Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Salgado Maranhão
Ladainha
Não secarás as raízes
do teu sopro
no abismo da noite púrpura;
não seguirás o fantasma
que atravessa os trilhos;
não cantarás aos muros de arrimo
tua fantasia de pássaro.
Escarpado é o chão
dos teus sapatos;
escarpado é o azul
rabiscado de estrelas;
escarpada é a rima
que lateja a alegoria
da palavra.
do teu sopro
no abismo da noite púrpura;
não seguirás o fantasma
que atravessa os trilhos;
não cantarás aos muros de arrimo
tua fantasia de pássaro.
Escarpado é o chão
dos teus sapatos;
escarpado é o azul
rabiscado de estrelas;
escarpada é a rima
que lateja a alegoria
da palavra.
851
Salgado Maranhão
Ladainha
Não secarás as raízes
do teu sopro
no abismo da noite púrpura;
não seguirás o fantasma
que atravessa os trilhos;
não cantarás aos muros de arrimo
tua fantasia de pássaro.
Escarpado é o chão
dos teus sapatos;
escarpado é o azul
rabiscado de estrelas;
escarpada é a rima
que lateja a alegoria
da palavra.
do teu sopro
no abismo da noite púrpura;
não seguirás o fantasma
que atravessa os trilhos;
não cantarás aos muros de arrimo
tua fantasia de pássaro.
Escarpado é o chão
dos teus sapatos;
escarpado é o azul
rabiscado de estrelas;
escarpada é a rima
que lateja a alegoria
da palavra.
851
Everardo Norões
Corpo
Teu corpo
se enxuga em minha água:
calafeta,
enxágua.
Completa
o que não vem de mim.
E por ser água e calma,
sonâmbula
como a
distraída voz do lume,
lembra um vago perfume
de jasmim.
se enxuga em minha água:
calafeta,
enxágua.
Completa
o que não vem de mim.
E por ser água e calma,
sonâmbula
como a
distraída voz do lume,
lembra um vago perfume
de jasmim.
644
João Filho
Quase Gregas - Terceira
A mesa posta, cadeiras,
o branco do linho da toalha,
festa da luz,
claridade sem fugas no espaço da copa,
o copo d’água, em pureza complexa,
equilibra e concentra
cada conviva em torno da mesa.
Conversas de oferta,
sal e silêncio,
o portento do pão aceitado,
a prece simples das coisas,
concretude de sede sincera,
da fome rústica,
do gesto que reparte a beleza comum:
a de tez aquiescente,
servindo a porção necessária;
esse de rosto vincado, mas amplo,
do merecido, contempla sem fel;
apesar das agulhas incandescentes de perda e paixão,
sua dor acrescenta.
O azul arejando.
Daquele o olhar amoroso,
condição de um lúcido total: o deleite feroz.
À mesa todos comungam
alegres.
Os nascimentos compensam ausências,
o aceite inconsútil da vida
em seu curso terrestre
de escureza e fulgor.
o branco do linho da toalha,
festa da luz,
claridade sem fugas no espaço da copa,
o copo d’água, em pureza complexa,
equilibra e concentra
cada conviva em torno da mesa.
Conversas de oferta,
sal e silêncio,
o portento do pão aceitado,
a prece simples das coisas,
concretude de sede sincera,
da fome rústica,
do gesto que reparte a beleza comum:
a de tez aquiescente,
servindo a porção necessária;
esse de rosto vincado, mas amplo,
do merecido, contempla sem fel;
apesar das agulhas incandescentes de perda e paixão,
sua dor acrescenta.
O azul arejando.
Daquele o olhar amoroso,
condição de um lúcido total: o deleite feroz.
À mesa todos comungam
alegres.
Os nascimentos compensam ausências,
o aceite inconsútil da vida
em seu curso terrestre
de escureza e fulgor.
685
João Filho
Quase Gregas - Terceira
A mesa posta, cadeiras,
o branco do linho da toalha,
festa da luz,
claridade sem fugas no espaço da copa,
o copo d’água, em pureza complexa,
equilibra e concentra
cada conviva em torno da mesa.
Conversas de oferta,
sal e silêncio,
o portento do pão aceitado,
a prece simples das coisas,
concretude de sede sincera,
da fome rústica,
do gesto que reparte a beleza comum:
a de tez aquiescente,
servindo a porção necessária;
esse de rosto vincado, mas amplo,
do merecido, contempla sem fel;
apesar das agulhas incandescentes de perda e paixão,
sua dor acrescenta.
