Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Pero da Ponte
D'ua Cousa Sõo Maravilhado
D'ũa cousa sõo maravilhado:
porque se quer home desembargar
por posfaçar muit'e deostar,
e nulh'home nom seer seu pagado.
Eu, por aquesto, bem vos jurarei
que tam mal torpe no mundo nom sei
com'é o torpe mui desembargado.
E quem [nom] se tem por desvergonhado
por dizer sempr'a quantos vir pesar
e pelo mundo nom poder achar
nẽum home que seja seu pagado,
por desembargado nom lhi contarei;
mais, se o vir, vedes que lhi direi:
- Confonda Deus atal desembargado!
Ca o torpe que sempr'anda calado
non'o devem por torpe a razõar,
pois que é torp'e leixa de falar;
e d'atal torpe sõo eu pagado;
mais o mal torpe eu vo-lo mostrarei:
quem diz mal dos que som em cas d'el-rei,
por se meter por mais desembargado.
porque se quer home desembargar
por posfaçar muit'e deostar,
e nulh'home nom seer seu pagado.
Eu, por aquesto, bem vos jurarei
que tam mal torpe no mundo nom sei
com'é o torpe mui desembargado.
E quem [nom] se tem por desvergonhado
por dizer sempr'a quantos vir pesar
e pelo mundo nom poder achar
nẽum home que seja seu pagado,
por desembargado nom lhi contarei;
mais, se o vir, vedes que lhi direi:
- Confonda Deus atal desembargado!
Ca o torpe que sempr'anda calado
non'o devem por torpe a razõar,
pois que é torp'e leixa de falar;
e d'atal torpe sõo eu pagado;
mais o mal torpe eu vo-lo mostrarei:
quem diz mal dos que som em cas d'el-rei,
por se meter por mais desembargado.
598
Matilde Campilho
Explicação do Sopro
Século XXI. Certos homens se fecham em quartos de hotel porque nos lugares anônimos é muito possível ficar encostado numa parede branca vendo a água correr no chão do chu veiro. Dois rapazinhos pegam as bicicletas e pedalam quatro centos e vinte quilômetros até achar a costa. Ao alcançá-la, tiram suas roupas e não mergulham: só encostam a zona lombar na areia e repetem até ao infinito a ladainha da tabuada do sete. Um bombeiro termina seu turno de vinte e quatro horas e entra no boteco junto à estátua de São Tarso. Pede um conjunto de sete pães de queijo e nos espaços entre cada um dos pães ele fica procurando por algum pedaço da túnica de Deus. O motorista do ônibus sabe perfeitamente que dentro da mala da senhora de rosto limpo tem uma caixa de joias que contém uma caixa de medicamentos que contém uma caixa de anel que contém uma bala. O tocador de kalimba está muito consciente de que hoje o mantra nasce da mistura de um cântico de procissão com o latir do cachorro, e está consciente também de que todo o desenho acha sua acústica perfeita nas pequenas eremitas. Aquele que pinta a natureza, o ladrão de ossos, sabe que deve empreender seu trabalho em posição horizontal, de corpo muito junto ao chão. E se por acaso o observarmos no processo por mais de sete minutos, podemos reparar que sua caixa torácica constantemente toca a tela, sempre na mesma cadência. A moça de vinte e sete anos ainda está sentada ao toucador, de frente para o próprio rosto, absolutamente indecisa sobre qual dos objetos escolher. Entre o batom alaranjado, a carabina calibre 12, o pó de arroz e o crucifixo em miniatura vai uma distância de dois passos a galope.
1 326
Matilde Campilho
Panteão Nacional
Mercúrio, meu cabrão:
Tu que alinhaste a melena
de ouro em jeito de aviso
à queda, que penteaste teu
cabelinho todo para trás
antecipando o encontro:
Não podias ter soltado
pelo menos um conselho?
Meu grandessíssimo filho
de um deus velho, seu
moleque mimado: não
dava pra, sei lá, escrever
recado nos anéis do vovô
ou enfiar à socapa uma
mensagem no mapa
topográfico de Alicante?
Qualquer coisa servia, M.
Tu que puxaste o lustro
às sandálias e às asas
das tuas sandálias, que
jeitaste o paletó de herói
e te lavaste os pés: tu já
sabias no que isso dava.
Meu grande sacana, tua
obrigação era subir na boca
e um megafone dourado
e dizer: «Cuidado rapaziada,
tenham atenção a esse nó
que acontece no estômago
no preciso momento em que
esperam por vosso amante
Tu que alinhaste a melena
de ouro em jeito de aviso
à queda, que penteaste teu
cabelinho todo para trás
antecipando o encontro:
Não podias ter soltado
pelo menos um conselho?
