Cora Coralina
Autor do dia

Cora Coralina

Cora Coralina foi uma poeta brasileira, conhecida pela sua poesia que retrata o cotidiano do interior de Goiás e as memórias de sua vida. Sua obra, marcada pela simplicidade e pela sabedoria popular, aborda temas como a família, o trabalho, a natureza e a passagem do tempo, com uma linguagem acessível e profunda. É considerada uma das vozes mais autênticas e representativas da poesia brasileira do século XX, tendo alcançado reconhecimento tardio, mas consolidado, por sua contribuição literária.

Poema do dia

O Operário Em Construção

Vinicius de Moraes
E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo
todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e
dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a
Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.
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Nasceram neste dia

6
Jorge de Lima

Jorge de Lima foi um poeta, médico e romancista brasileiro, figura central da segunda geração do Modernismo no Brasil. Sua obra é marcada por uma profunda religiosidade, pela exploração da linguagem e pela influência de correntes estéticas diversas, como o Simbolismo e o Surrealismo. Iniciou com uma poesia de cunho regionalista e evoluiu para experimentações formais e temáticas universais, abordando o sagrado, o profano, o amor e a morte com maestria.

Invenções de Orfeu
William Shakespeare

William Shakespeare foi um dramaturgo, poeta e ator inglês, amplamente considerado o maior escritor de língua inglesa e o maior dramaturgo do mundo. Sua obra inclui cerca de 39 peças, 154 sonetos, três poemas longos, e alguns outros versos. Suas peças foram traduzidas para todas as principais línguas vivas, e são encenadas mais do que as de qualquer outro dramaturgo.

Soneto XV
Osvaldo Alcântara

Osvaldo Alcântara foi um poeta e professor angolano. Destacou-se pela sua obra poética que aborda temas como a identidade africana, a condição humana e a crítica social. A sua escrita é marcada por uma linguagem cuidada e uma profunda sensibilidade lírica, explorando as complexidades da experiência africana no pós-colonialismo. Foi também um intelectual ativo na promoção da cultura e da educação em Angola.

Ressaca
Halldór Laxness

Halldór Laxness foi um dos mais proeminentes escritores islandeses, laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 1955. A sua obra, vasta e diversificada, abrange romances, contos, peças de teatro, poemas e ensaios, explorando a identidade islandesa, a luta pela sobrevivência num ambiente hostil e a crítica social com uma linguagem rica e inovadora. É reconhecido pela sua capacidade de fundir o realismo com elementos do folclore e da saga islandesa. Com um estilo literário singular, Laxness abordou temas como a pobreza, a injustiça social, a religião e a busca por significado existencial, deixando um legado literário que continua a influenciar a literatura mundial e a representar a alma e a história da Islândia.

Assoma, ó Lua
Jorge de Resende

Jorge de Resende foi um poeta português cuja obra se desenvolveu no século XX, enquadrando-se num período de renovação literária. Sua poesia é conhecida pela sua profundidade lírica, pela exploração de temas universais como o amor, a morte e a passagem do tempo, e por um estilo que combina a tradição com uma sensibilidade moderna.

Jorge Guimarães

Jorge Guimarães é um poeta português contemporâneo, cuja obra se destaca pela exploração profunda de temas como a identidade, a memória e a condição humana, frequentemente entrelaçada com a paisagem e a cultura portuguesas. A sua escrita caracteriza-se por uma linguagem cuidada e uma sensibilidade lírica apurada, convidando à reflexão sobre a passagem do tempo e as complexidades da existência. Com uma voz poética singular, Guimarães tem vindo a construir um corpo de trabalho que dialoga com a tradição literária, ao mesmo tempo que se abre a novas perspetivas e sensibilidades, afirmando-se como uma figura relevante na poesia portuguesa atual.

Morreram neste dia

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William Wordsworth

William Wordsworth foi um dos mais influentes poetas românticos ingleses, conhecido por celebrar a natureza e a vida comum como fontes de inspiração poética. A sua obra destaca-se pela linguagem simples e direta, refletindo os sentimentos humanos profundos e a beleza do mundo natural. Juntamente com Samuel Taylor Coleridge, revolucionou a poesia inglesa com a publicação de "Lyrical Ballads", marcando o início do Romantismo no país. Wordsworth acreditava que a poesia deveria ser "o espontâneo transbordamento de sentimentos poderosos" e que o poeta deveria explorar as emoções e a imaginação para se conectar com o leitor e com o universo.