O azul arejando.
Daquele o olhar amoroso,
condição de um lúcido total: o deleite feroz.
À mesa todos comungam
alegres.
Os nascimentos compensam ausências,
o aceite inconsútil da vida
em seu curso terrestre
de escureza e fulgor.
o branco do linho da toalha,
festa da luz,
claridade sem fugas no espaço da copa,
o copo d’água, em pureza complexa,
equilibra e concentra
cada conviva em torno da mesa.
Conversas de oferta,
sal e silêncio,
o portento do pão aceitado,
a prece simples das coisas,
concretude de sede sincera,
da fome rústica,
do gesto que reparte a beleza comum:
a de tez aquiescente,
servindo a porção necessária;
esse de rosto vincado, mas amplo,
do merecido, contempla sem fel;
apesar das agulhas incandescentes de perda e paixão,
sua dor acrescenta.
O azul arejando.
Daquele o olhar amoroso,
condição de um lúcido total: o deleite feroz.
À mesa todos comungam
alegres.
Os nascimentos compensam ausências,
o aceite inconsútil da vida
em seu curso terrestre
de escureza e fulgor.
685
Salgado Maranhão
Desamanhecer
Agora,
na cidade da tua ausência
outro dia
desamanhece. E súplice
um grito escorre na paisagem.
Todos os lugares
são feitos do teu antes.
Da janela,
a noite chega
com as mãos vazias. E
tudo ao fim se esvai
em volta
como um tecido de ventos.
Só meu coração insiste
em erigir teu nome...
para além do esquecimento.
na cidade da tua ausência
outro dia
desamanhece. E súplice
um grito escorre na paisagem.
Todos os lugares
são feitos do teu antes.
Da janela,
a noite chega
com as mãos vazias. E
tudo ao fim se esvai
em volta
como um tecido de ventos.
Só meu coração insiste
em erigir teu nome...
para além do esquecimento.
911
Salgado Maranhão
Desamanhecer
Agora,
na cidade da tua ausência
outro dia
desamanhece. E súplice
um grito escorre na paisagem.
Todos os lugares
são feitos do teu antes.
Da janela,
a noite chega
com as mãos vazias. E
tudo ao fim se esvai
em volta
como um tecido de ventos.
Só meu coração insiste
em erigir teu nome...
para além do esquecimento.
na cidade da tua ausência
outro dia
desamanhece. E súplice
um grito escorre na paisagem.
Todos os lugares
são feitos do teu antes.
Da janela,
a noite chega
com as mãos vazias. E
tudo ao fim se esvai
em volta
como um tecido de ventos.
Só meu coração insiste
em erigir teu nome...
para além do esquecimento.
911
Salgado Maranhão
NOZ
As distâncias que se deitam
sob os meus pés,espicharam-me
os olhos ao leito das almas
tristes.
Essas tristes léguas
que se me espalham
às metrópoles rasuradas.
Eu que sou do barro
dos oleiros, do sol
que acorda os mirantes;
eu que sou da várzea —
irmão dos rios descalços
e das pedras mudas;
não tenho para quem
chorar esta litania
de espectros,
estes grafites de sangue.
Não é a sucursal da dor
que nos acende o sol
e a sede de ágora,
é o esplendor do ínfimo.
Ainda que agarremos o real
pelo pântano, pelos
baixios que nos afoga
à superfície,
Ainda assim,
quebra-se a noz desse jogo.
E o que não serve ao pasto,
serve ao fogo.
sob os meus pés,espicharam-me
os olhos ao leito das almas
tristes.
Essas tristes léguas
que se me espalham
às metrópoles rasuradas.
Eu que sou do barro
dos oleiros, do sol
que acorda os mirantes;
eu que sou da várzea —
irmão dos rios descalços
e das pedras mudas;
não tenho para quem
chorar esta litania
de espectros,
estes grafites de sangue.
Não é a sucursal da dor
que nos acende o sol
e a sede de ágora,
é o esplendor do ínfimo.
Ainda que agarremos o real
pelo pântano, pelos
baixios que nos afoga
à superfície,
Ainda assim,
quebra-se a noz desse jogo.
E o que não serve ao pasto,
serve ao fogo.
