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Poemas neste tema

Emoções e Sentimentos

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Fmi

Ao vento do Parque dançam
as bandeiras.
Unem-se os povos finalmente
em torno do Direito Especial de Saque?
Baixa a taxa de juros como baixa
a temperatura?
Ou apenas glorificamos
o mistério do sorveteiro que devolve
NCr$600 ao Míster distraído?
Oh, salve honestidade
super
do sub
desenvolvido.

Mas tantos Governadores me intimidam
poderosos concentrados linguistranhos
em frente ao mar que nada sabe de Finanças
e propõe a grandeza sem governo,
o mar profundo em frente ao Fundo.
Qual dos dois colossos me conforta
a solidão do ser entre moedas
em que não está gravado o simples Nome
do Mundo?

Da passarela vejo o pássaro
que esvoaçando vira BIRD e no seu bico
biririco
leva o financiamento a curto prazo
e longa espera. Meu destino
em que junta de ricos e de pobres
se resolve ou dissolve
no catch do ouro contra o dólar?

Depressa, a Brocoió,
ao Maracanã, ao Golden Room,
onde o Fundo se esqueça de si mesmo
e boie na florínea superfície
de langues amavios.
Excesso de liquidez ou falta de,
matéria é de piscina
ou de pequenos bares de Ipanema,
onde o comércio internacional não vale
um chope bem tirado e seu diadema
de espuma.

De espuma e pluma e samba rodeemos
o fero Fundo, a fim que as frágeis
flébeis economias sobrevivam
ao sol latino ou africano
à custa de primários objetos
de troca, sob o pálio
protetoral dos Grandes, que decidem
a hora do Sol e a hora de cair
orvalho.

Grácil recepcionista, toma tento
com esse Governador ou Delegado
que quer levar ao extremo a ajuda técnica
para o desenvolvimento.
Não é qualquer projeto que convém
aos países e às jovens criaturas
que Deus, lá das alturas,
embelezou com arte refinada.

Ao vento dançam
bandeiras e bandeiras no ar que
é todo vibração no Parque,
e dos jardins um trevo brota
de quatro pétalas, flor de tráfego.
Que discutem os homens no areópago
do mercado mundial?
Pergunto — e não responde — a uma gaivota
junto de Kirti Bista, do Nepal,
que me serve de rima e de silêncio.
29/09/1967
1 236
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Falta Um Disco

Amor,
estou triste porque
sou o único brasileiro vivo
que nunca viu um disco voador.
Na minha rua todos viram
e falaram com seus tripulantes
na língua misturada de carioca
e de sinais verdes luminescentes
que qualquer um entende, pois não?
Entraram a bordo (convidados),
voaram por aí
por ali, por além,
sem necessidade de passaporte
e certidão negativa de IR,
sem dólares, amor, sem dólares.
Voltaram cheios de notícias
e de superioridade.
Olham-me com desprezo benévolo.
Sou o pária,
aquele que vê apenas caminhão,
cartaz de cinema, buraco na rua
& outras evidências pedestres.
Um amigo que eu tenho
todas as semanas vai ver o seu disco
na praia de Itaipu.
Este não diz nada para mim,
de boca, mas o jeito,
os olhos! contam de prodígios
tornados simples de tão semanais,
apenas secretos para quem não é
capaz de ouvir e de entender um disco.
Por que a mim, somente a mim
recusa-se o OVNI?
Talvez para que a sigla
de todo não se perca, pois enfim
nada existe de mais identificado
do que um disco voador hoje presente
em São Paulo, Bahia,
Barra da Tijuca e Barra Mansa.
(Os pastores desta aldeia
já me fazem zombaria,
pois procuro, em vão procuro
noite e dia
o zumbido, a forma, a cor
de um só disco voador.)
Bem sei que em toda parte
eles circulam: nas praias,
no infinito céu hoje finito
até no sítio de outro amigo em Teresópolis.
Bem sei e sofro
com a falta de confiança neste poeta
que muita coisa viu extraterrena
em sonhos e acordado
viu sereias, dragões
o Príncipe das Trevas
a aurora boreal encarnada em mulher
os sete arcanjos de Congonhas da Luz
e doces almas do outro mundo em procissão.
Mas o disco, o disco?
Ele me foge e ri
de minha busca.

