Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Jorge de Lima
Invenções de Orfeu
CANTO III
POEMAS RELATIVOS
I
Caída a noite
o mar se esvai,
aquele monte
desaba e cai
silentemente.
Bronzes diluídos
já não são vozes,
seres na estrada
nem são fantasmas,
aves nos ramos
inexistentes;
tranças noturnas
mais que impalpáveis,
gatos nem gatos,
nem os pés no ar,
nem os silêncios.
O sono está.
E um homem dorme.
II
Queres ler o que
tão só se entrelê
e o resto em ti está?
Flor no ar sem umbela
nem tua lapela;
flor que sem nós há.
Subitamente olhas:
nem lês nem desfolhas;
folha, flor, tiveste-as.
E nem as tocaste:
folha e flor. Tu - haste,
elas reais, mas réstias.
III
qualquer voz alou-se
muito desejada.
Branco fosse o espaço
e ela ardente cor.
Quis o espaço a voz
a voz veio e ampliou-o.
Mas se não houvesse
propriamente voz...
Vamos nós supô-los:
dois sem seus sentidos.
Desejemos mesmo
dois incompreensíveis.
Bom nos ecoarmos
na voz recebida.
E o espaço esvaziado
povoá-lo de vez.
Amá-los tão sem
amada presença,
só com o coração
sem correspondência,
só com a vocação
do verso feliz.
IV
Numas noites chegamos à janela,
e as mandíbulas do ar tanto nos roem,
que os leitos rotos logo deliqüescem
com os nossos corpos complacentemente.
Certos dias olhamos o sol claro;
e a boca hiante das cores nos devora
carnes e sangues, poeiras de costelas,
que ficamos inúteis, sem matéria.
Essas bocas nos sugam noite e dia,
vigiando dia e noite nossas vidas
um minuto no espaço, menos que ai
de chumbo soluçado nos silêncios,
ou cal de fome longa, revelada,
na noite igual ao dia, de tão gêmeos.
V
Agora o sem senso
sorriso nos ares,
minha alma perdida,
os vales lá embaixo
de minhas lonjuras
de não existido,
parado nos antes,
nem sei de pecados,
nem sei de mim mesmo,
eu mesmo não sou
nem nada me vê;
ausentes palavras
não soam no vácuo
dos antes das coisas,
das coisas sem nexo,
nem fluidos. Só o Verbo
chorando por mim.
VI
Agora, escutai-me
que eu falo de mim;
ouvi que sou eu,
sou eu, eu em mim;
tocai esses cravos
já feitos pra mim,
suores de sangue,
pressuados sem poros
verônica herdada.
sem face do ser.
Embora; escutai-me,
que eu falo com a voz
inata que diz
que a voz não é essa
que fala por mim,
talvez minha fala
saída de ti.
VII
Alegria achareis neste poema
como poema ilícito, como um
corpo casual ou vão, como a memória
dura e acídula, como um homem se
conhece respirando, ou como quando
se entristece sem causa ou se doente,
ou se lavando sempre ou comparando-se
às dimensões das coisas relativas;
ou como sente os ombros de seu ser,
transmitidos e opacos, e os avós
responsabilizando-se presentes.
São alegrias rápidas. Lugares,
reencontrados países, becos, passos
sob as chuvas que não vos molharão.
VIII
Se falta alguém nesses versos
pele vento interminável,
pelas arenas de estátuas,
sucedam-lhe os cegos olhos
sacudidos pelos medos,
mãos de chuvas lhe inteiricem
o corpo com algas remissas
e com matérias tranqüilas
tão soturna como os poços,
exasperados invernos,
ombros de escova comida,
as asas secas caídas,
ante seus netos calados;
e incorporem-se a esse alvitre
esse sabor de cortiça,
essas esponjas morridas,
essas marés estanhadas,
essas escunas de espáduas
estritamente fechadas
como casas de abandono,
restringem-se os conciliábulos,
certos sigilos de pez,
certas coisas enlutadas,
refúgios, dramas ocultos,
pois as rosas são de trapos
e os fios menos que teias,
menos que finos agora,
e as camisas sem os pêlos
enterrados nas ilhargas,
vestem enganos e punhos
e crimes em vez de adegas,
mas tudo em vão, mesmo as plumas,
mesmo os ausentes e as vozes
aderidas a fragmentos
aí moram degredadas,
listrando as grades, de faces
que não conhecem espelhos
IX
Numa hora perdida cantos doeram. Os desejos
E flores despenteadas, flores largas e a barbárie
e inconfidentes quase abominadas dos corpos.
por oculta paixão, se intumesceram. E a relatividade
do espírito
Lírios eram pilares de cristal sob o cerco
subindo para as aves; então dardos da matéria.
desceram sobre os mais amados colos
cantando amor com seus sentimentos.
Canção melhor. Mais consentimentos puros olhos. Eu
sei de cor os rebanhos, e olho o mundo.
Tudo contém pequenas doces máscaras.
Mas da selva selvagem desce o pranto
dos que mastigam suas próprias fomes,
sem saliva de pão, e o gosto ausente.
Ninguém consegue assim amar os lírios.
E esse amor é amaríssimo e adstringente
com a memória das dores engolidas.