738
Salgado Maranhão
NOZ
As distâncias que se deitam
sob os meus pés,espicharam-me
os olhos ao leito das almas
tristes.
Essas tristes léguas
que se me espalham
às metrópoles rasuradas.
Eu que sou do barro
dos oleiros, do sol
que acorda os mirantes;
eu que sou da várzea —
irmão dos rios descalços
e das pedras mudas;
não tenho para quem
chorar esta litania
de espectros,
estes grafites de sangue.
Não é a sucursal da dor
que nos acende o sol
e a sede de ágora,
é o esplendor do ínfimo.
Ainda que agarremos o real
pelo pântano, pelos
baixios que nos afoga
à superfície,
Ainda assim,
quebra-se a noz desse jogo.
E o que não serve ao pasto,
serve ao fogo.
sob os meus pés,espicharam-me
os olhos ao leito das almas
tristes.
Essas tristes léguas
que se me espalham
às metrópoles rasuradas.
Eu que sou do barro
dos oleiros, do sol
que acorda os mirantes;
eu que sou da várzea —
irmão dos rios descalços
e das pedras mudas;
não tenho para quem
chorar esta litania
de espectros,
estes grafites de sangue.
Não é a sucursal da dor
que nos acende o sol
e a sede de ágora,
é o esplendor do ínfimo.
Ainda que agarremos o real
pelo pântano, pelos
baixios que nos afoga
à superfície,
Ainda assim,
quebra-se a noz desse jogo.
E o que não serve ao pasto,
serve ao fogo.
738
João Filho
TRÊS VEZES LÁZARO
Levou três tiros em
noites distintas;
morreu três vezes
a mesma morte.
Quem o matava?
Talvez o próprio,
talvez a voz
de origem vaga,
talvez o medo
de tudo e nada.
Correu sem rumo,
clamou, pediu,
derrotadíssimo
no sem-sentido
(muito depois
pode saber
que foi ouvido).
Dessas três mortes,
três vezes Lázaro:
custou-lhes partes
irreversíveis,
dor explodida,
alma quebrada,
poça de lama
dentro de casa.
Enrodilhado
no chão do quarto,
cão no seu canto,
quis perguntar
sabendo a réplica:
dilacerante
luz necessária.
noites distintas;
morreu três vezes
a mesma morte.
Quem o matava?
Talvez o próprio,
talvez a voz
de origem vaga,
talvez o medo
de tudo e nada.
Correu sem rumo,
clamou, pediu,
derrotadíssimo
no sem-sentido
(muito depois
pode saber
que foi ouvido).
Dessas três mortes,
três vezes Lázaro:
custou-lhes partes
irreversíveis,
dor explodida,
alma quebrada,
poça de lama
dentro de casa.
Enrodilhado
no chão do quarto,
cão no seu canto,
quis perguntar
sabendo a réplica:
dilacerante
luz necessária.
488
João Filho
TRÊS VEZES LÁZARO
Levou três tiros em
noites distintas;
morreu três vezes
a mesma morte.
Quem o matava?
Talvez o próprio,
talvez a voz
de origem vaga,
talvez o medo
de tudo e nada.
Correu sem rumo,
clamou, pediu,
derrotadíssimo
no sem-sentido
(muito depois
pode saber
que foi ouvido).
Dessas três mortes,
três vezes Lázaro:
custou-lhes partes
irreversíveis,
dor explodida,
alma quebrada,
poça de lama
dentro de casa.
Enrodilhado
no chão do quarto,
cão no seu canto,
quis perguntar
sabendo a réplica:
dilacerante
luz necessária.
noites distintas;
morreu três vezes
a mesma morte.
Quem o matava?
Talvez o próprio,
talvez a voz
de origem vaga,
talvez o medo
de tudo e nada.
Correu sem rumo,
clamou, pediu,
derrotadíssimo
no sem-sentido
(muito depois
pode saber
que foi ouvido).
Dessas três mortes,
três vezes Lázaro:
custou-lhes partes
irreversíveis,
dor explodida,
alma quebrada,
poça de lama
dentro de casa.
Enrodilhado
no chão do quarto,
cão no seu canto,
quis perguntar
sabendo a réplica:
dilacerante
luz necessária.
488
Salgado Maranhão
ESTILETES
Tornaram-se estiletes,
no que eram brotos de chuva.
