Florbela Espanca
Autor do dia

Florbela Espanca

Florbela Espanca foi uma poetisa portuguesa cuja obra, profundamente marcada pela paixão, pela dor e pelo sofrimento amoroso, a tornou uma das vozes femininas mais reconhecidas da literatura portuguesa. Sua poesia, intensamente lírica e confessional, explora as angústias do amor não correspondido, a efemeridade da felicidade e a força avassaladora dos sentimentos, utilizando uma linguagem rica em metáforas e em forte expressividade. Apesar de uma vida curta e atormentada, Florbela deixou um lega…

Poema do dia

Sete Canções de Declínio

Mário de Sá-Carneiro
1
Um vago tom de opala debelou
Prolixos funerais de luto de Astro
E pelo espaço, a Oiro se enfolou
O estandarte real livre, sem mastro.

Fantástica bandeira sem suporte,
Incerta, nevoenta, recamada
A desdobrar-se como a minha Sorte
Predita por ciganos numa estrada ...

2
Atapetemos a vida
Contra nós e contra o mundo.
— Desçamos panos de fundo
A cada hora vivida!

Desfiles, danças embora
Mal sejam uma ilusão...
Cenário de mutação
Pela minha vida fora!

Quero ser Eu plenamente:
Eu, o possesso do Pasmo.
Todo o meu entusiasmo,
Ah! que seja o meu Oriente!

O grande doido, o varrido,
O perdulário do Instante
O amante sem amante,
Ora amado, ora traído ...

Lançar os barcos ao Mar
De névoa, em rumo de incerto...
Pra mim o longe é mais perto
Do que o presente lugar.

...E as minhas unhas polidas
Idéia de olhos pintados...
Meus sentidos maquilados
A tintas conhecidas ...

Mistério duma incerteza
Que nunca se há de fixar...
Sonhador em frente ao mar
Duma olvidada riqueza ...

Num programa de teatro
Suceda-se a minha vida
Escada de Oiro descida
Aos pinotes, quatro a quatro! ...

3
Embora num funeral
Desfraldemos as bandeiras
Só as cores são verdadeiras
Siga sempre o festival!

Quermesse — eia! — e ruído!
Louça quebrada! Tropel!
(Defronte do carrossel,
Eu, em ternura esquecido... )

Fitas de cor, vozearia —
Os automóveis repletos:
Seus chauffeurs — os meus afetos
Com librés de fantasia!

Ser bom... Gostaria tanto
De o ser... Mas como? Afinal
Só se me fizesse mal
Eu fruiria esse encanto.

— Afetos?... Divagações...
Amigo dos meus amigos...
Amizades são castigos,
Não me embaraço em prisões!

Fiz deles os meus criados,
Com muita pena decerto.
Mas quero o Salão aberto,
E os meus braços repousados.

4
As grandes Horas! — vive-las
A preço mesmo dum crime!
Só a beleza redime —
Sacrifícios são novelas.

"Ganhar o pão do seu dia
Com o suor do seu rosto..."
— Mas não há maior desgosto
Nem há maior vilania!

E quem for Grande não venha
Dizer-me que passa fome.
Nada há que se não dome
Quando a Estrela for tamanha!

Nem receios nem temores,
Mesmo que sofra por nós
Quem nos faz bem. Esses dós
Impeçam os inferiores.

Os Grandes, partam — dominem
Sua sorte em suas mãos:
— Toldados, inúteis, vãos,
Que o seu Destino imaginem!

Nada nos pode deter;
O nosso caminho é de Astro!
Luto — embora! — o nosso rastro,
Se pra nós Oiro há de ser! ...

5
Vaga lenda facetada
A imprevisto e miragens —
Um grande livro de imagens,
Uma toalha bordada ...

Um baile russo a mil cores.
Um Domingo de Paris —
Cofre de Imperatriz
Roubado por malfeitores.

Antiga quinta deserta
Em que os donos faleceram —
Porta de cristal aberta
Sobre sonhos que esqueceram ...

Um lago à luz do luar
Com um barquinho de corda...
Saudade que não recorda —
Bola de tênis no ar...

Um leque que se rasgou —
Anel perdido no parque —
Lenço que acenou no embarque
De Aquela que não voltou ...

Praia de banhos do sul
Com meninos a brincar
Descalços à beira-mar,
Em tardes de céu azul...

Viagem circulatória
Num expresso de vagões-leitos —
Balão aceso — defeitos
De instalação provisória ...

Palace cosmopolita
De rastaquoères e cocottes —
Audaciosos decotes
Duma francesa bonita ...

Confusão de music-hall,
Aplausos e brou-u-ha —
Interminável sofá
Dum estofo profundo e mole. . .

Pinturas a "ripolin",
Anúncios pelos telhados —
O barulho dos teclados
Das Lynotype do Matin...

Manchete de sensação
Transmitida a todo o mundo —
Famoso artigo de fundo
Que acende uma revolução ...

Um sobrescrito lacrado
Que transviou no correio,
E nos chega sujo — cheio
De carimbos, lado a lado. . .

