Oswald de Andrade

Oswald de Andrade

1890–1954 · viveu 64 anos BR BR

Oswald de Andrade foi um poeta, romancista e ensaísta brasileiro, uma figura central do modernismo no Brasil. Sua obra é marcada pela irreverência, pela experimentação linguística e por uma forte crítica aos valores tradicionais e à influência estrangeira na cultura brasileira. Foi um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, evento que introduziu as vanguardas europeias no país, propondo uma arte genuinamente nacional, despojada de academicismos e voltada para as raízes brasileiras.

n. 1890-01-11, São Paulo · m. 1954-10-22, São Paulo

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Erro de Português

Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Oswald de Andrade (nome completo: José Oswald de Andrade) foi um dos mais influentes escritores brasileiros do século XX, pseudônimo mais conhecido de José Oswald de Andrade. Nascido no dia 11 de maio de 1890, em São Paulo, e falecido em 22 de outubro de 1954, na mesma cidade. Filho de Mário de Andrade (homônimo do escritor modernista) e de Guiomar de Andrade, pertencia a uma família da elite cafeicultora paulista, o que lhe conferiu uma formação privilegiada e acesso a círculos intelectuais e artísticos. Era brasileiro e escrevia em português. Viveu um período de intensas transformações no Brasil, marcado pelo crescimento urbano e industrial de São Paulo, pelas primeiras décadas da República e pela crescente influência das vanguardas artísticas europeias.

Infância e formação

Oswald de Andrade teve uma infância confortável em São Paulo, frequentando a escola primária no Colégio São Bento e, posteriormente, o curso secundário no Ginásio São Paulo. Sua educação formal foi complementada por um forte interesse em literatura, arte e cultura, absorvendo influências de autores clássicos e contemporâneos, bem como das correntes filosóficas e artísticas europeias, como o Futurismo e o Cubismo. A viagem à Europa em 1912 e 1913 foi um marco em sua juventude, onde entrou em contato direto com a efervescência cultural de Paris, consolidando seu desejo de modernizar a arte brasileira.