Um passou bem perto (contam)
quase a me roçar. Não viu? Não vi.
Dele desceu (parece)
um sujeitinho furta-cor gentil,
puxou-me pelo braço: Vamos (ou: plnx),
talvez…?;
Isso me garantem meus vizinhos
e eu, chamado não chamado
insensível e cego sem ouvidos,
deixei passar a minha vez.
Amor, estou tristinho, estou tristonho
por ser o só
que nunca viu um disco voador,
hoje comum na rua do Ouvidor.
13/03/1969
885
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Falta Um Disco

Amor,
estou triste porque
sou o único brasileiro vivo
que nunca viu um disco voador.
Na minha rua todos viram
e falaram com seus tripulantes
na língua misturada de carioca
e de sinais verdes luminescentes
que qualquer um entende, pois não?
Entraram a bordo (convidados),
voaram por aí
por ali, por além,
sem necessidade de passaporte
e certidão negativa de IR,
sem dólares, amor, sem dólares.
Voltaram cheios de notícias
e de superioridade.
Olham-me com desprezo benévolo.
Sou o pária,
aquele que vê apenas caminhão,
cartaz de cinema, buraco na rua
& outras evidências pedestres.
Um amigo que eu tenho
todas as semanas vai ver o seu disco
na praia de Itaipu.
Este não diz nada para mim,
de boca, mas o jeito,
os olhos! contam de prodígios
tornados simples de tão semanais,
apenas secretos para quem não é
capaz de ouvir e de entender um disco.
Por que a mim, somente a mim
recusa-se o OVNI?
Talvez para que a sigla
de todo não se perca, pois enfim
nada existe de mais identificado
do que um disco voador hoje presente
em São Paulo, Bahia,
Barra da Tijuca e Barra Mansa.
(Os pastores desta aldeia
já me fazem zombaria,
pois procuro, em vão procuro
noite e dia
o zumbido, a forma, a cor
de um só disco voador.)
Bem sei que em toda parte
eles circulam: nas praias,
no infinito céu hoje finito
até no sítio de outro amigo em Teresópolis.
Bem sei e sofro
com a falta de confiança neste poeta
que muita coisa viu extraterrena
em sonhos e acordado
viu sereias, dragões
o Príncipe das Trevas
a aurora boreal encarnada em mulher
os sete arcanjos de Congonhas da Luz
e doces almas do outro mundo em procissão.
Mas o disco, o disco?
Ele me foge e ri
de minha busca.

Um passou bem perto (contam)
quase a me roçar. Não viu? Não vi.
Dele desceu (parece)
um sujeitinho furta-cor gentil,
puxou-me pelo braço: Vamos (ou: plnx),
talvez…?;
Isso me garantem meus vizinhos
e eu, chamado não chamado
insensível e cego sem ouvidos,
deixei passar a minha vez.
Amor, estou tristinho, estou tristonho
por ser o só
que nunca viu um disco voador,
hoje comum na rua do Ouvidor.
13/03/1969
885
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Falta Um Disco

Amor,
estou triste porque
sou o único brasileiro vivo
que nunca viu um disco voador.
Na minha rua todos viram
e falaram com seus tripulantes
na língua misturada de carioca
e de sinais verdes luminescentes
que qualquer um entende, pois não?
Entraram a bordo (convidados),
voaram por aí
por ali, por além,
sem necessidade de passaporte
e certidão negativa de IR,
sem dólares, amor, sem dólares.
Voltaram cheios de notícias
e de superioridade.
Olham-me com desprezo benévolo.
Sou o pária,
aquele que vê apenas caminhão,
cartaz de cinema, buraco na rua
& outras evidências pedestres.
Um amigo que eu tenho
todas as semanas vai ver o seu disco
na praia de Itaipu.
Este não diz nada para mim,
de boca, mas o jeito,
os olhos! contam de prodígios
tornados simples de tão semanais,
apenas secretos para quem não é
capaz de ouvir e de entender um disco.
Por que a mim, somente a mim
recusa-se o OVNI?
Talvez para que a sigla
de todo não se perca, pois enfim
nada existe de mais identificado
do que um disco voador hoje presente
em São Paulo, Bahia,
Barra da Tijuca e Barra Mansa.
(Os pastores desta aldeia
já me fazem zombaria,
pois procuro, em vão procuro
noite e dia
o zumbido, a forma, a cor
de um só disco voador.)
Bem sei que em toda parte
eles circulam: nas praias,
no infinito céu hoje finito
até no sítio de outro amigo em Teresópolis.
Bem sei e sofro
com a falta de confiança neste poeta
que muita coisa viu extraterrena
em sonhos e acordado
viu sereias, dragões
o Príncipe das Trevas
a aurora boreal encarnada em mulher
os sete arcanjos de Congonhas da Luz
e doces almas do outro mundo em procissão.
Mas o disco, o disco?
Ele me foge e ri
de minha busca.

