Rui Costa
Autor do dia

Rui Costa

Rui Costa é um poeta português cuja obra se caracteriza por uma profunda sensibilidade e um olhar atento sobre o quotidiano e as suas complexidades. A sua poesia explora a condição humana, as relações interpessoais e a busca por significado, com uma linguagem que equilibra a clareza e a sugestão poética.

Poema do dia

Sete Canções de Declínio

Mário de Sá-Carneiro
1
Um vago tom de opala debelou
Prolixos funerais de luto de Astro
E pelo espaço, a Oiro se enfolou
O estandarte real livre, sem mastro.

Fantástica bandeira sem suporte,
Incerta, nevoenta, recamada
A desdobrar-se como a minha Sorte
Predita por ciganos numa estrada ...

2
Atapetemos a vida
Contra nós e contra o mundo.
— Desçamos panos de fundo
A cada hora vivida!

Desfiles, danças embora
Mal sejam uma ilusão...
Cenário de mutação
Pela minha vida fora!

Quero ser Eu plenamente:
Eu, o possesso do Pasmo.
Todo o meu entusiasmo,
Ah! que seja o meu Oriente!

O grande doido, o varrido,
O perdulário do Instante
O amante sem amante,
Ora amado, ora traído ...

Lançar os barcos ao Mar
De névoa, em rumo de incerto...
Pra mim o longe é mais perto
Do que o presente lugar.

...E as minhas unhas polidas
Idéia de olhos pintados...
Meus sentidos maquilados
A tintas conhecidas ...

Mistério duma incerteza
Que nunca se há de fixar...
Sonhador em frente ao mar
Duma olvidada riqueza ...

Num programa de teatro
Suceda-se a minha vida
Escada de Oiro descida
Aos pinotes, quatro a quatro! ...

3
Embora num funeral
Desfraldemos as bandeiras
Só as cores são verdadeiras
Siga sempre o festival!

Quermesse — eia! — e ruído!
Louça quebrada! Tropel!
(Defronte do carrossel,
Eu, em ternura esquecido... )

Fitas de cor, vozearia —
Os automóveis repletos:
Seus chauffeurs — os meus afetos
Com librés de fantasia!

Ser bom... Gostaria tanto
De o ser... Mas como? Afinal
Só se me fizesse mal
Eu fruiria esse encanto.

— Afetos?... Divagações...
Amigo dos meus amigos...
Amizades são castigos,
Não me embaraço em prisões!

Fiz deles os meus criados,
Com muita pena decerto.
Mas quero o Salão aberto,
E os meus braços repousados.

4
As grandes Horas! — vive-las
A preço mesmo dum crime!
Só a beleza redime —
Sacrifícios são novelas.

"Ganhar o pão do seu dia
Com o suor do seu rosto..."
— Mas não há maior desgosto
Nem há maior vilania!

E quem for Grande não venha
Dizer-me que passa fome.
Nada há que se não dome
Quando a Estrela for tamanha!

Nem receios nem temores,
Mesmo que sofra por nós
Quem nos faz bem. Esses dós
Impeçam os inferiores.

Os Grandes, partam — dominem
Sua sorte em suas mãos:
— Toldados, inúteis, vãos,
Que o seu Destino imaginem!

Nada nos pode deter;
O nosso caminho é de Astro!
Luto — embora! — o nosso rastro,
Se pra nós Oiro há de ser! ...

5
Vaga lenda facetada
A imprevisto e miragens —
Um grande livro de imagens,
Uma toalha bordada ...

Um baile russo a mil cores.
Um Domingo de Paris —
Cofre de Imperatriz
Roubado por malfeitores.

Antiga quinta deserta
Em que os donos faleceram —
Porta de cristal aberta
Sobre sonhos que esqueceram ...

Um lago à luz do luar
Com um barquinho de corda...
Saudade que não recorda —
Bola de tênis no ar...

Um leque que se rasgou —
Anel perdido no parque —
Lenço que acenou no embarque
De Aquela que não voltou ...

Praia de banhos do sul
Com meninos a brincar
Descalços à beira-mar,
Em tardes de céu azul...

Viagem circulatória
Num expresso de vagões-leitos —
Balão aceso — defeitos
De instalação provisória ...

