Poemas neste tema
Relações e Família
José Eustáquio da Silva
Passou
desfiz todas as minhas ilusões
e as atirei no precipício profundo
da minha realidade
estraçalhei os teus olhos de diamante
devolvendo-te os teus olhos
de um ser humano qualquer
te despi de todos os áureos vestidos
que em sonho te dei
e te fiz novamente nua
apaguei toda poesia que derramei inutilmente
nos poemas feitos em tua homenagem
e quase chorei...
(ou será que chorei?)
abri os olhos para o mundo
e me deixei libertar
enfim, te esqueci...
hoje, vivendo o alívio de tão árduo tormento
ando pelos jardins da vida
colhendo as rosas da minha liberdade
sem temer os espinhos da tua existência
e as atirei no precipício profundo
da minha realidade
estraçalhei os teus olhos de diamante
devolvendo-te os teus olhos
de um ser humano qualquer
te despi de todos os áureos vestidos
que em sonho te dei
e te fiz novamente nua
apaguei toda poesia que derramei inutilmente
nos poemas feitos em tua homenagem
e quase chorei...
(ou será que chorei?)
abri os olhos para o mundo
e me deixei libertar
enfim, te esqueci...
hoje, vivendo o alívio de tão árduo tormento
ando pelos jardins da vida
colhendo as rosas da minha liberdade
sem temer os espinhos da tua existência
1 048
José Eustáquio da Silva
Passou
desfiz todas as minhas ilusões
e as atirei no precipício profundo
da minha realidade
estraçalhei os teus olhos de diamante
devolvendo-te os teus olhos
de um ser humano qualquer
te despi de todos os áureos vestidos
que em sonho te dei
e te fiz novamente nua
apaguei toda poesia que derramei inutilmente
nos poemas feitos em tua homenagem
e quase chorei...
(ou será que chorei?)
abri os olhos para o mundo
e me deixei libertar
enfim, te esqueci...
hoje, vivendo o alívio de tão árduo tormento
ando pelos jardins da vida
colhendo as rosas da minha liberdade
sem temer os espinhos da tua existência
e as atirei no precipício profundo
da minha realidade
estraçalhei os teus olhos de diamante
devolvendo-te os teus olhos
de um ser humano qualquer
te despi de todos os áureos vestidos
que em sonho te dei
e te fiz novamente nua
apaguei toda poesia que derramei inutilmente
nos poemas feitos em tua homenagem
e quase chorei...
(ou será que chorei?)
abri os olhos para o mundo
e me deixei libertar
enfim, te esqueci...
hoje, vivendo o alívio de tão árduo tormento
ando pelos jardins da vida
colhendo as rosas da minha liberdade
sem temer os espinhos da tua existência
1 048
João Marcio Furtado Costa
Amartemática
Amartemática
(03/96)
Tem-se na adrenalina,
um perfeito combustível,
pra tornar a linha reta,
caminho impossível.
Por que, então, sentir-se,
andando em círculos,
se na verdade, somente,
perdeste os vínculos?
Vê que a sensação,
é de tormento e de frio,
quando a interseção,
é um conjunto vazio.
Se não é quadrado, o cateto,
ou se a hipotenusa é saliente,
pode pintar um triângulo,
de amor resiliente.
Relações de conjuntos,
tendendo a viscerais,
resolvem-se na união,
de soluções integrais.
Se plenas de prazer,
que sejam constantes,
ou frequência baixa,
para fases distantes.
Derivadas do amor,
são riscos incólumes,
dão origem às flores,
e séries de proles.
(03/96)
Tem-se na adrenalina,
um perfeito combustível,
pra tornar a linha reta,
caminho impossível.
Por que, então, sentir-se,
andando em círculos,
se na verdade, somente,
perdeste os vínculos?
Vê que a sensação,
é de tormento e de frio,
quando a interseção,
é um conjunto vazio.
Se não é quadrado, o cateto,
ou se a hipotenusa é saliente,
pode pintar um triângulo,
de amor resiliente.
Relações de conjuntos,
tendendo a viscerais,
resolvem-se na união,
de soluções integrais.
Se plenas de prazer,
que sejam constantes,
ou frequência baixa,
para fases distantes.
Derivadas do amor,
são riscos incólumes,
dão origem às flores,
e séries de proles.
666
José Eustáquio da Silva
Tive
vou assim sem rumo
chutando pedras pelo caminho
tenho lenço e documento
só não tenho pra onde ir
já tive ao menos um amor
que chutava pedras comigo
hoje me restam apenas as pedras
apenas as pedras...
frias pedras...
chutando pedras pelo caminho
tenho lenço e documento
só não tenho pra onde ir
já tive ao menos um amor
que chutava pedras comigo
hoje me restam apenas as pedras
apenas as pedras...
frias pedras...
1 057
José de Paula Ramos Jr.
Epifania
Ninfa da manhã, matinal magia,
miragem na bruma plúmbea.
À margem do trêfego tráfego,
que trepida estremunhado,
esvoaças distraída na calçada,
como um langoroso sonho.
..........................................
Solavancos no meu coração.
miragem na bruma plúmbea.
À margem do trêfego tráfego,
que trepida estremunhado,
esvoaças distraída na calçada,
como um langoroso sonho.
..........................................
Solavancos no meu coração.
1 018
José Eustáquio da Silva
De Manhã
chora o poeta
no deslumbre da manhã
sol mal acordado
doira o lume dos teus olhos
olhos tão tristonhos
que se perdem na paisagem
e se lançam numa viajem
que só os poetas sabem ter
pedaços de saudades
que se esmeram em doer
razões irracionais
que até os animais
não ousam entender
loucuras de poeta
não tem palavra certa
e este amor tão complicado
tão certo e tão errado
desperta este poeta
na inocência da manhã...
no deslumbre da manhã
sol mal acordado
doira o lume dos teus olhos
olhos tão tristonhos
que se perdem na paisagem
e se lançam numa viajem
que só os poetas sabem ter
pedaços de saudades
que se esmeram em doer
razões irracionais
que até os animais
não ousam entender
loucuras de poeta
não tem palavra certa
e este amor tão complicado
tão certo e tão errado
desperta este poeta
na inocência da manhã...