Um passou bem perto (contam)
quase a me roçar. Não viu? Não vi.
Dele desceu (parece)
um sujeitinho furta-cor gentil,
puxou-me pelo braço: Vamos (ou: plnx),
talvez…?;
Isso me garantem meus vizinhos
e eu, chamado não chamado
insensível e cego sem ouvidos,
deixei passar a minha vez.
Amor, estou tristinho, estou tristonho
por ser o só
que nunca viu um disco voador,
hoje comum na rua do Ouvidor.
13/03/1969
885
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Lira Pedestre

Finalmente
Aposentam-se por lei
deputados federais.
Sorri o eleitor: — Errei,
mas esses não erram mais.

Tiradentes
Já não reconheço o alferes,
por mais que lhe bote o olho.
Ele, baixinho: — Que queres?
Eu pus as barbas de molho.

Esperança
É tanta a água no cano
com essa nova adutora,
mas tanta, tanta, sabeis?
que a fala confortadora
levo ao meu paroquiano:
— Talvez chegue ao Posto 6.

Milagre da Copa
Bulhões a Campos, fagueiro:
— Enfim, domada a inflação!
Valorizou-se o Cruzeiro
e mais ainda o Tostão.

A Seleção
Vai Rildo, não vai Amarildo?
Vão Pelé e, que bom, Mané,
o menino gaúcho Alcino,
perdão: Alcindo, e mais Dino,
Altair, rima de Oldair,
ecoando na ponta: Ivair,
e na quadra do gol: Valdir.
Fábio, o que não pode faltar,
e também não pode Gilmar,
como, entre os santos dos santos,
o patriarca Djalma Santos,
sem esquecer o Djalma Dias
e, entre mil e uma noites, Dias.
Mas, se a Comissão não se zanga,
quero ver, em Britânia, Manga.
É canhoto, e daí? Fefeu,
quando chuta, nunca perdeu.
A chance que lhe foi roubada,
desta vez a tenha Parada.
Paraná, invicto guerreiro
para guerrear, como aqui, lá.
Olhando pro chão, Jairzinho
é como joga legalzinho.
Não abro mão de Nado e Zito,
nem fique o Brito por não dito.
Ditão, é claro, por que não?
e o mineiríssimo Tostão,
o grande Silva, corintiana
glória e mais o áspero Fontana,
Dudu, Edu… e vou juntando
bons nomes ao nome de Orlando,
para chegar até Bellini
em cujas mãos a taça tine.
Célio, Servílio: suaves eles
já completados por Fidélis.
Édson, Denílson e Murilo,
cada um com seu próprio estilo.
Um lugar para Paulo Henrique,
enquanto digo a Flávio: Fique!
Com Paulo Borges bem na ponta
eu conto, e sei que você conta.
Na lateral, Carlos Alberto
estou certo que vai dar certo.
Acham tampinha Ubirajara?
Valor não se mede por vara.
Até parece de encomenda:
Leônidas, nome que é legenda.
E, se Gérson do Botafogo
entra no campo, ganha o jogo.
Não podia esquecer o Lima
e seu chute de muita estima.
Com tudo isso e mais Rinaldo
e o canarinho de Ziraldo,
quarenta e seis, se conto bem
— um time igual eu nunca vi
em Europa, França e Belém —
que barbada seria o Tri,
hein?
03/04/1966
988
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

