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Poemas neste tema

Relações e Família

João Filho

João Filho

A VENDA POR DENTRO

Serengas, peixeiras,
vianas e naifas,
facões, lambedeiras
– as lâminas várias;

pregos, parafusos,
quinas, estreitezas
– o roxo mais puro,
a dor mais espessa;

o chumbo de fita,
o chumbo de caça
– o peso da vida,
o grão na garrafa;

os sacos de estopa,
as tais aniagens –
a mais suja estofa
serve de bagagem;

lata de eletrodo
e lata de tinta,
vassouras e rodos
– falta coisa ainda:

no baú de tampa,
açúcar, arroz,
feijão, a sustância
que só vem depois;

volumes, texturas,
cores, formas, cheiros –
nesse caos que açula
o pai é o ordeiro;

nesse labirinto,
a vida a varejo,
a Casa Bahiana
desse João Galego;

os tais viajantes,
suas promissórias,
o dever de ontem
vou saldar agora;

enxada, estrovenga,
pá, grosas e plainas,
as chaves de fenda,
verrumas, chibancas;

espátulas, tornos,
formões, discos, cintas,
cincerros, gangôlos
– falta coisa ainda:

foices, roçadeiras,
mata-pastos, lixas
– em dias de feira
o freguês capricha;

via de mão dupla –
toma lá, dá cá,
o freguês tem culpa?
E quem não terá?

Breu, painço, alpiste,
pacotes, sacolas,
os vários calibres
da mesma bitola;

cartucho, espoleta
(chamada de escorva),
da cinza e da preta
os tipos de pólvoras;

coloratos, bombas,
nitroglicerina,
dinamite assombra
– falta coisa ainda:

grifos, alicates,
torqueses e puas,
mas qual é a chave
da porta da rua?

o mundo das cordas,
nylons, piaçavas,
zinco pesa e corta
a mão destreinada;

anzóis, garateia,
o mundo das linhas,
pequena epopeia
da Venda e da Língua;

segunda a segunda,
domingo não falha,
o balcão circunda
nossa vida e fala;

balança: o ouro a fio,
o metro que finda,
serrotes, barril
– falta coisa ainda.
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Ademir Assunção

Ademir Assunção

JACK KEROUAC NA PRAIA BRAVA

sonhei com jack kerouac
sentado na varanda da casa
de waldemar cordeiro. eu acabara
de acordar e dei de cara
com aquele vulto imerso
na neblina. bem acima da copa
das árvores a lua cheia ardia
entre nuvens espessas, com sua
cara de gângster. eu disse: “ei, man,
onde é que vamos parar?” jack
deu uma longa tragada
no cigarro, fumaça branca na névoa
branca, e me estendeu
o copo de uísque.
continuou encarando a lua, pálido
como um fantasma. disse
que estava a bordo de um navio
mercante da marinha americana na costa
da indonésia até a semana passada.
perguntou se ainda havia hippies
nas ruas, feministas queimando sutiãs
em praça pública e negros
enforcados nos galhos de grossos carvalhos
no novo méxico. “oh, não, jack, isso
faz tanto tempo. agora eles mandam os jovens
negros pobres para a guerra no iraque.”
descemos até a mercearia da praia brava
atrás de umas latinhas de cerveja
e de uma garrafa de conhaque. no caminho
contei-lhe que leminski e itamar assumpção
estiveram nesta mesma casa no carnaval
de 1988. “oh, yeah”, disse jack. “os grandes
poetas são como as marés: engolem os
barcos dos imprudentes e lançam os destroços
na praia”. quando voltamos da mercearia,
minha filha de 16 anos lia jorge luis borges
e meu filho de 13 lia david goodis. nina
simone cantava just call me angel of the morning.
jack abriu uma lata de cerveja, bebeu
um longo gole olhando as folhas da mata
e disse a eles: “não deixem que os idiotas
calem sua voz. aquela voz que vem lá do fundo
de vocês mesmos. contem comigo
pro que der e vier”. minha filha
sussurrou no meu ouvido: “quem é esse
cara?” “jack kerouac”, eu respondi. “uau”,
ela balbuciou. meu filho levantou os olhos
do livro e gritou: “eddie acabou de acertar um
cruzado de direita na cara do leão de chácara”.
eu olhei para jack e em silêncio
fizemos um trato: “deixe-os viver. ainda é cedo
para contar-lhes sobre as mentiras do mundo”.
jack jogou pra dentro um bom gole
de conhaque e assentiu com a cabeça. a noite
estava fria. a lua continuava socando as nuvens
com sua cara de gângster mal-humorado.
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