804
José Eustáquio da Silva
Querer
luz pálida
sinal fechado
solidão me toque não
no outdoor vejo você
encanto de alquimista
qualquer coisa, qualquer vista
mar à vista
meu porto é você
meu olho chove
seu rosto jovem
meu grito mudo
sua boca morde
não me incomode
deixe-me amar
abraça-me em lá maior
me transe em música
e me deixe só...
sinal fechado
solidão me toque não
no outdoor vejo você
encanto de alquimista
qualquer coisa, qualquer vista
mar à vista
meu porto é você
meu olho chove
seu rosto jovem
meu grito mudo
sua boca morde
não me incomode
deixe-me amar
abraça-me em lá maior
me transe em música
e me deixe só...
793
João Marcio Furtado Costa
Acróstico II
Acróstico II
(01/93)
Gracioso e doce, teu sorriso é a paz que nos encanta,
Acalenta, revigora e também nos faz sonhar,
Beija-flor que se preza, quer de ti aroma e beijos,
Ritual de ternura, simplesmente tens no olhar.
Iluminaste e completaste, ao raiares, nosso mundo,
Extravasando exuberância nas diversas dimensões,
Labaredas coloridas, de um amor mais que profundo,
Ateaste em nossas vidas e em nossos corações.
Carregas dentro em ti tanta luz, tanta alegria,
Retórica sublime sabes significar.
Inebriante, cada vez mais tu te tornas dia a dia,
Sensação de que a nós, sempre estarás a iluminar.
Tivesse eu o direito, de almejar a qualquer graça,
Intransigentemente saberia, sempre o que pedir.
Não seria ouro, ou pedras preciosas minha escolha,
A vida inteira somente, queria te ver sorrir.
(01/93)
Gracioso e doce, teu sorriso é a paz que nos encanta,
Acalenta, revigora e também nos faz sonhar,
Beija-flor que se preza, quer de ti aroma e beijos,
Ritual de ternura, simplesmente tens no olhar.
Iluminaste e completaste, ao raiares, nosso mundo,
Extravasando exuberância nas diversas dimensões,
Labaredas coloridas, de um amor mais que profundo,
Ateaste em nossas vidas e em nossos corações.
Carregas dentro em ti tanta luz, tanta alegria,
Retórica sublime sabes significar.
Inebriante, cada vez mais tu te tornas dia a dia,
Sensação de que a nós, sempre estarás a iluminar.
Tivesse eu o direito, de almejar a qualquer graça,
Intransigentemente saberia, sempre o que pedir.
Não seria ouro, ou pedras preciosas minha escolha,
A vida inteira somente, queria te ver sorrir.
846
João Marcio Furtado Costa
Soneto da Mulher Azul
Soneto da Mulher Azul
(10/93)
Me inspiro em ti, valor vital, inestimável,
E miro as sombras do teu lado inexplorado.
Mesmo da poesia, sendo inexperiente,
Transformo em versos teu mistério inescrutável.
Te sinto fonte, de prazer, inesgotável,
Mas meu desejo, de tão grande é inexistente,
Pois te alcançar, plenamente, é inexeqüível,
Se tu és, às vezes, tranca inexpugnável.
Não veja em mim um homem inescrupuloso,
Por procurar não explicar teu inexplicável,
E te vestir com essas metáforas inexatas.
Pois o teor das palavras talvez seja inexpressivo,
Diante da magia, que de forma inesperada,
Te esculpiu em minha mente, mulher inesquecível.
(10/93)
Me inspiro em ti, valor vital, inestimável,
E miro as sombras do teu lado inexplorado.
Mesmo da poesia, sendo inexperiente,
Transformo em versos teu mistério inescrutável.
Te sinto fonte, de prazer, inesgotável,
Mas meu desejo, de tão grande é inexistente,
Pois te alcançar, plenamente, é inexeqüível,
Se tu és, às vezes, tranca inexpugnável.
Não veja em mim um homem inescrupuloso,
Por procurar não explicar teu inexplicável,
E te vestir com essas metáforas inexatas.
Pois o teor das palavras talvez seja inexpressivo,
Diante da magia, que de forma inesperada,
Te esculpiu em minha mente, mulher inesquecível.
898
João Nepomuceno Kubitschek
Eurico
Hermengarda! ousei amá-la
De Favila a nobre filha,
Das Espanhas maravilha,
Mimoso esmero dos céus!
Ousei construir-lhe um templo
De adoração na minha alma,
Sonhei a vida tão calma,
Vendo o céu nos olhos seus!
Que era eu pra tão alto
Erguer meu amor ardente?
Era um tiufado valente,
Um gardingo, nada mais!
Na raça dos meus não tinha
Priscos brasões de nobreza,
Não tinha tanta riqueza
Como os cofres de seus pais.
O orgulho e a ambição se ergueram
Entre nós — muro gigante!
Quem pode transpô-lo ovante?
O leão rugiu de dor.
Entre nós abriu-se a fauce
De imenso abismo sem fundo:
De um lado, os homens, o mundo;
De outro lado, o nosso amor!
Era impossível! Que importa
Tivesse os afetos santos,
Como o diziam meus prantos,
Minhas lágrimas de fel?
Das esferas diamantinas,
Do céu azul da ventura,
Despenhei-me à noite escura,
Como o arcanjo revel.
Nunca da virgem o amículo
Beijará meu lábio ardente;
Sua alma pura, inocente,
Não me dará um sorrir;
Nunca a bênção do presbítero
Ligará nossos destinos;
Do noivado os santos hinos
No templo não hei de ouvir!
Nunca! Flama dos infernos
Que a flor da esperança abrasa;
Estilete agudo em brasa
Nas fibras do coração;
Nuvem prenhe de tormentas
Que no céu rugindo passa;
Hiena que despedaça
Minha mais bela ilusão!
Fugi dos homens! No claustro
Fui chorar minha desdita;
À santa virgem bendita
Fui pedir consolações;
Quis de mim próprio exilar-me,
Exilando-me do mundo,
Do olvido arrojar ao fundo
Do passado as aflições.
E o céu na profunda chaga
Doce bálsamo vertia;
Serena melancolia
Pairou no servo da cruz;
E dos meus lábios brotaram
Cânticos pios, suaves,
Que reboaram nas naves,
Das catedrais de Jesus.
Depois... travou-se o conflito
Entre Deus e a imagem linda,
Porque no meu peito ainda
Não se extinguira a paixão:
Ora a razão imperando
Na consciência — Deus — bradava
Ora em delírios clamava
— Hermengarda — o coração.
Em vão entre mim e o mundo
Ergui a imensa barreira,
E do templo na soleira
Lhe disse um eterno adeus;
Toda vestida de encantos,
Vinha a imagem da donzela
Sorrir-me na erma cela,
Qual mensageiro dos céus.