Meu grandessíssimo filho
de um deus velho, seu
moleque mimado: não
dava pra, sei lá, escrever
recado nos anéis do vovô
ou enfiar à socapa uma
mensagem no mapa
topográfico de Alicante?
Qualquer coisa servia, M.
Tu que puxaste o lustro
às sandálias e às asas
das tuas sandálias, que
jeitaste o paletó de herói
e te lavaste os pés: tu já
sabias no que isso dava.
Meu grande sacana, tua
obrigação era subir na boca
e um megafone dourado
e dizer: «Cuidado rapaziada,
tenham atenção a esse nó
que acontece no estômago
no preciso momento em que
esperam por vosso amante
1 058
Matilde Campilho
Obituário de J. Anderson Pritt, Pela Mão da Viúva
um pedaço de aço?
- vai lá e rouba.
a entrada da barcaça no Ganges?
- vai lá e rouba.
os dentes do jaguar japonês?
- vai lá e rouba.
corações? pele, pelo, retina?
- vai lá e rouba.
o efeito supralunar de janeiro?
- vai lá e leva.
a receita mágica do refrigerante ou
o mecanismo do relógio de corda?
- vai lá e rouba.
a hora do despertar do monge?
- vai e usa.
anel de ouro?
- todo seu.
setenta e oito braçadas do salmão
que agora já sabe onde é a foz?
- vai lá e rouba.
a canção tradicional da ilha
entalada entre meridianos?
- vai lá e rouba.
o farolim do carro armado?
- leva, para o que der e vier.
o desenho fosforescente suspenso
na parede colombiana?
- vai lá e toma.
o fantoche que João o carpinteiro
levou anos para esculpir?
- vai lá e rouba.
constelações desmanteladas
fora da orbita terrestre?
- vai lá e abusa.
a cautela previsivelmente
vencedora, loteria de Natal?
- vai lá e rouba.
pulseira de palha do discípulo
natural?
- vai lá e rouba.
Morreu sozinho e pobre
raspando farpa por farpa
a lasca presa no coração
de Dimas, o santo a quem
no céu chamaram Rakh.
- vai lá e rouba.
a entrada da barcaça no Ganges?
- vai lá e rouba.
os dentes do jaguar japonês?
- vai lá e rouba.
corações? pele, pelo, retina?
- vai lá e rouba.
o efeito supralunar de janeiro?
- vai lá e leva.
a receita mágica do refrigerante ou
o mecanismo do relógio de corda?
- vai lá e rouba.
a hora do despertar do monge?
- vai e usa.
anel de ouro?
- todo seu.
setenta e oito braçadas do salmão
que agora já sabe onde é a foz?
- vai lá e rouba.
a canção tradicional da ilha
entalada entre meridianos?
- vai lá e rouba.
o farolim do carro armado?
- leva, para o que der e vier.
o desenho fosforescente suspenso
na parede colombiana?
- vai lá e toma.
o fantoche que João o carpinteiro
levou anos para esculpir?
- vai lá e rouba.
constelações desmanteladas
fora da orbita terrestre?
- vai lá e abusa.
a cautela previsivelmente
vencedora, loteria de Natal?
- vai lá e rouba.
pulseira de palha do discípulo
natural?
- vai lá e rouba.
Morreu sozinho e pobre
raspando farpa por farpa
a lasca presa no coração
de Dimas, o santo a quem
no céu chamaram Rakh.
917
Matilde Campilho
Estação do Trem
Depois de acordarmos
sempre ainda meio vivos
um pouco ensonados
é mais ou menos fácil
entrar na vida
depois dessas coisas
Prometemos várias vezes
que não trocaríamos o amor
por jogatinas de pingue-pongue
e quando finalmente percebemos
que o ás do pingue-pongue
é exatamente
a medida certa do amor
ajubilamos na gargalhada
que só pode ser
que afinal, sempre foi
nós dois acreditamos nisso
a herança de Deus para nós
Sim, olha
eu lembro
de quando tu só sabias contar
até 400.
sempre ainda meio vivos
um pouco ensonados
é mais ou menos fácil
entrar na vida
depois dessas coisas
Prometemos várias vezes
que não trocaríamos o amor
por jogatinas de pingue-pongue
e quando finalmente percebemos
que o ás do pingue-pongue
é exatamente
a medida certa do amor
ajubilamos na gargalhada
que só pode ser
que afinal, sempre foi
nós dois acreditamos nisso
a herança de Deus para nós
Sim, olha
eu lembro
de quando tu só sabias contar
até 400.