No Festival

Na janela Carolina
não viu o tempo passar.
Eu bem que mostrei a ela:
São os do Norte que vêm,
que vêm para dar exemplo
com Suassuna e Capiba.
Enquanto isso Guarabira,
que é Guttenberg também,
vai demolindo o castelo
(será de Garcia d’Ávila?),
uma pedrinha e mais outra.
Aparece Margarida
em seu terraço roqueiro
(ah, esse Rio comprido!),
exclama: Calma, filhinho,
que tu me botas abaixo.
Mas Gut, que nem Botafogo
em dia de goleada,
vai cantando seu olé
em som fechado de olê.
Marinheiro, olê… Lá vai,
lá vai nessa travessia
onde o nome de Maria
— é Maria a toda hora,
é Maria atrás do som,
da cor, da dor, do pistom —
de tão repetido serve
de “como vai” e “bom-dia”.
Como é bom dizer bom-dia,
diz o netinho do Souto
enquanto papa um biscoito.
Ó Maria Madrugada,
ó Maria Minha Fé,
acorda, que na alvorada
quero bem quente o café.
Sou de Oxalá. Não sabias?
Quem sabe não vai dizer,
não mete a mão em cumbuca,
foi pago pra não falar,
por mais que reclame Tuca.
Filho de branco e de preto,
eu sempre quis só cantar
de serra, de terra e mar.
Eu troco o não pelo sim,
não tranco meu coração.
E quem será que inventou
não só o tempo da flor,
não só o tempo do amor,
mas esse instante de luz
que é esperança de aurora
sob os líricos auspícios
de nosso caro Vinícius?
Eu bem que mostrei sorrindo,
ó meu amor infinito
(infinito enquanto dura),
todas as coisas do mundo,
se queres, te quero dar.
— Fala baixinho… Ninguém
é capaz de compreender
meiguices de Pixinguinha
em tempos de desamor.
E, sem ligar pra ninguém,
andarilho Pingarilho,
venho de terras distantes.
No sertão de minha terra
outro vento está soprando.
E tudo se transformou.
A vida como ela é
se impõe, Geraldo Vandré.
Dá vontade de gritar,
mas o que ouço em redor
é choradeira em novelo,
rala dor de cotovelo.
Por que a lágrima vã
que turvou o teu olhar
em canto não se converte
noutra estrela da manhã?
Bem faz o Chico: se a estrela
caiu e murchou a rosa,
ei-lo que mostra à janela
de floresta, céu e mar:
— Oh que lindo… Carolina,
meu doce, minha menina,
não deixa o barco partir,
não deixa a banda passar!
25/10/1967
1 260
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Poeta Emílio

Entre o Brejo e a Serra,
entre o Córrego d’Antas, o Aterrado, o Quartel Geral e Santa Rosa,
entre o Campo Alegre e a Estrela,
nasce em 1902
o poeta Emílio (Guimarães) Moura,
esguia palmeira
Pindarea concinna: o ser
ajustado à poesia
como a palmeira se ajusta ao Oeste de Minas.

E cresce. Viaja.
Vejo,
sob a lua perfumada a cravos de Barbacena,
alojado na Pensão Mondego,
o rapazinho fazer distraídos preparatórios
(para ser como toda gente bacharel formado)
e preliminares poemas
em busca da clave própria.

Advogado não seria,
posto que doutor de beca para foto de colação
— quem o veria requerer despejo?
— alegar falsidade de testamento?
— promover desquite litigioso?

Torcedor do Atlético, fumante de cigarro de palha marca Pachola,
quando não os prefere fazer ele mesmo
com ponderada, mineira, emiliana perícia,
eis Moura — de tantas noites andarilhas nas jasmineiras
ruas peremptas de Belo Horizonte.

O Diário de Minas, lembras-te, poeta?
Duas páginas de Brilhantina Meu Coração e Elixir de Nogueira,
uma página de: Viva o Governo,
outra — doidinha — de modernismo,
tua cegonha figura escrevendo o cabeço das “Sociais”,
nós todos na esperança de um vale do Bola — o Eduardinho gerente…

Com serenidade de irmão que vai ficando tio
e avô, e tem paciência carinhosa com os netos,
assistes ao passar de gerações:
A Revista, Surto, Edifício, Vocação, Tendência, Complemento, Ptyx,
ao morrer (Alberto puxa a fieira) e ao dispersar de amigos,
rocha sensível em meio à evanescência das coisas
de que guardas exata memória no coração de palmeira
solitária comunicante solidária.

Toda palmeira na essência é estranha
em sua exemplaridade:
palmeira que anda, ave pernalta,
palmeira que ensina, mestra de doutrinas
líricas disfarçadas em econômicas,
e o mais que esta conta em voz baixa, sussurro
de viração nas palmas:
amizade, teu doce apelido é Emílio.

Fiel à casa primeira e reimplantando-a
no lote da palavra,
fraco/forte diante da vida que corta e esfarinha,
sereno/desenganado, agulha terna apontando
para o enigma indecifrável do mundo:
poesia, teu nome particular é Emílio.
12/04/1969
1 191
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Poeta Emílio

Entre o Brejo e a Serra,
entre o Córrego d’Antas, o Aterrado, o Quartel Geral e Santa Rosa,
entre o Campo Alegre e a Estrela,
nasce em 1902
o poeta Emílio (Guimarães) Moura,
esguia palmeira
Pindarea concinna: o ser
ajustado à poesia
como a palmeira se ajusta ao Oeste de Minas.

