Paulo Setúbal

Paulo Setúbal

1893–1937 · viveu 44 anos BR BR

Paulo Setúbal foi um proeminente médico e escritor brasileiro, cujos romances históricos e de aventura conquistaram grande popularidade. Sua obra, marcada pela exaltação do Brasil e por temas como a coragem, a honra e a busca pela liberdade, transporta o leitor para períodos cruciais da história nacional. Com uma escrita envolvente e detalhada, ele retratou figuras e eventos que moldaram a identidade brasileira, tornando-se um dos autores mais lidos de seu tempo.

n. 1893-01-01, Tatuí · m. 1937-05-04, Rio de Janeiro

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Os Colonos

Lá vem o dia apontando...
Que afã! Já todos de pé!
Ruidosos, tagarelando,
Vão os colonos em bando
Para os talhões de café.

À luz do sol que amanhece,
Por montes, por barrocais,
Por toda a parte esplandece,
Com sua esplêndida messe,
O verde dos cafezais!

Começa o rude trabalho.
Que faina honrada e feliz!
Inda molhados de orvalho,
Flamejam, em cada galho,
Os bagos como rubis.

Trabalham. Que ardor de mouro!
Todos derriçam café.
Parece um rubro tesouro,
Que cai, numa chuva de ouro,
Dos ramos de cada pé.

Ao meio-dia, aos ardores
Do alto sol canicular,
Os rudes trabalhadores,
Ao longo dos carreadores,
Põem-se todos a cantar.

Pela dormência dos ares,
Sob estes céus cor de anil,
Cantam canções populares,
Que lá, dos seus velhos lares,
Trouxeram para o Brasil.

Aqui, um forte italiano,
Queimado ao sol do equador,
Solta aos ventos, belo e ufano,
Num timbre napolitano,
A sua voz de tenor!

Há uma terna singeleza
Nas trovas que um outro diz;
Um rapagão de Veneza
Tem, no seu canto, a tristeza
Das águas do seu país.

E uma sanguínea espanhola,
De grandes olhos fatais,
Em baixa voz cantarola
Uns quebros de barcarola,
Magoados, sentimentais...

Que cantem!... Essa cantiga,
Brotada no coração,
Seja a prece que bendiga
A terra que hoje os abriga,
A pátria que lhes dá pão!


Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Minha Terra.

In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 1964
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Biografia

Identificação e contexto básico

Paulo Setúbal, nome de batismo Paulo de Almeida Setúbal, foi um médico e escritor brasileiro, nascido em São Paulo. É conhecido por seus romances históricos e de aventura, que retratam a formação do Brasil e a bravura de seus heróis. Sua obra é um convite à valorização da história e das raízes nacionais.

Infância e formação

Desde jovem, Paulo Setúbal demonstrou grande interesse pela leitura e pela história do Brasil. Formou-se em medicina pela Universidade de São Paulo (USP), exercendo a profissão com dedicação. No entanto, sua paixão pela escrita e pela pesquisa histórica o levou a trilhar também o caminho da literatura, onde alcançou grande sucesso.

Percurso literário

O início da carreira literária de Paulo Setúbal se deu com a publicação de romances que rapidamente ganharam o público. Sua obra se consolidou com obras como "O Sangue do Oprimido" (1930), "Os Dezoito do Forte de Copacabana" (1934) e "A Saga da Amazônia" (1936). A escrita de Setúbal é caracterizada por uma narrativa ágil e pelo profundo conhecimento histórico, que confere veracidade aos seus relatos.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Os romances de Paulo Setúbal são ambientados em momentos importantes da história brasileira, como a Inconfidência Mineira, a Revolta da Chibata e a saga da exploração da Amazônia. Seus temas centrais incluem o heroísmo, a luta pela liberdade, a defesa da pátria e os valores morais. A linguagem utilizada é clara e acessível, tornando suas obras de fácil leitura e grande apelo popular. Ele se destacou por retratar personagens históricos e fictícios em situações de grande conflito e aventura, sempre com um olhar voltado para a exaltação do patriotismo e da identidade nacional.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Paulo Setúbal escreveu em um período de grande efervescência nacionalista no Brasil. Sua obra dialoga com o desejo de construir uma narrativa histórica forte e unificada, que celebrasse os feitos e os personagens que contribuíram para a formação do país. Ele se insere em uma tradição de escritores que buscaram aproximar o público da história brasileira através da ficção.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Como médico, Setúbal dedicou-se ao cuidado dos enfermos. Paralelamente, cultivou sua paixão pela escrita, conciliando as duas atividades. Sua vida pessoal, focada na família e na profissão, permitiu que ele se aprofundasse em suas pesquisas históricas e na criação literária.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Paulo Setúbal foi um dos autores mais lidos e vendidos no Brasil em sua época. Seus livros alcançaram grande popularidade, sendo traduzidos para outros idiomas e adaptados para o cinema. O reconhecimento de seu trabalho se deu pela capacidade de envolver o leitor com tramas cativantes e pela forma como retratou a história brasileira, despertando o orgulho nacional.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Suas principais influências foram os grandes romances históricos e de aventura, tanto nacionais quanto internacionais. O legado de Paulo Setúbal reside na sua contribuição para a divulgação da história do Brasil através da literatura, tornando-a acessível e interessante para um vasto público. Ele ajudou a moldar a percepção de muitos brasileiros sobre figuras e eventos históricos importantes.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Setúbal é vista como um importante veículo de educação histórica e de formação cívica. Embora alguns críticos possam apontar para um certo nacionalismo ufanista em sua escrita, é inegável o seu papel em popularizar e valorizar a história do Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Setúbal dedicou anos à pesquisa para a elaboração de seus romances, consultando documentos históricos e viajando pelo país para conhecer os locais onde se desenrolaram os fatos que narrava. Sua paixão pela história era tão grande que ele a transformou em sua principal fonte de inspiração literária.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Paulo Setúbal faleceu em 1945, deixando um legado de obras que continuam a ser lidas e apreciadas por sua relevância histórica e literária.