Agora,
brotam em qualquer parte —
em plena luz do dia.
Como um chão de navalhas.
no que eram brotos de chuva.
Agora,
brotam em qualquer parte —
em plena luz do dia.
Como um chão de navalhas.
729
João Filho
UMA MULHER TODA MÚSICA
Eu pretendi colhê-la num só gesto,
que fosse imaterial, também tangível,
tentei a forma livro, o sonho aberto,
estive atento ao peso do invisível.
Busquei coisas menores, mais modesto,
— uma manhã urbana, a luz possível.
Tudo inútil, desejo o cerne e aperto
o escuro, mesmo sendo tão legível
o corpo branco, nu, dentro da tarde.
Agora me concentro em não fixá-la
em pauta ou pensamento para dar-lhe
o ritmo necessário de quem cala,
a música a envolvê-la sem alarde
enquanto ela caminha pela sala.
que fosse imaterial, também tangível,
tentei a forma livro, o sonho aberto,
estive atento ao peso do invisível.
Busquei coisas menores, mais modesto,
— uma manhã urbana, a luz possível.
Tudo inútil, desejo o cerne e aperto
o escuro, mesmo sendo tão legível
o corpo branco, nu, dentro da tarde.
Agora me concentro em não fixá-la
em pauta ou pensamento para dar-lhe
o ritmo necessário de quem cala,
a música a envolvê-la sem alarde
enquanto ela caminha pela sala.
599
Everardo Norões
SONETO I
Agonizavam os rastros de novembro.
E os meus ossos, cansados das neblinas,
doíam, no concerto das esquinas
da cidade, onde um dia, ainda me lembro,
penetrou-se de escuro a minha alma,
quando um cão, a ladrar contra o sol-posto,
mordeu o lado oculto do meu rosto
e deixou seus sinais à minha palma.
Lembro-me que era de tarde. Ainda chovia.
O eco dos espelhos conduzia
meus passos que jaziam pelas ruas.
Havia o som da água que caía.
E no horizonte, além da agonia,
um cemitério de meninas nuas.
E os meus ossos, cansados das neblinas,
doíam, no concerto das esquinas
da cidade, onde um dia, ainda me lembro,
penetrou-se de escuro a minha alma,
quando um cão, a ladrar contra o sol-posto,
mordeu o lado oculto do meu rosto
e deixou seus sinais à minha palma.
Lembro-me que era de tarde. Ainda chovia.
O eco dos espelhos conduzia
meus passos que jaziam pelas ruas.
Havia o som da água que caía.
E no horizonte, além da agonia,
um cemitério de meninas nuas.
755
Everardo Norões
SONETO I
Agonizavam os rastros de novembro.
E os meus ossos, cansados das neblinas,
doíam, no concerto das esquinas
da cidade, onde um dia, ainda me lembro,
penetrou-se de escuro a minha alma,
quando um cão, a ladrar contra o sol-posto,
mordeu o lado oculto do meu rosto
e deixou seus sinais à minha palma.
Lembro-me que era de tarde. Ainda chovia.
O eco dos espelhos conduzia
meus passos que jaziam pelas ruas.
Havia o som da água que caía.
E no horizonte, além da agonia,
um cemitério de meninas nuas.
E os meus ossos, cansados das neblinas,
doíam, no concerto das esquinas
da cidade, onde um dia, ainda me lembro,
penetrou-se de escuro a minha alma,
quando um cão, a ladrar contra o sol-posto,
mordeu o lado oculto do meu rosto
e deixou seus sinais à minha palma.
Lembro-me que era de tarde. Ainda chovia.
O eco dos espelhos conduzia
meus passos que jaziam pelas ruas.
Havia o som da água que caía.
E no horizonte, além da agonia,
um cemitério de meninas nuas.
755
João Filho
Quase Gregas - Sétima
O soco explode
e arrebenta o nariz do Primeiro,
que cai
não cai,
tonteia aos tropeços
e, em fúria,
num giro,
arremete!,
– bloco compacto contra o Segundo,
quando, surpreso num susto,
ângulos confusos,
o Primeiro devolve-lhe o murro!
Lábio partido,
perdido dois dentes,
esguicho de sangue;
soco após soco, o Segundo,
no chão,
consegue, no sufoco,
num empurrão,
projetá-lo pra longe.