E cresce. Viaja.
Vejo,
sob a lua perfumada a cravos de Barbacena,
alojado na Pensão Mondego,
o rapazinho fazer distraídos preparatórios
(para ser como toda gente bacharel formado)
e preliminares poemas
em busca da clave própria.

Advogado não seria,
posto que doutor de beca para foto de colação
— quem o veria requerer despejo?
— alegar falsidade de testamento?
— promover desquite litigioso?

Torcedor do Atlético, fumante de cigarro de palha marca Pachola,
quando não os prefere fazer ele mesmo
com ponderada, mineira, emiliana perícia,
eis Moura — de tantas noites andarilhas nas jasmineiras
ruas peremptas de Belo Horizonte.

O Diário de Minas, lembras-te, poeta?
Duas páginas de Brilhantina Meu Coração e Elixir de Nogueira,
uma página de: Viva o Governo,
outra — doidinha — de modernismo,
tua cegonha figura escrevendo o cabeço das “Sociais”,
nós todos na esperança de um vale do Bola — o Eduardinho gerente…

Com serenidade de irmão que vai ficando tio
e avô, e tem paciência carinhosa com os netos,
assistes ao passar de gerações:
A Revista, Surto, Edifício, Vocação, Tendência, Complemento, Ptyx,
ao morrer (Alberto puxa a fieira) e ao dispersar de amigos,
rocha sensível em meio à evanescência das coisas
de que guardas exata memória no coração de palmeira
solitária comunicante solidária.

Toda palmeira na essência é estranha
em sua exemplaridade:
palmeira que anda, ave pernalta,
palmeira que ensina, mestra de doutrinas
líricas disfarçadas em econômicas,
e o mais que esta conta em voz baixa, sussurro
de viração nas palmas:
amizade, teu doce apelido é Emílio.

Fiel à casa primeira e reimplantando-a
no lote da palavra,
fraco/forte diante da vida que corta e esfarinha,
sereno/desenganado, agulha terna apontando
para o enigma indecifrável do mundo:
poesia, teu nome particular é Emílio.
12/04/1969
1 191
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Diabos de Itabira

Os demônios de Itabira
serão, de fato, diabólicos,
ou meros e pobres-diabos
vagamente melancólicos?

Li que, fazendo diabruras,
aturdem parapsicólogos
como os Capetas antigos
aturdiam sábios teólogos.

De nada vale exorcismo
contra o Demo itabirano?
Ou talvez quem o exorciza
quer ir na onda do engano?

Que Tinhoso hoje se lembra
de dizer crespas bocagens,
se todas elas agora
são as flores da linguagem?

Entra, Canhoto, no embalo,
vai ao teatro, ao cinema.
Vê lá se terias chance
de enrubescer Ipanema.

Fazes correr os sapatos,
por si, à frente dos pés?
Qualquer mágico de esquina
faz isso e inda faz mais dez.

E nem carece ser mágico,
que este truque a gente sabe:
o povo corre e não pega
as tabelas da Sunab.

Meu Pé-de-Pato pernóstico
no vazio do Cauê:
a tuas artes prefiro
as do Saci-Pererê.

Ele apenas assobia,
não quer saber de Latim,
que já saiu do currículo
como a pedra sai do rim.

Estás desatualizado,
se queres obrar o mal.
Ele hoje em dia se usa
é na escala universal.

Quebras pratos: nem ao menos,
como a Vale do Rio Doce,
fazes desertos na mata,
a fogo, a machado, a foice.

Desculpa-me a rima torta,
pois Torto também te chamas.
Mas por que tão mixo surges,
sem esplendores e chamas?

E por que em Itabira
teus cascos foram parar?
Se nas terras do sem-fim
havia tanto lugar?

Se aí onde tu aspiras
a chatear meio mundo,
não tens sorte, meu Carocho,
nem no espaço de um segundo?

Pois a ironia da terra
que deu Tico e deu Fernando
Terceiro e deu Minervino
ri de quem a está gozando.

E goza, por sua vez,
os seiscentos mil Diabos,
sem recorrer a água-benta
nas pias e nos lavabos.

Os diabos de Itabira
— juro — não são diabólicos.
São meros e pobres-diabos
sem assunto, melancólicos.
23/07/1967
1 495
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Diabos de Itabira

Os demônios de Itabira
serão, de fato, diabólicos,
ou meros e pobres-diabos
vagamente melancólicos?