Poemas

15

Volta ao Arraial

Pascoal Moreira torna ao arraial onde deixara a bagagem. Vinha amuado; vinha sucumbido. "Com este infeliz successo se encheu de grande dissabor o cabo da tropa Paschoal Moreira". A derrota lancetara fundo a vaidade do sertanista. Que fazer agora? Voltar? E voltar sem índios? Não! O orgulho caboclo de Pascoal Moreira não sofrerá jamais que ele volte a São Paulo de mãos vazias. E não voltará de fato. Os deuses fadaram o paulista para destinos magníficos. Que sina curiosa a do desbravador! Vêde:

Os bandeirantes, derrotados e murchos, têm, ao penetrarem no arraial, esta inesperada e vivíssima surpresa: são festivamente recebidos com gritos, estrondos de mosquete, ronqueiras, grossa barulhada! Que é aquilo? Que significam tão quentes júbilos? A boa-nova espalha-se instantaneamente:

— Ouro!

A peonada grita, e arremessa os chapéus, e baila, e está toda num ébrio fanfarreio de alegria.

— Ouro! Ouro!

Mas como? Onde? Pascoal Moreira, desta vez, quer saber os detalhes do acontecido. Manda buscar os peões para inteirar-se do que houve. Sabe então que os peões — "os que haviam ficado na bagage" — haviam resolvido, para matar o tempo, explorar as barrancas do Coxipó.

Eram as mesmas barrancas onde os dois moleques haviam dado com as primeiras oitavas. Principiaram eles o trabalho de manhãzinha. Mas não trabalharam muito tempo: duas horas após, com gritos de júbilo, toparam aqueles homens com riquíssima pinta de ouro. Que pinta soberba! Foi uma das maiores que já se achou no Brasil. Do chão bruto, como por milagre, jorrou logo, às mãos dos caboclos, larga manancial de ouro. Os bagageiros, por entre alegrias infrenes, atiraram-se então a um cavocar furioso: "huns achavam cem oitavas, outros meia libra, outros cincoenta oitavas, conforme o que cada um fez em cavar com as maons, que outros instrumentos de minerar não havia. . ."

Pascoal Moreira ouve e vê. O ouro — aquele ouro real, tangível, que ali reluz às mãos da peonada — esbraseia, afinal, o ânimo frio do povoador. Pascoal, tocado de súbito entusiasmo, sai também a mineirar. E logo, ao esbrugar os primeiros torrões, irrompe entre os bandeirantes o mesmo grito mágico:

— Ouro!

Que surpreendente colheita! Grãos e folhetas faíscam a rodo no cascalho. Basta dizer que "os que haviam acompanhado o Capitão Paschoal Moreira, mais aproveitados, assim como o mesmo Capitão, acharam cada um libra e meia de ouro..." Não podia haver, para a derrota sofrida com os Coxiponés, epílogo mais fascinante. O retorno ao arraial das bagagens, aquele doloroso retorno de vencidos, foi o lustre e a glória da bandeira.