X
Vós não viveis sozinhos
os outros vos invadem
felizes convivências
agregações incômodas
enfim ambientalismos,
e tudo subsistências
e mais comunidades;
e tantas ventanias
acotovelamentos,
desgastes de antemão,
acréscimos depois,
depois substituições,
a massa vos tragando,
as coisas vos bisando;
os hábitos, os vícios,
as moças embutidas
mudando vossas cartas;
sereis administrados
no sono e nos pecados,
vós mapas e diagramas
com várias delinqüências,
e insanidades várias,
dosando o vosso espaço,
pesando o vosso pão
de tempos racionados;
e não tereis vivido
e não tereis amado,
porém sereis morrido.
XI
Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime?
Clodoveu ou Clodovigo?
Éreis vós por acaso eles?
Éreis vós aqueles nomes,
estes, e os demais já mortos,
os mortos tão renovados
nós mesmos sempre chamados
Lútero, Lotário, otário,
sim otário tão singelo,
tão puro de todo o mal,
relativo, universal.
Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime?
Dizei-me se acaso vós
éreis eles ou voz sou
de algum avo tão otário,
tão eu mesmo como voz,
como poema de outros vários.
XII
O simples ar
de uma só corda
em curta raia,
mão de menino,
punhado escasso,
ar perfumado,
sem o alvoroço
dos vendavais;
anjo acolhido
em róseo céu
abrigo instante,
pranto lavado,
chorar em ti
de arrependido,
subir teus vales,
amar teu pólen,
nunca escapar-me
de tuas pétalas
cair com elas.
XIII
Uma janela aberta
e um simples rosto hirto,
e que provavelmente
nela se debruçou;
e nesse gesto puro
do rosto na janela
estava todo o poema
que ninguém escutou;
só a janela aberta
e o espaço dentro dela
que o tempo atravessou.
XIV
O contro era um dia,
um dia futuro,
e dentro do dia
incluído o conforme,
e dentro o que foi
porque fora isso
se tal não se dera,
se o mundo parasse
e o espaço se excluí
POEMAS RELATIVOS
I
Caída a noite
o mar se esvai,
aquele monte
desaba e cai
silentemente.
Bronzes diluídos
já não são vozes,
seres na estrada
nem são fantasmas,
aves nos ramos
inexistentes;
tranças noturnas
mais que impalpáveis,
gatos nem gatos,
nem os pés no ar,
nem os silêncios.
O sono está.
E um homem dorme.
II
Queres ler o que
tão só se entrelê
e o resto em ti está?
Flor no ar sem umbela
nem tua lapela;
flor que sem nós há.
Subitamente olhas:
nem lês nem desfolhas;
folha, flor, tiveste-as.
E nem as tocaste:
folha e flor. Tu - haste,
elas reais, mas réstias.
III
qualquer voz alou-se
muito desejada.
Branco fosse o espaço
e ela ardente cor.
Quis o espaço a voz
a voz veio e ampliou-o.
Mas se não houvesse
propriamente voz...
Vamos nós supô-los:
dois sem seus sentidos.
Desejemos mesmo
dois incompreensíveis.
Bom nos ecoarmos
na voz recebida.
E o espaço esvaziado
povoá-lo de vez.
Amá-los tão sem
amada presença,
só com o coração
sem correspondência,
só com a vocação
do verso feliz.
IV
Numas noites chegamos à janela,
e as mandíbulas do ar tanto nos roem,
que os leitos rotos logo deliqüescem
com os nossos corpos complacentemente.
Certos dias olhamos o sol claro;
e a boca hiante das cores nos devora
carnes e sangues, poeiras de costelas,
que ficamos inúteis, sem matéria.
Essas bocas nos sugam noite e dia,
vigiando dia e noite nossas vidas
um minuto no espaço, menos que ai
de chumbo soluçado nos silêncios,
ou cal de fome longa, revelada,
na noite igual ao dia, de tão gêmeos.
V
Agora o sem senso
sorriso nos ares,
minha alma perdida,
os vales lá embaixo
de minhas lonjuras
de não existido,
parado nos antes,
nem sei de pecados,
nem sei de mim mesmo,
eu mesmo não sou
nem nada me vê;
ausentes palavras
não soam no vácuo
dos antes das coisas,
das coisas sem nexo,
nem fluidos. Só o Verbo
chorando por mim.
VI
Agora, escutai-me
que eu falo de mim;
ouvi que sou eu,
sou eu, eu em mim;
tocai esses cravos
já feitos pra mim,
suores de sangue,
pressuados sem poros
verônica herdada.
sem face do ser.
Embora; escutai-me,
que eu falo com a voz
inata que diz
que a voz não é essa
que fala por mim,
talvez minha fala
saída de ti.
VII
Alegria achareis neste poema
como poema ilícito, como um
corpo casual ou vão, como a memória
dura e acídula, como um homem se
conhece respirando, ou como quando
se entristece sem causa ou se doente,
ou se lavando sempre ou comparando-se
às dimensões das coisas relativas;
ou como sente os ombros de seu ser,
transmitidos e opacos, e os avós
responsabilizando-se presentes.
São alegrias rápidas. Lugares,
reencontrados países, becos, passos
sob as chuvas que não vos molharão.
