Poemas neste tema
Relações e Família
Ricardo Redisch
Estilhaços
O amor é uma química poderosa,
mas de equilíbrio muito delicado.
Quando seus elementos se confundem
o conjunto pode voar pelos ares.
É a semântica então que se embaralha
num corredor de frases mutiladas,
e qualquer comunicação envolve
vários ressentimentos ofegantes.
Ao telefone, a fala é transportada
em longos fios de arame farpado,
numa sucessão de signos sem vida.
O discurso, então, deixa de ser pleno,
transforma-se num crispado murmúrio:
fenda que dói no corpo da palavra.
Do livro 'Sinergias', publicado em 2011 pela editora Livros de Safra
mas de equilíbrio muito delicado.
Quando seus elementos se confundem
o conjunto pode voar pelos ares.
É a semântica então que se embaralha
num corredor de frases mutiladas,
e qualquer comunicação envolve
vários ressentimentos ofegantes.
Ao telefone, a fala é transportada
em longos fios de arame farpado,
numa sucessão de signos sem vida.
O discurso, então, deixa de ser pleno,
transforma-se num crispado murmúrio:
fenda que dói no corpo da palavra.
Do livro 'Sinergias', publicado em 2011 pela editora Livros de Safra
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Martha Medeiros
o amor é tudo
Temos a mania de achar que o amor é algo que se busca. Buscamos o amor nos bares, buscamos o amor na internet, buscamos o amor na parada de ônibus.
Como num jogo de esconde-esconde, procuramos pelo amor que está oculto dentro das boates, nas salas de aula, nas platéias dos teatros.
Ele certamente está por ali, você quase pode sentir seu cheiro, precisa apenas descobri-lo e agarrá-lo o mais rápido possível, pois só o amor constrói,só o amor salva, só o amor traz felicidade.
Há quem acredite que amor é medicamento. Pelo contrário. Se você está deprimido, histérico ou ansioso demais, o amor não se aproxima, e, caso o faça, vai frustrar sua expectativa, porque o amor quer ser recebido com saúde e leveza, ele não suporta a idéia de ser ingerido de quatro em quatro horas, como um antibiótico para combater as bactérias da solidão e da falta de auto-estima.
Você já ouviu muitas vezes alguém dizer:
"Quando eu menos esperava, quando eu havia desistido de procurar, o amor apareceu". Claro, o amor não é bobo, quer ser bem tratado, por isso escolhe as pessoas que, antes de tudo, tratam bem de si mesmas.
O amor, ao contrário do que se pensa, não tem de vir antes de tudo.
Antes de estabilizar a carreira profissional, antes de fazer amigos, de viajar pelo mundo, de curtir a vida. Ele não é uma garantia de que, a partir de seu surgimento, tudo o mais dará certo. Queremos o amor como pré-requisito para o sucesso nos outros setores, quando, na verdade, o amor espera primeiro você ser feliz para só então surgir, sem máscara e sem fantasia.
É esta a condição. É pegar ou largar. Para quem acha que isso é chantagem, arrisco-me a sair em defesa do amor:
Ser feliz é uma exigência razoável, e não é tarefa tão complicada. Felizes são aqueles que aprendem a administrar seus conflitos, que aceitam suas oscilações de humor, que dão o melhor de si e não se autoflagelam por causa dos erros que cometem. Felicidade é serenidade.
Não tem nada a ver com piscinas, carros e muito menos com príncipe encantados.
O amor é o prêmio para quem relaxa.
Para completar, cito um famoso jornalista e escritor americano, Norman Mailer: "As pessoas ficam procurando o amor como solução para todos os seus problemas quando, na realidade, o amor é a recompensa por você ter resolvido os seus problemas."
Como num jogo de esconde-esconde, procuramos pelo amor que está oculto dentro das boates, nas salas de aula, nas platéias dos teatros.
Ele certamente está por ali, você quase pode sentir seu cheiro, precisa apenas descobri-lo e agarrá-lo o mais rápido possível, pois só o amor constrói,só o amor salva, só o amor traz felicidade.
Há quem acredite que amor é medicamento. Pelo contrário. Se você está deprimido, histérico ou ansioso demais, o amor não se aproxima, e, caso o faça, vai frustrar sua expectativa, porque o amor quer ser recebido com saúde e leveza, ele não suporta a idéia de ser ingerido de quatro em quatro horas, como um antibiótico para combater as bactérias da solidão e da falta de auto-estima.
Você já ouviu muitas vezes alguém dizer:
"Quando eu menos esperava, quando eu havia desistido de procurar, o amor apareceu". Claro, o amor não é bobo, quer ser bem tratado, por isso escolhe as pessoas que, antes de tudo, tratam bem de si mesmas.
O amor, ao contrário do que se pensa, não tem de vir antes de tudo.
Antes de estabilizar a carreira profissional, antes de fazer amigos, de viajar pelo mundo, de curtir a vida. Ele não é uma garantia de que, a partir de seu surgimento, tudo o mais dará certo. Queremos o amor como pré-requisito para o sucesso nos outros setores, quando, na verdade, o amor espera primeiro você ser feliz para só então surgir, sem máscara e sem fantasia.
É esta a condição. É pegar ou largar. Para quem acha que isso é chantagem, arrisco-me a sair em defesa do amor:
Ser feliz é uma exigência razoável, e não é tarefa tão complicada. Felizes são aqueles que aprendem a administrar seus conflitos, que aceitam suas oscilações de humor, que dão o melhor de si e não se autoflagelam por causa dos erros que cometem. Felicidade é serenidade.
Não tem nada a ver com piscinas, carros e muito menos com príncipe encantados.
O amor é o prêmio para quem relaxa.
Para completar, cito um famoso jornalista e escritor americano, Norman Mailer: "As pessoas ficam procurando o amor como solução para todos os seus problemas quando, na realidade, o amor é a recompensa por você ter resolvido os seus problemas."
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Martha Medeiros
Sentir-se amado
O cara diz que te ama, então tá. Ele te ama.
Sua mulher diz que te ama, então assunto encerrado.
Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas. Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se.
A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização, apesar de não sonharmos com outra coisa: se o cara beija, transa e diz que me ama, tenha a santa paciência, vou querer que ele faça pacto de sangue também?
Pactos. Acho que é isso. Não de sangue nem de nada que se possa ver e tocar. É um pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois.
Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você, caso você esteja delirando. "Não seja tão severa consigo mesma, relaxe um pouco. Vou te trazer um cálice de vinho".
Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que você contou dois anos atrás, é vê-la tentar reconciliar você com seu pai, é ver como ela fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d´água. "Lembra que quando eu passei por isso você disse que eu estava dramatizando? Então, chegou sua vez de simplificar as coisas. Vem aqui, tira este sapato."
Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido. Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta.
Agora sente-se e escute: eu te amo não diz tudo.
Sua mulher diz que te ama, então assunto encerrado.
Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas. Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se.
A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização, apesar de não sonharmos com outra coisa: se o cara beija, transa e diz que me ama, tenha a santa paciência, vou querer que ele faça pacto de sangue também?
Pactos. Acho que é isso. Não de sangue nem de nada que se possa ver e tocar. É um pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois.
Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você, caso você esteja delirando. "Não seja tão severa consigo mesma, relaxe um pouco. Vou te trazer um cálice de vinho".
Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que você contou dois anos atrás, é vê-la tentar reconciliar você com seu pai, é ver como ela fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d´água. "Lembra que quando eu passei por isso você disse que eu estava dramatizando? Então, chegou sua vez de simplificar as coisas. Vem aqui, tira este sapato."
Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido. Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta.
Agora sente-se e escute: eu te amo não diz tudo.
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Nuno Júdice
Guia
Irei bater-lhe à porta; e se não me abrir,
repetirei o abecedário das suas mãos, deixando
em cada um dos dedos a cor das vogais que
os seus lábios me ensinaram.
Falar-lhe-ei ao ouvido; e se não me ouvir
farei com que este segredo lhe escorra pelos
ombros, como a lágrima obscura da lua
que ilumina o seu rosto.
Mostrar-lhe-ei o caminho; e se não o vir,
fá-lo-ei sozinho, ouvindo os seus passos atrás
de mim, como se me seguisse, guiando-se
pelas vogais que espalhámos pelo campo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 101 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
repetirei o abecedário das suas mãos, deixando
em cada um dos dedos a cor das vogais que
os seus lábios me ensinaram.
