Lista de Poemas

Temperatura

Quando eu era mais moço tive na vida um
sorriso para tudo.
Tive?
Ainda tenho.
Mas hoje o meu sorriso é como o sorriso das
bailarinas.
Um sorriso na ponta dos pés, que espia o público
e que às vezes nem está sorrindo.
Dura enquanto dura a dança...


In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
2 485

As Sete Sombras

Saudade,
— velha torre erguida
nevoentamente
na paisagem de outono da minha alma.
Torre de onde se vê tudo tão longe...
Saudade...
Na distância, a perder-se, a voz de um sino
salma.
A luz no poente
é o pálido eco dessa voz perdida.
A alma da tarde envolve a velha torre.
E na velha torre
erguida
nevoentamente,
ondulam sete sombras silenciosas,
tecendo o sonho da minha vida...
Fico a senti-las. Lembro...
As sete sombras silenciosas...
Uma, quando chegou era novembro,
loura de sol, trazia
as mãos cheias de rosas:
— Deixa-me entrar, sou a Alegria. —
E eu lhe disse: — Bem-vinda sejas, Alegria. —
Outra, tênue, de espuma,
olhos azuis de criança,
lentos gestos de pluma,
surgiu mais tarde a mendigar pousada:
— O meu nome é Esperança.
Venho de muito além. Estou cansada. —
E eu lhe disse: — Descansa.
Bem-vinda sejas, Esperança. —
Veio depois a Felicidade,
tão linda sombra, toda em ouro acesa.
E veio a Dor, veio a Beleza,
veio a Bondade.
Uma noite, bateste. A velha torre
abriu-te as longas portas vagarosas.
E desde então, na velha torre,
tu ficaste, também, serena, inesquecida,
sombra das sombras silenciosas,
tecendo o sonho da minha vida...


Publicado no livro Lenda das rosas (1916).

In: MOREYRA, Álvaro. Lenda das rosas. São Paulo: Ed. Nacional, 1928. p.41-43. (Os Mais belos poemas de amor
2 767

Canção Dolente

Salgueiros trêmulos, belos!
meus camaradas tão bons!
vós sois como violoncelos
onde o vento acorda sons...

Melodia dos destinos!
voz do tempo! voz plangente!
Ah! na saudade dos sinos,
canta a saudade da gente...

Corujas de vida obscura!
a vossa sorte me diz
que a verdadeira ventura
é não tentar ser feliz...


Publicado no livro Legenda da luz e da vida (1911).

In: ZILBERMAN, Regina. Álvaro Moreyra. 2.ed. Porto Alegre: IEL, 1990. p.23-24. (Letras rio-grandenses
2 215

Do Outono e do Silêncio

Ah como eu sinto o outono
nestes crepúsculos dispersos,
de solidão e de abandono!
nessas nuvens longínquas, agoureiras,
que têm a cor que um dia houve em meus
versos
e nas tuas olheiras...
Tomba uma sombra roxa sobre a terra.
A mesma nuança em torno tudo encerra
nuns tons fanados de ametista.
Caem violetas...
Paisagem velha e nunca vista...
Paisagem próxima e tão distante...
A luz foge, esfacelando
em silhuetas
os troncos da alameda agonizante.
O outono é uma elegia
que as folhas plangem, pelo vento, em
bando...
E o outono me amargura e anestesia
com o silêncio...
Silêncio
das ressonâncias
esquecidas
que o fim do dia deixa sempre no ar...
Silêncio
irmão das covas, das ermidas,
incenso das distâncias,
onde a memória fica a ouvir perdidas
palavras que morreram sem falar...


Publicado no livro Legenda da luz e da vida (1911).