Nobre ponte citadina
De intranqüila capital —
A umidade outonal
De uma manhã de neblina ...

Uma bebida gelada —
Presentes todos os dias. . .
Champanha em taças esguias
Ou água ao sol entornada ...

Uma gaveta secreta
Com segredos de adultérios...
Porta falsa de mistérios —
Toda uma estante repleta:

Seja enfim a minha vida
Tarada de ócios e Lua:
Vida de Café e rua,
Dolorosa, suspendida —

Ah! mas de enlevo tão grande
Que outra nem sonho ou prevejo...
— A eterna mágoa dum beijo,
Essa mesma, ela me expande ...

6
Um frenesi hialino arrepiou
Pra sempre a minha carne e a minha vida.
Fui um barco de vela que parou
Em súbita baía adormecida ...

Baía embandeirada de miragem,
Dormente de ópio, de cristal e anil,
Na idéia de um país de gaze e Abril,
Em duvidosa e tremulante imagem ...

Parou ali a barca — e, ou fosse encanto,
Ou preguiça, ou delírio, ou esquecimento,
Não mais aparelhou... — ou fosse o vento
Propício que faltasse: ágil e santo ...

...Frente ao porto esboçara-se a cidade,
Descendo enlanguescida e preciosa:
As cúpulas de sombra cor-de-rosa,
As torres de platina e de saudade.

Avenidas de seda deslizando,
Praças de honra libertas sobre o mar
Jardins onde as flores fossem luar;
Lagos — carícias de âmbar flutuando ...

Os palácios de renda e escumalha.
De filigrana e cinza as catedrais —
Sobre a cidade a luz — esquiva poalha
Tingindo-se através longos vitrais ...

Vitrais de sonho a debruá-la em volta,
A isolá-la em lenda marchetada:
Uma Veneza de capricho — solta,
Instável, dúbia, pressentida, alada...

Exílio branco — a sua atmosfera,
Murmúrio de aplausos — seu brou-u-ha...
E na praça mais larga, em frágil cera,
Eu — a estátua "que nunca tombará"...

7
Meu alvoroço de oiro e lua
Tinha por fim que transbordar...
— Caiu-me a Alma ao meio da rua,
E não a Posso ir apanhar!
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Nasceram neste dia

11
Orlando Neves

Orlando Neves foi um poeta português, cuja obra se distingue pela sua profundidade lírica e pela exploração de temas universais como o amor, a morte e o tempo. A sua poesia, muitas vezes marcada por uma linguagem cuidada e uma forte musicalidade, reflete uma sensibilidade apurada face às complexidades da existência humana. Ao longo da sua carreira, Neves explorou diversas formas poéticas, demonstrando um domínio notável da arte do verso. A sua contribuição para a poesia portuguesa reside na capacidade de evocar emoções intensas e de convidar à reflexão sobre a condição humana, deixando um legado de versos que continuam a ressoar com os leitores.

E o desejo de amar
Pierre de Ronsard

Pierre de Ronsard foi um poeta francês renascentista, considerado um dos maiores líricos da língua francesa. Sua obra é marcada por uma profunda erudição clássica, pela exploração de temas como o amor, a passagem do tempo e a beleza efêmera, e por um rigor formal que o consolidou como mestre da poesia. Ele é uma figura central da Pléiade, um grupo de poetas que buscava elevar a língua francesa a um nível literário comparável ao do latim e do grego, através da imitação e adaptação dos modelos clássicos e italianos.

Je te salue…
Ernani Sátyro

Ernani Sátyro foi um poeta e intelectual brasileiro, cuja obra se destacou pela profundidade lírica e pela reflexão sobre a identidade e a condição humana. Sua poesia é reconhecida pela musicalidade, pela exploração da linguagem e pela capacidade de evocar emoções e imagens vívidas. Sátyro contribuiu para a cena literária com sua sensibilidade e visão única sobre o mundo. Ele também foi uma figura importante no meio cultural, participando ativamente de debates e iniciativas que promoviam a arte e a literatura. Sua dedicação à poesia e ao pensamento o consolidou como um nome relevante na literatura brasileira.

O Canto do Retardatário
José Agostinho de Macedo

José Agostinho de Macedo foi um poeta e clérigo português conhecido pelas suas obras satíricas e críticas. A sua escrita é marcada por um tom cáustico e pela utilização da sátira para abordar temas sociais e políticos da sua época. Apesar da sua formação religiosa, a sua veia crítica e irreverente sobressaiu na sua produção literária.

A Cidade Bela
Sóror Maria do Céu

Sóror Maria do Céu foi uma freira e poetisa do século XVII, notável pela sua obra religiosa e pela sua capacidade de expressar a fé e a devoção através da poesia. A sua escrita é marcada por uma profunda espiritualidade, pela linguagem mística e pela entrega total ao divino, refletindo a intensa vivência religiosa do seu tempo. A sua poesia, embora enraizada numa experiência pessoal de clausura e devoção, transcende o individual para tocar em temas universais da fé, do amor a Deus e da busca pela salvação. Sóror Maria do Céu é um exemplo da expressão literária feminina no contexto monástico barroco português, revelando uma voz singular num período dominado por vozes masculinas.