Li que, fazendo diabruras,
aturdem parapsicólogos
como os Capetas antigos
aturdiam sábios teólogos.

De nada vale exorcismo
contra o Demo itabirano?
Ou talvez quem o exorciza
quer ir na onda do engano?

Que Tinhoso hoje se lembra
de dizer crespas bocagens,
se todas elas agora
são as flores da linguagem?

Entra, Canhoto, no embalo,
vai ao teatro, ao cinema.
Vê lá se terias chance
de enrubescer Ipanema.

Fazes correr os sapatos,
por si, à frente dos pés?
Qualquer mágico de esquina
faz isso e inda faz mais dez.

E nem carece ser mágico,
que este truque a gente sabe:
o povo corre e não pega
as tabelas da Sunab.

Meu Pé-de-Pato pernóstico
no vazio do Cauê:
a tuas artes prefiro
as do Saci-Pererê.

Ele apenas assobia,
não quer saber de Latim,
que já saiu do currículo
como a pedra sai do rim.

Estás desatualizado,
se queres obrar o mal.
Ele hoje em dia se usa
é na escala universal.

Quebras pratos: nem ao menos,
como a Vale do Rio Doce,
fazes desertos na mata,
a fogo, a machado, a foice.

Desculpa-me a rima torta,
pois Torto também te chamas.
Mas por que tão mixo surges,
sem esplendores e chamas?

E por que em Itabira
teus cascos foram parar?
Se nas terras do sem-fim
havia tanto lugar?

Se aí onde tu aspiras
a chatear meio mundo,
não tens sorte, meu Carocho,
nem no espaço de um segundo?

Pois a ironia da terra
que deu Tico e deu Fernando
Terceiro e deu Minervino
ri de quem a está gozando.

E goza, por sua vez,
os seiscentos mil Diabos,
sem recorrer a água-benta
nas pias e nos lavabos.

Os diabos de Itabira
— juro — não são diabólicos.
São meros e pobres-diabos
sem assunto, melancólicos.
23/07/1967
1 495
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A. B. C. Manuelino

Alaúza, minha gente!
Festivo repique o sino
em honra deste menino.

Bem nascido no Recife
lá no bairro do Capunga
e de tendência malunga.

Companheiro de nascença
ficou sendo da poesia,
luz e sol de cada dia.

De nós todos companheiro,
por isso que no seu verso
há um carinho submerso.

Entre a Rua da União
e a união pelo canto,
distribui paz, acalanto.

Faz muito tempo que veio
ao mundo? Está bem lampeiro,
mistura de sábio e arteiro.

Gazal compõe e balada,
mas, se quer ser concretista,
concretos fujam da pista.

Hertziana magia, fluida,
circula em cada palavra,
ouro do campo em que lavra.

Inimigos, não: amigos
são quantos, na trilha amarga
da angústia, encontram Pasárgada.

Já foi doente, mas soube
vencer o mal que há no mal.
É tudo lição ideal.

K., solitário de Kafka,
entraria no castelo
ao ritmo do “Belo Belo”.

Laura, Natércia, outros mitos
o poeta descobre que há
no sabonete Araxá.

Mas percebe ao mesmo tempo
a miséria dos destinos
dos carvoeirinhos meninos.

Na sua lira moderna
a dor de cada criatura
colhe um eco de ternura.

O recado que nos manda
é um recado experiente
de vida e de amor presente.

Para chegar à pureza
de siderais avenidas,
o poeta viveu mil vidas.

Quem disse que é sem família
no seu quarto à beira-oceano?
Seu mano: o gênero humano.

Rosas, rosas e mais rosas
de Barbacena ou Caymmi
em ramalhete sublime

sejam portanto ofertadas
àquele que no seu horto,
mesmo à visão do boi morto,

tem um jeito de existir
tão natural como planta
que em silêncio se alevanta.

Uma planta que dá sombra
e dá música — segredo
assim em tom de brinquedo.

Viva, viva! aos oitent’anos,
quem que pode com o velhinho
amador de chope e vinho?

Xis do problema: este viço
vem-lhe d’alma, fortaleza
de bondade sempre acesa.

Ypissilão foi-se embora
do nosso atual dicionário.
Que importa? Canhestro, vário,

zangarreante cronista,
saúdo Manuel Bandeira,
estrela da vida inteira.
17/04/1966
1 019