Percurso literário

Oswald de Andrade iniciou sua carreira literária no jornalismo, publicando crônicas e poemas em jornais de São Paulo a partir de 1909. Seu grande marco de estreia na literatura foi o livro de poemas "Pau-Brasil" (1925), seguido por "Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade" (1927), ambos emblemáticos do movimento modernista. Ao longo de sua obra, Oswald demonstrou uma notável evolução, passando de um lirismo inicial a uma poesia mais concisa, irônica e engajada com as questões sociais e culturais do Brasil. Colaborou ativamente com diversas revistas e jornais de vanguarda, como "Klaxon" e "Revista de Antropofagia", onde também atuou como um importante articulador cultural e teórico.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Oswald de Andrade incluem os livros de poemas "Pau-Brasil" (1925), "Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade" (1927), "Serpente Dourada" (1928), e os romances "Memórias Sentimentais de João Miramar" (1924) e "Serafim Ponte Grande" (1933). Seus temas dominantes abordam a identidade brasileira, a crítica à colonização, a modernidade, o cotidiano urbano, o amor e a brasilidade. Em termos de forma, Oswald experimentou com o verso livre, a fragmentação, a brevidade e a linguagem coloquial, rompendo com as estruturas poéticas tradicionais. Seu estilo é marcado pela ironia, pela irreverência, pelo humor, pela concisão e pela síntese, utilizando recursos como a metáfora e a aliteração para criar um ritmo ágil e musical. A voz poética é frequentemente pessoal e irônica, mas também se volta para uma visão crítica da sociedade e da cultura. Oswald introduziu inovações formais e temáticas ao propor uma poesia de exportação, que valorizava a matéria bruta e a força da cultura brasileira, dialogando com a tradição e a modernidade de forma original. É associado ao Movimento Modernista Brasileiro, sendo um dos seus pilares, especialmente com a proposta da Antropofagia.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Oswald de Andrade viveu em um período de intensas transformações no Brasil e no mundo. Sua obra dialoga diretamente com os eventos históricos, como a Semana de Arte Moderna de 1922, a Era Vargas e os debates sobre a identidade nacional. Ele pertenceu à primeira geração modernista brasileira, ao lado de Mário de Andrade e Manuel Bandeira, formando um grupo que buscava romper com o academicismo e criar uma arte moderna e nacional. Sua posição política, embora nem sempre explícita, era de forte crítica às estruturas sociais e culturais vigentes, defendendo uma maior autonomia cultural e a valorização do Brasil autêntico. A sociedade e a cultura brasileiras, com suas contradições entre o arcaico e o moderno, o europeu e o nativo, foram temas centrais em sua obra. Oswald teve diálogos e tensões com outros escritores de sua época, participando ativamente dos debates intelectuais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Oswald de Andrade teve uma vida pessoal agitada, marcada por dois casamentos: o primeiro com primorosa de Camargo Aranha e o segundo com a pintora Tarsila do Amaral, figura proeminente do modernismo. Essas relações influenciaram sua obra, especialmente o período antropofágico, em que a parceria com Tarsila foi fundamental. Sua amizade com Mário de Andrade foi um dos pilares intelectuais do modernismo, embora também houvesse rivalidades criativas. Oswald enfrentou crises pessoais e financeiras ao longo da vida, e sua saúde também sofreu com o alcoolismo. Profissionalmente, além da escrita, trabalhou como advogado e funcionário público, mas a poesia foi sua paixão e principal atividade. Suas crenças filosóficas e políticas estavam alinhadas com o desejo de renovação e autonomia cultural do Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Oswald de Andrade é amplamente reconhecido como um dos pais do modernismo brasileiro e uma figura essencial na literatura em língua portuguesa. Embora em vida tenha recebido algum reconhecimento por sua ousadia e inovação, a consagração definitiva de sua obra ocorreu postumamente, com o aprofundamento dos estudos modernistas e a redescoberta de sua relevância. Sua popularidade se manteve entre os leitores interessados em literatura de vanguarda, e seu reconhecimento acadêmico é inconteste, sendo objeto de inúmeros estudos e teses.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Oswald de Andrade foi profundamente influenciado pelas vanguardas europeias, como o Futurismo, o Cubismo e o Surrealismo, mas também pela cultura popular brasileira, pela arte indígena e africana. Sua obra, por sua vez, influenciou gerações posteriores de poetas e escritores brasileiros, marcando a literatura nacional com sua irreverência, sua linguagem inovadora e sua crítica social e cultural. Seu legado reside na ruptura com o academicismo, na proposição de uma identidade cultural brasileira autêntica e na experimentação formal que abriu caminhos para a poesia contemporânea. Sua obra continua a ser estudada e admirada internacionalmente, com traduções para diversas línguas.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Oswald de Andrade permite múltiplas leituras, desde a perspectiva da crítica à tradição e à colonização até a celebração da modernidade e da cultura brasileira. Seus poemas exploram temas filosóficos e existenciais, como a efemeridade do tempo, a busca pela identidade e a relação do homem com o mundo. Houve debates críticos sobre sua postura política e sua relação com o nacionalismo, mas a genialidade de sua proposta estética é amplamente reconhecida.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto curioso da personalidade de Oswald de Andrade é sua constante busca por inovação e sua capacidade de se reinventar. Ele possuía um humor sagaz e uma irreverência que, por vezes, chocavam a sociedade conservadora de sua época. Um episódio marcante foi sua participação ativa na Semana de Arte Moderna, onde suas obras e ideias causaram polêmica. Seus hábitos de escrita, embora não detalhados, eram caracterizados pela rapidez e pela inspiração, muitas vezes escrevendo em cadernos e folhas soltas. A correspondência de Oswald de Andrade é uma fonte rica para o estudo de sua vida e obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Oswald de Andrade faleceu em São Paulo, em 22 de outubro de 1954, após uma longa doença. Sua morte foi um marco para o modernismo brasileiro. Publicações póstumas de seus escritos, incluindo cartas e textos inéditos, continuaram a enriquecer o acervo literário e a memória do poeta, consolidando seu lugar como um dos maiores nomes da literatura brasileira.

Poemas

9

Erro de Português

Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.

51 684

Pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

55 034

Vício na Fala

Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mió
Para pior pió
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados

43 936

Canto de Regresso à Pátria

Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo.

(in Poesias Reunidas. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1971.)

16 105

Balada do Esplanada

Ontem à noite
Eu procurei
Ver se aprendia
Como é que se fazia
Uma balada
Antes de ir
Pro meu hotel.
É que este
Coração
Já se cansou
De viver só
E quer então
Morar contigo
No Esplanada.

Eu queria
Poder
Encher
Este papel
De versos lindos
É tão distinto
Ser menestrel
No futuro
As gerações
Que passariam
Diriam
É o hotel
É o hotel
Do menestrel

Pra me inspirar
Abro a janela
Como um jornal
Vou fazer
A balada
Do Esplanada
E ficar sendo
O menestrel
De meu hotel

Mas não há, poesia
Num hotel
Mesmo sendo
Splanada
Ou Grand-Hotel

Há poesia
Na dor
Na flor
No beija-flor
No elevador

6 456

A Descoberta

Seguimos nosso caminho por este mar de longo
Até a oitava da Páscoa
Topamos aves
E houvemos vista de terra
os selvagens
Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam por a mão
E depois a tomaram como espantados
primeiro chá
Depois de dançarem
Diogo Dias
Fez o salto real
as meninas da gare
Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha.

(in Poesias Reunidas. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1971.)

11 520

O Capoeira

— Qué apanhá sordado?
— O quê?
— Qué apanhá?
Pernas e cabeças na calçada.

11 218

Oferta

Quem sabe
Se algum dia
Traria
O elevador
Até aqui
O teu amor

7 324

O Gramático

Os negros discutiam
Que o cavalo sipantou
Mas o que mais sabia
Disse que era
Sipantarrou.

5 903

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