Falar-lhe-ei ao ouvido; e se não me ouvir
farei com que este segredo lhe escorra pelos
ombros, como a lágrima obscura da lua
que ilumina o seu rosto.
Mostrar-lhe-ei o caminho; e se não o vir,
fá-lo-ei sozinho, ouvindo os seus passos atrás
de mim, como se me seguisse, guiando-se
pelas vogais que espalhámos pelo campo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 101 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Martha Medeiros
Strip-Tease
Chegou no apartamento dele por volta das seis da tarde e sentia um nervosismo fora do comum. Antes de entrar, pensou mais uma vez no que estava por fazer. Seria sua primeira vez. Já havia roído as unhas de ambas as mãos. Não podia mais voltar atrás. Tocou a campainha e ele, ansioso do outro lado da porta, não levou mais do que dois segundos para atender.
Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ela não quis. Ele perguntou se ela queria sentar, ela recusou. Ele perguntou o que poderia fazer por ela. A resposta: sem preliminares. Quero que você me escute, simplesmente.
Então ela começou a se despir como nunca havia feito antes.
Primeiro tirou a máscara: "Eu tenho feito de conta que você não me interessa muito, mas não é verdade. Você é a pessoa mais especial que já conheci. Não por ser bonito ou por pensar como eu sobre tantas coisas, mas por algo maior e mais profundo do que aparência e afinidade. Ser correspondida é o que menos me importa no momento: preciso dizer o que sinto".
Então ela desfez-se da arrogância: "Nem sei com que pernas cheguei até sua casa, achei que não teria coragem. Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que reparto, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história."
Era o pudor sendo desabotoado: "Eu beijo espelhos, abraço almofadas, faço carinho em mim mesma tendo você no pensamento, e mesmo quando as coisas que faço são menos importantes, como ler uma revista ou lavar uma meia, é em sua companhia que estou".
Retirava o medo: "Eu não sou melhor ou pior do que ninguém, sou apenas alguém que está aprendendo a lidar com o amor, sinto que ele existe, sinto que é forte e sinto que é aquilo que todos procuram. Encontrei".
Por fim, a última peça caía, deixando-a nua: "Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que vim. A intenção é unicamente deixá-lo saber que é amado e deixá-lo pensar a respeito, que amor não é coisa que se retribua de imediato, apenas para ser gentil. Se um dia eu for amada do mesmo modo por você, me avise que eu volto, e a gente recomeça de onde parou, paramos aqui".
E saiu do apartamento sentindo-se mais mulher do que nunca.
Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ela não quis. Ele perguntou se ela queria sentar, ela recusou. Ele perguntou o que poderia fazer por ela. A resposta: sem preliminares. Quero que você me escute, simplesmente.
Então ela começou a se despir como nunca havia feito antes.
Primeiro tirou a máscara: "Eu tenho feito de conta que você não me interessa muito, mas não é verdade. Você é a pessoa mais especial que já conheci. Não por ser bonito ou por pensar como eu sobre tantas coisas, mas por algo maior e mais profundo do que aparência e afinidade. Ser correspondida é o que menos me importa no momento: preciso dizer o que sinto".
Então ela desfez-se da arrogância: "Nem sei com que pernas cheguei até sua casa, achei que não teria coragem. Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que reparto, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história."
Era o pudor sendo desabotoado: "Eu beijo espelhos, abraço almofadas, faço carinho em mim mesma tendo você no pensamento, e mesmo quando as coisas que faço são menos importantes, como ler uma revista ou lavar uma meia, é em sua companhia que estou".
Retirava o medo: "Eu não sou melhor ou pior do que ninguém, sou apenas alguém que está aprendendo a lidar com o amor, sinto que ele existe, sinto que é forte e sinto que é aquilo que todos procuram. Encontrei".
Por fim, a última peça caía, deixando-a nua: "Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que vim. A intenção é unicamente deixá-lo saber que é amado e deixá-lo pensar a respeito, que amor não é coisa que se retribua de imediato, apenas para ser gentil. Se um dia eu for amada do mesmo modo por você, me avise que eu volto, e a gente recomeça de onde parou, paramos aqui".
E saiu do apartamento sentindo-se mais mulher do que nunca.
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Martha Medeiros
Vampiros
Eu não acredito em gnomos ou duendes, mas vampiros existem. Fique ligado, eles podem estar numa sala de bate-papo virtual, no balcão de um bar, no estacionamento de um shopping. Vampiros e vampiras aproximam-se com uma conversa fiada, pedem seu telefone, ligam no outro dia, convidam para um cinema. Quando você menos espera, está entregando a eles seu rico pescocinho e mais. Este "mais" você vai acabar descobrindo o que é com o tempo.
Vampiros tratam você muito bem, têm muita cultura, presença de espírito e conhecimento da vida. Você fica certo que conheceu uma pessoa especial. Custa a se dar conta de que eles são vampiros, parecem gente. Até que começam a sugar você. Sugam todinho o seu amor, sugam sua confiança, sugam sua tolerância, sugam sua fé, sugam seu tempo, sugam suas ilusões. Vampiros deixam você murchinha, chupam até a última gota. Um belo dia você descobre que nunca recebeu nada em troca, que amou pelos dois, que foi sempre um ombro amigo, que sempre esteve à disposição, e sofreu tão solitariamente que hoje se encontra aí, mais carniça do que carne.
Esta é uma historinha de terror que se repete ano após ano, por séculos. Relações vampirescas: o morcegão surge com uma carinha de fome e cansaço, como se não tivesse dormido a noite toda, e você se oferece para uma conversa, um abraço, uma força. Aí ele se revitaliza e bate as asinhas. Acontece em São Paulo, Manaus, Recife, Florianópolis, em todo lugar, não só na Transilvânia. E ocorre também entre amigos, entre colegas de trabalho, entre familiares, não só nas relações de amor.
Doe sangue para hospitais. Dê seu sangue por um projeto de vida, por um sonho. Mas não doe para aqueles que sempre, sempre, sempre vão lhe pedir mais e lhe retribuir jamais.
Vampiros tratam você muito bem, têm muita cultura, presença de espírito e conhecimento da vida. Você fica certo que conheceu uma pessoa especial. Custa a se dar conta de que eles são vampiros, parecem gente. Até que começam a sugar você. Sugam todinho o seu amor, sugam sua confiança, sugam sua tolerância, sugam sua fé, sugam seu tempo, sugam suas ilusões. Vampiros deixam você murchinha, chupam até a última gota. Um belo dia você descobre que nunca recebeu nada em troca, que amou pelos dois, que foi sempre um ombro amigo, que sempre esteve à disposição, e sofreu tão solitariamente que hoje se encontra aí, mais carniça do que carne.
Esta é uma historinha de terror que se repete ano após ano, por séculos. Relações vampirescas: o morcegão surge com uma carinha de fome e cansaço, como se não tivesse dormido a noite toda, e você se oferece para uma conversa, um abraço, uma força. Aí ele se revitaliza e bate as asinhas. Acontece em São Paulo, Manaus, Recife, Florianópolis, em todo lugar, não só na Transilvânia. E ocorre também entre amigos, entre colegas de trabalho, entre familiares, não só nas relações de amor.
Doe sangue para hospitais. Dê seu sangue por um projeto de vida, por um sonho. Mas não doe para aqueles que sempre, sempre, sempre vão lhe pedir mais e lhe retribuir jamais.
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Martha Medeiros
Vampiros
Eu não acredito em gnomos ou duendes, mas vampiros existem. Fique ligado, eles podem estar numa sala de bate-papo virtual, no balcão de um bar, no estacionamento de um shopping. Vampiros e vampiras aproximam-se com uma conversa fiada, pedem seu telefone, ligam no outro dia, convidam para um cinema. Quando você menos espera, está entregando a eles seu rico pescocinho e mais. Este "mais" você vai acabar descobrindo o que é com o tempo.
Vampiros tratam você muito bem, têm muita cultura, presença de espírito e conhecimento da vida. Você fica certo que conheceu uma pessoa especial. Custa a se dar conta de que eles são vampiros, parecem gente. Até que começam a sugar você. Sugam todinho o seu amor, sugam sua confiança, sugam sua tolerância, sugam sua fé, sugam seu tempo, sugam suas ilusões. Vampiros deixam você murchinha, chupam até a última gota. Um belo dia você descobre que nunca recebeu nada em troca, que amou pelos dois, que foi sempre um ombro amigo, que sempre esteve à disposição, e sofreu tão solitariamente que hoje se encontra aí, mais carniça do que carne.