VIII
Se falta alguém nesses versos
pele vento interminável,
pelas arenas de estátuas,
sucedam-lhe os cegos olhos
sacudidos pelos medos,
mãos de chuvas lhe inteiricem
o corpo com algas remissas
e com matérias tranqüilas
tão soturna como os poços,
exasperados invernos,
ombros de escova comida,
as asas secas caídas,
ante seus netos calados;
e incorporem-se a esse alvitre
esse sabor de cortiça,
essas esponjas morridas,
essas marés estanhadas,
essas escunas de espáduas
estritamente fechadas
como casas de abandono,
restringem-se os conciliábulos,
certos sigilos de pez,
certas coisas enlutadas,
refúgios, dramas ocultos,
pois as rosas são de trapos
e os fios menos que teias,
menos que finos agora,
e as camisas sem os pêlos
enterrados nas ilhargas,
vestem enganos e punhos
e crimes em vez de adegas,
mas tudo em vão, mesmo as plumas,
mesmo os ausentes e as vozes
aderidas a fragmentos
aí moram degredadas,
listrando as grades, de faces
que não conhecem espelhos
IX
Numa hora perdida cantos doeram. Os desejos
E flores despenteadas, flores largas e a barbárie
e inconfidentes quase abominadas dos corpos.
por oculta paixão, se intumesceram. E a relatividade
do espírito
Lírios eram pilares de cristal sob o cerco
subindo para as aves; então dardos da matéria.
desceram sobre os mais amados colos
cantando amor com seus sentimentos.
Canção melhor. Mais consentimentos puros olhos. Eu
sei de cor os rebanhos, e olho o mundo.
Tudo contém pequenas doces máscaras.
Mas da selva selvagem desce o pranto
dos que mastigam suas próprias fomes,
sem saliva de pão, e o gosto ausente.
Ninguém consegue assim amar os lírios.
E esse amor é amaríssimo e adstringente
com a memória das dores engolidas.
X
Vós não viveis sozinhos
os outros vos invadem
felizes convivências
agregações incômodas
enfim ambientalismos,
e tudo subsistências
e mais comunidades;
e tantas ventanias
acotovelamentos,
desgastes de antemão,
acréscimos depois,
depois substituições,
a massa vos tragando,
as coisas vos bisando;
os hábitos, os vícios,
as moças embutidas
mudando vossas cartas;
sereis administrados
no sono e nos pecados,
vós mapas e diagramas
com várias delinqüências,
e insanidades várias,
dosando o vosso espaço,
pesando o vosso pão
de tempos racionados;
e não tereis vivido
e não tereis amado,
porém sereis morrido.
XI
Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime?
Clodoveu ou Clodovigo?
Éreis vós por acaso eles?
Éreis vós aqueles nomes,
estes, e os demais já mortos,
os mortos tão renovados
nós mesmos sempre chamados
Lútero, Lotário, otário,
sim otário tão singelo,
tão puro de todo o mal,
relativo, universal.
Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime?
Dizei-me se acaso vós
éreis eles ou voz sou
de algum avo tão otário,
tão eu mesmo como voz,
como poema de outros vários.
XII
O simples ar
de uma só corda
em curta raia,
mão de menino,
punhado escasso,
ar perfumado,
sem o alvoroço
dos vendavais;
anjo acolhido
em róseo céu
abrigo instante,
pranto lavado,
chorar em ti
de arrependido,
subir teus vales,
amar teu pólen,
nunca escapar-me
de tuas pétalas
cair com elas.
XIII
Uma janela aberta
e um simples rosto hirto,
e que provavelmente
nela se debruçou;
e nesse gesto puro
do rosto na janela
estava todo o poema
que ninguém escutou;
só a janela aberta
e o espaço dentro dela
que o tempo atravessou.
XIV
O contro era um dia,
um dia futuro,
e dentro do dia
incluído o conforme,
e dentro o que foi
porque fora isso
se tal não se dera,
se o mundo parasse
e o espaço se excluí
7 206
2
Gregório de Matos
Segunda Impaciência Do Poeta
Cresce o desejo, falta o sofrimento,
Sofrendo morro, morro desejando,
Por uma, e outra parte estou penando
Sem poder dar alívio a meu tormento.
Se quero declarar meu pensamento,
Está-me um gesto grave acobardando,
E tenho por melhor morrer calando,
Que fiar-me de um néscio atrevimento.
Quem pretende alcançar, espera, e cala,
Porque quem temerário se abalança,
Muitas vezes o amor o desiguala.
Pois se aquele, que espera se alcança,
Quero ter por melhor morrer sem fala,
Que falando, perder toda esperança.
Sofrendo morro, morro desejando,
Por uma, e outra parte estou penando
Sem poder dar alívio a meu tormento.
Se quero declarar meu pensamento,
Está-me um gesto grave acobardando,
E tenho por melhor morrer calando,
Que fiar-me de um néscio atrevimento.
Quem pretende alcançar, espera, e cala,
Porque quem temerário se abalança,
Muitas vezes o amor o desiguala.
Pois se aquele, que espera se alcança,
Quero ter por melhor morrer sem fala,
Que falando, perder toda esperança.
5 772
2
Gregório de Matos
Segunda Impaciência Do Poeta
Cresce o desejo, falta o sofrimento,
Sofrendo morro, morro desejando,
Por uma, e outra parte estou penando
Sem poder dar alívio a meu tormento.
Se quero declarar meu pensamento,
Está-me um gesto grave acobardando,
E tenho por melhor morrer calando,
Que fiar-me de um néscio atrevimento.
Quem pretende alcançar, espera, e cala,
Porque quem temerário se abalança,
Muitas vezes o amor o desiguala.
Pois se aquele, que espera se alcança,
Quero ter por melhor morrer sem fala,
Que falando, perder toda esperança.
Sofrendo morro, morro desejando,
Por uma, e outra parte estou penando
Sem poder dar alívio a meu tormento.