Ei-la — do cair das tardes
Nos coloridos vapores,
Da aurora nos resplendores,
Na branca luz do luar,
Na hóstia do sacrifício,
Nas flores ao pé das cruzes,
Dos bentos círios nas luzes,
Nos ornamentos do altar.
Dizei, virações noturnas,
Esta história de agonias,
Do Calpe nas penedias,
Na mais funda solidão!
Que não chegue ao mundo um eco
Deste amor que me acompanha,
Que como brônzea montanha,
Me pesa no coração.
Cala estas dores, minha alma...
A serpente do deserto
Já dispara o bote certo
E ensangüenta o chão natal;
Sobre um montão de ruínas
Campeia altivo o Crescente,
Por onde avança a torrente
Surgem os gênios do mal.
E tu, bela Espanha! o louro,
Colhido ao sol das vitórias,
Emblema das tuas glórias,
Te vai da fronte cair?
Na espúria raça de hoje
Não tens mais valentes filhos,
Que acendam de novo os brilhos
Da estrela do teu porvir?
Como tigres da vingança,
Teus soldados não mais rugem?
Embotou a vil ferrugem
Os gládios da nobre grei?
Não é mais fouce de morte
O franskisk do visigodo?
Não provaram-lhe o denodo
As águias do povo — rei?
Silêncio! O vento do norte
Lá passa em busca dos mares!
Silêncio! Ecoou nos ares
Um grito de maldição!
É o César das montanhas,
É o Pelaio, aceso em fúrias,
Na caverna das Astúrias
Bramindo como um leão.
Também no horror dos combates,
Eu fui um soldado forte,
Semeei o estrago, a morte,
Como um raio vingador;
Pela armadura de ferro
Troquei a estringe sagrada,
Pela borda ensangüentada
Meu cajado de pastor.
E as hostes fugiam lívidas
Diante do meu aspeito...
Nem uma flecha meu peito
Não veio rasgar sequer!
E ainda no caos revolto
Dessas guerreiras falanges,
No afuzilar dos alfanjes
Tu me sorrias, mulher!
Disseste-me um dia a história
De teus infantis amores...
Por que orvalhaste flores
Que não podiam viçar?
Fundir minha alma na tua
Em cadeia indestrutível...
Oh! nunca! nunca! impossível
Entre nós está o altar!
Ó Deus! do abismo do nada
Por que meu ser arrancaste?
Por que no mundo o atiraste,
Como em funesta prisão?
Que uma alma cristã não possa
Apagar da vida o lume,
Enterrar de um ferro o gume
Bem fundo no coração!...
De Favila a nobre filha,
Das Espanhas maravilha,
Mimoso esmero dos céus!
Ousei construir-lhe um templo
De adoração na minha alma,
Sonhei a vida tão calma,
Vendo o céu nos olhos seus!
Que era eu pra tão alto
Erguer meu amor ardente?
Era um tiufado valente,
Um gardingo, nada mais!
Na raça dos meus não tinha
Priscos brasões de nobreza,
Não tinha tanta riqueza
Como os cofres de seus pais.
O orgulho e a ambição se ergueram
Entre nós — muro gigante!
Quem pode transpô-lo ovante?
O leão rugiu de dor.
Entre nós abriu-se a fauce
De imenso abismo sem fundo:
De um lado, os homens, o mundo;
De outro lado, o nosso amor!
Era impossível! Que importa
Tivesse os afetos santos,
Como o diziam meus prantos,
Minhas lágrimas de fel?
Das esferas diamantinas,
Do céu azul da ventura,
Despenhei-me à noite escura,
Como o arcanjo revel.
Nunca da virgem o amículo
Beijará meu lábio ardente;
Sua alma pura, inocente,
Não me dará um sorrir;
Nunca a bênção do presbítero
Ligará nossos destinos;
Do noivado os santos hinos
No templo não hei de ouvir!
Nunca! Flama dos infernos
Que a flor da esperança abrasa;
Estilete agudo em brasa
Nas fibras do coração;
Nuvem prenhe de tormentas
Que no céu rugindo passa;
Hiena que despedaça
Minha mais bela ilusão!
Fugi dos homens! No claustro
Fui chorar minha desdita;
À santa virgem bendita
Fui pedir consolações;
Quis de mim próprio exilar-me,
Exilando-me do mundo,
Do olvido arrojar ao fundo
Do passado as aflições.
E o céu na profunda chaga
Doce bálsamo vertia;
Serena melancolia
Pairou no servo da cruz;
E dos meus lábios brotaram
Cânticos pios, suaves,
Que reboaram nas naves,
Das catedrais de Jesus.
Depois... travou-se o conflito
Entre Deus e a imagem linda,
Porque no meu peito ainda
Não se extinguira a paixão:
Ora a razão imperando
Na consciência — Deus — bradava
Ora em delírios clamava
— Hermengarda — o coração.
Em vão entre mim e o mundo
Ergui a imensa barreira,
E do templo na soleira
Lhe disse um eterno adeus;
Toda vestida de encantos,
Vinha a imagem da donzela
Sorrir-me na erma cela,
Qual mensageiro dos céus.
Ei-la — do cair das tardes
Nos coloridos vapores,
Da aurora nos resplendores,
Na branca luz do luar,
Na hóstia do sacrifício,
Nas flores ao pé das cruzes,
Dos bentos círios nas luzes,
Nos ornamentos do altar.
Dizei, virações noturnas,
Esta história de agonias,
Do Calpe nas penedias,
Na mais funda solidão!
Que não chegue ao mundo um eco
Deste amor que me acompanha,
Que como brônzea montanha,
Me pesa no coração.
Cala estas dores, minha alma...
A serpente do deserto
Já dispara o bote certo
E ensangüenta o chão natal;
Sobre um montão de ruínas
Campeia altivo o Crescente,
Por onde avança a torrente
Surgem os gênios do mal.
E tu, bela Espanha! o louro,
Colhido ao sol das vitórias,
Emblema das tuas glórias,
Te vai da fronte cair?
Na espúria raça de hoje
Não tens mais valentes filhos,
Que acendam de novo os brilhos
Da estrela do teu porvir?
Como tigres da vingança,
Teus soldados não mais rugem?
Embotou a vil ferrugem
Os gládios da nobre grei?
Não é mais fouce de morte
O franskisk do visigodo?
Não provaram-lhe o denodo
As águias do povo — rei?
Silêncio! O vento do norte
Lá passa em busca dos mares!