Esta é uma historinha de terror que se repete ano após ano, por séculos. Relações vampirescas: o morcegão surge com uma carinha de fome e cansaço, como se não tivesse dormido a noite toda, e você se oferece para uma conversa, um abraço, uma força. Aí ele se revitaliza e bate as asinhas. Acontece em São Paulo, Manaus, Recife, Florianópolis, em todo lugar, não só na Transilvânia. E ocorre também entre amigos, entre colegas de trabalho, entre familiares, não só nas relações de amor.
Doe sangue para hospitais. Dê seu sangue por um projeto de vida, por um sonho. Mas não doe para aqueles que sempre, sempre, sempre vão lhe pedir mais e lhe retribuir jamais.
Vampiros tratam você muito bem, têm muita cultura, presença de espírito e conhecimento da vida. Você fica certo que conheceu uma pessoa especial. Custa a se dar conta de que eles são vampiros, parecem gente. Até que começam a sugar você. Sugam todinho o seu amor, sugam sua confiança, sugam sua tolerância, sugam sua fé, sugam seu tempo, sugam suas ilusões. Vampiros deixam você murchinha, chupam até a última gota. Um belo dia você descobre que nunca recebeu nada em troca, que amou pelos dois, que foi sempre um ombro amigo, que sempre esteve à disposição, e sofreu tão solitariamente que hoje se encontra aí, mais carniça do que carne.
Esta é uma historinha de terror que se repete ano após ano, por séculos. Relações vampirescas: o morcegão surge com uma carinha de fome e cansaço, como se não tivesse dormido a noite toda, e você se oferece para uma conversa, um abraço, uma força. Aí ele se revitaliza e bate as asinhas. Acontece em São Paulo, Manaus, Recife, Florianópolis, em todo lugar, não só na Transilvânia. E ocorre também entre amigos, entre colegas de trabalho, entre familiares, não só nas relações de amor.
Doe sangue para hospitais. Dê seu sangue por um projeto de vida, por um sonho. Mas não doe para aqueles que sempre, sempre, sempre vão lhe pedir mais e lhe retribuir jamais.
1 097
Martha Medeiros
Vampiros
Eu não acredito em gnomos ou duendes, mas vampiros existem. Fique ligado, eles podem estar numa sala de bate-papo virtual, no balcão de um bar, no estacionamento de um shopping. Vampiros e vampiras aproximam-se com uma conversa fiada, pedem seu telefone, ligam no outro dia, convidam para um cinema. Quando você menos espera, está entregando a eles seu rico pescocinho e mais. Este "mais" você vai acabar descobrindo o que é com o tempo.
Vampiros tratam você muito bem, têm muita cultura, presença de espírito e conhecimento da vida. Você fica certo que conheceu uma pessoa especial. Custa a se dar conta de que eles são vampiros, parecem gente. Até que começam a sugar você. Sugam todinho o seu amor, sugam sua confiança, sugam sua tolerância, sugam sua fé, sugam seu tempo, sugam suas ilusões. Vampiros deixam você murchinha, chupam até a última gota. Um belo dia você descobre que nunca recebeu nada em troca, que amou pelos dois, que foi sempre um ombro amigo, que sempre esteve à disposição, e sofreu tão solitariamente que hoje se encontra aí, mais carniça do que carne.
Esta é uma historinha de terror que se repete ano após ano, por séculos. Relações vampirescas: o morcegão surge com uma carinha de fome e cansaço, como se não tivesse dormido a noite toda, e você se oferece para uma conversa, um abraço, uma força. Aí ele se revitaliza e bate as asinhas. Acontece em São Paulo, Manaus, Recife, Florianópolis, em todo lugar, não só na Transilvânia. E ocorre também entre amigos, entre colegas de trabalho, entre familiares, não só nas relações de amor.
Doe sangue para hospitais. Dê seu sangue por um projeto de vida, por um sonho. Mas não doe para aqueles que sempre, sempre, sempre vão lhe pedir mais e lhe retribuir jamais.
Vampiros tratam você muito bem, têm muita cultura, presença de espírito e conhecimento da vida. Você fica certo que conheceu uma pessoa especial. Custa a se dar conta de que eles são vampiros, parecem gente. Até que começam a sugar você. Sugam todinho o seu amor, sugam sua confiança, sugam sua tolerância, sugam sua fé, sugam seu tempo, sugam suas ilusões. Vampiros deixam você murchinha, chupam até a última gota. Um belo dia você descobre que nunca recebeu nada em troca, que amou pelos dois, que foi sempre um ombro amigo, que sempre esteve à disposição, e sofreu tão solitariamente que hoje se encontra aí, mais carniça do que carne.
Esta é uma historinha de terror que se repete ano após ano, por séculos. Relações vampirescas: o morcegão surge com uma carinha de fome e cansaço, como se não tivesse dormido a noite toda, e você se oferece para uma conversa, um abraço, uma força. Aí ele se revitaliza e bate as asinhas. Acontece em São Paulo, Manaus, Recife, Florianópolis, em todo lugar, não só na Transilvânia. E ocorre também entre amigos, entre colegas de trabalho, entre familiares, não só nas relações de amor.
Doe sangue para hospitais. Dê seu sangue por um projeto de vida, por um sonho. Mas não doe para aqueles que sempre, sempre, sempre vão lhe pedir mais e lhe retribuir jamais.
1 097
Nuno Júdice
Lilith
O que a faz viver? Pensa?
Ou sonha? Os olhos demoram-se
numa indecisão entre acordar
e adormecer; e sem os fechar,
é como se não visse nada,
para além dela. Mas
uma sombra enrola-se à volta
do seu pescoço, num abraço
de serpente; e os lábios
abrem-se num sorriso
leve, que nos prende,
com o veneno invisível
do amor.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 106 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
Ou sonha? Os olhos demoram-se
numa indecisão entre acordar
e adormecer; e sem os fechar,
é como se não visse nada,
para além dela. Mas
uma sombra enrola-se à volta
do seu pescoço, num abraço
de serpente; e os lábios
abrem-se num sorriso
leve, que nos prende,
com o veneno invisível
do amor.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 106 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 297
Martha Medeiros
Hoje Me Desfiz Dos Meus Bens
hoje me desfiz dos meus bens
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos
o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos
a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos
a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos
aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos
coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos
o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos
a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos
a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos
aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos
coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos
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Martha Medeiros
Hoje Me Desfiz Dos Meus Bens
hoje me desfiz dos meus bens
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos
o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos
a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos
a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos
aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos
coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos
o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos
a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos
a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos
aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos
coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos
1 793
Cesare Pavese
TERRA RUBRA TERRA PRETA
Terra rubra terra preta,
você veio do mar,
do verde ressequido,
onde há palavras
antigas e fadiga sanguínea
e gerânios dentre as pedras,
você não sabe o quanto trazes
de mar, de palavras e de fadiga;
você, rica como uma recordação,
como o campo árido,
você, palavra dura e docíssima,
antiga pelo sangue
reunido nos olhos;
jovem, como um fruto
que é memória e estação,
sua respiração repousa
sob o céu de agosto,
e as olivas do teu olhar
adoçam o mar,
e você vive e revive
sem surpresa, certeira
como a terra, algoz
de estações e de sonhos
que ao luar se revelam
antiguíssimos, como
as mãos da tua mãe,
a tigela do braseiro.
você veio do mar,
do verde ressequido,
onde há palavras
antigas e fadiga sanguínea
e gerânios dentre as pedras,
você não sabe o quanto trazes
de mar, de palavras e de fadiga;
você, rica como uma recordação,
como o campo árido,
você, palavra dura e docíssima,
antiga pelo sangue
reunido nos olhos;
jovem, como um fruto
que é memória e estação,
sua respiração repousa
sob o céu de agosto,
e as olivas do teu olhar
adoçam o mar,
e você vive e revive
sem surpresa, certeira
como a terra, algoz
de estações e de sonhos
que ao luar se revelam
antiguíssimos, como
as mãos da tua mãe,
a tigela do braseiro.
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Nuno Júdice
Carta de Orfeu a Eurídice (4)
Nessas tardes em que despias o coração, e mo
entregavas num gesto de orvalho primaveril, o calor
de um sorriso de olhos fechados atravessava-me
a alma, e misturava-se com a terra húmida
das sensações. Podia dizer-te: este é o pólen que nenhum
insecto poderá roubar da corola onde se fabbrica o éter
do amor; e ouvir o teu riso, dissipando um temporal
de emoções. Nós éramos um - e essa unidade dividia-nos,
quando no seu interior estremecia uma hesitação,
corrompendo o espanto do outro.