I WANDERED LONELY AS A CLOUD
Roy Campbell

Roy Campbell foi um poeta sul-africano conhecido pela sua poesia vigorosa, imagética e frequentemente controversa. A sua obra reflete a sua vida aventureira, o seu envolvimento em conflitos e as suas fortes convicções políticas. Explora temas como a paisagem, o mar, a guerra, a fé e a identidade cultural, com um estilo que combina lirismo intenso com uma linguagem direta e poderosa. Campbell é considerado uma das vozes poéticas mais distintas da África do Sul do século XX.

LUÍS DE CAMÕES
William Shakespeare

William Shakespeare foi um dramaturgo, poeta e ator inglês, amplamente considerado o maior escritor de língua inglesa e o maior dramaturgo do mundo. Sua obra inclui cerca de 39 peças, 154 sonetos, três poemas longos, e alguns outros versos. Suas peças foram traduzidas para todas as principais línguas vivas, e são encenadas mais do que as de qualquer outro dramaturgo.

Soneto XV
Gaspara Stampa

Gaspara Stampa foi uma poeta italiana do Renascimento, celebrada pela intensidade e originalidade da sua obra lírica, que a coloca entre as vozes femininas mais importantes da poesia italiana. A sua produção poética é predominantemente dedicada ao amor, explorando as suas diversas facetas com paixão, melancolia e erotismo. A sua obra, recuperada e publicada postumamente, revela uma sensibilidade apurada e uma mestria formal notável, influenciando gerações posteriores de poetas. Stampa é reconhecida pela sua coragem em expressar os sentimentos femininos de forma tão aberta e honesta num período dominado por convenções sociais rígidas.

Soneto
Erik Gustaf Geijer

Erik Gustaf Geijer foi um escritor, historiador, poeta e compositor sueco. É considerado uma figura central no romantismo sueco e teve um impacto significativo no desenvolvimento da historiografia e da literatura na Suécia. Geijer também foi membro da Academia Sueca.

Jules Amédée Barbey d'Aurevilly

Jules Amédée Barbey d'Aurevilly foi um escritor e crítico literário francês, conhecido pelo seu estilo grandiloquente e pelas suas obras que exploram temas sombrios e o lado oculto da sociedade. Foi uma figura importante do romantismo tardio e do parnasianismo, com uma forte inclinação para o catolicismo e o tradicionalismo.

Theodor Gottlieb von Hippel

Theodor Gottlieb von Hippel foi um jurista, escritor e funcionário público prussiano. Conhecido por suas obras satíricas e seus escritos sobre a condição das mulheres, ele foi uma figura intelectual influente em seu tempo, promovendo ideias sobre a educação feminina e os direitos das mulheres.

Rolf Dieter Brinkmann

Rolf Dieter Brinkmann foi um poeta alemão, figura central da poesia experimental e da poesia concreta na Alemanha do pós-guerra. A sua obra, marcada pela desconstrução da linguagem e pela exploração de novas formas de expressão, abordou temas como a alienação urbana, a cultura de massa e a busca por autenticidade num mundo cada vez mais mediático e fragmentado. Brinkmann foi um inovador, desafiando as convenções literárias e abrindo caminho para futuras experimentações poéticas.

Improvisação 1, 2 3 (com Han Shan, entre outros)
Inca Garcilaso de la Vega

O Inca Garcilaso de la Vega foi um cronista e historiador peruano, reconhecido por ser o primeiro escritor mestiço a alcançar fama literária na Europa. A sua obra-prima, 'Comentários Reais dos Incas', é uma valiosa crónica da história, cultura e civilização do Império Inca, escrita sob uma perspetiva única que funde a herança indígena e a formação europeia. É uma figura crucial para a compreensão da identidade e da história do Peru e da América Latina.

Rupert Brooke

Rupert Brooke foi um poeta inglês conhecido pelos seus sonetos idealistas e patrióticos de guerra escritos no início da Primeira Guerra Mundial. A sua morte prematura por septicemia durante a guerra cimentou a sua imagem como uma figura heróica. A poesia de Brooke é caracterizada pela sua beleza lírica, forma tradicional e exploração de temas como amor, beleza e patriotismo, muitas vezes tingida por um sentido de idealismo juvenil.

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Escritora, artista, revisora e educadora.De Utinga - Bahia, residente em Aparecida de Goiânia - Goiás (Brasil).Licenciada em História/IFG.Especialista em Uso Educacional da Internet/UFLA.Mestranda em Ensino-Aprendizagem em Geografia/UFG.

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