Silêncio! Ecoou nos ares
Um grito de maldição!
É o César das montanhas,
É o Pelaio, aceso em fúrias,
Na caverna das Astúrias
Bramindo como um leão.
Também no horror dos combates,
Eu fui um soldado forte,
Semeei o estrago, a morte,
Como um raio vingador;
Pela armadura de ferro
Troquei a estringe sagrada,
Pela borda ensangüentada
Meu cajado de pastor.
E as hostes fugiam lívidas
Diante do meu aspeito...
Nem uma flecha meu peito
Não veio rasgar sequer!
E ainda no caos revolto
Dessas guerreiras falanges,
No afuzilar dos alfanjes
Tu me sorrias, mulher!
Disseste-me um dia a história
De teus infantis amores...
Por que orvalhaste flores
Que não podiam viçar?
Fundir minha alma na tua
Em cadeia indestrutível...
Oh! nunca! nunca! impossível
Entre nós está o altar!
Ó Deus! do abismo do nada
Por que meu ser arrancaste?
Por que no mundo o atiraste,
Como em funesta prisão?
Que uma alma cristã não possa
Apagar da vida o lume,
Enterrar de um ferro o gume
Bem fundo no coração!...
1 145
João Marcio Furtado Costa
Acróstico I
Acróstico I
(10/92)
Luz, raiaste, brilhaste intensamente,
Uníssono de louvor ao criador.
Instigante, deslumbrante, enaltecida,
Sangue, coração. Tu és só vida,
Acariciaste com tua presença nosso amor.
Cravo ou rosa? De que cor?
Anunciaste cedo que serias flor.
Retratada em prosa, verso ou aquarela,
Ostentas de maneira sempre bela,
Lindos, negros, olhos e cabelo a emoldurar.
Indescritível intensidade de amor, impossível de sonhar.
Nasceste para ser nossa rainha, nunca estarás sozinha,
Acima de tudo, viveremos pra te amar.
(10/92)
Luz, raiaste, brilhaste intensamente,
Uníssono de louvor ao criador.
Instigante, deslumbrante, enaltecida,
Sangue, coração. Tu és só vida,
Acariciaste com tua presença nosso amor.
Cravo ou rosa? De que cor?
Anunciaste cedo que serias flor.
Retratada em prosa, verso ou aquarela,
Ostentas de maneira sempre bela,
Lindos, negros, olhos e cabelo a emoldurar.
Indescritível intensidade de amor, impossível de sonhar.
Nasceste para ser nossa rainha, nunca estarás sozinha,
Acima de tudo, viveremos pra te amar.
1 156
José Eustáquio da Silva
Entenda-me
vasculha-me e adentre meu passado,
me chame de culpado
por meus erros infantis.
bata-me, cuspa em minha cara, me odeie
me chama de canalha por tudo
que outrora fiz.
invada minha vida como espiã
abra minhas gavetas, leia minhas cartas
e me ame.
me ame com a fúria
que o ciúme concerne
e me deseje, me deseje
como quem quer outro homem...
me fale palavrões, me transe obscena.
me fale quão importante sou para ti
me ame querendo ser selvagemente
possuída
por teu poeta que finge de fingir...
me veja, me beija, me tenha por inteiro.
sou teu, sem censuras ou pudores.
sou teu par, teu tigre e teu chegar
sou teu silêncio
quando nada quiseres escutar
enfim, sou um poeta, teu poeta
que sequer pensa em limites...
portanto (minha louca),
mesmo onde nada existir
por certo eu estarei presente
pronto para te fazer mulher.
me chame de culpado
por meus erros infantis.
bata-me, cuspa em minha cara, me odeie
me chama de canalha por tudo
que outrora fiz.
invada minha vida como espiã
abra minhas gavetas, leia minhas cartas
e me ame.
me ame com a fúria
que o ciúme concerne
e me deseje, me deseje
como quem quer outro homem...
me fale palavrões, me transe obscena.
me fale quão importante sou para ti
me ame querendo ser selvagemente
possuída
por teu poeta que finge de fingir...
me veja, me beija, me tenha por inteiro.
sou teu, sem censuras ou pudores.
sou teu par, teu tigre e teu chegar
sou teu silêncio
quando nada quiseres escutar
enfim, sou um poeta, teu poeta
que sequer pensa em limites...
portanto (minha louca),
mesmo onde nada existir
por certo eu estarei presente
pronto para te fazer mulher.
1 020
João Marcio Furtado Costa
Bebida dos Deuses
Bebida dos Deuses
(12/94)
Como um bom vinho, elaborado, tu és muito especial,
Dia após dia, és natal,
E a cada noite és carnaval,
Pois basta um toque, e tu te inflamas.
Mas não és pra ser sorvida de uma só vez e se acabar,
Melhor em doses homeopáticas,
Onde podemos desprezar as táticas,
E sermos nós mesmos pra sonhar.
Não foi num cálice, que eu pensei furtivamente,
Em te derramar mais transparente,
Para melhor te brindar e degustar.
E tornar então, sem ser brando e indiferente,
Mais ávido o meu inconsciente,
Pra cada vez mais, querer te amar.
(12/94)
Como um bom vinho, elaborado, tu és muito especial,
Dia após dia, és natal,
E a cada noite és carnaval,
Pois basta um toque, e tu te inflamas.
Mas não és pra ser sorvida de uma só vez e se acabar,
Melhor em doses homeopáticas,
Onde podemos desprezar as táticas,
E sermos nós mesmos pra sonhar.
Não foi num cálice, que eu pensei furtivamente,
Em te derramar mais transparente,
Para melhor te brindar e degustar.
E tornar então, sem ser brando e indiferente,
Mais ávido o meu inconsciente,
Pra cada vez mais, querer te amar.