Cidra, ciúme
Bratislav Taškovski

Bratislav Taškovski é um escritor macedônio. Sua obra literária abrange diversos gêneros, explorando narrativas que frequentemente refletem sobre a identidade, a história e a sociedade. Taškovski é um nome associado à produção literária contemporânea da Macedônia.

Reed Whittemore

Reed Whittemore foi um poeta americano, crítico e professor, conhecido por sua poesia que mescla o coloquial com o reflexivo, muitas vezes abordando temas do cotidiano e da vida intelectual com um toque de humor e ironia. Sua obra literária é apreciada pela clareza e pela originalidade de seu olhar sobre o mundo. Whittemore dedicou parte de sua carreira ao ensino, compartilhando seu amor pela literatura e pela escrita com novas gerações de estudantes.

José Miguel Santiago Castelo

José Miguel Santiago Castelo é um poeta espanhol cuja obra se insere na linha da poesia da experiência e da reflexão sobre o cotidiano. Sua poesia é marcada por uma linguagem clara e acessível, mas carregada de profundidade e emotividade. Ele explora temas como a passagem do tempo, a memória, a natureza e as relações humanas. Castelo também é conhecido por sua atividade como crítico literário e professor, o que lhe confere uma perspectiva ampla sobre a literatura contemporânea. Sua obra poética é um convite a redescobrir a beleza nas coisas simples e a encontrar significado nas experiências mais comuns.

Antonio Jiménez Millán

Antonio Jiménez Millán é um poeta espanhol cuja obra se insere na tradição da poesia da experiência e da reflexão sobre a vida contemporânea. Sua escrita é marcada pela clareza, pela contenção e pela profundidade de pensamento.

Víctor Català

Víctor Català, pseudónimo de Caterina Albert i Paradís, foi uma figura proeminente da literatura catalã, especialmente conhecida pelo seu romance "Solitud". A sua obra caracteriza-se por um realismo cru e uma profunda exploração da psicologia feminina, abordando temas como a opressão, a solidão e a busca pela identidade. Català foi uma pioneira no seu tempo, defendendo a voz e a perspetiva das mulheres na literatura e utilizando uma linguagem potente e evocadora. A sua contribuição para o movimento da Renaixença catalã e o seu estilo literário distintivo consolidam-na como uma das escritoras mais importantes da Catalunha.

Morreram neste dia

6
António Maria Lisboa

António Maria Lisboa foi um poeta português, figura proeminente do movimento surrealista em Portugal. Sua obra poética é caracterizada por uma linguagem inovadora, pela exploração do inconsciente e pela forte carga onírica e imagética. Foi um dos fundadores da revista "Orfeu", marco inicial do modernismo em Portugal, e teve uma atuação intensa no grupo surrealista.

Conjugação
Antero de Quental

Antero de Quental foi um dos mais importantes poetas e filósofos portugueses do século XIX. A sua obra, marcada por uma profunda crise existencial e por uma intensa busca metafísica, reflete as angústias de um espírito inquieto perante os mistérios da vida, da fé e da razão. Poeta do saudosismo e do misticismo, a sua poesia é caracterizada pela força da expressão, pela profundidade intelectual e pela melancolia, explorando temas como a morte, a eternidade, a solidão e a busca de Deus. Antero de Quental é uma figura central na transição do Romantismo para o Positivismo em Portugal, deixando um legado literário e filosófico de grande relevância.

O Palácio da Ventura
Francisco Vilela Barbosa

Francisco Vilela Barbosa, também conhecido como Conselheiro Vilela, foi uma figura proeminente no cenário político e literário brasileiro do século XIX. Como jurista, político e escritor, dedicou-se à defesa dos ideais liberais e à reflexão sobre a sociedade e a cultura do seu tempo. A sua obra, embora não vasta em volume, reflete um intelectual engajado com as questões do Brasil imperial, abordando temas como direito, política e costumes sociais, com uma linguagem erudita e um estilo característico da época.

José Augusto da Costa Resende

José Augusto da Costa Resende foi um poeta e político português, conhecido pelas suas contribuições para a literatura do século XIX. A sua obra reflete os ideais românticos e o interesse pela história e pelas tradições portuguesas. Para além da sua atividade literária, dedicou-se também à vida pública, ocupando diversos cargos políticos.

Robert W. Service

Robert W. Service foi um poeta e escritor celebrado pelos seus versos vívidos e muitas vezes humorísticos que retratam a vida no Yukon durante a Corrida ao Ouro de Klondike. A sua obra capturou o espírito de aventura, as dificuldades e a camaradagem da época, tornando-o imensamente popular. É mais conhecido pelos poemas narrativos que contam histórias cativantes com um forte ritmo e personagens memoráveis.

Aniversários da comunidade

2
Carlos José Nhadidi

Sou aquilo que mostro ser e sou por dentro o mesmo ser. Meu pseudónimo "Inolvidável" Contacto: +258 849541267

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