Cuspindo vermelho,
arfando,
sem trégua, retorna o Primeiro,
travado num chute
que, ainda deitado, o Segundo lhe acerta.
Dobrando sem fôlego,
tomba a três metros.
(Não são lutadores,
talvez inimigos,
mas devem ter seus motivos, pois, antes,
calados, se olharam
e, feito bichos grunhindo,
mediram-se em mil semicírculos).
Se erguem insultando um ao outro,
e, num impulso, se atracam no ar!
Leva vantagem na queda o Segundo,
acertando sequências desencontradas
no rosto,
pescoço, nariz do Primeiro,
este, no desespero, o asfixia
até vê-lo em desmaio convulso.
e arrebenta o nariz do Primeiro,
que cai
não cai,
tonteia aos tropeços
e, em fúria,
num giro,
arremete!,
– bloco compacto contra o Segundo,
quando, surpreso num susto,
ângulos confusos,
o Primeiro devolve-lhe o murro!
Lábio partido,
perdido dois dentes,
esguicho de sangue;
soco após soco, o Segundo,
no chão,
consegue, no sufoco,
num empurrão,
projetá-lo pra longe.
Cuspindo vermelho,
arfando,
sem trégua, retorna o Primeiro,
travado num chute
que, ainda deitado, o Segundo lhe acerta.
Dobrando sem fôlego,
tomba a três metros.
(Não são lutadores,
talvez inimigos,
mas devem ter seus motivos, pois, antes,
calados, se olharam
e, feito bichos grunhindo,
mediram-se em mil semicírculos).
Se erguem insultando um ao outro,
e, num impulso, se atracam no ar!
Leva vantagem na queda o Segundo,
acertando sequências desencontradas
no rosto,
pescoço, nariz do Primeiro,
este, no desespero, o asfixia
até vê-lo em desmaio convulso.
595
Manuel Laranjeira
CARTA A NINGUÉM
Não tornes a queixar-te! Se morreu
aquele grande amor e malfadado,
porque o mataste, filha? Ai! o culpado
bem vês que não fui eu...
Julguei-te abandonada, solitária:
quis fazer da tu'alma a ideal
e doce irmã da minha... e afinal
ela era como as outras – ordinária...
Não tornes a queixar-te mais de mim!
Eu não te posso amar: amar assim,
como os outros, não sei... era um engano...
Foi bem maior que a tua a minha dor:
tu sofreste o desamor,
mas eu, filha, sofri – o desengano...
aquele grande amor e malfadado,
porque o mataste, filha? Ai! o culpado
bem vês que não fui eu...
Julguei-te abandonada, solitária:
quis fazer da tu'alma a ideal
e doce irmã da minha... e afinal
ela era como as outras – ordinária...
Não tornes a queixar-te mais de mim!
Eu não te posso amar: amar assim,
como os outros, não sei... era um engano...
Foi bem maior que a tua a minha dor:
tu sofreste o desamor,
mas eu, filha, sofri – o desengano...
752
Manuel Laranjeira
CARTA A NINGUÉM
Não tornes a queixar-te! Se morreu
aquele grande amor e malfadado,
porque o mataste, filha? Ai! o culpado
bem vês que não fui eu...
Julguei-te abandonada, solitária:
quis fazer da tu'alma a ideal
e doce irmã da minha... e afinal
ela era como as outras – ordinária...
Não tornes a queixar-te mais de mim!
Eu não te posso amar: amar assim,
como os outros, não sei... era um engano...
Foi bem maior que a tua a minha dor:
tu sofreste o desamor,
mas eu, filha, sofri – o desengano...
aquele grande amor e malfadado,
porque o mataste, filha? Ai! o culpado
bem vês que não fui eu...
Julguei-te abandonada, solitária:
quis fazer da tu'alma a ideal
e doce irmã da minha... e afinal
ela era como as outras – ordinária...
Não tornes a queixar-te mais de mim!
Eu não te posso amar: amar assim,
como os outros, não sei... era um engano...
Foi bem maior que a tua a minha dor:
tu sofreste o desamor,
mas eu, filha, sofri – o desengano...
752
Manuel Laranjeira
VENDO A MORTE
Em tudo vejo a morte! e, assim, ao ver
que a vida já vem morta cruelmente
logo ao surgir, começo a compreender
como a vida se vive inutilmente...