745
José Eustáquio da Silva
Pessoa
me toque assim calma
me beije fundo a alma
e grite um verso pessoa
quando o prazer chegar
abra-me teu peito
feito janela do meu windows
eclético e cibernético
vou te amando em canções
sorriso armstrong
este mundo é maravilhoso
bom dia vietnã
há flores nos canhões
e eu te amo aqui
contrariando multidões
me toque assim tão calma
me beije fundo a alma
e grite um verso pessoa
quando o prazer chegar
"o poeta é um fingidor
finge tão completamente"
que chega a fingir que é amor
o amor que deveras sente"
me beije fundo a alma
e grite um verso pessoa
quando o prazer chegar
abra-me teu peito
feito janela do meu windows
eclético e cibernético
vou te amando em canções
sorriso armstrong
este mundo é maravilhoso
bom dia vietnã
há flores nos canhões
e eu te amo aqui
contrariando multidões
me toque assim tão calma
me beije fundo a alma
e grite um verso pessoa
quando o prazer chegar
"o poeta é um fingidor
finge tão completamente"
que chega a fingir que é amor
o amor que deveras sente"
1 006
Jorge Pieiro
Os Abismos Horizontais de Sérgio Campos
Tempo e maturidade são fatores essenciais para consolidar as relações viscerais entre a poesia e o poeta. Convém esclarecer que essa afirmativa anula a concepção comum de tempo, enquanto representação dos movimentos do Universo. Concebido assim, sem as prisões estabelecidas pelo homem e seus métodos, mas como parcela íntima e individual, o tempo do poeta contraria a inevitável degeneração funcional e orgânica do ser humano. Dessa forma, permite elastecer a mirada dos horizontes e aprofundar a contemplação das esferas de vivência interior; já a maturidade, provável conseqüência dos escrutínios da vida, toma-se motivo condutor da experiência poética, estendida entre a realidade e o imaginário.
Com as cicatrizes marcando um rosto, um poeta busca luz ao beber o sol e as constelações, para assim delimitar suas pedras, suas veredas, suas margens e suas amplidões. É privilégio apenas de verdadeiros poetas estabelecer os contornos do infinito e do ínfimo pelo jogo e artifício das palavras com as quais lida.
Sem os alardes vazios de tantos poetas nacionais, apregoadores de falsas grandezas, um poeta buscou a eternidade nas palavras e, com elas, compôs um mundo manual, épico, abissal. Como se houvesse cumprido o rastro da sua luz, legou-nos espetáculos de aurora e crepúsculos um mundo sensível, belo e generoso de poesia. Embora já ausente o principal protagonista, a singularidade do poeta carioca Sérgio Campos (l941-1994), leva-me a reverenciar sua poesia pela leitura reunida de seus dez anos de escrutínio de palavras.
Mar Anterior (Mundo Manual Edições, 1994) foi a celebração e o registro apurado de sua poesia publicada. Selecionados e revistos, a obra reúne poemas desde A Casa do Elementos (CE), 1984, Passando por Bichos (B), 1985, Ciclo Amatório (CA), 1986, Montanhecer (M), 1987, Nativa Idade (NI), O Lobo e o Pastor (LP) e As Iras do Dia (ID), todos de 1990, Móbiles de Sal (MS), 1991, A Cúpula e o Rumor (CR), 1992, até Leitura de Cinzas (LC), 1993.
Mar Anterior é uma obra poética em dinâmico refluxo, que possibilita reconhecer a variedade de estratagemas no possível sal marinho de suas entranhas. Exala uma maresia provocada, não pelo agito das ondas de um tempo infelizmente contemporâneo ao que resta de valor sob a superfície desse nosso caosmos de todo dia, mas surgido de uma complacência com os valores arcaicos da mitologia pulsante na inconsciência de nossos cicios de sol e lua.
A um poeta que afirmou ter se fixado nas formas clássicas de poesia, também a ele foi exigida a absoluta modernidade de seu dassicismo, sob a ameaça de não ser compreendido pelos seus pares, e, principalmente, pelas castas dos cartesianos e positivistas de tocaia. Mas isso não importa tanto, pois para quem fazer uma arte arcaica assustou mais aos outros poetas que ao poder, cabe-me estender os olhos às suas poéticas como quem vai assumir uma postura irremediavelmente solene, livre porém dos artifícios burocráticos.
A ausência desses efeitos de repartição pública é reflexo, talvez, das declarações do poeta em várias situações e ocasiões, ao enunciar que a sua estética era basicamente a da repetição. Não escreveu Campos poemas semelhantes, mas os reescreveu elevando a escritura à enésima potência. Quis cumprir a teoria da repetição ao recriar as próprias versões de sua simplicidade harmônica. A prova precisa se dá nesses versos do soneto Apenas o que Dou não é Perdido (LP): "pois o que sei e fiz trouxe da ausência / e refazer é meu melhor inventa" (p. 51).
Em sua curta trajetória poética de 10 anos Sérgio Campos não foi apenas um transcriador dos mitos greco-latinos, mas um venturoso perseguidor da consciência, um viajante na idealidade imaginária que seguiu a trajetória da busca, como Odisseu, em seu Tecido de abismos (ID): sigo em busca de um ouro em que tudo se oculta (p. 36).
Mar Anterior é uma peça solene. Reúne poemas que se reafirmam formalmente em sonetos, odes ou formulações livres, enfeitados, contudo, dentro de uma perspectiva épica moderníssima, o que possibilita vislumbrar origens fragmentárias em suas extensões. A obra, com seus entes, espaços, vazios e suas plenitudes reunidos de forma sucinta, porém bastante impetuosa, sugere a intenção de Campos em construir sua poesia como se construísse abismos horizontais. A profundidade não é vertical; a perpendicularidade dos limites é que revela a sua própria extensão...
Fazendo um paralelo com as construções poéticas greco-latinas, premiadas pelo tempo e pela ousadia, ou com as procriações barrocas, Mar Anterior deixa-se revelar como um exemplar iceberg poético, onde as ruínas dos estilos aparentes ascendem do nível comum dos mortais, deixando submersas as raízes de sua profusão, para mesclar-se com as exigidas fagulhas da poesia mais contemporânea. Ora, não são das ruínas, ou dos encantados ossos que se constrói uma urbe perdida ou um ancestral?
Os poemas mais curtos de Sérgio Campos, na realidade pequenos tentáculos de um abismo mais extenso, são os que considero mais clássicos. Como constituem elos de um enunciado maior, (in)visível, sugerem a figura dos submersos icebergs. Veja-se o exemplo nessa Encantação dos Fios (MS): — "Ó Adriane / o que não se escreve para a beleza / resta sempre inacabada" (p. 31), ou em Lumina (CR): "Entre o que sucede / e intermedia / está a velocidade da flexa / contra a corrente // entre o significado e Delfos o âmbar da profecia // "Mas de inocência e perigo / a manhã faz seus ninhos" (p. 90).