Palace cosmopolita
De rastaquoères e cocottes —
Audaciosos decotes
Duma francesa bonita ...

Confusão de music-hall,
Aplausos e brou-u-ha —
Interminável sofá
Dum estofo profundo e mole. . .

Pinturas a "ripolin",
Anúncios pelos telhados —
O barulho dos teclados
Das Lynotype do Matin...

Manchete de sensação
Transmitida a todo o mundo —
Famoso artigo de fundo
Que acende uma revolução ...

Um sobrescrito lacrado
Que transviou no correio,
E nos chega sujo — cheio
De carimbos, lado a lado. . .

Nobre ponte citadina
De intranqüila capital —
A umidade outonal
De uma manhã de neblina ...

Uma bebida gelada —
Presentes todos os dias. . .
Champanha em taças esguias
Ou água ao sol entornada ...

Uma gaveta secreta
Com segredos de adultérios...
Porta falsa de mistérios —
Toda uma estante repleta:

Seja enfim a minha vida
Tarada de ócios e Lua:
Vida de Café e rua,
Dolorosa, suspendida —

Ah! mas de enlevo tão grande
Que outra nem sonho ou prevejo...
— A eterna mágoa dum beijo,
Essa mesma, ela me expande ...

6
Um frenesi hialino arrepiou
Pra sempre a minha carne e a minha vida.
Fui um barco de vela que parou
Em súbita baía adormecida ...

Baía embandeirada de miragem,
Dormente de ópio, de cristal e anil,
Na idéia de um país de gaze e Abril,
Em duvidosa e tremulante imagem ...

Parou ali a barca — e, ou fosse encanto,
Ou preguiça, ou delírio, ou esquecimento,
Não mais aparelhou... — ou fosse o vento
Propício que faltasse: ágil e santo ...

...Frente ao porto esboçara-se a cidade,
Descendo enlanguescida e preciosa:
As cúpulas de sombra cor-de-rosa,
As torres de platina e de saudade.

Avenidas de seda deslizando,
Praças de honra libertas sobre o mar
Jardins onde as flores fossem luar;
Lagos — carícias de âmbar flutuando ...

Os palácios de renda e escumalha.
De filigrana e cinza as catedrais —
Sobre a cidade a luz — esquiva poalha
Tingindo-se através longos vitrais ...

Vitrais de sonho a debruá-la em volta,
A isolá-la em lenda marchetada:
Uma Veneza de capricho — solta,
Instável, dúbia, pressentida, alada...

Exílio branco — a sua atmosfera,
Murmúrio de aplausos — seu brou-u-ha...
E na praça mais larga, em frágil cera,
Eu — a estátua "que nunca tombará"...

7
Meu alvoroço de oiro e lua
Tinha por fim que transbordar...
— Caiu-me a Alma ao meio da rua,
E não a Posso ir apanhar!
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Nasceram neste dia

12
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo foi um poeta brasileiro, figura proeminente do Romantismo e um dos expoentes do Ultrarromantismo em seu país. Sua obra, marcada por um profundo pessimismo, melancolia, e a exploração de temas como a morte, o amor idealizado e a fuga da realidade, reflete as angústias de uma juventude que se sentia deslocada em seu tempo. Apesar de sua curta vida, deixou um legado poético e em prosa de grande intensidade e lirismo, influenciando gerações posteriores com sua visão sombria e sua exploração do gótico e do sublime.

Malva-maçã
Flexa Ribeiro

Flexa Ribeiro foi um poeta cujas obras exploram a dimensão humana, a beleza da natureza e a complexidade das emoções. A sua poesia é reconhecida pela sua musicalidade, pela vivacidade das imagens e pela capacidade de transitar entre o íntimo e o universal. Com um estilo que combina lirismo e uma observação atenta do mundo, Flexa Ribeiro deixou uma marca na poesia contemporânea, convidando os leitores a uma imersão em universos de sensações e reflexões, onde a palavra é usada com mestria para evocar a beleza e a fragilidade da existência.