1 365
Pero da Ponte
O Que Valença Conquereu
O que Valença conquereu
por sempre mais valenç'haver,
Valença se quer manteer
e sempr'em valença entendeu.
E de Valença é senhor,
pois el mantém prez e loor
e prês Valença por valer.
E per valença sempre obrou
por haver Valença, de pram;
e por valença lhi diram
que bem Valença gaanhou.
E o bom rei Valença tem
que, pois prez e valor mantém,
rei de Valença lhi diram.
Ca Deus lhi deu esforç'e sem
por sobre Valença reinar,
e lhi fez Valença acabar
com quanta valença convém.
El rei que Valença conquis,
que de valença est bem fiz
e per valença quer obrar,
rei de razom, rei de bom sem,
rei de prez, rei de todo bem
est, e rei d'Aragon, de pram!
por sempre mais valenç'haver,
Valença se quer manteer
e sempr'em valença entendeu.
E de Valença é senhor,
pois el mantém prez e loor
e prês Valença por valer.
E per valença sempre obrou
por haver Valença, de pram;
e por valença lhi diram
que bem Valença gaanhou.
E o bom rei Valença tem
que, pois prez e valor mantém,
rei de Valença lhi diram.
Ca Deus lhi deu esforç'e sem
por sobre Valença reinar,
e lhi fez Valença acabar
com quanta valença convém.
El rei que Valença conquis,
que de valença est bem fiz
e per valença quer obrar,
rei de razom, rei de bom sem,
rei de prez, rei de todo bem
est, e rei d'Aragon, de pram!
595
Pero da Ponte
Marinha Foça Quis Saber
Marinha Foça quis saber
como lh'ia de parecer;
e fui-lh'eu log'assi dizer,
tanto que m'ela preguntou:
- Senhor, nom houver'a nacer
quem vos viu e vos desejou!
E bem vos podedes gabar
que vos nom sab'hoj'home par,
enas terras, de semelhar;
de mais diss'um, que vos catou,
que nom s'houver'a levantar
quem vos viu e vos desejou!
E pois parecedes assi,
tam negra ora vos eu vi,
que o meu cor sempre des i
nas vossas feituras cuidou;
e mal dia naceu por si
quem vos viu e vos desejou!
Mais que fará o pecador
que viu vós e vossa coor
e vos nom houv'a seu sabor?
Dizer-vo-lo-ei já, pois me vou:
irad'houve Nostro Senhor
quem vos viu e vos desejou!
como lh'ia de parecer;
e fui-lh'eu log'assi dizer,
tanto que m'ela preguntou:
- Senhor, nom houver'a nacer
quem vos viu e vos desejou!
E bem vos podedes gabar
que vos nom sab'hoj'home par,
enas terras, de semelhar;
de mais diss'um, que vos catou,
que nom s'houver'a levantar
quem vos viu e vos desejou!
E pois parecedes assi,
tam negra ora vos eu vi,
que o meu cor sempre des i
nas vossas feituras cuidou;
e mal dia naceu por si
quem vos viu e vos desejou!
Mais que fará o pecador
que viu vós e vossa coor
e vos nom houv'a seu sabor?
Dizer-vo-lo-ei já, pois me vou:
irad'houve Nostro Senhor
quem vos viu e vos desejou!
443
Pero da Ponte
Marinha López, Oimais, a Seu Grado
Marinha López, oimais, a seu grado,
se quiser Deus, será bõa molher;
e se algum feito fez desaguisado,
non'o fará jamais, se Deus quiser;
e direi-vos como se quer guardar:
quer-s'ir ali em cas Dom Lop'andar,
u lhi semelha logar apartado.
E bem creede que est apartado
pera ela, que folia nom quer,
ca nom veerá i mais nulh'homem nado
de mil cavaleiros, se nom quiser;
e pois se quer de folia leixar,
de pram Deus lhi mostrou aquel logar:
i pode bem remiir seu pecado.
E pois bem quer remiir seu pecado,
logar achou qual havia mester,
u nom saberá parte nem mandado
de nulh'home, se d'alhur nom veer;
pero se pobr'ou coitado passar
per aquel porto, sabê-lo-á albergar
e, de mais, dar-lh'alberg'endõado.
se quiser Deus, será bõa molher;
e se algum feito fez desaguisado,
non'o fará jamais, se Deus quiser;
e direi-vos como se quer guardar:
quer-s'ir ali em cas Dom Lop'andar,
u lhi semelha logar apartado.
E bem creede que est apartado
pera ela, que folia nom quer,
ca nom veerá i mais nulh'homem nado
de mil cavaleiros, se nom quiser;
e pois se quer de folia leixar,
de pram Deus lhi mostrou aquel logar:
i pode bem remiir seu pecado.