Se quero declarar meu pensamento,
Está-me um gesto grave acobardando,
E tenho por melhor morrer calando,
Que fiar-me de um néscio atrevimento.
Quem pretende alcançar, espera, e cala,
Porque quem temerário se abalança,
Muitas vezes o amor o desiguala.
Pois se aquele, que espera se alcança,
Quero ter por melhor morrer sem fala,
Que falando, perder toda esperança.
5 772
2
Gregório de Matos
Segunda Impaciência Do Poeta
Cresce o desejo, falta o sofrimento,
Sofrendo morro, morro desejando,
Por uma, e outra parte estou penando
Sem poder dar alívio a meu tormento.
Se quero declarar meu pensamento,
Está-me um gesto grave acobardando,
E tenho por melhor morrer calando,
Que fiar-me de um néscio atrevimento.
Quem pretende alcançar, espera, e cala,
Porque quem temerário se abalança,
Muitas vezes o amor o desiguala.
Pois se aquele, que espera se alcança,
Quero ter por melhor morrer sem fala,
Que falando, perder toda esperança.
Sofrendo morro, morro desejando,
Por uma, e outra parte estou penando
Sem poder dar alívio a meu tormento.
Se quero declarar meu pensamento,
Está-me um gesto grave acobardando,
E tenho por melhor morrer calando,
Que fiar-me de um néscio atrevimento.
Quem pretende alcançar, espera, e cala,
Porque quem temerário se abalança,
Muitas vezes o amor o desiguala.
Pois se aquele, que espera se alcança,
Quero ter por melhor morrer sem fala,
Que falando, perder toda esperança.
5 772
2
Gregório de Matos
Segunda Impaciência Do Poeta
Cresce o desejo, falta o sofrimento,
Sofrendo morro, morro desejando,
Por uma, e outra parte estou penando
Sem poder dar alívio a meu tormento.
Se quero declarar meu pensamento,
Está-me um gesto grave acobardando,
E tenho por melhor morrer calando,
Que fiar-me de um néscio atrevimento.
Quem pretende alcançar, espera, e cala,
Porque quem temerário se abalança,
Muitas vezes o amor o desiguala.
Pois se aquele, que espera se alcança,
Quero ter por melhor morrer sem fala,
Que falando, perder toda esperança.
Sofrendo morro, morro desejando,
Por uma, e outra parte estou penando
Sem poder dar alívio a meu tormento.
Se quero declarar meu pensamento,
Está-me um gesto grave acobardando,
E tenho por melhor morrer calando,
Que fiar-me de um néscio atrevimento.
Quem pretende alcançar, espera, e cala,
Porque quem temerário se abalança,
Muitas vezes o amor o desiguala.
Pois se aquele, que espera se alcança,
Quero ter por melhor morrer sem fala,
Que falando, perder toda esperança.
5 772
2
José Duro
Em Busca
Ponho os olhos em mim, como se olhasse um estranho,
E choro de me ver tão outro, tão mudado…
Sem desvendar a causa, o íntimo cuidado
Que sofro do meu mal — o mal de que provenho.
Já não sou aquele Eu do tempo que é passado,
Pastor das ilusões perdi o meu rebanho,
Não sei do meu amor, saúde não na tenho,
E a vida sem saúde é um sofrer dobrado.
A minh’alma rasgou-ma o trágico Desgosto
Nas silvas do abandono, à hora do sol-posto,
Quando o azul começa a diluir-se em astros…
E à beira do caminho, até lá muito longe,
Como um mendigo só, como um sombrio monge,
Anda o meu coração em busca dos seus rastros…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
E choro de me ver tão outro, tão mudado…
Sem desvendar a causa, o íntimo cuidado
Que sofro do meu mal — o mal de que provenho.
Já não sou aquele Eu do tempo que é passado,
Pastor das ilusões perdi o meu rebanho,
Não sei do meu amor, saúde não na tenho,
E a vida sem saúde é um sofrer dobrado.
A minh’alma rasgou-ma o trágico Desgosto
Nas silvas do abandono, à hora do sol-posto,
Quando o azul começa a diluir-se em astros…
E à beira do caminho, até lá muito longe,
Como um mendigo só, como um sombrio monge,
Anda o meu coração em busca dos seus rastros…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
1 339
2
José Duro
Em Busca
Ponho os olhos em mim, como se olhasse um estranho,
E choro de me ver tão outro, tão mudado…
Sem desvendar a causa, o íntimo cuidado
Que sofro do meu mal — o mal de que provenho.
Já não sou aquele Eu do tempo que é passado,
Pastor das ilusões perdi o meu rebanho,
Não sei do meu amor, saúde não na tenho,
E a vida sem saúde é um sofrer dobrado.
A minh’alma rasgou-ma o trágico Desgosto
Nas silvas do abandono, à hora do sol-posto,
Quando o azul começa a diluir-se em astros…
E à beira do caminho, até lá muito longe,
Como um mendigo só, como um sombrio monge,
Anda o meu coração em busca dos seus rastros…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
E choro de me ver tão outro, tão mudado…
Sem desvendar a causa, o íntimo cuidado
Que sofro do meu mal — o mal de que provenho.
Já não sou aquele Eu do tempo que é passado,
Pastor das ilusões perdi o meu rebanho,
Não sei do meu amor, saúde não na tenho,
E a vida sem saúde é um sofrer dobrado.