Síntese
Maria Teresa Rita Lopes

Maria Teresa Rita Lopes foi uma figura proeminente na poesia portuguesa, cuja obra se destaca pela profundidade lírica e pela exploração de temas universais. A sua escrita é marcada por uma linguagem cuidada e por uma sensibilidade aguçada, que a tornaram uma voz reconhecida no panorama literário contemporâneo. A sua contribuição estende-se para além da poesia, refletindo um olhar atento sobre a condição humana e a sua complexidade.

Poema do Amor Difícil – II
Auta de Souza

Auta de Souza foi uma poeta brasileira, pioneira na literatura religiosa de expressão lírica no Brasil. Sua obra é marcada por uma profunda fé católica, expressa em poemas que celebram a divindade, a devoção e a esperança, muitas vezes com um tom de exaltação e contemplação espiritual.

Boêmias
Malcolm De Chazal

Malcolm de Chazal foi um escritor, poeta, pintor e filósofo mauriciano. Ele é mais conhecido por sua obra surrealista "Plastic Dreams", publicada em 1937, que explorou a interconexão entre o mundo físico e o onírico.

Carlos Garcia de Castro

Carlos Garcia de Castro é um poeta cuja obra se distingue pela exploração da condição humana, a relação com a memória e a passagem do tempo. A sua poesia, frequentemente marcada por um tom reflexivo e por uma linguagem depurada, aborda temas universais com uma sensibilidade particular. A sua escrita é um convite à introspeção e à contemplação das complexidades da vida.

Amilcar Cabral

Amílcar Cabral foi uma figura multifacetada: poeta, engenheiro agrónomo, líder revolucionário e teórico da libertação. Foi um dos mais importantes arquitetos da independência das colónias portuguesas em África, liderando a luta armada pela libertação da Guiné-Bissau e Cabo Verde. A sua visão política e a sua profunda compreensão das realidades africanas deixaram um legado intelectual duradouro, centrado na autodeterminação, na dignidade e na construção de uma sociedade justa e igualitária. A sua obra escrita, embora menos volumosa que a sua ação política, revela um pensamento aguçado e uma sensibilidade poética notável.

Malva Flores

Malva Flores é uma poetisa e ensaísta mexicana, conhecida por sua obra que transita entre a reflexão lírica e o comentário social. Sua poesia é marcada pela sensibilidade, pela exploração da condição humana e pela observação atenta do mundo ao seu redor, muitas vezes com um toque de ironia e profundidade existencial.

Morreram neste dia

14
Clément Marot

Clément Marot foi um poeta francês do Renascimento, conhecido pela sua versatilidade e pelo seu estilo lírico e espirituoso. A sua obra abrange desde a poesia amorosa e a sátira até à poesia religiosa e as traduções de salmos. Marot é considerado um mestre da forma poética, utilizando com mestria o verso e a rima, e a sua escrita influenciou significativamente a poesia francesa posterior.

A bela teta
Eugenio Montale

Eugenio Montale foi um dos mais importantes poetas italianos do século XX, laureado com o Prémio Nobel da Literatura. A sua obra é marcada por um lirismo austero, pela exploração da paisagem ligúrica e pela reflexão sobre a condição existencial do homem moderno, a incomunicabilidade e a ausência de sentido num mundo em crise. A sua poesia é conhecida pela sua densidade, pelo uso de imagens concretas e pela busca de uma verdade que se manifesta de forma fragmentária.

VENTO NO CRESCENTE
Antônio Olinto

Antônio Olinto foi um escritor, professor e diplomata brasileiro, conhecido por sua obra que transita entre a ficção e a não-ficção, abordando frequentemente a história, a cultura e a identidade brasileira. Sua escrita é marcada por uma erudição notável, um estilo envolvente e uma profunda reflexão sobre as complexidades da sociedade e da condição humana, com um olhar especial sobre as relações entre o Brasil e o mundo. Foi também um embaixador cultural, contribuindo para a difusão da literatura e da cultura brasileiras.

VI
Álvaro Moreyra

Álvaro Moreyra foi um poeta, ensaísta e tradutor com uma obra marcada pela introspeção e pela busca de uma linguagem poética depurada. A sua escrita explora temas como a efemeridade do tempo, a solidão humana e a reflexão sobre a própria arte poética, frequentemente com um tom melancólico e contemplativo. Destacou-se pela sua erudição e pela qualidade formal dos seus versos, integrando-se no panorama literário português com uma voz singular e um estilo cuidado.