Note-se que o caminho mitológico, nesses exemplos, são fragmentos de erudição diante da grandeza metafórica das nuanças do cotidiano, da incompletude eterna da beleza à possibilidade maniqueísta de como a manhã faz seus ninhos...
do sótão ao porão
Como não poderia deixar de figurar entre os elementos essenciais de uma poética, Sérgio Campos também definiu e deixou florescer elementos simbólicos em sua obra. Exemplo mais evidente dá-se com as construções em tomo da palavra ou do lugar-asilo, a casa. Com efeitos extremamente valiosos, Campos ativa sua motivação e atenção às notas de Gaston Bachelard, eminente fenomenólogo, em sua Poética do Espaço.
Nos poemas dedicados à casa, ruminações dos espaços íntimos, Campos imprimiu com precisão e sutileza a sua previdente solidão, por meio de um texto figurativo, sem ilusões. A exemplo de um eremita que devaneou com a audição de melodias provençais, o poeta revelou o segredo de suas imensidões marginais: acendeu a vela no porão e permitiu a luz do sótão... ou seja, revelou-se.
Em Ruínas Horizontais (MS), o poeta refletiu: "a casa / é seus arredores" (p. 11); "raptos de aromas / de crianças no quintal" (p. 13); "a casa / é seus crepúsculos" (p. 14); "a casa / é suas ruínas" (p. 16); "a casa / é seu corpo e viagem" (p. 17).
Numa evidente busca do passado, o poeta reviveu a ancestralidade de seu espaço e foi consumido por sua gênese. Pois a casa foi / é ainda "alvenaria de acasos", "vômito das clarabóias", "espantalho de rendas no colo das tias", e tantas outras dimensões sintagmáticas, que convergem para uma única compreensão da vida: "toda ruína é humana". A essência do cotidiano, que engole a memória e desatina a lembrança, é a própria fórmula da maravilha poética de Sérgio Campos.
As Ilhas da Casa (CR) projetam-se mais graves quanto às conclusões do poeta sobre seus arredores. Preso à sua sombra, o poeta admite que "memórias são sucessões / de espelhos aprisionados" (p. 94) para, em seguida, declarar de viva voz o seu desejo de regresso ao hiato que o separa do passado. Tendo, ora as visões de todas as janelas e corredores, ora de seus espaços imaginários, o poeta quer " — Deixar as portas abertas / para paixões circulares" (p. 97).
Com essas imagens e as visões das extremidades cíclicas do espaço, Campos reformulou as divagações de Gaston Bachelard, a respeito da poética e da solidão. Coube a ele revelar aq
Com as cicatrizes marcando um rosto, um poeta busca luz ao beber o sol e as constelações, para assim delimitar suas pedras, suas veredas, suas margens e suas amplidões. É privilégio apenas de verdadeiros poetas estabelecer os contornos do infinito e do ínfimo pelo jogo e artifício das palavras com as quais lida.
Sem os alardes vazios de tantos poetas nacionais, apregoadores de falsas grandezas, um poeta buscou a eternidade nas palavras e, com elas, compôs um mundo manual, épico, abissal. Como se houvesse cumprido o rastro da sua luz, legou-nos espetáculos de aurora e crepúsculos um mundo sensível, belo e generoso de poesia. Embora já ausente o principal protagonista, a singularidade do poeta carioca Sérgio Campos (l941-1994), leva-me a reverenciar sua poesia pela leitura reunida de seus dez anos de escrutínio de palavras.
Mar Anterior (Mundo Manual Edições, 1994) foi a celebração e o registro apurado de sua poesia publicada. Selecionados e revistos, a obra reúne poemas desde A Casa do Elementos (CE), 1984, Passando por Bichos (B), 1985, Ciclo Amatório (CA), 1986, Montanhecer (M), 1987, Nativa Idade (NI), O Lobo e o Pastor (LP) e As Iras do Dia (ID), todos de 1990, Móbiles de Sal (MS), 1991, A Cúpula e o Rumor (CR), 1992, até Leitura de Cinzas (LC), 1993.
Mar Anterior é uma obra poética em dinâmico refluxo, que possibilita reconhecer a variedade de estratagemas no possível sal marinho de suas entranhas. Exala uma maresia provocada, não pelo agito das ondas de um tempo infelizmente contemporâneo ao que resta de valor sob a superfície desse nosso caosmos de todo dia, mas surgido de uma complacência com os valores arcaicos da mitologia pulsante na inconsciência de nossos cicios de sol e lua.
A um poeta que afirmou ter se fixado nas formas clássicas de poesia, também a ele foi exigida a absoluta modernidade de seu dassicismo, sob a ameaça de não ser compreendido pelos seus pares, e, principalmente, pelas castas dos cartesianos e positivistas de tocaia. Mas isso não importa tanto, pois para quem fazer uma arte arcaica assustou mais aos outros poetas que ao poder, cabe-me estender os olhos às suas poéticas como quem vai assumir uma postura irremediavelmente solene, livre porém dos artifícios burocráticos.
A ausência desses efeitos de repartição pública é reflexo, talvez, das declarações do poeta em várias situações e ocasiões, ao enunciar que a sua estética era basicamente a da repetição. Não escreveu Campos poemas semelhantes, mas os reescreveu elevando a escritura à enésima potência. Quis cumprir a teoria da repetição ao recriar as próprias versões de sua simplicidade harmônica. A prova precisa se dá nesses versos do soneto Apenas o que Dou não é Perdido (LP): "pois o que sei e fiz trouxe da ausência / e refazer é meu melhor inventa" (p. 51).
Em sua curta trajetória poética de 10 anos Sérgio Campos não foi apenas um transcriador dos mitos greco-latinos, mas um venturoso perseguidor da consciência, um viajante na idealidade imaginária que seguiu a trajetória da busca, como Odisseu, em seu Tecido de abismos (ID): sigo em busca de um ouro em que tudo se oculta (p. 36).
Mar Anterior é uma peça solene. Reúne poemas que se reafirmam formalmente em sonetos, odes ou formulações livres, enfeitados, contudo, dentro de uma perspectiva épica moderníssima, o que possibilita vislumbrar origens fragmentárias em suas extensões. A obra, com seus entes, espaços, vazios e suas plenitudes reunidos de forma sucinta, porém bastante impetuosa, sugere a intenção de Campos em construir sua poesia como se construísse abismos horizontais. A profundidade não é vertical; a perpendicularidade dos limites é que revela a sua própria extensão...
Fazendo um paralelo com as construções poéticas greco-latinas, premiadas pelo tempo e pela ousadia, ou com as procriações barrocas, Mar Anterior deixa-se revelar como um exemplar iceberg poético, onde as ruínas dos estilos aparentes ascendem do nível comum dos mortais, deixando submersas as raízes de sua profusão, para mesclar-se com as exigidas fagulhas da poesia mais contemporânea. Ora, não são das ruínas, ou dos encantados ossos que se constrói uma urbe perdida ou um ancestral?