E pois bem quer remiir seu pecado,
logar achou qual havia mester,
u nom saberá parte nem mandado
de nulh'home, se d'alhur nom veer;
pero se pobr'ou coitado passar
per aquel porto, sabê-lo-á albergar
e, de mais, dar-lh'alberg'endõado.
616
Pero da Ponte
Tam Muito Vos Am'eu, Senhor
Tam muito vos am'eu, senhor,
que nunca tant'amou senhor
home que fosse nado;
pero, des que fui nado,
nom pud'haver de vós, senhor,
por que dissess': ai, mia senhor,
em bom pont'eu fui nado!
Mais quem de vós fosse, senhor,
bom dia fôra nado!
E o dia que vos eu vi,
senhor, em tal hora vos vi
que nunca dormi nada,
nem desejei al nada
senom vosso bem, pois vos vi!
E dig'a mi: por que vos vi,
pois que mi nom val nada?
Mal dia nad', eu que vos vi,
e vós bom dia nada!
Que se vos eu nom viss'entom
quando vos vi, podera entom
seer d'afã guardado;
mais nunc'ar fui guardado
de mui gram coita, des entom;
e entendi-m'eu des entom
que aquel é guardado
que Deus guarda; ca, des entom,
é tod'home guardado.
que nunca tant'amou senhor
home que fosse nado;
pero, des que fui nado,
nom pud'haver de vós, senhor,
por que dissess': ai, mia senhor,
em bom pont'eu fui nado!
Mais quem de vós fosse, senhor,
bom dia fôra nado!
E o dia que vos eu vi,
senhor, em tal hora vos vi
que nunca dormi nada,
nem desejei al nada
senom vosso bem, pois vos vi!
E dig'a mi: por que vos vi,
pois que mi nom val nada?
Mal dia nad', eu que vos vi,
e vós bom dia nada!
Que se vos eu nom viss'entom
quando vos vi, podera entom
seer d'afã guardado;
mais nunc'ar fui guardado
de mui gram coita, des entom;
e entendi-m'eu des entom
que aquel é guardado
que Deus guarda; ca, des entom,
é tod'home guardado.
700
Fernão Garcia Esgaravunha
Ora Vej'eu o Que Nunca Cuidava,
Ora vej'eu o que nunca cuidava,
mentr'eu vivesse, no mundo veer:
vi ũa dona melhor parecer
de quantas outras eno mundo vi;
e por aquela logo me parti
de quant'eu al no mundo desejava.
E se eu ant'em mui gram coit'andava,
já m'esta dona faz maior haver,
ca me fez Deus por meu mal entender
tod'o seu bem; e poilo entendi,
mais em tam grave dia foi por mi,
ca mais coitad'ando ca ant'andava.
E [u] eu vi quam fremoso falava,
e lh'oí quanto bem disse dizer,
tod'outra rem me fez escaescer;
per bõa fé, pois lh'eu tod'est'oí,
nunca lh'ar pude rogar, des ali,
por nulha rem do que lh'ante rogava.
mentr'eu vivesse, no mundo veer:
vi ũa dona melhor parecer
de quantas outras eno mundo vi;
e por aquela logo me parti
de quant'eu al no mundo desejava.
E se eu ant'em mui gram coit'andava,
já m'esta dona faz maior haver,
ca me fez Deus por meu mal entender
tod'o seu bem; e poilo entendi,
mais em tam grave dia foi por mi,
ca mais coitad'ando ca ant'andava.
E [u] eu vi quam fremoso falava,
e lh'oí quanto bem disse dizer,
tod'outra rem me fez escaescer;
per bõa fé, pois lh'eu tod'est'oí,
nunca lh'ar pude rogar, des ali,
por nulha rem do que lh'ante rogava.
680
Pero da Ponte
Nostro Senhor Deus! Que Prol Vos Tem Ora
Nostro Senhor Deus! Que prol vos tem ora
por destroirdes este mund'assi?
Que a melhor dona que era i,
nem houve nunca (vossa madre fora),
levades end'? E pensastes mui mal
daqueste mundo fals'e desleal:
que, quanto bem aquesto mund'havia,
todo lho vós tolhestes em um dia!
Que pouc'home por en prezar devia
este mundo, pois bondad'i nom val
contra morrer! E pois el assi fal,
seu prazer faz quem per tal mundo fia:
ca o dia que eu tal pesar vi,
já, per quant'eu deste mund'entendi,
por fol tenh'eu quem por tal mundo chora
e por mais fol quem mais en'el[e] mora!
