e o inseto à sombra delas
Vivem livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E alegria das aves tagarelas . . .

Não choremos jamais a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,

Na glória da alegria e da bondade
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

31 750

Olha-me!

XX

Olha-me! O teu olhar sereno e brando
Entra-me o peito, como um largo rio
De ondas de ouro e de luz, límpido, entrando
O ermo de um bosque tenebroso e frio.

Fala-me! Em grupos doudejantes, quando
Falas, por noites cálidas de estio,
As estrelas acendem-se, radiando,
Altas, semeadas pelo céu sombrio.

Olha-me assim! Fala-me assim! De pranto
Agora, agora de ternura cheia,
Abre em chispas de fogo essa pupila...

E enquanto eu ardo em sua luz, enquanto
Em seu fulgor me abraso, uma sereia
Soluce e cante nessa voz tranqüila!

7 881

Nel Mezzo del Camin

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.


Publicado no livro Poesias, 1884/1887 (1888). Poema integrante da série Sarças de Fogo.

In: BILAC, Olavo. Poesias. Posfácio R. Magalhães Júnior. Rio de Janeiro: Ediouro, 197
49 993

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Comentários (14)

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Luiza
Luiza

Sem gerúndio, muito bom.

Di Carvalho- escritora
Di Carvalho- escritora

Triste!!!! Extremamente maravilhoso!!!

Extremo poeta... educativo e emocional. ademir.

vera
vera

adorei muito educativos e profundos

Dani
Dani

A Amada dele foi Amélia de Oliveira, irmã de Alberto de Oliveira (melhor amigo dele)Eles foram impedidos de ficarem juntos por causa do irmão mais velho dela,o juca. Reza a lenda que trocaram sonetos e poemas pro outro.So se reencontram em 1910,já ambos de meia idade .Amélia era poetiza ,chegou a cuidar de Bilac nos últimos meses de vida dele .Ela morreu em 1945,solteira e sempre ia lá cemitério visitar o túmulo dele. Segundo cora bilac ,irmã dele, amiga de Amélia, o amor do irmão dela era Amélia