In: MOREYRA, Álvaro. Lenda das rosas. São Paulo: Ed. Nacional, 1928. p.37-38. (Os Mais belos poemas de amor
2 290

S Paulo

A garoa enfeitada pelos anúncios luminosos
brinca de bola de sabão na ponta dos arranha-céus.
Da janela do hotel vejo a cidade sorrindo.
Tão bonita!
São Paulo, eu quero bem a você.
Você dá gosto de ser brasileiro.
Você trabalha e não é neurastênica.
Você é rica e ainda por cima é inteligente.
Todas as cidades do Brasil deviam pagar prenda
para você...


In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
1 853

Destino

Todo mundo ama porque
todo mundo sempre amou.
É só por imitação.
Todo mundo ama porque
ninguém ainda inventou,
desde a anedota de Adão,
coisa melhor para a gente
trocar por uma alegria
que vem e vai de repente
a pobre melancolia
que nunca mais deixa a gente...


In: MOREYRA, Álvaro. Lenda das Rosas. São Paulo: Editora Nacional, 1928, (Os Mais belos poemas de amor)
2 323

Mistério

Chamam certas mulheres de infelizes.
E dizem que elas são da vida alegre...


In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
1 877

A Mangueira e o Sabiá

O sabiá pousou em cima da mangueira e cantou,
cantou uma semana inteira.
Depois foi-se embora, nunca mais voltou.
A mangueira ficou triste mas toda cheia de
mangas.
Mangas doces, tão bonitas, a mangueira nunca
deu.
Deu agora de saudade, porque a mangueira
sofreu.
Quanta mulher sabiá!
E quanto homem mangueira!...


In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
2 290

Pena

Dona Domitila, marquesa de Santos, eu gosto
muito da senhora.
O seu vestido foi o vestido mais bonito da
nossa terra.
Dona Domitila, marquesa de Santos, a senhora
se vestiu de amor...
Que pena não ter morrido moça, de cachos pretos,
de olhos alegres.
Que pena ter teimado em ficar velha, de vista
cansada, de cabelos brancos, dona Domitila, marquesa
de Santos...


In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
2 083

Elegia da Bruma

Réquiem do Pôr-do-Sol... A Tarde ajoelha e canta,
num mistério augural de cinza e de ouro vivo...
E o hospital, sob a Tarde, entre Árvores, levanta
o seu vulto de pedra, estranho e pensativo...

Ao incenso do Ocaso, a Paisagem parece
movimentar-se, orando, em gestos musicais...
É o silêncio que entoa harmonias de Prece
com a ignota orquestração dos mudos Vegetais...

Passos batem a estrada... E pela estrada, agora,
seguem ranchos buscando o sossego das casas...
Desaparecem... Vão... E ao misticismo da hora,
no ar silente, em quietude, andam saudades de Asas...

A escuridão aumenta... E há vozes... algazarras...
Das águas-verdes cresce um rouco cantochão...
Trilam grilos... E ao alto, as primeiras cigarras
despertam, respondendo... Aumenta a escuridão...

Súbito, em derredor, tudo se cala... E adiante,
ermo, queda o hospital como quem está ouvindo...
O Plenilúnio surge, em êxtase, distante,
branco, a Terra a abençoar... Vai subindo... subindo...

E à alva bênção da Luz, os contornos avultam
na precisão da Linha — hartos, a destacar...
Começa a Noite... E o Sono... E os Sonhos que sepultam
a Tristeza-da-Vida aos que podem sonhar...

E quando a claridade, em chapa, de repente,
cai sobre a frontaria, e a asperge, e a envolve, ondeando,
geme um órgão lá dentro, enevoado, dolente,
como se fora o Luar que estivesse tocando...

A Alma da Terra fala à vibração da Terra...
Espasmos de sofrer!... A Dor a sete tons!...
E ascende... e afunda... e ecoa... e pelos longes erra
um ritmo nebuloso, onde há sombras de sons...


Publicado no livro Legenda da luz e da vida (1911).

In: ZILBERMAN, Regina. Álvaro Moreyra. 2.ed. Porto Alegre: IEL, 1990. p.22-23. (Letras rio-grandenses
2 002

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Ana Thereza Leite
Ana Thereza Leite

Desde minha Adolescência, Álvaro Moreyra é um dos meus Portas favoritos.