Em forte ponto e em fort[e] hora
fez Deus o mundo, pois nom leixou i
nẽum conort[o] e levou daqui
a bõa rainha, que ende fora,
dona Beatrix! Direi-vos eu qual:
nom fez Deus outra melhor nem tal,
nem de bondade par nom lh'acharia
home no mundo, par Santa Maria!
por destroirdes este mund'assi?
Que a melhor dona que era i,
nem houve nunca (vossa madre fora),
levades end'? E pensastes mui mal
daqueste mundo fals'e desleal:
que, quanto bem aquesto mund'havia,
todo lho vós tolhestes em um dia!
Que pouc'home por en prezar devia
este mundo, pois bondad'i nom val
contra morrer! E pois el assi fal,
seu prazer faz quem per tal mundo fia:
ca o dia que eu tal pesar vi,
já, per quant'eu deste mund'entendi,
por fol tenh'eu quem por tal mundo chora
e por mais fol quem mais en'el[e] mora!
Em forte ponto e em fort[e] hora
fez Deus o mundo, pois nom leixou i
nẽum conort[o] e levou daqui
a bõa rainha, que ende fora,
dona Beatrix! Direi-vos eu qual:
nom fez Deus outra melhor nem tal,
nem de bondade par nom lh'acharia
home no mundo, par Santa Maria!
688
Nuno Fernandes Torneol
Ir-Vos Queredes, Mia Senhor
Ir-vos queredes, mia senhor,
e fic'end'eu com gram pesar,
que nunca soube rem amar
ergo vós, des quando vos vi.
E pois que vos ides daqui,
senhor fremosa, que farei?
E que farei eu, pois nom vir
o vosso mui bom parecer?
Nom poderei eu mais viver,
se me Deus contra vós nom val.
Mais ar dizede-me vós al:
senhor fremosa, que farei?
E rog'eu a Nostro Senhor
que, se vós vos fordes daquém,
que me dê mia morte por en,
ca muito me será mester.
E se mi a El dar nom quiser,
senhor fremosa, que farei?
Pois mi assi força voss'amor
e nom ouso vosco guarir,
des quando me de vós partir,
eu que nom sei al bem querer
querria-me de vós saber:
senhor fremosa, que farei?
e fic'end'eu com gram pesar,
que nunca soube rem amar
ergo vós, des quando vos vi.
E pois que vos ides daqui,
senhor fremosa, que farei?
E que farei eu, pois nom vir
o vosso mui bom parecer?
Nom poderei eu mais viver,
se me Deus contra vós nom val.
Mais ar dizede-me vós al:
senhor fremosa, que farei?
E rog'eu a Nostro Senhor
que, se vós vos fordes daquém,
que me dê mia morte por en,
ca muito me será mester.
E se mi a El dar nom quiser,
senhor fremosa, que farei?
Pois mi assi força voss'amor
e nom ouso vosco guarir,
des quando me de vós partir,
eu que nom sei al bem querer
querria-me de vós saber:
senhor fremosa, que farei?
756
Nuno Fernandes Torneol
Ir-Vos Queredes, Mia Senhor
Ir-vos queredes, mia senhor,
e fic'end'eu com gram pesar,
que nunca soube rem amar
ergo vós, des quando vos vi.
E pois que vos ides daqui,
senhor fremosa, que farei?
E que farei eu, pois nom vir
o vosso mui bom parecer?
Nom poderei eu mais viver,
se me Deus contra vós nom val.
Mais ar dizede-me vós al:
senhor fremosa, que farei?
E rog'eu a Nostro Senhor
que, se vós vos fordes daquém,
que me dê mia morte por en,
ca muito me será mester.
E se mi a El dar nom quiser,
senhor fremosa, que farei?
Pois mi assi força voss'amor
e nom ouso vosco guarir,
des quando me de vós partir,
eu que nom sei al bem querer
querria-me de vós saber:
senhor fremosa, que farei?
e fic'end'eu com gram pesar,
que nunca soube rem amar
ergo vós, des quando vos vi.
E pois que vos ides daqui,
senhor fremosa, que farei?
E que farei eu, pois nom vir
o vosso mui bom parecer?
Nom poderei eu mais viver,
se me Deus contra vós nom val.
Mais ar dizede-me vós al:
senhor fremosa, que farei?
E rog'eu a Nostro Senhor
que, se vós vos fordes daquém,
que me dê mia morte por en,
ca muito me será mester.
E se mi a El dar nom quiser,
senhor fremosa, que farei?
Pois mi assi força voss'amor
e nom ouso vosco guarir,
des quando me de vós partir,
eu que nom sei al bem querer
querria-me de vós saber:
senhor fremosa, que farei?