Porque não pôde ser assim, sempre, e a ilusão
se dissipou como se uma corrente de ar tivesse atravessado
o quarto, levando com a sua passagem o brilho que
os teus lhos me davam? Ou não existe já, esse amor,
nalgum compartimento do caminho que nos abre
a agonia da ausência? Tu,
na decisão do teu silêncio; e eu, escudado pelo vazio que
envolve os seres que a vida rejeita. Mas que outras provas
querias? Só o teu nome, repetido na clausura
do inferno? Ou a secura dos lábios que o dizem, como
se a palavra não absorvesse o doce bálsamo
do teu corpo?
Vê o que ouso: esta vontade de perecer,
um sonho de eternidade, a ilusão do encontro
para além do humano, onde os deuses se
dissipam com a primeira luz do dia. Falo de mim, então,
como se o meu tempo fosse outro; rompo as fronteiras
que o divino impõe, e essas que eu próprio me coloco,
seguindo o caminho de um astro hostil. Alinho
na berma todas as perguntas que não voltarão a ter resposta: Onde estás? Que negra cortina desceu
sobre o passeio de onde eu te via chegar, enquanto a esplanada
se enchia com os nómadas estivais? Quando voltarei a ouvir a tua voz cansada, agora que um lamento
de pálpebras se sobrepõe a esse fogo de artifício que
batia contra as janelas do norte?
Mas é outro movimento de raízes. Empurra-as
uma fermentação de fogo na fulgurância dos campos. Lembras-te?
O sémen que escorre pela pedra, enquanto o teu rosto
se transforma - ó amante melancólica do outono,
por quem os sinos chamam, e cuja beleza escorre numa pele
de nuvem, encobrindo a tristeza que adivinho
numa súbita inflexão de voz. Falo, por fim, da medida
das palavras: o que te obriga a cortar este tempo que nos resta
com a lâmina do desânimo? Possuí-te sobre a pedra
da vida, limpando o musgo das convicções; e é aí
que te reencontro, como se o céu mantivesse o azul,
imóvel, sugerindo a harmonia do presente.
Falo-te, ainda, ó última das mulheres amadas, como
se me pertencesses! E um sabor de cinza nasce do silêncio
que me responde.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 52 a 54 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
entregavas num gesto de orvalho primaveril, o calor
de um sorriso de olhos fechados atravessava-me
a alma, e misturava-se com a terra húmida
das sensações. Podia dizer-te: este é o pólen que nenhum
insecto poderá roubar da corola onde se fabbrica o éter
do amor; e ouvir o teu riso, dissipando um temporal
de emoções. Nós éramos um - e essa unidade dividia-nos,
quando no seu interior estremecia uma hesitação,
corrompendo o espanto do outro.
Porque não pôde ser assim, sempre, e a ilusão
se dissipou como se uma corrente de ar tivesse atravessado
o quarto, levando com a sua passagem o brilho que
os teus lhos me davam? Ou não existe já, esse amor,
nalgum compartimento do caminho que nos abre
a agonia da ausência? Tu,
na decisão do teu silêncio; e eu, escudado pelo vazio que
envolve os seres que a vida rejeita. Mas que outras provas
querias? Só o teu nome, repetido na clausura
do inferno? Ou a secura dos lábios que o dizem, como
se a palavra não absorvesse o doce bálsamo
do teu corpo?
Vê o que ouso: esta vontade de perecer,
um sonho de eternidade, a ilusão do encontro
para além do humano, onde os deuses se
dissipam com a primeira luz do dia. Falo de mim, então,
como se o meu tempo fosse outro; rompo as fronteiras
que o divino impõe, e essas que eu próprio me coloco,
seguindo o caminho de um astro hostil. Alinho
na berma todas as perguntas que não voltarão a ter resposta: Onde estás? Que negra cortina desceu
sobre o passeio de onde eu te via chegar, enquanto a esplanada
se enchia com os nómadas estivais? Quando voltarei a ouvir a tua voz cansada, agora que um lamento
de pálpebras se sobrepõe a esse fogo de artifício que
batia contra as janelas do norte?
Mas é outro movimento de raízes. Empurra-as
uma fermentação de fogo na fulgurância dos campos. Lembras-te?
O sémen que escorre pela pedra, enquanto o teu rosto
se transforma - ó amante melancólica do outono,
por quem os sinos chamam, e cuja beleza escorre numa pele
de nuvem, encobrindo a tristeza que adivinho
numa súbita inflexão de voz. Falo, por fim, da medida
das palavras: o que te obriga a cortar este tempo que nos resta
com a lâmina do desânimo? Possuí-te sobre a pedra
da vida, limpando o musgo das convicções; e é aí
que te reencontro, como se o céu mantivesse o azul,
imóvel, sugerindo a harmonia do presente.
Falo-te, ainda, ó última das mulheres amadas, como
se me pertencesses! E um sabor de cinza nasce do silêncio
que me responde.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 52 a 54 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 300
Nuno Júdice
Carta de Orfeu a Eurídice (4)
Nessas tardes em que despias o coração, e mo
entregavas num gesto de orvalho primaveril, o calor
de um sorriso de olhos fechados atravessava-me
a alma, e misturava-se com a terra húmida
das sensações. Podia dizer-te: este é o pólen que nenhum
insecto poderá roubar da corola onde se fabbrica o éter
do amor; e ouvir o teu riso, dissipando um temporal
de emoções. Nós éramos um - e essa unidade dividia-nos,
quando no seu interior estremecia uma hesitação,
corrompendo o espanto do outro.
Porque não pôde ser assim, sempre, e a ilusão
se dissipou como se uma corrente de ar tivesse atravessado
o quarto, levando com a sua passagem o brilho que
os teus lhos me davam? Ou não existe já, esse amor,
nalgum compartimento do caminho que nos abre
a agonia da ausência? Tu,
na decisão do teu silêncio; e eu, escudado pelo vazio que
envolve os seres que a vida rejeita. Mas que outras provas
querias? Só o teu nome, repetido na clausura
do inferno? Ou a secura dos lábios que o dizem, como
se a palavra não absorvesse o doce bálsamo
do teu corpo?
Vê o que ouso: esta vontade de perecer,
um sonho de eternidade, a ilusão do encontro
para além do humano, onde os deuses se
dissipam com a primeira luz do dia. Falo de mim, então,
como se o meu tempo fosse outro; rompo as fronteiras
que o divino impõe, e essas que eu próprio me coloco,
seguindo o caminho de um astro hostil. Alinho
na berma todas as perguntas que não voltarão a ter resposta: Onde estás? Que negra cortina desceu
sobre o passeio de onde eu te via chegar, enquanto a esplanada
se enchia com os nómadas estivais? Quando voltarei a ouvir a tua voz cansada, agora que um lamento
de pálpebras se sobrepõe a esse fogo de artifício que
batia contra as janelas do norte?
Mas é outro movimento de raízes. Empurra-as
uma fermentação de fogo na fulgurância dos campos. Lembras-te?
O sémen que escorre pela pedra, enquanto o teu rosto
se transforma - ó amante melancólica do outono,
por quem os sinos chamam, e cuja beleza escorre numa pele
de nuvem, encobrindo a tristeza que adivinho
numa súbita inflexão de voz. Falo, por fim, da medida
das palavras: o que te obriga a cortar este tempo que nos resta
com a lâmina do desânimo? Possuí-te sobre a pedra
da vida, limpando o musgo das convicções; e é aí
que te reencontro, como se o céu mantivesse o azul,
imóvel, sugerindo a harmonia do presente.
Falo-te, ainda, ó última das mulheres amadas, como
se me pertencesses! E um sabor de cinza nasce do silêncio
que me responde.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 52 a 54 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
entregavas num gesto de orvalho primaveril, o calor
de um sorriso de olhos fechados atravessava-me
a alma, e misturava-se com a terra húmida
das sensações. Podia dizer-te: este é o pólen que nenhum
insecto poderá roubar da corola onde se fabbrica o éter
do amor; e ouvir o teu riso, dissipando um temporal
de emoções. Nós éramos um - e essa unidade dividia-nos,
quando no seu interior estremecia uma hesitação,
corrompendo o espanto do outro.