Por isso, no sertão bravo do Coxipó, nessa noite, lá naquele humilde arraial improvisado, tão longe dos homens e do mundo, viveram aqueles toscos sertanejos a sua grande noite de sonho e febre. Não podiam dormir. E com razão! Todos eles, tontos de gozo, "cantavam victoria contra as fadigas da pobreza, davam-se huns aos outros parabens de suas fortunas, e, reciprocamente, offereciam-se laudencias de alegria".

Pascoal Moreira, no seu mísero rancho de sapé, podia enfim, bem merecidamente, descansar das suas longas e rudes fadigas de bandeirante. O paulista, é verdade, não conquistara o ambicionado Coxiponé: conquistara, o que é bem mais, as ruidosas minas do sertão.

Estava descoberto o ouro de Cuiabá.


Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).

SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 38-40. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
1 251

A Veluda

(...)
As minas de Cuiabá morriam. O ouro fácil, que os lavageiros catavam à flor da terra, desaparecera. Só à custa de escavações profundas, com penosos tratos de água, conseguiam agora os mineiros arrancar do seio pedrento da terra o metal cobiçado. As catas dos ribeirões, os veios e os tabuleiros, isto é, as que ficavam nos veios da correnteza ou nos tabuleiros das margens, essas secaram de vez. O ouro, quando havia, era apenas nas grupiaras, que se encravavam nas encostas ásperas dos morros. Mas as grandes perfurações para topá-lo, a canalização da água até essas longes e íngremes encostas, eram obras tão difíceis e tão rudes, que as despesas com a lavagem não mais compensava a colheita dos grãos. Além de tais despesas, que eram tremendo sorvedouro, havia ainda o fisco. Ah, o fisco! Polvo fantástico, insaciável, Portugal constringia os mineiros, desalmadamente, com mil tentáculos de ferro, numa rede feroz de tributos insuportáveis. "Por mais engravecer os males de Cuyabá, D. Rodrigo Cezar, a pretexto de bem servir o seu Rei, armou um aparelho fiscal de ventosas, de tal maneira sugadoras, que, antes de findar o anno, a villa começou a definhar-se, derreada por tantos soffrimentos".

Principiou a decadência das minas. Um rancho, no Cuiabá, que, a princípio, custava a soma respeitável de 500 oitavas, passou a valer a bagatela de 50. Uma roça de mantimentos que se pagava 4.000 oitavas, passou a ser vendida por 100. A ruína das minas foi completa. Tornou-se preciso abandonar Cuiabá. Urgia buscar paragens mais rendosas.

Os irmãos Paes de Barros, Artur e Fernando, dois intrépidos sorocabanos, encabeçaram o movimento. Meteram-se eles, à frente de audaciosa entrada, pelo sertão adentro.

Lá foram.

De novo, na terra inóspita, o mesmo rol de sacrifícios pasmantes. As mesmas canseiras, o mesmo áspero romper matos, as mesmas fomes, as mesmas lutas com bugres, as mesmas febres malignas, a mesma tragédia cruciante do sertão. Nessa arrancada, como consigna a crônica, "toparam elles logo que baixaram a planície, com mattas virgens, de arvoredo muito elevado e corpulento, que, entrando a penetral-o, o foram apelidando de matto-grosso; e este nome de 'Matto-Grosso' é o nome que ainda hoje conserva todo aquelle districto".

Os paulistas, "venceram léguas e léguas daquella espessura", deram nas margens do Guaporé. Descobriram ouro aí. As minas de Vila-Bela principiaram, com abundância e estrondo, a jorrar o metal sonhado. "Partiu no mesmo anno monção desta villa para São Paulo com oito canoas, 140 pessoas e 80 arrobas de ouro, já vindo todo das minas de Matto-Grosso".

Novamente; ferretoados por cobiças insaciáveis, levas e levas de aventureiros, num rush febrento, rumaram a caminho das lavras novas. "No mesmo mez, despejou o povo da villa de Cuyabá para Matto-Grosso, em setenta e tantas canoas, rio abaixo, em que, foram melhor de mil e quinhentas pessoas". Com esse tremendo êxodo, em que, assim, numa só monção, seguiu para as longínquas e tentadoras minas tão densa caudal de mineiros, "se despovoou o Cuyabá, ficando sitios, cazas, lavras, tudo deserto. Restaram na villa apenas sete brancos, entre seculares e clerigos, e alguns carijós; de gente preta, só algum pagem que servia a seu senhor".

Mato Grosso! Vila Bela! Eis, por volta de 1734, o esbraseante eldorado que tentava todas as ambições. Paulistas para lá afluíram às chusmas. E baianos. E reinóis. E castelhanos. E gentes de toda a parte. Ia tudo, numa alucinação, atrás do ouro dos Paes de Barros.
(...)


Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933). Segundo o autor, trata-se de "história verdadeira, ouvida na infância, ouvida repetidas vezes, com nomes e detalhes que lhe davam realce e autenticidade."

SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 183-186. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
1 255

As Gentes das Lavras

Quantas lavras! As de "S. João", as de "Cocaes", as da "Chapada", as de "Jacey", as da "Conceição", as do "Sutil"... Tudo a jorrar ouro! Ouro, às arrobas, do melhor, mais puro, diziam, que o das Gerais. Esse ouro, como um clarim, conclamava sem cessar as gentes. Forasteiros e naturais, nortistas e sulistas, vinha tudo, por esses sertões afora — e sabe Deus como! — atrás do ouro de Cuiabá. Não havia barreiras que os fizessem estacar. Não havia perigos que os fizessem refletir. Nada! Nem os matos, nem os rios, nem as feras, nem a indiada, nem a fome, nem as misérias infinitas, horrorizantes da jornada.

Cuiabá tornou-se o açude onde se aglutinava a escumalha lodosa do Brasil. Era o desaguadouro de todos os aventureiros. E que aventureiros! Bandidos, fugidos às justiças, jogadores, matadores sanguinários, ladrões, salteadores. Ralé vil, ralé imunda, ralé repugnante.

E que vida, no Cuiabá, heterogênea e bruta! Nas tascas, onde havia sempre "mulheres bastardas e jogos de parar", desencadeavam-se tragédias selvagens, violentíssimas, em que fuzilavam facões e toledanas. Assassínio era coisa de todo o dia. Roubos também. Toda a gente roubava! Os negros, com perícias pasmosas, surripiavam ouro das bateias e iam, nos dias de folga, emborrachar-se com ele nas tavernas. Os índios, que sempre foram racialmente falsos, escondiam na boca os granetes que podiam e, à noite, muito às ocultas; entregavam-no aos ourives a troco de pedaços de fumo. Mulatas quitandeiras, com os tabuleiros à cabeça, viviam nas catas a vender broinhas aos escravos. Os escravos pagavam-nas com folhetas roubadas aos amos. Até os padres, contaminados pela fúria das riquezas, contrabandeavam. Rodrigo César, para cortar tudo aquilo, todas aquelas mortes, todos aqueles roubos, todo aquele contrabando, lançava, ininterruptamente, bandos sobre bandos. Ninguém mais, ordenava o Governador, "havendo de fazer jornada a Cuyabá, não a faça sem licença minha e sem tirar o paçaporte na secretaria do Governo". E mandava fechar as baiúcas de jogo. E proibia, sob penas carrancudas, que partissem forasteiros para as minas. E negros sem dono. E índios avulsos. E mulheres de vida fácil. E padres castelhanos. Estes, sob pretexto algum, mesmo sob pretexto de missão, não tinham sequer permissão de atravessar as minas. Mas os bandos, por mais rigorosos, eram vãos. O ouro de Cuiabá enlouquecia. Que importavam aquelas proibições? Toda a gente, para atingir o metal satânico, as fraudava. E não havia meio de impedir a fraude. Por isso, cada ano, as monções partiam repletas. E cada ano, nos povoados, contavam-se as misérias e os padecimentos dessas monções.


Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).

SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 61-63. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
1 375

Quem Lucrava?

Mas quem, na verdade, lucrava com esse vasto ouro? Com esse ouro brasileiro, extorquido com tanta ganância e molhado de tanta lágrima? O Brasil? Não. Portugal? Fato incrível: também não. Portugal não lucrou coisa alguma com aquela caudalosa riqueza. "O inglez sentava-se com o Rei á mesa e aplaudia o desperdício: porque todo o ouro do Brasil passava apenas por Portugal, indo fundear em Inglaterra, em pagamento da farinha e dos generos alimentícios com que elle nos alimentava e vestia. A industria nacional constava de operas e devoções. Por isso nem todo o ouro do Brasil bastou: a divida nacional cresceu (!) e Lisboa, para não morrer de sede, teve de pagar com um imposto especial a construção do seu acqueducto".

"Nem todo o ouro do Brasil bastou! A divida nacional cresceu!" Mal acredita a gente no que lê. Será possível? Talvez, numa crise de mau humor, tomado subitamente de parcialidade, deixasse o notabilíssimo escritor tombar da pena a frase azeda. Mas não. Vêde Coelho da Rocha: "No reinado seguinte ao de D. João V, para occorrer ás necessidades do Estado e atrazo dos pagamentos, abriu o governo um empréstimo de dez milhões de cruzados a juro de cinco por cento". Ao que pondera o Pinheiro Chagas: "Parece incrível que, tendo D. João V nas minas do Brasil um banqueiro tão commodo, fosse durante o seu governo que o Estado contrahisse mais empréstimos". "De forma que o reinado, em que as torrentes de ouro do Brasil verdadeiramente inundaram Portugal, foi aquelle em que o Paiz ficou mais empenhado e em que se deixou mais vasio o thesouro".

