Álvaro Moreyra

Álvaro Moreyra

Álvaro Moreyra foi um poeta, ensaísta e tradutor com uma obra marcada pela introspeção e pela busca de uma linguagem poética depurada. A sua escrita explora temas como a efemeridade do tempo, a solidão humana e a reflexão sobre a própria arte poética, frequentemente com um tom melancólico e contemplativo. Destacou-se pela sua erudição e pela qualidade formal dos seus versos, integrando-se no panorama literário português com uma voz singular e um estilo cuidado.

1888-11-23 Porto Alegre
1964-09-12 Rio de Janeiro
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As Sete Sombras

Saudade,
— velha torre erguida
nevoentamente
na paisagem de outono da minha alma.
Torre de onde se vê tudo tão longe...
Saudade...
Na distância, a perder-se, a voz de um sino
salma.
A luz no poente
é o pálido eco dessa voz perdida.
A alma da tarde envolve a velha torre.
E na velha torre
erguida
nevoentamente,
ondulam sete sombras silenciosas,
tecendo o sonho da minha vida...
Fico a senti-las. Lembro...
As sete sombras silenciosas...
Uma, quando chegou era novembro,
loura de sol, trazia
as mãos cheias de rosas:
— Deixa-me entrar, sou a Alegria. —
E eu lhe disse: — Bem-vinda sejas, Alegria. —
Outra, tênue, de espuma,
olhos azuis de criança,
lentos gestos de pluma,
surgiu mais tarde a mendigar pousada:
— O meu nome é Esperança.
Venho de muito além. Estou cansada. —
E eu lhe disse: — Descansa.
Bem-vinda sejas, Esperança. —
Veio depois a Felicidade,
tão linda sombra, toda em ouro acesa.
E veio a Dor, veio a Beleza,
veio a Bondade.
Uma noite, bateste. A velha torre
abriu-te as longas portas vagarosas.
E desde então, na velha torre,
tu ficaste, também, serena, inesquecida,
sombra das sombras silenciosas,
tecendo o sonho da minha vida...


Publicado no livro Lenda das rosas (1916).

In: MOREYRA, Álvaro. Lenda das rosas. São Paulo: Ed. Nacional, 1928. p.41-43. (Os Mais belos poemas de amor
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