A minh’alma rasgou-ma o trágico Desgosto
Nas silvas do abandono, à hora do sol-posto,
Quando o azul começa a diluir-se em astros…
E à beira do caminho, até lá muito longe,
Como um mendigo só, como um sombrio monge,
Anda o meu coração em busca dos seus rastros…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
1 339
2
José Duro
Em Busca
Ponho os olhos em mim, como se olhasse um estranho,
E choro de me ver tão outro, tão mudado…
Sem desvendar a causa, o íntimo cuidado
Que sofro do meu mal — o mal de que provenho.
Já não sou aquele Eu do tempo que é passado,
Pastor das ilusões perdi o meu rebanho,
Não sei do meu amor, saúde não na tenho,
E a vida sem saúde é um sofrer dobrado.
A minh’alma rasgou-ma o trágico Desgosto
Nas silvas do abandono, à hora do sol-posto,
Quando o azul começa a diluir-se em astros…
E à beira do caminho, até lá muito longe,
Como um mendigo só, como um sombrio monge,
Anda o meu coração em busca dos seus rastros…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
E choro de me ver tão outro, tão mudado…
Sem desvendar a causa, o íntimo cuidado
Que sofro do meu mal — o mal de que provenho.
Já não sou aquele Eu do tempo que é passado,
Pastor das ilusões perdi o meu rebanho,
Não sei do meu amor, saúde não na tenho,
E a vida sem saúde é um sofrer dobrado.
A minh’alma rasgou-ma o trágico Desgosto
Nas silvas do abandono, à hora do sol-posto,
Quando o azul começa a diluir-se em astros…
E à beira do caminho, até lá muito longe,
Como um mendigo só, como um sombrio monge,
Anda o meu coração em busca dos seus rastros…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
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2
João Linneu
Jahu
Há quanto tempo escorro...
há pouco sou esgoto;
estorvo limboso.
Forma e Tempo
ao mesmo tempo.
Furando locas,
cavando curvas,
sou todo bosta
limando pedras.
há pouco sou esgoto;
estorvo limboso.
Forma e Tempo
ao mesmo tempo.
Furando locas,
cavando curvas,
sou todo bosta
limando pedras.
997
2
João Linneu
Jahu
Há quanto tempo escorro...
há pouco sou esgoto;
estorvo limboso.
Forma e Tempo
ao mesmo tempo.
Furando locas,
cavando curvas,
sou todo bosta
limando pedras.
há pouco sou esgoto;
estorvo limboso.
Forma e Tempo
ao mesmo tempo.
Furando locas,
cavando curvas,
sou todo bosta
limando pedras.
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2
Gregório de Matos
Soneto
Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco cos demais, que só, sisudo.
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco cos demais, que só, sisudo.
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2
Gregório de Matos
Soneto
Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco cos demais, que só, sisudo.
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco cos demais, que só, sisudo.
7 841
2
Laurindo Rabelo
Último Canto do Cisne
Quando eu morrer, não chorem minha morte,
Entreguem o meu corpo à sepultura;
Pobre, sem pompas, sejam-lhe a mortalha
Os andrajos que deu-me a desventura.
Não mintam ao sepulcro apresentando
Um rico funeral de aspecto nobre:
Como agora a zombar me dizem vivo,
Digam-me também morto — aí vai um pobre!
De amigos hipócritas não quero
Públicas provas de afeição fingida;
Deixem-me morto só, como deixaram-me
Lutar contra a má, sorte toda a vida.
Outros prantos não quero, que não sejam
Esse pranto de fel amargurado
De minha companheira de infortúnios,
Que me adora apesar de desgraçado.
O pranto, açucena de minhalma,
Do coração sincero, dalma sã,
De um anjo que também sente meus males,
De uma virgem que adoro como irmã.
Tenho um jovem amigo, também quero
Que junte em minha eça os prantos seus
Aos de um pobre ancião que perfilhou-me
Quando a filha entregou-me aos Pés de Deus.
Dos meus todos eu sei que terei preces,
Saudades, lágrimas também;
Que não tenho a lembrança de ofendê-los
E sei quanta amizade eles me têm.
E tranqüilo, meu Deus, a vós me entrego,
Pecador de mil culpas carregado,
Mas os prantos dos meus perdão vos pedem,
E o muito que também tenho chorado.
Entreguem o meu corpo à sepultura;
Pobre, sem pompas, sejam-lhe a mortalha
Os andrajos que deu-me a desventura.
Não mintam ao sepulcro apresentando
Um rico funeral de aspecto nobre:
Como agora a zombar me dizem vivo,
Digam-me também morto — aí vai um pobre!
De amigos hipócritas não quero
Públicas provas de afeição fingida;
Deixem-me morto só, como deixaram-me
Lutar contra a má, sorte toda a vida.
Outros prantos não quero, que não sejam
Esse pranto de fel amargurado
De minha companheira de infortúnios,
Que me adora apesar de desgraçado.
O pranto, açucena de minhalma,
Do coração sincero, dalma sã,
De um anjo que também sente meus males,
De uma virgem que adoro como irmã.
Tenho um jovem amigo, também quero
Que junte em minha eça os prantos seus
Aos de um pobre ancião que perfilhou-me
Quando a filha entregou-me aos Pés de Deus.
Dos meus todos eu sei que terei preces,
Saudades, lágrimas também;
Que não tenho a lembrança de ofendê-los
E sei quanta amizade eles me têm.