Porque não pôde ser assim, sempre, e a ilusão
se dissipou como se uma corrente de ar tivesse atravessado
o quarto, levando com a sua passagem o brilho que
os teus lhos me davam? Ou não existe já, esse amor,
nalgum compartimento do caminho que nos abre
a agonia da ausência? Tu,
na decisão do teu silêncio; e eu, escudado pelo vazio que
envolve os seres que a vida rejeita. Mas que outras provas
querias? Só o teu nome, repetido na clausura
do inferno? Ou a secura dos lábios que o dizem, como
se a palavra não absorvesse o doce bálsamo
do teu corpo?
Vê o que ouso: esta vontade de perecer,
um sonho de eternidade, a ilusão do encontro
para além do humano, onde os deuses se
dissipam com a primeira luz do dia. Falo de mim, então,
como se o meu tempo fosse outro; rompo as fronteiras
que o divino impõe, e essas que eu próprio me coloco,
seguindo o caminho de um astro hostil. Alinho
na berma todas as perguntas que não voltarão a ter resposta: Onde estás? Que negra cortina desceu
sobre o passeio de onde eu te via chegar, enquanto a esplanada
se enchia com os nómadas estivais? Quando voltarei a ouvir a tua voz cansada, agora que um lamento
de pálpebras se sobrepõe a esse fogo de artifício que
batia contra as janelas do norte?
Mas é outro movimento de raízes. Empurra-as
uma fermentação de fogo na fulgurância dos campos. Lembras-te?
O sémen que escorre pela pedra, enquanto o teu rosto
se transforma - ó amante melancólica do outono,
por quem os sinos chamam, e cuja beleza escorre numa pele
de nuvem, encobrindo a tristeza que adivinho
numa súbita inflexão de voz. Falo, por fim, da medida
das palavras: o que te obriga a cortar este tempo que nos resta
com a lâmina do desânimo? Possuí-te sobre a pedra
da vida, limpando o musgo das convicções; e é aí
que te reencontro, como se o céu mantivesse o azul,
imóvel, sugerindo a harmonia do presente.
Falo-te, ainda, ó última das mulheres amadas, como
se me pertencesses! E um sabor de cinza nasce do silêncio
que me responde.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 52 a 54 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 300
Nuno Júdice
Carta de Orfeu a Eurídice (4)
Nessas tardes em que despias o coração, e mo
entregavas num gesto de orvalho primaveril, o calor
de um sorriso de olhos fechados atravessava-me
a alma, e misturava-se com a terra húmida
das sensações. Podia dizer-te: este é o pólen que nenhum
insecto poderá roubar da corola onde se fabbrica o éter
do amor; e ouvir o teu riso, dissipando um temporal
de emoções. Nós éramos um - e essa unidade dividia-nos,
quando no seu interior estremecia uma hesitação,
corrompendo o espanto do outro.
Porque não pôde ser assim, sempre, e a ilusão
se dissipou como se uma corrente de ar tivesse atravessado
o quarto, levando com a sua passagem o brilho que
os teus lhos me davam? Ou não existe já, esse amor,
nalgum compartimento do caminho que nos abre
a agonia da ausência? Tu,
na decisão do teu silêncio; e eu, escudado pelo vazio que
envolve os seres que a vida rejeita. Mas que outras provas
querias? Só o teu nome, repetido na clausura
do inferno? Ou a secura dos lábios que o dizem, como
se a palavra não absorvesse o doce bálsamo
do teu corpo?
Vê o que ouso: esta vontade de perecer,
um sonho de eternidade, a ilusão do encontro
para além do humano, onde os deuses se
dissipam com a primeira luz do dia. Falo de mim, então,
como se o meu tempo fosse outro; rompo as fronteiras
que o divino impõe, e essas que eu próprio me coloco,
seguindo o caminho de um astro hostil. Alinho
na berma todas as perguntas que não voltarão a ter resposta: Onde estás? Que negra cortina desceu
sobre o passeio de onde eu te via chegar, enquanto a esplanada
se enchia com os nómadas estivais? Quando voltarei a ouvir a tua voz cansada, agora que um lamento
de pálpebras se sobrepõe a esse fogo de artifício que
batia contra as janelas do norte?
Mas é outro movimento de raízes. Empurra-as
uma fermentação de fogo na fulgurância dos campos. Lembras-te?
O sémen que escorre pela pedra, enquanto o teu rosto
se transforma - ó amante melancólica do outono,
por quem os sinos chamam, e cuja beleza escorre numa pele
de nuvem, encobrindo a tristeza que adivinho
numa súbita inflexão de voz. Falo, por fim, da medida
das palavras: o que te obriga a cortar este tempo que nos resta
com a lâmina do desânimo? Possuí-te sobre a pedra
da vida, limpando o musgo das convicções; e é aí
que te reencontro, como se o céu mantivesse o azul,
imóvel, sugerindo a harmonia do presente.
Falo-te, ainda, ó última das mulheres amadas, como
se me pertencesses! E um sabor de cinza nasce do silêncio
que me responde.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 52 a 54 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
entregavas num gesto de orvalho primaveril, o calor
de um sorriso de olhos fechados atravessava-me
a alma, e misturava-se com a terra húmida
das sensações. Podia dizer-te: este é o pólen que nenhum
insecto poderá roubar da corola onde se fabbrica o éter
do amor; e ouvir o teu riso, dissipando um temporal
de emoções. Nós éramos um - e essa unidade dividia-nos,
quando no seu interior estremecia uma hesitação,
corrompendo o espanto do outro.
Porque não pôde ser assim, sempre, e a ilusão
se dissipou como se uma corrente de ar tivesse atravessado
o quarto, levando com a sua passagem o brilho que
os teus lhos me davam? Ou não existe já, esse amor,
nalgum compartimento do caminho que nos abre
a agonia da ausência? Tu,
na decisão do teu silêncio; e eu, escudado pelo vazio que
envolve os seres que a vida rejeita. Mas que outras provas
querias? Só o teu nome, repetido na clausura
do inferno? Ou a secura dos lábios que o dizem, como
se a palavra não absorvesse o doce bálsamo
do teu corpo?
Vê o que ouso: esta vontade de perecer,
um sonho de eternidade, a ilusão do encontro
para além do humano, onde os deuses se
dissipam com a primeira luz do dia. Falo de mim, então,
como se o meu tempo fosse outro; rompo as fronteiras
que o divino impõe, e essas que eu próprio me coloco,
seguindo o caminho de um astro hostil. Alinho
na berma todas as perguntas que não voltarão a ter resposta: Onde estás? Que negra cortina desceu
sobre o passeio de onde eu te via chegar, enquanto a esplanada
se enchia com os nómadas estivais? Quando voltarei a ouvir a tua voz cansada, agora que um lamento
de pálpebras se sobrepõe a esse fogo de artifício que
batia contra as janelas do norte?
Mas é outro movimento de raízes. Empurra-as
uma fermentação de fogo na fulgurância dos campos. Lembras-te?
O sémen que escorre pela pedra, enquanto o teu rosto
se transforma - ó amante melancólica do outono,
por quem os sinos chamam, e cuja beleza escorre numa pele
de nuvem, encobrindo a tristeza que adivinho
numa súbita inflexão de voz. Falo, por fim, da medida
das palavras: o que te obriga a cortar este tempo que nos resta
com a lâmina do desânimo? Possuí-te sobre a pedra
da vida, limpando o musgo das convicções; e é aí
que te reencontro, como se o céu mantivesse o azul,
imóvel, sugerindo a harmonia do presente.