Os poemas mais curtos de Sérgio Campos, na realidade pequenos tentáculos de um abismo mais extenso, são os que considero mais clássicos. Como constituem elos de um enunciado maior, (in)visível, sugerem a figura dos submersos icebergs. Veja-se o exemplo nessa Encantação dos Fios (MS): — "Ó Adriane / o que não se escreve para a beleza / resta sempre inacabada" (p. 31), ou em Lumina (CR): "Entre o que sucede / e intermedia / está a velocidade da flexa / contra a corrente // entre o significado e Delfos o âmbar da profecia // "Mas de inocência e perigo / a manhã faz seus ninhos" (p. 90).
Note-se que o caminho mitológico, nesses exemplos, são fragmentos de erudição diante da grandeza metafórica das nuanças do cotidiano, da incompletude eterna da beleza à possibilidade maniqueísta de como a manhã faz seus ninhos...
do sótão ao porão
Como não poderia deixar de figurar entre os elementos essenciais de uma poética, Sérgio Campos também definiu e deixou florescer elementos simbólicos em sua obra. Exemplo mais evidente dá-se com as construções em tomo da palavra ou do lugar-asilo, a casa. Com efeitos extremamente valiosos, Campos ativa sua motivação e atenção às notas de Gaston Bachelard, eminente fenomenólogo, em sua Poética do Espaço.
Nos poemas dedicados à casa, ruminações dos espaços íntimos, Campos imprimiu com precisão e sutileza a sua previdente solidão, por meio de um texto figurativo, sem ilusões. A exemplo de um eremita que devaneou com a audição de melodias provençais, o poeta revelou o segredo de suas imensidões marginais: acendeu a vela no porão e permitiu a luz do sótão... ou seja, revelou-se.
Em Ruínas Horizontais (MS), o poeta refletiu: "a casa / é seus arredores" (p. 11); "raptos de aromas / de crianças no quintal" (p. 13); "a casa / é seus crepúsculos" (p. 14); "a casa / é suas ruínas" (p. 16); "a casa / é seu corpo e viagem" (p. 17).
Numa evidente busca do passado, o poeta reviveu a ancestralidade de seu espaço e foi consumido por sua gênese. Pois a casa foi / é ainda "alvenaria de acasos", "vômito das clarabóias", "espantalho de rendas no colo das tias", e tantas outras dimensões sintagmáticas, que convergem para uma única compreensão da vida: "toda ruína é humana". A essência do cotidiano, que engole a memória e desatina a lembrança, é a própria fórmula da maravilha poética de Sérgio Campos.
As Ilhas da Casa (CR) projetam-se mais graves quanto às conclusões do poeta sobre seus arredores. Preso à sua sombra, o poeta admite que "memórias são sucessões / de espelhos aprisionados" (p. 94) para, em seguida, declarar de viva voz o seu desejo de regresso ao hiato que o separa do passado. Tendo, ora as visões de todas as janelas e corredores, ora de seus espaços imaginários, o poeta quer " — Deixar as portas abertas / para paixões circulares" (p. 97).
Com essas imagens e as visões das extremidades cíclicas do espaço, Campos reformulou as divagações de Gaston Bachelard, a respeito da poética e da solidão. Coube a ele revelar aq
1 176
José Eduardo Mendes Camargo
Leitura
Eu li em teus olhos as palavras
Que teus lábios não ousaram pronunciar
Eu vi em teu corpo o amor
que teus braços temeram aceitar
Eu senti no arrepio de minha pele
O arrepio de tua alma
Eu provei em tuas mãos o desejo
Que nossos corpos não conseguem dissimular.
Que teus lábios não ousaram pronunciar
Eu vi em teu corpo o amor
que teus braços temeram aceitar
Eu senti no arrepio de minha pele
O arrepio de tua alma
Eu provei em tuas mãos o desejo
Que nossos corpos não conseguem dissimular.
859
João Gulart de Souza Gomos
batalha final
se amanhã me condenarem à morte
ou se o halley beijar sofregamente a terra
quero ver por último o brilho dos teus olhos
quando a praia vier dar no meu quintal
e todo magma exsudar na minha sala
vou inalar profundamente os teus cabelos
quando toda lava do vesúvio e
todo suspiro dos vendavais
assomarem à minha rua
será no teu colo que estarei deitado
(des)esperando o último momento
ainda que todo o sal dos oceanos
e toda terra das montanhas
aterrissem no meu teto
só teus lábios soterrarão meu corpo
os tanques cinzas do tio sam estacionarão no abaeté
e ferirão o farol com seus punhais
mas eu estarei deitado
acima, abaixo, sob, sobre, ao lado
em você, de qualquer jeito
quando todos se forem, míssil indetonado
e quando os patriots e exocets desfizerem minhas nuvens
não haverá dia seguinte:
estarei no túmulo dos teus braços
explodindo em milhões de átomos, desintegrando:
o último soldado desconhecido...
Goulart Gomes, Salvador, BA
ou se o halley beijar sofregamente a terra
quero ver por último o brilho dos teus olhos
quando a praia vier dar no meu quintal
e todo magma exsudar na minha sala
vou inalar profundamente os teus cabelos
quando toda lava do vesúvio e
todo suspiro dos vendavais
assomarem à minha rua
será no teu colo que estarei deitado
(des)esperando o último momento
ainda que todo o sal dos oceanos
e toda terra das montanhas
aterrissem no meu teto
só teus lábios soterrarão meu corpo
os tanques cinzas do tio sam estacionarão no abaeté
e ferirão o farol com seus punhais
mas eu estarei deitado
acima, abaixo, sob, sobre, ao lado
em você, de qualquer jeito
quando todos se forem, míssil indetonado
e quando os patriots e exocets desfizerem minhas nuvens
não haverá dia seguinte:
estarei no túmulo dos teus braços
explodindo em milhões de átomos, desintegrando:
o último soldado desconhecido...
Goulart Gomes, Salvador, BA
961
José Eduardo Mendes Camargo
Esta Noite
Sonhei que eras uma borboleta,
E da lua desceste num facho de luz,
E repousaste nas nuvens,
E delas partiste em uma lágrima
de chuva,
E nas areias do mar te
transmutaste em sereia
E durante a madrugada me
seduziste
E pela manhã, quando despertei,
estavas a meu lado.