E tranqüilo, meu Deus, a vós me entrego,
Pecador de mil culpas carregado,
Mas os prantos dos meus perdão vos pedem,
E o muito que também tenho chorado.
3 409
2
Laurindo Rabelo
Último Canto do Cisne
Quando eu morrer, não chorem minha morte,
Entreguem o meu corpo à sepultura;
Pobre, sem pompas, sejam-lhe a mortalha
Os andrajos que deu-me a desventura.
Não mintam ao sepulcro apresentando
Um rico funeral de aspecto nobre:
Como agora a zombar me dizem vivo,
Digam-me também morto — aí vai um pobre!
De amigos hipócritas não quero
Públicas provas de afeição fingida;
Deixem-me morto só, como deixaram-me
Lutar contra a má, sorte toda a vida.
Outros prantos não quero, que não sejam
Esse pranto de fel amargurado
De minha companheira de infortúnios,
Que me adora apesar de desgraçado.
O pranto, açucena de minhalma,
Do coração sincero, dalma sã,
De um anjo que também sente meus males,
De uma virgem que adoro como irmã.
Tenho um jovem amigo, também quero
Que junte em minha eça os prantos seus
Aos de um pobre ancião que perfilhou-me
Quando a filha entregou-me aos Pés de Deus.
Dos meus todos eu sei que terei preces,
Saudades, lágrimas também;
Que não tenho a lembrança de ofendê-los
E sei quanta amizade eles me têm.
E tranqüilo, meu Deus, a vós me entrego,
Pecador de mil culpas carregado,
Mas os prantos dos meus perdão vos pedem,
E o muito que também tenho chorado.
Entreguem o meu corpo à sepultura;
Pobre, sem pompas, sejam-lhe a mortalha
Os andrajos que deu-me a desventura.
Não mintam ao sepulcro apresentando
Um rico funeral de aspecto nobre:
Como agora a zombar me dizem vivo,
Digam-me também morto — aí vai um pobre!
De amigos hipócritas não quero
Públicas provas de afeição fingida;
Deixem-me morto só, como deixaram-me
Lutar contra a má, sorte toda a vida.
Outros prantos não quero, que não sejam
Esse pranto de fel amargurado
De minha companheira de infortúnios,
Que me adora apesar de desgraçado.
O pranto, açucena de minhalma,
Do coração sincero, dalma sã,
De um anjo que também sente meus males,
De uma virgem que adoro como irmã.
Tenho um jovem amigo, também quero
Que junte em minha eça os prantos seus
Aos de um pobre ancião que perfilhou-me
Quando a filha entregou-me aos Pés de Deus.
Dos meus todos eu sei que terei preces,
Saudades, lágrimas também;
Que não tenho a lembrança de ofendê-los
E sei quanta amizade eles me têm.
E tranqüilo, meu Deus, a vós me entrego,
Pecador de mil culpas carregado,
Mas os prantos dos meus perdão vos pedem,
E o muito que também tenho chorado.
3 409
2
Ivan Junqueira
E se eu disser
E se eu disser que te amo - assim, de cara,
sem mais delonga ou tímidos rodeios,
sem nem saber se a confissão te enfara
ou se te apraz o emprego de tais meios?
E se eu disser que sonho com teus seios,
teu ventre, tuas coxas, tua clara
maneira de sorrir, os lábios cheios
da luz que escorre de uma estrela rara?
E se eu disser que à noite não consigo
sequer adormecer porque me agarro
à imagem que de ti em vão persigo?
Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro
em tua ausência - essa lâmina exata
que me penetra e fere e sangra e mata.
sem mais delonga ou tímidos rodeios,
sem nem saber se a confissão te enfara
ou se te apraz o emprego de tais meios?
E se eu disser que sonho com teus seios,
teu ventre, tuas coxas, tua clara
maneira de sorrir, os lábios cheios
da luz que escorre de uma estrela rara?
E se eu disser que à noite não consigo
sequer adormecer porque me agarro
à imagem que de ti em vão persigo?
Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro
em tua ausência - essa lâmina exata
que me penetra e fere e sangra e mata.
3 978
2
Ivan Junqueira
E se eu disser
E se eu disser que te amo - assim, de cara,
sem mais delonga ou tímidos rodeios,
sem nem saber se a confissão te enfara
ou se te apraz o emprego de tais meios?
E se eu disser que sonho com teus seios,
teu ventre, tuas coxas, tua clara
maneira de sorrir, os lábios cheios
da luz que escorre de uma estrela rara?
E se eu disser que à noite não consigo
sequer adormecer porque me agarro
à imagem que de ti em vão persigo?
Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro
em tua ausência - essa lâmina exata
que me penetra e fere e sangra e mata.
sem mais delonga ou tímidos rodeios,
sem nem saber se a confissão te enfara
ou se te apraz o emprego de tais meios?
E se eu disser que sonho com teus seios,
teu ventre, tuas coxas, tua clara
maneira de sorrir, os lábios cheios
da luz que escorre de uma estrela rara?
E se eu disser que à noite não consigo
sequer adormecer porque me agarro
à imagem que de ti em vão persigo?
Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro
em tua ausência - essa lâmina exata
que me penetra e fere e sangra e mata.