Falo-te, ainda, ó última das mulheres amadas, como
se me pertencesses! E um sabor de cinza nasce do silêncio
que me responde.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 52 a 54 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 300
Nuno Júdice
Estudo de mulher
Esta mulher simplesmente deitada, e colhida com
a colher da tarde, é o fruto que ficou na árvore onde
os pássaros o procuram, e passam de lado, como se
o não sentissem. É o fruto que me resta olhar, com
a sua pele tecida pelos ventos do verão, e a polpa
a sair, como se a terra estivesse pronta para a
receber. Estendo-a com a sua frescura de nuvem,
que pinto com a cor tensa do amanhecer, ouvindo
a música dos seus lábios descer-me para o fundo
da alma, onde lhe dou a guarida dos amantes. É
ela o centro da cedilha que ponho no intervalo
de cada frase, para que um sopro de silêncio se
instale no coração da primavera. E se um
murmúrio o rompe, levem-no os ouvidos em que
pousou, para que alguém o repita, e noutros
lábios se faça o que aqui se vê, e já passou.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 73 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
a colher da tarde, é o fruto que ficou na árvore onde
os pássaros o procuram, e passam de lado, como se
o não sentissem. É o fruto que me resta olhar, com
a sua pele tecida pelos ventos do verão, e a polpa
a sair, como se a terra estivesse pronta para a
receber. Estendo-a com a sua frescura de nuvem,
que pinto com a cor tensa do amanhecer, ouvindo
a música dos seus lábios descer-me para o fundo
da alma, onde lhe dou a guarida dos amantes. É
ela o centro da cedilha que ponho no intervalo
de cada frase, para que um sopro de silêncio se
instale no coração da primavera. E se um
murmúrio o rompe, levem-no os ouvidos em que
pousou, para que alguém o repita, e noutros
lábios se faça o que aqui se vê, e já passou.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 73 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 313
Edmir Domingues
Holograma
Contemplo-te de frente
e o faço firmemente.
E vejo a suavidade
da fronte - está defronte.
Contemplo os lagos vivos
de cor castanho escura
cercado como os lagos
por matas ciliares.
É a pequena colina
com duas cavidades
que trazem para o mundo
teu aroma interior
sabendo a juventude.
Sobre a boca de beijos.
Vejo também os montes
e o vale que os separa
cujos cumes exibem
como que rósea neve,
ao pé dessa planície
que conduz os meus olhos
para a floresta negra
de sombras insondáveis.
O todo monumento
é sustentado por
duas altas colunas
pousadas sobre o solo.
Onde as plantas semelham
como um quê de raízes.
Giro em torno de ti
como gira o Satélite
em volta do Planeta,
na direção contrária
ao rumo dos relógios.
Sigo vendo o milagre.
Bem mais da escura coma,
os braços dos abraços
caídos junto ao tronco,
exibindo no extremo
os dedos de carícias.
As colunas agora
observadas de lado,
têm a mesma beleza
já dantes constatada.
O giro continua
e uma nova paisagem
é então descortinada.
A coma desce em ondas
a base do pescoço.
Nova quase planície,
duas novas colinas,
outro vale, insondado.
O giro continua.
E agora é a paisagem
toda igual à segunda.
Resta o giro final,
confirmação da vista
antevista, no inicio.
O término da viagem
que se empreendeu à volta
da mulher desejada.
1991
e o faço firmemente.
E vejo a suavidade
da fronte - está defronte.
Contemplo os lagos vivos
de cor castanho escura
cercado como os lagos
por matas ciliares.
É a pequena colina
com duas cavidades
que trazem para o mundo
teu aroma interior
sabendo a juventude.
Sobre a boca de beijos.
Vejo também os montes
e o vale que os separa
cujos cumes exibem
como que rósea neve,
ao pé dessa planície
que conduz os meus olhos
para a floresta negra
de sombras insondáveis.
O todo monumento
é sustentado por
duas altas colunas
pousadas sobre o solo.
Onde as plantas semelham
como um quê de raízes.
Giro em torno de ti
como gira o Satélite
em volta do Planeta,
na direção contrária
ao rumo dos relógios.
Sigo vendo o milagre.
Bem mais da escura coma,
os braços dos abraços
caídos junto ao tronco,
exibindo no extremo
os dedos de carícias.
As colunas agora
observadas de lado,
têm a mesma beleza
já dantes constatada.
O giro continua
e uma nova paisagem
é então descortinada.
A coma desce em ondas
a base do pescoço.
Nova quase planície,
duas novas colinas,
outro vale, insondado.
O giro continua.
E agora é a paisagem
toda igual à segunda.
Resta o giro final,
confirmação da vista
antevista, no inicio.
O término da viagem
que se empreendeu à volta
da mulher desejada.
1991
422
Martha Medeiros
Promessas matrimoniais
Em maio de 98, escrevi um texto em que afirmava que achava bonito o ritual do casamento na igreja, com seus vestidos brancos e tapetes vermelhos, mas que a única coisa que me desagradava era o sermão do padre: "Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?" Acho simplista e um pouco fora da realidade. Dou aqui novas sugestões de sermões:
- Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?
- Promete saber ser amiga e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?
- Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?
- Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e portanto a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?
- Promete se deixar conhecer?
- Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?
- Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?
- Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros?
- Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?
- Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja?
Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher: declara-os maduros
- Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?
- Promete saber ser amiga e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?
- Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?
- Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e portanto a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?
- Promete se deixar conhecer?
- Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?
- Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?
- Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros?
- Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?
- Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja?
Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher: declara-os maduros
796
Martha Medeiros
Promessas matrimoniais
Em maio de 98, escrevi um texto em que afirmava que achava bonito o ritual do casamento na igreja, com seus vestidos brancos e tapetes vermelhos, mas que a única coisa que me desagradava era o sermão do padre: "Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?" Acho simplista e um pouco fora da realidade. Dou aqui novas sugestões de sermões:
- Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?
- Promete saber ser amiga e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?
- Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?
- Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e portanto a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?
- Promete se deixar conhecer?
- Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?
- Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?
- Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros?
- Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?
- Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja?
Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher: declara-os maduros
- Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?
- Promete saber ser amiga e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?
- Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?
- Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e portanto a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?
- Promete se deixar conhecer?
- Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?
- Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?
- Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros?
- Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?
- Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja?
Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher: declara-os maduros
796
Edmir Domingues
Soneto a Jacó
Sete anos de pastor Jacó servia
Raquel, e não seu pai, como se conta,
mas um dia, no fim, lhe desaponta
a evidência do amor, porque de Lia.
Outros sete anos serve, e não tem conta
a conta que ele conta, cada dia,
porque, se era Raquel que pretendia,
não reclama Jacó, do tempo, a monta.
Não diz, no entanto, a história sem sabença,
quanto lhe deu Raquel de indiferença,
que o fez renunciar a todo o encanto.
Que amor é negação do entendimento
pois se nutre de fome, tanto quanto
se nutre de presença e de alimento.
Raquel, e não seu pai, como se conta,
mas um dia, no fim, lhe desaponta
a evidência do amor, porque de Lia.
Outros sete anos serve, e não tem conta
a conta que ele conta, cada dia,
porque, se era Raquel que pretendia,
não reclama Jacó, do tempo, a monta.
Não diz, no entanto, a história sem sabença,
quanto lhe deu Raquel de indiferença,
que o fez renunciar a todo o encanto.
Que amor é negação do entendimento
pois se nutre de fome, tanto quanto
se nutre de presença e de alimento.
1 001
Ruy Belo
Prince Caspian
Quantas vezes subimos para ele se porventura é ele como a raiz da terra sequiosa?
Quantas vezes descemos nós do sóbrio tronco ou provámos a água
que de uns primeiros olhos para nós se erguia
sobre o rugir oceânico das árvores despertas
e as lágrimas na face das palavras primitivas?
As insistentes chuvas repetiram-nos os passos
do círculo dos braços escapou-se-nos a vida
nas dálias de um jardim deixámos resumida a infância
com ínfimos objectos convivemos
perdemos gestos lentos nos cabelos misturados
trocaram-nos os pais e mesmo os mais longínquos membros da família
caíram-nos ao lado as folhas e as vestes e os braços e as casas uma a uma
e os touros de Basã a cássia o aloés a mirra
e ao fim tudo Deus, ó comedores de Deus, sobre os nossos cuidados
Por um tempo por uns tempos por mais tempo
ainda as mesmas chuvas molharão o velo
e as estudadas mãos repousarão num vaso etrusco
longe do verão muito longe do quarto
e as palavras de algum modo servirão
A árvore que tomba para o sul ou para o norte
fica deitada no lugar onde caiu
imóvel como à tarde o sol de agosto
e ao fim os doze mil assinalados a traqueia os que não
dobraram o joelho para o acto descomposto do amor.
Dispões de um corpo e mesmo de um passado
conheces sombras e quadrados ávidos da noite
são tuas as crianças do quintal vizinho
experimentas anos de saudade pelos mortos
o mais pequeno sol na rua a própria ausência é também tua
podes ler o jornal (no autocarro) do senhor ao lado
ajudar a subir uma gentil senhora da obra das mães
subscreves listas prestas homenagens
procuras respeitar as mais municipais posturas
és o bónus pater famílias contemplado pelos códigos
administras até um património de brilhantes qualidades
respiras estás de pé ocupas algum espaço embora a título precário
podes talvez contar com uma privativa morte natural
Mas são tantas as riquezas que tu tens
quem ao reino dos céus conseguirá levar-te?