Canção Dolente
Júlio Dinis

Joaquim Guilherme Gomes Correia, mais conhecido pelo pseudônimo Júlio Dinis, foi um médico e escritor português. É considerado um dos principais representantes do Realismo na literatura portuguesa, com obras que retratam a sociedade e os costumes da época.

Sándor Csoóri

Sándor Csoóri foi um poeta e ensaísta húngaro, amplamente reconhecido como uma das vozes literárias mais importantes da Hungria no século XX. A sua obra poética é frequentemente marcada por uma profunda reflexão sobre a identidade nacional, a história e a condição humana, com um estilo que combina lirismo e um forte senso de realismo. Além da sua produção poética, Csoóri foi também um ensaísta prolífico e um intelectual público influente. A sua escrita abordou questões sociais e políticas complexas, refletindo frequentemente sobre a experiência húngara e as suas relações com a Europa Central. Foi uma figura proeminente na vida cultural e política da Hungria, especialmente durante as décadas de transição do país.

Jacinto Soares de Albergaria

Jacinto Soares de Albergaria foi um poeta e escritor português, figura proeminente do século XIX. A sua obra poética é marcada por um forte lirismo, com exploração de temas como o amor, a natureza e a saudade, características frequentemente associadas ao Romantismo. Albergaria é lembrado pela sua contribuição para a poesia lírica da sua época, deixando um acervo que reflete a sensibilidade e os valores culturais do seu tempo.

Vítor Manuel de Aguiar e Silva

Vítor Manuel de Aguiar e Silva é um distinto académico, investigador e professor universitário, amplamente reconhecido pelas suas vastas contribuições para os estudos literários e linguísticos em língua portuguesa. A sua obra dedica-se à análise crítica da literatura, com um foco particular na literatura portuguesa e brasileira, abordando também a teoria literária e a história das ideias. É um nome de referência no campo da filologia e da crítica literária.

Xohana Torres

Xohana Torres é uma escritora e poeta galega, conhecida pela sua obra em galego que explora a identidade, a feminilidade e as experiências da vida moderna. A sua poesia e prosa são marcadas por uma voz lírica e uma perspetiva contemporânea. Com uma carreira dedicada à literatura, Torres tem vindo a consolidar a sua presença no cenário literário galego, abordando temas relevantes com sensibilidade e profundidade. O seu trabalho é um reflexo da sua visão do mundo e das suas reflexões sobre a existência.

Dennis Schmitz

Dennis Schmitz foi um poeta americano conhecido por sua poesia focada na vida cotidiana, nas relações humanas e na experiência urbana. Sua obra é frequentemente marcada por um olhar observador e perspicaz sobre os detalhes da vida moderna.

Román Chalbaud

Román Chalbaud foi um destacado dramaturgo, diretor de cinema e roteirista venezuelano, reconhecido pela sua profunda exploração da realidade social e política do seu país. A sua obra caracteriza-se por uma linguagem crua e direta, refletindo as tensões e conflitos da sociedade, muitas vezes com um foco crítico e despojado. A sua prolífica carreira abrangeu tanto o teatro como o cinema, deixando um legado importante em ambas as disciplinas. Chalbaud tornou-se uma voz fundamental para a compreensão das complexidades da Venezuela, abordando temas como a violência, a desigualdade e a luta pelo poder com uma mestria que lhe valeu o reconhecimento nacional e internacional.

Aniversários da comunidade

4
Carla Pais

Sou uma simples escrevinhadora. Alguém que talvez viva dentro das palavras.

Odisseia das nuvens
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gosto muito de poesia, contos e literatura em geral. Estou interessada receber as vossas notificações

EU FUI AO ALENTEJO
Sergio Persi

Aos 9 anos de idade começou a escrever poemas e músicas, mas apenas aos 21 anos de idade veio a sua primeira publicação. Sergio Persi atualmente é escritor e compositor. E já possui dezenas de poemas escritos, além de livros e músicas escritas por ele.

O amor verdadeiro