Que triste destino teve o ouro do Brasil! Ouro fatídico! Não serviu de nada, absolutamente nada, para a colônia que o produziu com sangue. Mas também não serviu de nada, absolutamente nada, para o país afortunado que o recebeu aos jorros.

Apenas — pálido consolo! — como relíquias evocadoras daquelas grandezas magníficas, "hoje (escreve saudosamente A. Pimentel), quando os coches de D. João V se estadeiam em alguma das grandes solemnidades officiaes, como que se desdobram aos nossos olhos todo o esplendor dessa corte que o ouro e os diamantes do Brasil egualaram ás riquezas phantasticas do Oriente ..."

E é só.

Convenhamos que é muito pouco.


Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).

SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 110-112. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
1 343

A Terra da Promissão

Soldados e viageiros, à roda do fogo, nos pousos, desfiavam, como a chuçar a cobiça dos ouvintes, todo um rol diabólico de maravilhas. Narravam-se coisas embasbacantes. Muita gente contava, debaixo de juras, que havia nas minas tanto ouro, tanto que "no Cuyabá, até as pedras dos fogoens, onde se punham as panellas, eram de ouro". Ainda: "para se colher ouro, não é necessario mais do que arrancar touceiras de capim; nella vêm pegadas as folhetas". Grande verdade. O ouro de Cuiabá era todo de aluvião. Andava solto à flor da terra. Por isso, comentando aqueles relatos, afirmava o cronista com justeza: "isto de arrancar-se capim e virem granetes de ouro pegados ás raizes, é certo; foi coisa vista muitas vezes, tanto nas lavras do Sutil, como nas da Conceição".

Mas não ficava só nisso. Havia muitas e incríveis gabolices. Chegou-se mesmo a dizer, "naquellas exageraçoens fabullozas", que, "no Cuyabá, em vez de grãos de chumbo, serviam-se os caçadores, nas espingardas, de grãos de ouro para matar veados..."

A conseqüência dessas falas espicaçantes era uma só e fatal: canalizar para essas terras, tão fantasticamente abarrotadas de riquezas, densa caudal de aventureiros. E foi, de fato, densa e torrenciosa, a caudal de gente que alagou Cuiabá. Os cronistas, sem excetuar um único, narram com destaque essa desabalada carreira para as minas, "divulgada a noticia pellos povoados (lá diz Barbosa de Sá), foi tal o movimento que cauzou nos animos, que das Minas-geraes, do Rio de janeiro, de toda a Capitania de Sam Paulo, se aballaram muitas e muitas gentes. Deixavam cazas e, fazendas, deixavam molheres e filhos, deixavam tudo, botando-se para aquelles sertoens como se fora a terra da promissan ou o Parahyzo incoberto em que Deus poz os nossos primeiros paes".

Cuiabá, não há dúvida, tornou-se a aspiração mais fascinante dos sertanejos. Era a "terra da promissan!". De São Paulo, mais particularmente, o êxodo para lá foi verdadeira loucura. Pode-se dizer que, na vila, não ficou homem válido. Partiu tudo. "O que soube, logo que aqui cheguei (mandava dizer ao Rei, numa carta, o governador Rodrigo César) é que tinham ido para aquellas minas mais de dois mil paulistas". Só naquelas lavras, segundo arrolamento, "havia naquelle armo (o que espanta!) duas cazas de truque, onze fornos e dois mil seiscentos e sete escravos".

Mas todos os forasteiros, brancos e negros, escravos e forros, vindos ali à busca do ouro, chuçados pela só fome das riquezas, não pensavam jamais em lavouras e sementeiras. Parece isso extraordinário, mas é verdade. Passavam dia e noite nas catas. Ninguém tinha tempo para abrir roças. Ninguém tinha tempo para cuidar de criação. Por isso, naquelas lavras, "não havia porcos, não havia gallinhas, não havia nada. Faltava o milho em toda a povoação". Os gêneros vinham de fora, lá do longínquo São Paulo, em monção. Mas quase sempre, nos vaivéns terríveis daquelas duras varações — "chegavam as fazendas já podres; morria muita gente de fome".

As coisas atingiam, está visto, preços verdadeiramente fabulosos.


Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).

SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 51-53. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
1 456

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