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2
Chico Buarque
Valsinha
Um dia ele chegou tão diferente do seujeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não mal disse a vida tanto quanto seu jeito de sempre falar
E não deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar
Então ela se fez bonita como a muito tempo nào queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tando esperar
Depois os dois deram-se os braços como a muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz
(Chico Buarque de Holanda in “Construção”)
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não mal disse a vida tanto quanto seu jeito de sempre falar
E não deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar
Então ela se fez bonita como a muito tempo nào queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tando esperar
Depois os dois deram-se os braços como a muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz
(Chico Buarque de Holanda in “Construção”)
3 628
2
Chico Buarque
Valsinha
Um dia ele chegou tão diferente do seujeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não mal disse a vida tanto quanto seu jeito de sempre falar
E não deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar
Então ela se fez bonita como a muito tempo nào queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tando esperar
Depois os dois deram-se os braços como a muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz
(Chico Buarque de Holanda in “Construção”)
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não mal disse a vida tanto quanto seu jeito de sempre falar
E não deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar
Então ela se fez bonita como a muito tempo nào queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tando esperar
Depois os dois deram-se os braços como a muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz
(Chico Buarque de Holanda in “Construção”)
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2
Christiane Tricerri
Canção para Cecília: “a Meireles”
Cecília por que me
chegaste agora?
Ainda respiro, mas morro
lentamente.
Oh, Cecília! Por que me
chegaste agora?
Ainda canto, mas vivo
lentamente.
E já não quero caminhar,
e vens me dizer que vôo!
chegaste agora?
Ainda respiro, mas morro
lentamente.
Oh, Cecília! Por que me
chegaste agora?
Ainda canto, mas vivo
lentamente.
E já não quero caminhar,
e vens me dizer que vôo!
2 022
2
Gaitano Antonaccio
Cheiro de Banho
Sempre pela noite quando venho,
Quando te tenho, quando não tenho,
Eu sinto um prazer estranho
Um cheiro de corpo, cheiro de banho,
E meu corpo, da noite cansado,
Repouso no teu colo molhado.
E ao enlaçar teus braços macios
Sinto nas mãos teus selos frios,
Que se intumescem, se aquecem
E numa volúpia voraz, endurecem
E aí me invade um desejo carnal
E eu te afago no prazer sexual ...
Depois, quando retorno e te deixo
Me sinto feliz, de nada me queixo,
É como se a vida me reanimasse
E o nosso amor jamais terminasse.
Quando te tenho, quando não tenho,
Eu sinto um prazer estranho
Um cheiro de corpo, cheiro de banho,
E meu corpo, da noite cansado,
Repouso no teu colo molhado.
E ao enlaçar teus braços macios
Sinto nas mãos teus selos frios,
Que se intumescem, se aquecem
E numa volúpia voraz, endurecem
E aí me invade um desejo carnal
E eu te afago no prazer sexual ...
Depois, quando retorno e te deixo
Me sinto feliz, de nada me queixo,
É como se a vida me reanimasse
E o nosso amor jamais terminasse.
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2
Clicie Pontes
Inverno
De braços abertos
Enfrentando a geada
Um espantalho
A árvore no inverno
Não consegue mais
Esconder a lua...
Ao pé da lareira
Uma pausa na conversa:
Lua na vidraça!
Enfrentando a geada
Um espantalho
A árvore no inverno
Não consegue mais
Esconder a lua...
Ao pé da lareira
Uma pausa na conversa:
Lua na vidraça!
1 065
2
Gonçalves Crespo
O Minuete
Espaçoso é o salão: jarras a cada canto;
Admira-se o lavor do tecto de pau santo.
Cadeiras de espaldar corri fulvas pregarias:
Um enorme sofá: largas tapeçarias.
O purpúreo tapete aos olhos nos revela
Entre as garras de um tigre ansiosa uma gazela.
Retratos em redor: olhemos o primeiro:
No Toro as mãos de Afonso o armaram cavaleiro.
Era arcebispo aquele: esta foi açafata:
Que frescura sensual nos lábios de escarlata!
Olhos revendo o azul que sobre a Itália assoma:
Em finos caracóis, a loura e ondada coma:
Colo robusto e nu: cabeça triunfante:
Consta que certo rei... passemos adiantei
Este que vês, morreu num africano areal
Por vingança cruel do áspero Pombal.
Desse olhar na expressão infinda e inenarrável
Desabrocha uma dor profunda e inconsolável.
Defronte, uma donzela, o rosto meigo e aflito,
Num êxtasis adora o pálido proscrito.
O teu sonho nupcial, franzina morgadinha,
Tão cedo se desfez, ó mísera e mesquinha!
No burel escondeste o viço e a formosura,
E desmaiaste, flor, no chão de uma clausura!...
Repara nos desdéns do fofo conselheiro,
Que sorridente aspira a flor de um jasmineiro!
Em cânones doutor: no paço foi benquisto:
Orna-lhe o peito a cruz de um hábito de Cristo.
Esse outro combatendo às portas de Baiona,
Como um bravo, alcançou a rútila dragona.
Vibra flamas o olhar; cabeça ereta e audaz;
Ilumina-lhe o rosto a glória de um gilvaz.
Assistimos, ao vê-lo, às pugnas carniceiras,
E ouvimos o clangor das músicas guerreiras...
No antiquíssimo espelho, à sombra das cortinas,
Reflete-se o primor de argênteas serpentinas.
Sob o espelho se aninha um cravo marchetado,
Mimo outrora da casa, e prenda de um noivado.
Ao lado um cofre encerra, em amorável ninho,
Antiga partitura em velho pergaminho.
Uma noite estendi a música na estante,
E o cravo suspirou... naquele mesmo instante
Da ebúrnea palidez doentia do teclado
Manso e manso evolou-se o aroma do passado.