Debalde (como um náufrago que sente,
vendo a morte, mais fúria de viver)
estendo os olhos mais avidamente
e as mãos prà vida... e ponho-me a morrer.
A morte! sempre a morte! em tudo a vejo
tudo ma lembra! e invade-me o desejo
de viver toda a vida que perdi...
E não me assusta a morte! Só me assusta
ter tido tanta fé na vida injusta
... e não saber sequer pra que a vivi!
que a vida já vem morta cruelmente
logo ao surgir, começo a compreender
como a vida se vive inutilmente...
Debalde (como um náufrago que sente,
vendo a morte, mais fúria de viver)
estendo os olhos mais avidamente
e as mãos prà vida... e ponho-me a morrer.
A morte! sempre a morte! em tudo a vejo
tudo ma lembra! e invade-me o desejo
de viver toda a vida que perdi...
E não me assusta a morte! Só me assusta
ter tido tanta fé na vida injusta
... e não saber sequer pra que a vivi!
651
José Paulo Paes
Cemitério
Aqui jaz um leão
chamado Augusto.
Deu um urro tão forte,
mas um urro tão forte,
que morreu de susto.
Aqui jaz uma pulga
chamada Cida.
Desgostosa da vida,
tomou inseticida:
Era uma pulga suiCida.
Aqui jaz um morcego
que morreu de amor
por outro morcego.
Desse amor arrenego:
amor cego, o de morcego!
Neste túmulo vazio
jaz um bicho sem nome.
Bicho mais impróprio!
tinha tanta fome,
que comeu-se a si próprio.
chamado Augusto.
Deu um urro tão forte,
mas um urro tão forte,
que morreu de susto.
Aqui jaz uma pulga
chamada Cida.
Desgostosa da vida,
tomou inseticida:
Era uma pulga suiCida.
Aqui jaz um morcego
que morreu de amor
por outro morcego.
Desse amor arrenego:
amor cego, o de morcego!
Neste túmulo vazio
jaz um bicho sem nome.
Bicho mais impróprio!
tinha tanta fome,
que comeu-se a si próprio.
1 617
José Anastácio da Cunha
Já quasi até Morria
Já quasi até morria
C’os olhos nos da amada.
E ela que se sentia
Não menos abrasada:
– “Ai, caro Atfes! – dizia –
Não morras inda, espera
Que eu contigo morrer também quisera”
A ânsia com que acabava
A vida, Atfes, refreia,
E, enquanto a dilatava,
Morte maior o anseia.
Os olhos não tirava
Dos do ídolo querido,
Nos quais bebia o Néctar diluído.
Quando a gentil Pastora,
Sentindo já chegada
Do doce gosto a hora,
Com a vista perturbada
Disse, tremendo: – “Agora
Morre, que eu morro, amor”
– “E eu – disse ele – contigo”
Viram-se desta sorte
Os dois finos amantes
Mortos ambos de um tal corte;
E os golpes penetrantes
Desta casta de morte
Tanto lhe agradaram,
Que para mais morrer recuscitaram.
C’os olhos nos da amada.
E ela que se sentia
Não menos abrasada:
– “Ai, caro Atfes! – dizia –
Não morras inda, espera
Que eu contigo morrer também quisera”
A ânsia com que acabava
A vida, Atfes, refreia,
E, enquanto a dilatava,
Morte maior o anseia.
Os olhos não tirava
Dos do ídolo querido,
Nos quais bebia o Néctar diluído.
Quando a gentil Pastora,
Sentindo já chegada
Do doce gosto a hora,
Com a vista perturbada
Disse, tremendo: – “Agora
Morre, que eu morro, amor”
– “E eu – disse ele – contigo”
Viram-se desta sorte
Os dois finos amantes
Mortos ambos de um tal corte;
E os golpes penetrantes
Desta casta de morte
Tanto lhe agradaram,
Que para mais morrer recuscitaram.
715
José Anastácio da Cunha
Já quasi até Morria
Já quasi até morria
C’os olhos nos da amada.
E ela que se sentia
Não menos abrasada:
– “Ai, caro Atfes! – dizia –
Não morras inda, espera
Que eu contigo morrer também quisera”
A ânsia com que acabava
A vida, Atfes, refreia,
E, enquanto a dilatava,
Morte maior o anseia.
Os olhos não tirava
Dos do ídolo querido,
Nos quais bebia o Néctar diluído.