Inútil ir pedir conselho ao rio
Cai na cidade a ríspida sirene há fogo alguém morreu
mas sempre em todos mais que todos o morto sou eu
Há em mim um castelo a derruir
Alguma operação de coração a promover
dizer talvez à noite adeus ao vento
que há tantas gerações preenche as árvores
A passagem dos dias faz suceder em mim
Diversos tons na estátua do jardim
E o amor pelas coisas que se perdem numa tarde
E começo a cantar
como quem do poema se esqueceu
e sente viva em si a natureza que só em si viveu
A poesia é uma loucura de palavras
espectáculo de folhas o poema
Sinto vizinho a mim o mar
e respirar é como finalmente entrar aonde não o sei
Sou tudo nad sou nada mereço
além do ombro público da morte
e choro as mais antigas lágrimas do mundo,
ó memória, inimiga mortal do meu descanso.
Ó Deus imóvel só por nossa boca fala
através de palavras que como a água correm
canta coração justificado
canta mais um bocado
Dizer “eu telefono eu vou em direcção a casa” ou
“sete anos de ausência são uma criança
crescida e de trança a correr pelas ruas”
seriam outras formas de cantar
Eu quero ser, ó efémera beleza de Cremona,
ó ente do passado submetido a estes mesmos dias, teu amigo
Assim eu saiba cultivar os gestos que te tragam
de então à nossa forma de hoje aceitar ou recusar a vida,
nós os menos repelentes animais
as coisas menos tácteis ou portáteis
Mas quem é esse que me traz no andar algum amigo?
Um verdadeiro amigo repovoa uma cidade
um templo o coração o último jardim
Tal como o camponês que ao norte vai por entre o milho
e é filho das estevas e do vento
segundo a melhor mitologia,
tu, ó mais jovem de toda a nossa estirpe,
inocente das nossas mais secretas manhas,
passas na rua só tua e do sol
de um lado e doutro é o comércio das palavras
mas vais como mais uma entre as demais crianças
como elas abres sob os passos inimaginável um caminho
Só no teu rosto linha alguma falta
és da raça das árvores imóveis
sabes como dizer-lhes: ver cair o dia
(em Patmos nessa aldeia ou naquela inesquecível cidadela)
será possivelmente a única atitude ponderável
E quando à tarde
teu indisciplinado coração enfim regressa
da certeza de seres outra pessoa que não eu
e momentaneamente a vida se perfaz
após o dia que já teve o seu cuidado
tens um pátio de sombra
a primavera levemente reclinada
as vozes e as luzes e as ondas
e os ralos e as rãs e um paul
um cheiro a malva ou malmequer à tua espera
Que calma nessa alma ouvir cair a hora
que como outrora nela tem lugar
Arrastas para casa o sol atrás de ti
e entre as tuas coisas está Deus,
ó cidadão de longe e de ninguém
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 109 a 112 | Círculo de Leitores, Dez 2000
Quantas vezes descemos nós do sóbrio tronco ou provámos a água
que de uns primeiros olhos para nós se erguia
sobre o rugir oceânico das árvores despertas
e as lágrimas na face das palavras primitivas?
As insistentes chuvas repetiram-nos os passos
do círculo dos braços escapou-se-nos a vida
nas dálias de um jardim deixámos resumida a infância
com ínfimos objectos convivemos
perdemos gestos lentos nos cabelos misturados
trocaram-nos os pais e mesmo os mais longínquos membros da família
caíram-nos ao lado as folhas e as vestes e os braços e as casas uma a uma
e os touros de Basã a cássia o aloés a mirra
e ao fim tudo Deus, ó comedores de Deus, sobre os nossos cuidados
Por um tempo por uns tempos por mais tempo
ainda as mesmas chuvas molharão o velo
e as estudadas mãos repousarão num vaso etrusco
longe do verão muito longe do quarto
e as palavras de algum modo servirão
A árvore que tomba para o sul ou para o norte
fica deitada no lugar onde caiu
imóvel como à tarde o sol de agosto
e ao fim os doze mil assinalados a traqueia os que não
dobraram o joelho para o acto descomposto do amor.
Dispões de um corpo e mesmo de um passado
conheces sombras e quadrados ávidos da noite
são tuas as crianças do quintal vizinho
experimentas anos de saudade pelos mortos
o mais pequeno sol na rua a própria ausência é também tua
podes ler o jornal (no autocarro) do senhor ao lado
ajudar a subir uma gentil senhora da obra das mães
subscreves listas prestas homenagens
procuras respeitar as mais municipais posturas
és o bónus pater famílias contemplado pelos códigos
administras até um património de brilhantes qualidades
respiras estás de pé ocupas algum espaço embora a título precário
podes talvez contar com uma privativa morte natural
Mas são tantas as riquezas que tu tens
quem ao reino dos céus conseguirá levar-te?
Inútil ir pedir conselho ao rio
Cai na cidade a ríspida sirene há fogo alguém morreu
mas sempre em todos mais que todos o morto sou eu
Há em mim um castelo a derruir
Alguma operação de coração a promover
dizer talvez à noite adeus ao vento
que há tantas gerações preenche as árvores
A passagem dos dias faz suceder em mim
Diversos tons na estátua do jardim
E o amor pelas coisas que se perdem numa tarde
E começo a cantar
como quem do poema se esqueceu
e sente viva em si a natureza que só em si viveu
A poesia é uma loucura de palavras
espectáculo de folhas o poema
Sinto vizinho a mim o mar
e respirar é como finalmente entrar aonde não o sei
Sou tudo nad sou nada mereço
além do ombro público da morte
e choro as mais antigas lágrimas do mundo,
ó memória, inimiga mortal do meu descanso.
Ó Deus imóvel só por nossa boca fala
através de palavras que como a água correm
canta coração justificado
canta mais um bocado
Dizer “eu telefono eu vou em direcção a casa” ou
“sete anos de ausência são uma criança
crescida e de trança a correr pelas ruas”
seriam outras formas de cantar
Eu quero ser, ó efémera beleza de Cremona,
ó ente do passado submetido a estes mesmos dias, teu amigo
Assim eu saiba cultivar os gestos que te tragam
de então à nossa forma de hoje aceitar ou recusar a vida,
nós os menos repelentes animais
as coisas menos tácteis ou portáteis
Mas quem é esse que me traz no andar algum amigo?
Um verdadeiro amigo repovoa uma cidade
um templo o coração o último jardim
Tal como o camponês que ao norte vai por entre o milho
e é filho das estevas e do vento
segundo a melhor mitologia,
tu, ó mais jovem de toda a nossa estirpe,
inocente das nossas mais secretas manhas,
passas na rua só tua e do sol
de um lado e doutro é o comércio das palavras
mas vais como mais uma entre as demais crianças
como elas abres sob os passos inimaginável um caminho
Só no teu rosto linha alguma falta
és da raça das árvores imóveis
sabes como dizer-lhes: ver cair o dia
(em Patmos nessa aldeia ou naquela inesquecível cidadela)
será possivelmente a única atitude ponderável
E quando à tarde
teu indisciplinado coração enfim regressa
da certeza de seres outra pessoa que não eu
e momentaneamente a vida se perfaz
após o dia que já teve o seu cuidado
tens um pátio de sombra
a primavera levemente reclinada
as vozes e as luzes e as ondas
e os ralos e as rãs e um paul
um cheiro a malva ou malmequer à tua espera
Que calma nessa alma ouvir cair a hora
que como outrora nela tem lugar
Arrastas para casa o sol atrás de ti
e entre as tuas coisas está Deus,
ó cidadão de longe e de ninguém
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 109 a 112 | Círculo de Leitores, Dez 2000
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Martha Medeiros
Beijo na boca
Uma vez a atriz e cineasta Carla Camuratti declarou, numa entrevista, que um bom beijo é melhor do que uma transa insossa. Quando a escutei dizendo isso, pensei: "então não sou só eu". Estou com Carla: o beijo é a parte mais importante da relação física entre duas pessoas, e se ele não funcionar, pode desistir do resto.