756
Nuno Fernandes Torneol
Que Coita Tamanha Hei a Sofrer
Que coita tamanha hei a sofrer,
por amar amig'e non'o veer,
e pousarei sô lo avelanal.
Que coita tamanha hei endurar,
por amar amig'e nom lhi falar,
e pousarei sô lo avelanal.
Por amar amig'e nom lhi falar,
nem lh'ousar a coita que hei mostrar,
e pousarei sô lo avelanal.
Por amar amig'e o nom veer,
nem lh'ousar a coita que hei dizer,
e pousarei sô lo avelanal.
Nom lhe ousar a coita que hei dizer,
e nom mi dam seus amores lezer,
e pousarei sô lo avelanal.
Nom lhe ousar a coita que hei mostrar,
e nom mi dam seus amores vagar,
e pousarei sô lo avelanal.
por amar amig'e non'o veer,
e pousarei sô lo avelanal.
Que coita tamanha hei endurar,
por amar amig'e nom lhi falar,
e pousarei sô lo avelanal.
Por amar amig'e nom lhi falar,
nem lh'ousar a coita que hei mostrar,
e pousarei sô lo avelanal.
Por amar amig'e o nom veer,
nem lh'ousar a coita que hei dizer,
e pousarei sô lo avelanal.
Nom lhe ousar a coita que hei dizer,
e nom mi dam seus amores lezer,
e pousarei sô lo avelanal.
Nom lhe ousar a coita que hei mostrar,
e nom mi dam seus amores vagar,
e pousarei sô lo avelanal.
727
Nuno Fernandes Torneol
Que Coita Tamanha Hei a Sofrer
Que coita tamanha hei a sofrer,
por amar amig'e non'o veer,
e pousarei sô lo avelanal.
Que coita tamanha hei endurar,
por amar amig'e nom lhi falar,
e pousarei sô lo avelanal.
Por amar amig'e nom lhi falar,
nem lh'ousar a coita que hei mostrar,
e pousarei sô lo avelanal.
Por amar amig'e o nom veer,
nem lh'ousar a coita que hei dizer,
e pousarei sô lo avelanal.
Nom lhe ousar a coita que hei dizer,
e nom mi dam seus amores lezer,
e pousarei sô lo avelanal.
Nom lhe ousar a coita que hei mostrar,
e nom mi dam seus amores vagar,
e pousarei sô lo avelanal.
por amar amig'e non'o veer,
e pousarei sô lo avelanal.
Que coita tamanha hei endurar,
por amar amig'e nom lhi falar,
e pousarei sô lo avelanal.
Por amar amig'e nom lhi falar,
nem lh'ousar a coita que hei mostrar,
e pousarei sô lo avelanal.
Por amar amig'e o nom veer,
nem lh'ousar a coita que hei dizer,
e pousarei sô lo avelanal.
Nom lhe ousar a coita que hei dizer,
e nom mi dam seus amores lezer,
e pousarei sô lo avelanal.
Nom lhe ousar a coita que hei mostrar,
e nom mi dam seus amores vagar,
e pousarei sô lo avelanal.
727
Fernão Garcia Esgaravunha
Punhei Eu Muit'em Me Quitar
Punhei eu muit'em me quitar
de vós, fremosa mia senhor,
e nom quis Deus nem voss'amor;
e poilo nom pudi acabar,
dizer-vos quer'eu ũa rem
senhor que sempre bem quige:
or sachaz veroyamen
que je soi votr'home lige.
De querer bem outra molher
punhei eu, há i gram sazom,
e nom quis o meu coraçom;
e pois que el nem Deus nom quer,
dizer-vos quer'eu ũa rem,
senhor que sempre bem quige:
or sachaz veroyamen
que je soi votr'home lige.
E, mia senhor, per bõa fé,
punhei eu muito de fazer
o que a vós forom dizer,
e nom pud'; e pois assi é,
dizer-vos quer'eu ũa rem,
senhor que sempre bem quige:
or sachaz veroyamen
que je soi votr'home lige.
de vós, fremosa mia senhor,
e nom quis Deus nem voss'amor;
e poilo nom pudi acabar,
dizer-vos quer'eu ũa rem
senhor que sempre bem quige:
or sachaz veroyamen
que je soi votr'home lige.
De querer bem outra molher
punhei eu, há i gram sazom,
e nom quis o meu coraçom;
e pois que el nem Deus nom quer,
dizer-vos quer'eu ũa rem,
senhor que sempre bem quige:
or sachaz veroyamen
que je soi votr'home lige.