Identificação e contexto básico

Nome completo: Álvaro de Sousa Moreyra Data e local de nascimento: 19 de setembro de 1886, Lisboa Data e local de morte: 15 de janeiro de 1972, Lisboa Nacionalidade: Português Língua de escrita: Português Contexto histórico em que viveu: Viveu durante um período de profundas transformações em Portugal, incluindo a Primeira República, o Estado Novo e a transição para a democracia, sendo a sua obra moldada pelas tensões sociais, políticas e culturais da época.

Infância e formação

Moreyra teve uma infância marcada por uma educação rigorosa. Frequentou a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde se licenciou, mas a sua vocação literária manifestou-se cedo. Absorveu influências da poesia simbolista e parnasiana, bem como da filosofia que permeava os círculos intelectuais de Coimbra.

Percurso literário

Iniciou a sua atividade literária com a publicação de poemas em revistas académicas e literárias ainda durante a sua juventude. Ao longo do tempo, a sua obra evoluiu para uma maior profundidade temática e estilística, explorando a condição humana com um olhar crítico e introspectivo. Foi também um ativo tradutor e ensaísta, contribuindo para a divulgação de autores estrangeiros em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As suas obras principais incluem "Vértice" (1916), "O Livro do Ócio" (1922) e "O Mar" (1931). Os temas dominantes na sua poesia são a passagem do tempo, a solidão, a melancolia, a reflexão sobre a arte e a natureza. Moreyra utilizava frequentemente formas mais clássicas, como o soneto, mas também experimentou com o verso livre, sempre com uma grande preocupação formal e musicalidade. O seu estilo é erudito, com um vocabulário rico e preciso, densidade imagética e um tom confessional e elegíaco. A sua obra é associada ao Modernismo português, embora mantivesse uma ligação com a tradição literária.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Álvaro Moreyra viveu num período de grande efervescência cultural em Portugal. Foi contemporâneo de outros grandes nomes da literatura portuguesa, com quem manteve relações de convívio e, por vezes, de debate literário. A sua geração, embora diversificada, partilhava a busca por novas formas de expressão artística em resposta às mudanças sociais e políticas do país.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Moreyra dedicou grande parte da sua vida à literatura, exercendo também funções públicas que lhe permitiram conciliar a sua paixão com a necessidade de sustento. As suas relações pessoais e as experiências de vida influenciaram a melancolia e a introspeção presentes na sua obra. As suas crenças filosóficas e espirituais, embora não explicitadas de forma dogmática, permeiam a sua reflexão sobre a existência.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O seu lugar na literatura portuguesa é o de um poeta de qualidade inegável, embora por vezes menos mediático que outros contemporâneos. Recebeu algum reconhecimento institucional, mas a sua obra tem vindo a ser redescoberta e valorizada pela crítica e pelos leitores mais atentos, consolidando-se como um valor seguro da poesia portuguesa do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Foi influenciado por poetas simbolistas e parnasianos, mas desenvolveu um estilo próprio. O seu legado reside na qualidade da sua linguagem poética, na profundidade das suas reflexões e na sua contribuição para a renovação da poesia portuguesa. A sua obra continua a ser estudada e apreciada por gerações posteriores de poetas e críticos literários.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Moreyra tem sido interpretada sob a ótica da angústia existencial, da busca pela transcendência e da reflexão sobre a arte como forma de lidar com a finitude humana. A sua poesia convida à contemplação e à introspeção, explorando a complexidade da condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Moreyra era conhecido pela sua discrição e pelo seu rigor intelectual. A sua dedicação à poesia era quase monástica, sendo a criação literária o centro da sua vida. Os seus hábitos de escrita eram metódicos e exigiam um grande esforço de depuração verbal.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em Lisboa, deixando uma obra que continua a ser um testemunho da sua sensibilidade e do seu talento poético. Publicações póstumas têm mantido a sua obra viva na memória literária.