E da lua desceste num facho de luz,
E repousaste nas nuvens,
E delas partiste em uma lágrima
de chuva,
E nas areias do mar te
transmutaste em sereia
E durante a madrugada me
seduziste
E pela manhã, quando despertei,
estavas a meu lado.
980
João Dummar
Descoberta
A cada dia
eu te descubro
e no início
havia a contradição
e eu só via
negror nos teus olhos
e cabelos
Mas agora eu vejo claridade
na tua pele macia
nas tuas carícias
que brotam no calor da tarde
e na medida em que partilhamos
das maravilhas do ser
quando nos aprofundamos
na divinal essência
eu vejo, és multifacial
espelhando raios do infinito
que abrigamos em nós.
eu te descubro
e no início
havia a contradição
e eu só via
negror nos teus olhos
e cabelos
Mas agora eu vejo claridade
na tua pele macia
nas tuas carícias
que brotam no calor da tarde
e na medida em que partilhamos
das maravilhas do ser
quando nos aprofundamos
na divinal essência
eu vejo, és multifacial
espelhando raios do infinito
que abrigamos em nós.
917
João Gulart de Souza Gomos
a insustentável leveza do amor
Que ninguém saiba:
falo dos teus olhos
Terras castanhas, precipício de almas;
Que ninguém veja:
falo do teu riso
Oceano de ritmos, vertigem e calma.
Que ninguém ouça:
falo da tua voz
Perdição de Ulisses em alto mar;
Que ninguém toque:
falo das tuas mãos
Recriar do mundo, elementar.
Que ninguém sinta:
falo da tua boca
Pura seda, roçar de borboletas;
Que ninguém aspire:
falo do teu cheiro
Inspiração eterna de poetas.
Que ninguém ouse:
falo do teu corpo
Porção visível do infinito;
Que ninguém duvide:
falo do que sinto
Amor assim não houve, mais bonito.
Que ninguém entenda:
o amor é um hiato
Entre o vivido e o sonhado;
Que ninguém tema:
o amor é imponderável
Fluido, muito além do leve ou do pesado.
Goulart Gomes, Salvador, BA
falo dos teus olhos
Terras castanhas, precipício de almas;
Que ninguém veja:
falo do teu riso
Oceano de ritmos, vertigem e calma.
Que ninguém ouça:
falo da tua voz
Perdição de Ulisses em alto mar;
Que ninguém toque:
falo das tuas mãos
Recriar do mundo, elementar.
Que ninguém sinta:
falo da tua boca
Pura seda, roçar de borboletas;
Que ninguém aspire:
falo do teu cheiro
Inspiração eterna de poetas.
Que ninguém ouse:
falo do teu corpo
Porção visível do infinito;
Que ninguém duvide:
falo do que sinto
Amor assim não houve, mais bonito.
Que ninguém entenda:
o amor é um hiato
Entre o vivido e o sonhado;
Que ninguém tema:
o amor é imponderável
Fluido, muito além do leve ou do pesado.
Goulart Gomes, Salvador, BA
910
José Eduardo Mendes Camargo
Você Chegou
Você chegou com esse seu jeito de menina moça,
corpo bonito, andar elegante
e gestos cheios de encanto.
Você chegou com um olhar de tristeza,
momentos de ausência e intensa presença
Você chegou com esse seu modo
franco, suave, espalhando e despertando
afeto e carinho.
Você chegou com esse seu cheiro gostoso,
pele macia e lábios carnosos de tanta volúpia.
Você chegou como que retomando de uma longa ausência
povoada das melhores lembranças.
corpo bonito, andar elegante
e gestos cheios de encanto.
Você chegou com um olhar de tristeza,
momentos de ausência e intensa presença
Você chegou com esse seu modo
franco, suave, espalhando e despertando
afeto e carinho.
Você chegou com esse seu cheiro gostoso,
pele macia e lábios carnosos de tanta volúpia.
Você chegou como que retomando de uma longa ausência
povoada das melhores lembranças.
789
João Dummar
Oceano
Eu quero, amada
que versos brotem
de meu pensamento e de meus lábios
com a força do repente
na alegria dos cantadores.
Que não sejam palavras vãs
e não se percam
no vento da tarde
mas que se gravem no seu coração
que te impulsionem,
na direção do ser
que nos façam descobrir
o mistério de conviver.
Fascinante é penetrar
no mundo dos enigmas
e mergulhar na profundeza
destes oceanos
que se espraiam
em nós.
que versos brotem
de meu pensamento e de meus lábios
com a força do repente
na alegria dos cantadores.
Que não sejam palavras vãs
e não se percam
no vento da tarde
mas que se gravem no seu coração
que te impulsionem,
na direção do ser
que nos façam descobrir
o mistério de conviver.
Fascinante é penetrar
no mundo dos enigmas
e mergulhar na profundeza
destes oceanos
que se espraiam
em nós.
856
José Eduardo Mendes Camargo
Encantamento
Fechei os olhos para me proteger
de tua presença sedutora,
Mas qual o quê, foi aí que me danei.
Surgiste evanescente, flutuando no horizonte, qual
estrela ascendente trazendo novas luzes ao firmamento.
O teu corpo tinha mais forma e graça
que a nuvem esculpida pelo vento.
Os teus olhos, mais ternura que as noites de lua cheia.
Então, vencido por este encantamento,
abri os olhos e me entreguei.
de tua presença sedutora,
Mas qual o quê, foi aí que me danei.
Surgiste evanescente, flutuando no horizonte, qual
estrela ascendente trazendo novas luzes ao firmamento.
O teu corpo tinha mais forma e graça
que a nuvem esculpida pelo vento.
Os teus olhos, mais ternura que as noites de lua cheia.
Então, vencido por este encantamento,
abri os olhos e me entreguei.
919
José Eduardo Mendes Camargo
Fada
Foste a fada que me fez
representar a plenitude de meu ser.
no charme de teu sorriso,
Me iluminaste o corpo.
Na transparência de teus olhos,
me despiste a alma.
Na suavidade de tua voz,
me hipnotizaste o espírito.
Na leveza de teus gestos,
me fascinaste os olhos.
Na beleza e sensualidade da mulher-fêmea,
me seduziste.
representar a plenitude de meu ser.
no charme de teu sorriso,
Me iluminaste o corpo.
Na transparência de teus olhos,
me despiste a alma.
Na suavidade de tua voz,
me hipnotizaste o espírito.
Na leveza de teus gestos,
me fascinaste os olhos.
Na beleza e sensualidade da mulher-fêmea,
me seduziste.
916