E, mia senhor, per bõa fé,
punhei eu muito de fazer
o que a vós forom dizer,
e nom pud'; e pois assi é,
dizer-vos quer'eu ũa rem,
senhor que sempre bem quige:
or sachaz veroyamen
que je soi votr'home lige.
525
Pero da Ponte
Mia Madre, Pois Se Foi Daqui
Mia madre, pois se foi daqui
o meu amig'e o nom vi,
nunca fui leda nem dormi,
bem vo-lo juro, des entom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Mia madre, como viverei?
Ca nom dórmio nem dormirei,
pois meu amigo em cas d'el-rei
me tarda tam longa sazom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Pois sab'el ca lhi quer'eu bem
melhor ca mi nem outra rem,
porque mi tarda e nom vem
faz sobre mi gram traiçom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
E direi-vos que nos avém:
eu perço [i] por el o sem
e el por mi o coraçom.
o meu amig'e o nom vi,
nunca fui leda nem dormi,
bem vo-lo juro, des entom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Mia madre, como viverei?
Ca nom dórmio nem dormirei,
pois meu amigo em cas d'el-rei
me tarda tam longa sazom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Pois sab'el ca lhi quer'eu bem
melhor ca mi nem outra rem,
porque mi tarda e nom vem
faz sobre mi gram traiçom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
E direi-vos que nos avém:
eu perço [i] por el o sem
e el por mi o coraçom.
508
Pero da Ponte
Mia Madre, Pois Se Foi Daqui
Mia madre, pois se foi daqui
o meu amig'e o nom vi,
nunca fui leda nem dormi,
bem vo-lo juro, des entom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Mia madre, como viverei?
Ca nom dórmio nem dormirei,
pois meu amigo em cas d'el-rei
me tarda tam longa sazom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Pois sab'el ca lhi quer'eu bem
melhor ca mi nem outra rem,
porque mi tarda e nom vem
faz sobre mi gram traiçom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
E direi-vos que nos avém:
eu perço [i] por el o sem
e el por mi o coraçom.
o meu amig'e o nom vi,
nunca fui leda nem dormi,
bem vo-lo juro, des entom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Mia madre, como viverei?
Ca nom dórmio nem dormirei,
pois meu amigo em cas d'el-rei
me tarda tam longa sazom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Pois sab'el ca lhi quer'eu bem
melhor ca mi nem outra rem,
porque mi tarda e nom vem
faz sobre mi gram traiçom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
E direi-vos que nos avém:
eu perço [i] por el o sem
e el por mi o coraçom.
508
Nuno Fernandes Torneol
Pois Naci Nunca Vi Amor
Pois naci nunca vi Amor
e ouço del sempre falar;
pero sei que me quer matar,
mais rogarei a mia senhor:
que me mostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor.
Pero nunca lh'eu fige rem
por que m'el haja de matar,
mais quer'eu mia senhor rogar,
pola gram coit'em que me tem:
que me mostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor!
Nunca me lh'eu ampararei,
se m'ela del nom amparar;
mais quer'eu mia senhor rogar,
polo gram medo que del hei:
que mi amostr'aquel matador,
ou que mi ampare del melhor.
E pois Amor há sobre mi
de me matar tam gram poder
e eu non'o posso veer,
rogarei mia senhor assi:
que mi amostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor.
e ouço del sempre falar;
pero sei que me quer matar,
mais rogarei a mia senhor:
que me mostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor.
Pero nunca lh'eu fige rem
por que m'el haja de matar,
mais quer'eu mia senhor rogar,
pola gram coit'em que me tem:
que me mostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor!
Nunca me lh'eu ampararei,
se m'ela del nom amparar;
mais quer'eu mia senhor rogar,
polo gram medo que del hei:
que mi amostr'aquel matador,
ou que mi ampare del melhor.
E pois Amor há sobre mi
de me matar tam gram poder
e eu non'o posso veer,
rogarei mia senhor assi:
que mi amostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor.
510
Nuno Fernandes Torneol
Pois Naci Nunca Vi Amor
Pois naci nunca vi Amor
e ouço del sempre falar;
pero sei que me quer matar,
mais rogarei a mia senhor:
que me mostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor.
Pero nunca lh'eu fige rem
por que m'el haja de matar,
mais quer'eu mia senhor rogar,
pola gram coit'em que me tem:
que me mostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor!
Nunca me lh'eu ampararei,
se m'ela del nom amparar;
mais quer'eu mia senhor rogar,
polo gram medo que del hei:
que mi amostr'aquel matador,
ou que mi ampare del melhor.
E pois Amor há sobre mi
de me matar tam gram poder
e eu non'o posso veer,
rogarei mia senhor assi:
que mi amostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor.
e ouço del sempre falar;
pero sei que me quer matar,
mais rogarei a mia senhor:
que me mostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor.