A Editora Mandarim acaba de lançar um livro que reúne ensaios de diversos intelectuais a respeito do assunto. O nome do livro é O Beijo - Primeiras Lições de Amor, História, Arte e Erotismo. Os autores discutem o beijo materno, o beijo nos contos-de-fadas, o beijo traiçoeiro de Judas, os primeiros beijos impressos em cartazes, o beijo na propaganda, o mais longo beijo do cinema e todas as suas simbologias. Às vezes o livro fica prolixo demais, mas ainda assim é um assunto tentador. Procure-o nas melhores casas do ramo. O livro, porque beijo não está à venda.
Todo mundo sonha com aquele beijo made in Hollywood, que tira o fôlego e dá início a um romance incandescente. Pena que nem sempre isso aconteça na vida real. O primeiro beijo entre um casal costuma ser suave, investigativo, decente. Aos pouquinhos, no entanto, acende-se a labareda e as bocas dizem a que vieram. Existe um prazo para isso acontecer: entre cinco minutos depois do primeiro roçar de lábios até, no máximo, cinco dias. Neste espaço de tempo, ainda compreende-se que os beijos sejam vacilantes: tratam-se de duas pessoas criando um vínculo e testando suas reações. Mas se a decência persistir, não espere ver estrelinhas na etapa seguinte. A química não aconteceu.
Beijo é maravilhoso porque você interage com o corpo do outro sem deixar vestígios, é um mergulho no escuro, uma viagem sem volta. Beijo é uma maneira de compartilhar intimidades, de sentir o sabor de quem se gosta, de dizer mil coisas em silêncio. Beijo é gostoso porque não cansa, não engravida, não transmite o HIV. Beijo é prático porque não precisa tirar a roupa, não precisa sair da festa, não precisa ligar no dia seguinte. E sem essa de que beijo é insalubre porque troca-se até 9 miligramas de água, 0,7 grama de albumia, 0,18 de substâncias orgânicas, 0,711 miligrama de matérias gordurosas e 0,45 miligrama de sais, sem contar os vírus e as bactérias. Quem está preocupado com isso? Insalubre é não amar.
A Editora Mandarim acaba de lançar um livro que reúne ensaios de diversos intelectuais a respeito do assunto. O nome do livro é O Beijo - Primeiras Lições de Amor, História, Arte e Erotismo. Os autores discutem o beijo materno, o beijo nos contos-de-fadas, o beijo traiçoeiro de Judas, os primeiros beijos impressos em cartazes, o beijo na propaganda, o mais longo beijo do cinema e todas as suas simbologias. Às vezes o livro fica prolixo demais, mas ainda assim é um assunto tentador. Procure-o nas melhores casas do ramo. O livro, porque beijo não está à venda.
Todo mundo sonha com aquele beijo made in Hollywood, que tira o fôlego e dá início a um romance incandescente. Pena que nem sempre isso aconteça na vida real. O primeiro beijo entre um casal costuma ser suave, investigativo, decente. Aos pouquinhos, no entanto, acende-se a labareda e as bocas dizem a que vieram. Existe um prazo para isso acontecer: entre cinco minutos depois do primeiro roçar de lábios até, no máximo, cinco dias. Neste espaço de tempo, ainda compreende-se que os beijos sejam vacilantes: tratam-se de duas pessoas criando um vínculo e testando suas reações. Mas se a decência persistir, não espere ver estrelinhas na etapa seguinte. A química não aconteceu.
Beijo é maravilhoso porque você interage com o corpo do outro sem deixar vestígios, é um mergulho no escuro, uma viagem sem volta. Beijo é uma maneira de compartilhar intimidades, de sentir o sabor de quem se gosta, de dizer mil coisas em silêncio. Beijo é gostoso porque não cansa, não engravida, não transmite o HIV. Beijo é prático porque não precisa tirar a roupa, não precisa sair da festa, não precisa ligar no dia seguinte. E sem essa de que beijo é insalubre porque troca-se até 9 miligramas de água, 0,7 grama de albumia, 0,18 de substâncias orgânicas, 0,711 miligrama de matérias gordurosas e 0,45 miligrama de sais, sem contar os vírus e as bactérias. Quem está preocupado com isso? Insalubre é não amar.
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Martha Medeiros
Beijo na boca
Uma vez a atriz e cineasta Carla Camuratti declarou, numa entrevista, que um bom beijo é melhor do que uma transa insossa. Quando a escutei dizendo isso, pensei: "então não sou só eu". Estou com Carla: o beijo é a parte mais importante da relação física entre duas pessoas, e se ele não funcionar, pode desistir do resto.
A Editora Mandarim acaba de lançar um livro que reúne ensaios de diversos intelectuais a respeito do assunto. O nome do livro é O Beijo - Primeiras Lições de Amor, História, Arte e Erotismo. Os autores discutem o beijo materno, o beijo nos contos-de-fadas, o beijo traiçoeiro de Judas, os primeiros beijos impressos em cartazes, o beijo na propaganda, o mais longo beijo do cinema e todas as suas simbologias. Às vezes o livro fica prolixo demais, mas ainda assim é um assunto tentador. Procure-o nas melhores casas do ramo. O livro, porque beijo não está à venda.
Todo mundo sonha com aquele beijo made in Hollywood, que tira o fôlego e dá início a um romance incandescente. Pena que nem sempre isso aconteça na vida real. O primeiro beijo entre um casal costuma ser suave, investigativo, decente. Aos pouquinhos, no entanto, acende-se a labareda e as bocas dizem a que vieram. Existe um prazo para isso acontecer: entre cinco minutos depois do primeiro roçar de lábios até, no máximo, cinco dias. Neste espaço de tempo, ainda compreende-se que os beijos sejam vacilantes: tratam-se de duas pessoas criando um vínculo e testando suas reações. Mas se a decência persistir, não espere ver estrelinhas na etapa seguinte. A química não aconteceu.
Beijo é maravilhoso porque você interage com o corpo do outro sem deixar vestígios, é um mergulho no escuro, uma viagem sem volta. Beijo é uma maneira de compartilhar intimidades, de sentir o sabor de quem se gosta, de dizer mil coisas em silêncio. Beijo é gostoso porque não cansa, não engravida, não transmite o HIV. Beijo é prático porque não precisa tirar a roupa, não precisa sair da festa, não precisa ligar no dia seguinte. E sem essa de que beijo é insalubre porque troca-se até 9 miligramas de água, 0,7 grama de albumia, 0,18 de substâncias orgânicas, 0,711 miligrama de matérias gordurosas e 0,45 miligrama de sais, sem contar os vírus e as bactérias. Quem está preocupado com isso? Insalubre é não amar.
A Editora Mandarim acaba de lançar um livro que reúne ensaios de diversos intelectuais a respeito do assunto. O nome do livro é O Beijo - Primeiras Lições de Amor, História, Arte e Erotismo. Os autores discutem o beijo materno, o beijo nos contos-de-fadas, o beijo traiçoeiro de Judas, os primeiros beijos impressos em cartazes, o beijo na propaganda, o mais longo beijo do cinema e todas as suas simbologias. Às vezes o livro fica prolixo demais, mas ainda assim é um assunto tentador. Procure-o nas melhores casas do ramo. O livro, porque beijo não está à venda.
Todo mundo sonha com aquele beijo made in Hollywood, que tira o fôlego e dá início a um romance incandescente. Pena que nem sempre isso aconteça na vida real. O primeiro beijo entre um casal costuma ser suave, investigativo, decente. Aos pouquinhos, no entanto, acende-se a labareda e as bocas dizem a que vieram. Existe um prazo para isso acontecer: entre cinco minutos depois do primeiro roçar de lábios até, no máximo, cinco dias. Neste espaço de tempo, ainda compreende-se que os beijos sejam vacilantes: tratam-se de duas pessoas criando um vínculo e testando suas reações. Mas se a decência persistir, não espere ver estrelinhas na etapa seguinte. A química não aconteceu.
Beijo é maravilhoso porque você interage com o corpo do outro sem deixar vestígios, é um mergulho no escuro, uma viagem sem volta. Beijo é uma maneira de compartilhar intimidades, de sentir o sabor de quem se gosta, de dizer mil coisas em silêncio. Beijo é gostoso porque não cansa, não engravida, não transmite o HIV. Beijo é prático porque não precisa tirar a roupa, não precisa sair da festa, não precisa ligar no dia seguinte. E sem essa de que beijo é insalubre porque troca-se até 9 miligramas de água, 0,7 grama de albumia, 0,18 de substâncias orgânicas, 0,711 miligrama de matérias gordurosas e 0,45 miligrama de sais, sem contar os vírus e as bactérias. Quem está preocupado com isso? Insalubre é não amar.
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