E vi descer do quadro a lânguida açafata
Que, ao discreto palor das lâmpadas de prata,
A fímbria alevantando azul do seu vestido,
O rosto acerejado, o gesto comovido,
A sorrir, deslizou graciosa no tapete,
Dançando airosamente o airoso minuete...
Admira-se o lavor do tecto de pau santo.
Cadeiras de espaldar corri fulvas pregarias:
Um enorme sofá: largas tapeçarias.
O purpúreo tapete aos olhos nos revela
Entre as garras de um tigre ansiosa uma gazela.
Retratos em redor: olhemos o primeiro:
No Toro as mãos de Afonso o armaram cavaleiro.
Era arcebispo aquele: esta foi açafata:
Que frescura sensual nos lábios de escarlata!
Olhos revendo o azul que sobre a Itália assoma:
Em finos caracóis, a loura e ondada coma:
Colo robusto e nu: cabeça triunfante:
Consta que certo rei... passemos adiantei
Este que vês, morreu num africano areal
Por vingança cruel do áspero Pombal.
Desse olhar na expressão infinda e inenarrável
Desabrocha uma dor profunda e inconsolável.
Defronte, uma donzela, o rosto meigo e aflito,
Num êxtasis adora o pálido proscrito.
O teu sonho nupcial, franzina morgadinha,
Tão cedo se desfez, ó mísera e mesquinha!
No burel escondeste o viço e a formosura,
E desmaiaste, flor, no chão de uma clausura!...
Repara nos desdéns do fofo conselheiro,
Que sorridente aspira a flor de um jasmineiro!
Em cânones doutor: no paço foi benquisto:
Orna-lhe o peito a cruz de um hábito de Cristo.
Esse outro combatendo às portas de Baiona,
Como um bravo, alcançou a rútila dragona.
Vibra flamas o olhar; cabeça ereta e audaz;
Ilumina-lhe o rosto a glória de um gilvaz.
Assistimos, ao vê-lo, às pugnas carniceiras,
E ouvimos o clangor das músicas guerreiras...
No antiquíssimo espelho, à sombra das cortinas,
Reflete-se o primor de argênteas serpentinas.
Sob o espelho se aninha um cravo marchetado,
Mimo outrora da casa, e prenda de um noivado.
Ao lado um cofre encerra, em amorável ninho,
Antiga partitura em velho pergaminho.
Uma noite estendi a música na estante,
E o cravo suspirou... naquele mesmo instante
Da ebúrnea palidez doentia do teclado
Manso e manso evolou-se o aroma do passado.
E vi descer do quadro a lânguida açafata
Que, ao discreto palor das lâmpadas de prata,
A fímbria alevantando azul do seu vestido,
O rosto acerejado, o gesto comovido,
A sorrir, deslizou graciosa no tapete,
Dançando airosamente o airoso minuete...
1 900
2
Gonçalves Crespo
Fervet Amor
Dá para a cerca a estreita e humilde cela
Dessa que os seus abandonou, trocando
O calor da família ameno e brando
Pelo claustro que o sangue esfria e gela.
Nos florões manuelinos da janela
Papeiam aves o seu ninho armando,
Vêem-se ao longe os trigos ondulando ..
Maio sorri na Pradaria bela.
Zumbe o inseto na flor do rosmaninho:
Nas giestas pousa a abelha ébria de gozo:
Zunem besouros e palpita o ninho.
E a freira cisma e cora, ao ver, ansioso,
Do seu catre virgíneo sobre o linho
Um par de borboletas amoroso.
Dessa que os seus abandonou, trocando
O calor da família ameno e brando
Pelo claustro que o sangue esfria e gela.
Nos florões manuelinos da janela
Papeiam aves o seu ninho armando,
Vêem-se ao longe os trigos ondulando ..
Maio sorri na Pradaria bela.
Zumbe o inseto na flor do rosmaninho:
Nas giestas pousa a abelha ébria de gozo:
Zunem besouros e palpita o ninho.
E a freira cisma e cora, ao ver, ansioso,
Do seu catre virgíneo sobre o linho
Um par de borboletas amoroso.
1 879
2
Gonçalves Crespo
Fervet Amor
Dá para a cerca a estreita e humilde cela
Dessa que os seus abandonou, trocando
O calor da família ameno e brando
Pelo claustro que o sangue esfria e gela.
Nos florões manuelinos da janela
Papeiam aves o seu ninho armando,
Vêem-se ao longe os trigos ondulando ..
Maio sorri na Pradaria bela.
Zumbe o inseto na flor do rosmaninho:
Nas giestas pousa a abelha ébria de gozo:
Zunem besouros e palpita o ninho.
E a freira cisma e cora, ao ver, ansioso,
Do seu catre virgíneo sobre o linho
Um par de borboletas amoroso.
Dessa que os seus abandonou, trocando
O calor da família ameno e brando
Pelo claustro que o sangue esfria e gela.
Nos florões manuelinos da janela
Papeiam aves o seu ninho armando,
Vêem-se ao longe os trigos ondulando ..
Maio sorri na Pradaria bela.
Zumbe o inseto na flor do rosmaninho:
Nas giestas pousa a abelha ébria de gozo:
Zunem besouros e palpita o ninho.
E a freira cisma e cora, ao ver, ansioso,
Do seu catre virgíneo sobre o linho
Um par de borboletas amoroso.
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