Pero nunca lh'eu fige rem
por que m'el haja de matar,
mais quer'eu mia senhor rogar,
pola gram coit'em que me tem:
que me mostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor!
Nunca me lh'eu ampararei,
se m'ela del nom amparar;
mais quer'eu mia senhor rogar,
polo gram medo que del hei:
que mi amostr'aquel matador,
ou que mi ampare del melhor.
E pois Amor há sobre mi
de me matar tam gram poder
e eu non'o posso veer,
rogarei mia senhor assi:
que mi amostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor.
510
Nuno Fernandes Torneol
Quando Mi Agora For E Mi Alongar
Quando mi agora for e mi alongar
de vós, senhor, e nom poder veer
esse vosso fremoso parecer,
quero-vos ora por Deus preguntar:
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E dizede-m': em que vos fiz pesar,
por que mi assi mandades ir morrer?
Ca me mandades ir alhur viver!
E pois m'eu for e me sem vós achar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E nom sei eu como possa morar
u nom vir vós, que me fez Deus querer
bem, por meu mal; por en quero saber:
[e] quando vos nom vir, nem vos falar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
de vós, senhor, e nom poder veer
esse vosso fremoso parecer,
quero-vos ora por Deus preguntar:
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E dizede-m': em que vos fiz pesar,
por que mi assi mandades ir morrer?
Ca me mandades ir alhur viver!
E pois m'eu for e me sem vós achar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E nom sei eu como possa morar
u nom vir vós, que me fez Deus querer
bem, por meu mal; por en quero saber:
[e] quando vos nom vir, nem vos falar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
886
Nuno Fernandes Torneol
Quando Mi Agora For E Mi Alongar
Quando mi agora for e mi alongar
de vós, senhor, e nom poder veer
esse vosso fremoso parecer,
quero-vos ora por Deus preguntar:
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E dizede-m': em que vos fiz pesar,
por que mi assi mandades ir morrer?
Ca me mandades ir alhur viver!
E pois m'eu for e me sem vós achar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E nom sei eu como possa morar
u nom vir vós, que me fez Deus querer
bem, por meu mal; por en quero saber:
[e] quando vos nom vir, nem vos falar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
de vós, senhor, e nom poder veer
esse vosso fremoso parecer,
quero-vos ora por Deus preguntar:
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E dizede-m': em que vos fiz pesar,
por que mi assi mandades ir morrer?
Ca me mandades ir alhur viver!
E pois m'eu for e me sem vós achar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E nom sei eu como possa morar
u nom vir vós, que me fez Deus querer
bem, por meu mal; por en quero saber:
[e] quando vos nom vir, nem vos falar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
886
Pero da Ponte
Senhor do Corpo Delgado
Senhor do corpo delgado,
em forte pont'eu fui nado
que nunca perdi coidado
nem afã, des que vos vi:
em forte pont'eu fui nado
senhor, por vós e por mi!
Com est'afã tam longado,
em forte pont'eu fui nado,
que vos amo sem meu grado
e faç'a vós pesar i:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
Ai eu, cativ'e coitado,
em forte pont'eu fui nado!,
que servi sempr'endõado
ond'um bem nunca prendi:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
em forte pont'eu fui nado
que nunca perdi coidado
nem afã, des que vos vi:
em forte pont'eu fui nado
senhor, por vós e por mi!
Com est'afã tam longado,
em forte pont'eu fui nado,
que vos amo sem meu grado
e faç'a vós pesar i:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
Ai eu, cativ'e coitado,
em forte pont'eu fui nado!,
que servi sempr'endõado
ond'um bem nunca prendi:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
662
Pero da Ponte
Senhor do Corpo Delgado
Senhor do corpo delgado,
em forte pont'eu fui nado
que nunca perdi coidado
nem afã, des que vos vi:
em forte pont'eu fui nado
senhor, por vós e por mi!
Com est'afã tam longado,
em forte pont'eu fui nado,
que vos amo sem meu grado
e faç'a vós pesar i:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
Ai eu, cativ'e coitado,
em forte pont'eu fui nado!,
que servi sempr'endõado
ond'um bem nunca prendi:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
em forte pont'eu fui nado
que nunca perdi coidado
nem afã, des que vos vi:
em forte pont'eu fui nado
senhor, por vós e por mi!
Com est'afã tam longado,
em forte pont'eu fui nado,
que vos amo sem meu grado
e faç'a vós pesar i:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
Ai eu, cativ'e coitado,
em forte pont'eu fui nado!,
que servi sempr'endõado
ond'um bem nunca prendi:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
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