Quando a gentil Pastora,
Sentindo já chegada
Do doce gosto a hora,
Com a vista perturbada
Disse, tremendo: – “Agora
Morre, que eu morro, amor”
– “E eu – disse ele – contigo”
Viram-se desta sorte
Os dois finos amantes
Mortos ambos de um tal corte;
E os golpes penetrantes
Desta casta de morte
Tanto lhe agradaram,
Que para mais morrer recuscitaram.
C’os olhos nos da amada.
E ela que se sentia
Não menos abrasada:
– “Ai, caro Atfes! – dizia –
Não morras inda, espera
Que eu contigo morrer também quisera”
A ânsia com que acabava
A vida, Atfes, refreia,
E, enquanto a dilatava,
Morte maior o anseia.
Os olhos não tirava
Dos do ídolo querido,
Nos quais bebia o Néctar diluído.
Quando a gentil Pastora,
Sentindo já chegada
Do doce gosto a hora,
Com a vista perturbada
Disse, tremendo: – “Agora
Morre, que eu morro, amor”
– “E eu – disse ele – contigo”
Viram-se desta sorte
Os dois finos amantes
Mortos ambos de um tal corte;
E os golpes penetrantes
Desta casta de morte
Tanto lhe agradaram,
Que para mais morrer recuscitaram.
715
Charles Bukowski
O Grande Debate
ele me mandou seu último livro.
houve um tempo em que gostava muito
de seus escritos.
ele havia sido maravilhosamente cru, simples,
perturbado.
agora ele havia aprendido a graciosamente
arrumar suas palavras e pensamentos
no papel.
agora ele dava aulas nas
universidades.
mas eu me perguntei,
sobre o quê?
agora suas palavras estavam
muito pálidas.
elas se espalhavam pela página
como um nevoeiro
preenchendo-a
mas dizendo
muito pouco.
ele não parecia ser o
mesmo homem.
para onde fora?
por que
tais mortes parecem ser
misteriosas?
está bem que
novos poetas venham chegando
novos zagueiros
novos "matadores"
novos ditadores
novos revolucionários
novos açougueiros
novos penhoristas.
pois a morte espiritual chega
muito mais rápida e inesperada que
a morte física.
eu jogo seu novo livro
na cesta de papéis.
eu não o quero
por perto.
agora ele é um
escritor de sucesso
o que significa
que seu trabalho
não deixa mais
ninguém
zangado
enojado
ou triste.
nunca faz
ninguém
rir.
nunca faz
ninguém
ter aquele arrepio de maravilhamento
ao ler
aquilo.
mas em um mundo
no qual até
o desaparecimento do dinossauro
permanece um mistério
devemos aceitar
o misterioso fato do
poeta evaporar-se.
e quando aceitamos
isso
simplesmente
estamos abrindo as portas para
nossa própria
invisibilidade final.
houve um tempo em que gostava muito
de seus escritos.
ele havia sido maravilhosamente cru, simples,
perturbado.
agora ele havia aprendido a graciosamente
arrumar suas palavras e pensamentos
no papel.
agora ele dava aulas nas
universidades.
mas eu me perguntei,
sobre o quê?
agora suas palavras estavam
muito pálidas.
elas se espalhavam pela página
como um nevoeiro
preenchendo-a
mas dizendo
muito pouco.
ele não parecia ser o
mesmo homem.
para onde fora?
por que
tais mortes parecem ser
misteriosas?
está bem que
novos poetas venham chegando
novos zagueiros
novos "matadores"
novos ditadores
novos revolucionários
novos açougueiros
novos penhoristas.
pois a morte espiritual chega
muito mais rápida e inesperada que
a morte física.
eu jogo seu novo livro
na cesta de papéis.
eu não o quero
por perto.
agora ele é um
escritor de sucesso
o que significa
que seu trabalho
não deixa mais
ninguém
zangado
enojado
ou triste.
nunca faz
ninguém
rir.
nunca faz
ninguém
ter aquele arrepio de maravilhamento
ao ler
aquilo.
mas em um mundo
no qual até
o desaparecimento do dinossauro
permanece um mistério
devemos aceitar
o misterioso fato do
poeta evaporar-se.
e quando aceitamos
isso
simplesmente
estamos abrindo as portas para
nossa própria
invisibilidade final.
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